O que acontecia entre mamãe e sua melhor amiga
Lucía vinha à nossa casa desde antes de eu ter uso da razão. As terças e as quintas eram dela por direito, embora ela também aparecesse aos sábados, nos dias de chuva e sempre que mamãe a chamava com um “preciso que você venha”, ao qual Lucía sempre respondia sem perguntar. Trazia vinho ou bolo, às vezes os dois, e sua risada, que era o tipo de risada que a gente escuta e sorri sem saber muito bem por quê.
Ela era a melhor amiga de mamãe. As duas se conheciam desde os vinte anos, antes dos casamentos, antes dos filhos, antes de todo o resto. Aquele tipo de amizade que já não precisa se justificar nem se explicar para ninguém.
Eu tinha quinze anos quando aconteceram as três coisas que vou contar. Vivi tudo como se fizesse parte da paisagem normal da nossa casa. Só agora, com vinte e dois, entendo que não eram tão ordinárias quanto me pareceram então.
***
Numa tarde de outono, me mandaram para casa mais cedo porque a professora de química faltou. Voltei andando sozinha, com os fones de ouvido, sem pressa, olhando as folhas secas nas calçadas. Quando abri a porta, fui recebida pelo silêncio e, misturado a ele, por um cheiro que reconheci na hora: o óleo de massagem com aroma de amêndoas que mamãe guardava na gaveta do banheiro. Ela usava para as contraturas. Sempre dizia que era o único que funcionava de verdade.
Do corredor ouvi risadas. Suaves, baixas, as risadas das duas quando estavam sozinhas e de bom humor. Fui em direção à sala e notei que a porta do quarto dos meus pais estava entreaberta, como sempre que não havia mais ninguém em casa. Espiei sem pensar, por costume.
Lucía estava deitada de bruços na cama grande, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre o travesseiro. Usava o sutiã preto de renda que eu já tinha visto mil vezes, desabotoado, com as costas completamente nuas. A pele dela brilhava com o óleo. Mamãe estava sentada ao lado dela, sobre o colchão, com as mãos abertas sobre os ombros de Lucía, trabalhando em silêncio e com calma.
— Ai, aí, Valeria… bem aí — murmurou Lucía, com a voz grossa de quem está meio dormindo ou muito relaxada.
Mamãe se inclinou um pouco para a frente e os cachos caíram sobre o rosto dela. Ela os afastou com o antebraço sem parar de trabalhar. A blusa que usava estava desabotoada nos primeiros botões e, quando se inclinou, o decote se abriu um pouco mais, deixando à mostra a borda do sutiã vermelho que estava por baixo.
As duas me viram ao mesmo tempo.
— Cami! — exclamou mamãe, sem se mexer, sem se cobrir. Com aquela cara de quem é surpreendido fazendo algo completamente normal —. Já voltou?
Lucía levantou a cabeça só um pouco. Tinha as bochechas coradas e o cabelo grudado nas têmporas por causa do óleo.
— Oi, linda. Saída mais cedo?
— A professora de química faltou — eu disse, ainda com a mochila pendurada em um ombro —. O que vocês estão fazendo?
— Lucía estava com as costas toda travadas — respondeu mamãe, voltando a deslizar as mãos pela pele oleosa da amiga —. Estou fazendo uma massagem. Vai se trocar e a gente toma um lanche juntas, tá?
Fui para o meu quarto. Não me pareceu estranho. Já tinha visto as duas mil vezes de sutiã, de toalha, dividindo o banheiro depois da piscina no verão. Amigas de uma vida toda têm esse tipo de intimidade que não precisa de explicação nem de desculpa.
Tranquei a porta porque tinha que terminar um trabalho de literatura, coloquei os fones com a música no máximo e me joguei de bruços na cama, com a pasta aberta. Daquele momento até me chamarem para o lanche, passaram quase duas horas em que eu não ouvi absolutamente nada do que aconteceu do outro lado do corredor.
Hoje, com vinte e dois anos, com as conversas de whatsapp que vi sem querer no celular de mamãe no verão passado e com o que aprendi ouvindo as duas conversarem no pátio nas noites em que Lucía vem visitar e dorme aqui, consigo reconstruir cada movimento daquele quarto como se tivesse sido filmado.
Mal mamãe ouviu a porta do meu quarto se fechar e a música que eu coloquei alta para me concentrar, ela se inclinou outra vez sobre Lucía. Mas dessa vez as mãos não trabalharam nenhum nó. Os polegares desceram pela coluna, se abriram sobre os quadris e entraram por baixo do corpo, buscando aqueles seios grandes que transbordavam do sutiã desabotoado contra o colchão.
— Fechou? — murmurou Lucía, sem erguer o rosto do travesseiro.
— Com música no último volume. Não ouve nem canhão — respondeu mamãe, e pegou os mamilos dela por baixo, apertando-os entre o polegar e o indicador até ouvi-la soltar um gemido abafado contra a fronha.
— Deus, Valeria… faz duas semanas que eu não aguento isso — ofegou Lucía, girando o quadril contra a cama para buscar atrito —. O dia inteiro pensando na tua boca.
Mamãe riu na nuca dela, aquela risada baixa que eu ouvia mil vezes sem entender do que elas estavam rindo. Mordeu o trapézio, passou a língua pelo ombro oleoso, lambeu a pele salgada entre as escápulas. Depois desceu as mãos pela cintura até o elástico da calcinha e a puxou de uma vez até os joelhos.
— Vira. Quero ver tua cara quando você gozar.
Lucía rolou de costas. O sutiã desabotoado pendia dos braços e os seios se espalharam para os lados. Ela terminou de tirá-lo pelos cotovelos e ficou completamente nua, com o cabelo colado na testa e o sexo já brilhando de umidade entre as coxas abertas.
Mamãe se ajoelhou entre as pernas dela e encarou o sexo molhado por um segundo longo, sem pressa, antes de baixar a blusa pelos ombros. O sutiã vermelho que eu tinha visto de relance quando cheguei em casa ficou à vista, e depois também no chão. Lucía esticou as mãos para cima, agarrou os seios dela, beliscou os mamilos grandes.
— Chupa, vai. Chupa meus peitos primeiro.
Mamãe desceu pelo pescoço dela, mordeu a clavícula, mamou um mamilo depois do outro com a boca bem aberta, deixando-os brilhando de saliva. Lucía afundava a cabeça dela contra o peito com as duas mãos, gemendo cada vez mais alto, sem medo, porque sabia que do outro lado do corredor eu não ouvia nada.
Quando mamãe desceu pelo ventre e enfiou a boca no sexo dela, Lucía arqueou o corpo inteiro. Mamãe abriu os lábios molhados dela com dois dedos e passou a língua inteira de baixo para cima, parando no clitóris para chupá-lo devagar, com os lábios fechados ao redor, brincando com a ponta da língua contra o capuz. Lucía cravava as coxas nas laterais da cabeça dela e puxava seu cabelo.
— Não para… por favor, não para… assim, assim…
Mamãe continuou. Chupou-a com a habilidade de vinte anos conhecendo aquele sexo de memória, alternando a ponta da língua sobre o clitóris com dois dedos que entravam e saíam encharcados de lubrificação, curvando-se lá dentro, procurando aquele ponto que Lucía tinha marcado como um botão. O colchão rangia a cada investida, a cabeceira batia de leve contra a parede, e Lucía mordia o dorso da mão para não gritar.
Ela gozou com a boca de mamãe colada ao sexo, tremendo inteira, com as coxas se fechando ao redor da cabeça da amiga de toda a vida. Mamãe não a soltou. Continuou lambendo devagar, engolindo o líquido da gozada, acalmando-a com a língua até Lucía pedir que parasse porque não aguentava mais.
Então mamãe subiu pelo corpo oleoso de Lucía, tirou a calça e a calcinha encharcada, e sentou no rosto dela sem pedir permissão. Lucía agarrou a bunda dela com as duas mãos, afastou-a, e enfiou a língua no sexo dela com a fome de duas semanas, mamando-a por baixo enquanto mamãe se apoiava na cabeceira e apertava os próprios seios, gemendo aqueles sons graves que eu tinha ouvido de relance durante a falsa massagem.
— Chupa mais forte, Luci, assim… assim que eu gosto… vou gozar na tua cara…
Ela gozou no rosto de Lucía duas vezes seguidas. A primeira rápida, sufocada contra a palma da própria mão. A segunda longa, com um espasmo que ficou nas pernas dela por meio minuto inteiro e arrancou de Lucía a saliva misturada com a gozada nos cantos da boca.
Depois ficaram abraçadas, nuas e oleosas entre os lençóis amassados, com as pernas enroscadas e as bocas ainda se procurando. Riram baixinho. A mesma risada cúmplice que eu ouvia ao longe sem entender. Tomaram banho juntas no banheiro dos meus pais — mamãe tinha o costume de deixar Lucía entrar no banheiro do casal, outro detalhe ao qual eu nunca dei atenção —, se vestiram, trocaram as fronhas, arejaram o quarto abrindo a janela para o pátio.
Quando desci do meu quarto com a pasta debaixo do braço, tudo cheirava a sabão e óleo de amêndoas, e as duas estavam na cozinha cortando bolo como se nada tivesse acontecido.
Nessa tarde, as três tomamos lanche na cozinha. Biscoitos e bolo, infusão para elas e mate para mim. Tudo foi completamente normal. Fui fazer a tarefa e elas continuaram conversando em voz baixa, como sempre faziam quando estavam juntas e a casa era delas.
Do meu quarto, entre um parágrafo e outro de história, ouvi as risadas delas uma última vez. Aquela risada baixa, cúmplice. Fechei o caderno e continuei estudando.
***
A segunda situação foi numa sexta-feira de julho. Papai estava em uma viagem de trabalho de três dias e minha irmã Daniela tinha ficado dormindo na casa de uma amiga da escola. A casa era só de mamãe e, quando a casa era de mamãe, Lucía vinha.
Fiquei no filme que colocaram, jogada no sofá grande com a manta de fleece até o queixo. Mas em quarenta minutos eu já estava quase dormindo. Era uma daquelas histórias românticas lentas que fascinam as duas e que em mim provocam um sono difícil de combater.
— Vou dormir — anunciei, bocejando.
Mamãe me beijou na testa. Lucía bagunçou meu cabelo com aquela familiaridade de sempre.
— Descansa, preciosa.
Subi, coloquei o pijama e dormi quase sem perceber.
Ouvi do teto que lá embaixo a música do filme continuava, que os diálogos lentos passavam, que mamãe riu uma vez de algo que Lucía lhe disse em voz baixa. Não percebi quando o som do filme se apagou. Eu estava profundamente dormindo.
Com o que sei agora, com as noites em que as ouvi conversar no pátio pensando que eu já tinha dormido, com as coisas que duas mulheres que passam quarenta anos se querendo dessa forma dizem uma para a outra, consigo reconstruir aquela noite sem muito esforço.
Assim que deixaram de ouvir meus passos no andar de cima, mamãe desligou o som do filme no controle remoto sem dizer nada. Lucía olhou para ela do outro lado do sofá. Mamãe baixou a manta de fleece até o chão e fez um gesto com a mão para que ela se aproximasse.
Lucía se jogou sobre ela. Estava esperando desde que eu disse que ia dormir. Montou as pernas ao lado dos quadris dela e segurou o rosto de mamãe com as duas mãos.
— Quietinha — murmurou mamãe contra os lábios dela.
— Ela dormiu como pedra. Você conhece — respondeu Lucía, e colou a boca na boca dela.
Beijaram-se longamente, com língua, com aquela fome acumulada de duas amigas que só podem fazer isso quando a casa é inteiramente delas. Mamãe enfiou as mãos por baixo do suéter dela, abriu o sutiã com um golpe, agarrou os seios por baixo da roupa enquanto Lucía se movia sentada em cima dela, esfregando o sexo molhado contra o púbis de mamãe através da roupa.
Despiraram-se rápido, desajeitadas, sem vontade de perder um segundo sequer. A calça de mamãe voou para o chão, a camiseta de algodão fino ficou pendurada no cotovelo, pela metade do braço. Lucía ficou nua da cintura para cima, com a saia arregaçada até a cintura e sem calcinha.
— Chupa meus peitos primeiro — pediu Lucía, empurrando-os contra o rosto dela —. Forte, como você gosta.
Mamãe mamou os mamilos dela um atrás do outro, demorado e com voracidade, enquanto Lucía se movia sentada sobre ela com o sexo encharcado apoiado contra o púbis de mamãe. Ela se esfregava com a boca aberta, gemendo baixinho, buscando atrito contra o osso, com o cabelo caindo no rosto.
— Assim você não me alcança — ofegou Lucía depois de um tempo —. Eu preciso da tua língua agora.
Ela desceu para o chão, se ajeitou de joelhos entre as pernas de mamãe e enfiou o rosto no sexo dela com toda a naturalidade do mundo. Passou a língua inteira várias vezes, abriu os lábios dela com os dedos, chupou o clitóris com os lábios fechados ao redor enquanto lhe enfiava dois dedos pela frente e um umedecido de saliva pelo cu, movendo-os no mesmo ritmo.
— Deus, Luci… assim… não para…
Mamãe arqueou as costas contra o sofá, segurou o cabelo com as duas mãos e gozou mordendo o antebraço para não me acordar. As coxas dela se sacudiram ao redor da cabeça de Lucía. Quando terminou de tremer, subiu as pernas para o encosto do sofá e deixou-se lamber mais um pouco, tremendo, enquanto Lucía continuava chupando devagar e lhe acariciava os seios com a mão livre.
Depois trocaram. Lucía se deitou de costas no sofá, com as pernas abertas e os pés apoiados no encosto, e mamãe se acomodou entre as coxas dela. Mamou seu sexo com aquela boca que já conhecia perfeitamente, chupando o clitóris e alternando com lambidas longas do cu até em cima, até fazê-la gozar duas vezes seguidas. A segunda vez com dois dedos dentro, curvando-se para cima e o polegar apertando o clitóris, e Lucía teve que tampar a boca com as duas mãos para abafar o grito.
Quando se acalmaram, ficaram jogadas no sofá, nuas, rindo como as duas riem quando a casa é delas. Vestiram os sutiãs de novo, mais por costume do que por pudor. Se cobriram com a manta de fleece. Se ajeitaram de conchinha, mamãe atrás de Lucía, com o braço em volta da cintura e a palma aberta sobre o ventre. Aquele ventre que eu veria uma hora depois, quando descesse para o banheiro achando que elas só estavam dormindo abraçadas.
Dormiram assim.
Acordei às três da madrugada com vontade de ir ao banheiro. A casa estava em silêncio, mas do corredor entrava uma luz fraca. Desci descalça, tentando não fazer barulho, e espreitei da escada para ver se alguém ainda estava acordado.
A televisão continuava ligada, com a tela no menu inicial do streaming. No sofá grande, cobertas pela mesma manta de fleece que eu tinha deixado ao subir para dormir, as duas dormiam.
Estavam abraçadas.
Lucía de lado, de frente para o encosto do sofá. Mamãe atrás dela, em conchinha perfeita, com o braço envolvendo a cintura. A cabeça de mamãe descansava contra a nuca de Lucía e os cabelos se misturavam sobre o travesseiro. A manta tinha escorregado do lado de Lucía e deixava à mostra a alça do sutiã que ela ainda usava.
A mão de mamãe estava aberta sobre o ventre da amiga.
Plana, tranquila, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo para uma mão.
Fiquei olhando as duas por alguns segundos. Sorri baixinho. Fazia frio naquela noite e elas se queriam como irmãs. Era completamente lógico que tivessem se encolhido juntas para dormir. Eu mesma já tinha dormido assim com mamãe quando era menor e tinha medo de tempestade.
Subi para o banheiro, voltei para a minha cama e não pensei mais nisso.
Hoje penso nessa mão. No quanto ela estava tranquila, em quantas vezes devem ter dormido assim sem que eu percebesse. Numas noites em que papai viajava e Daniela dormia em outro lugar e a casa era inteiramente delas duas.
Me pergunto se elas percebiam o que faziam. Me pergunto se preferiam não pensar nisso.
***
A terceira foi a que mais tempo ficou rondando na minha cabeça, embora na hora eu também não tenha entendido melhor do que as outras.
Voltei para casa mais cedo outra vez, pela mesma professora. Desta vez, já da rua ouvi a música: algo lento e suave, o que mamãe colocava quando queria se desligar do dia.
Abri a porta e espreitei a sala.
Mamãe estava estendida no sofá, com as costas apoiadas no braço, as pernas esticadas sobre as almofadas. Usava uma camiseta de algodão fino e shorts curtos de verão. Os pés descalços apoiados no colo de Lucía.
Lucía estava sentada na ponta do sofá, com as pernas cruzadas e levemente inclinada para a frente. Tinha o pé direito de mamãe sustentado entre as duas mãos. Sobre a mesinha lateral, um frasquinho de óleo aberto e um pano dobrado.
Os polegares de Lucía se moviam no arco do pé. Devagar. Com uma força calculada, que não era nem forte demais nem suave demais, mas exatamente a certa, como a de alguém que conhece bem aquele corpo e sabe onde pressionar. Cada passada ia do calcanhar até a base dos dedos, que Lucía separava um por um com cuidado antes de juntar de novo.
As unhas de mamãe estavam pintadas de vermelho. Um vermelho vivo, intenso, que refletia a luz da tarde entrando pela janela.
— Deus, Lucía… aí — murmurou mamãe, com os olhos semicerrados e a voz mais grave do que eu costumava ouvir em outras situações.
Lucía não respondeu. Sorriu. Um sorriso lento, com os lábios levemente entreabertos e os olhos baixos, concentrados no que as mãos dela faziam. Depois levantou um pouco o olhar para o pé que segurava e continuou, como se tivesse olhado para decidir o que fazer em seguida.
As mãos dela subiram pelo peito do pé, contornaram o tornozelo com movimentos circulares, desceram de novo para o arco. O óleo brilhava sob a luz. Os dedos de mamãe se flexionavam levemente toda vez que a pressão chegava a um ponto exato.
Mamãe soltou um som que não era só um suspiro. Algo mais longo, mais grave, mais fundo.
— Continua assim — disse, quase sem voz —. Por favor.
Lucía mordeu o lábio inferior e continuou.
Foi nesse momento que mamãe me viu.
— Cami! — Ela abriu os olhos sem se assustar, sem tirar os pés do colo de Lucía —. Já voltou, amor?
Lucía também ergueu o olhar. O sorriso não desapareceu.
— Oi, preciosa. Sua mãe passou o dia comprando coisas com essas sandálias novas. Estou aliviando os pés dela para amanhã conseguir andar direito.
A explicação era perfeita. Mamãe sempre reclamava dos pés depois de usar sapatos novos ou ficar muito tempo em pé. Não havia nada a questionar.
— Quer que eu prepare alguma coisa para o lanche? — ofereci, largando a mochila no sofá ao lado —. Acho que tem alfajor.
— Sim, por favor — respondeu mamãe, fechando os olhos outra vez quando as mãos de Lucía retomaram o ritmo —. E um copo de água gelada, se puder, estou morrendo de sede.
Fui para a cozinha. Coloquei a água para ferver, tirei os alfajores do armário, cortei o limão, escolhi as xícaras com calma. De cima continuava chegando a música lenta e, entre uma canção e outra, o som suave da voz de mamãe.
Hoje sei o que aconteceu lá embaixo enquanto eu preparava a bandeja.
Assim que ouviram eu abrir a geladeira lá em cima, Lucía soltou o pé de mamãe e passou a mão pela panturrilha dela. Subiu pela parte interna da coxa, devagar, com a palma bem aberta contra a pele. Chegou à borda dos shorts curtos de verão e enfiou a mão por baixo sem mudar o ritmo.
— Tira — pediu, com a voz baixa, mas clara —. Rápido, porque a gente está lá em cima.
Mamãe se levantou do sofá, tirou os shorts e a calcinha num só movimento e os deixou cair no chão, ao lado das sandálias novas. Deitou-se de novo como estava, com as costas apoiadas no braço, mas agora com as pernas abertas e a camiseta de algodão fino erguida até debaixo dos seios.
Lucía se acomodou entre as coxas dela. Passou a língua pelo ventre, cravou-a no umbigo, desceu pelo púbis e comeu o sexo dela com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo. Mamãe agarrou o cabelo dela com as duas mãos, manteve a cabeça no lugar onde precisava e começou a se mover contra o rosto dela sem parar de escutar os ruídos que eu fazia lá em cima.
— Só com a língua… não me faz terminar rápido, eu quero que dure — sussurrou mamãe.
Lucía obedeceu. Lambiu o clitóris com a ponta da língua por um bom tempo, sem pressa, arrancando de mamãe aqueles gemidos graves que eu tinha ouvido minutos antes sem entendê-los por completo. Enfiou um dedo, depois dois, depois três, curvando-os lá dentro devagar, enquanto continuava lambendo. Mamãe apertava os seios por baixo da camiseta, beliscava os mamilos, murmurava o nome de Lucía cada vez mais abafado.
— Chupa meu clitóris, vai… forte…
Quando ouviram o rangido da porta do micro-ondas — eu estava aquecendo a água — Lucía acelerou. Fechou os lábios ao redor do clitóris e o chupou com firmeza, enfiando os dedos com força, procurando o ponto exato que vinha preparando durante toda a tarde com a desculpa da massagem. Mamãe gozou mordendo o lábio, empurrando o quadril contra o rosto dela, tentando não gemer alto demais. Durou bastante. Continuou tremendo nas pernas enquanto Lucía a acalmava com a língua, lambendo devagar entre as coxas até fazê-la baixar.
Elas se levantaram rápido. Mamãe vestiu os shorts, passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a camiseta. Lucía limpou a boca com o dorso da mão, enxaguou-se com o copo de água que estava na mesinha, pegou o frasco de óleo e o pano dobrado como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sentou-se outra vez de pernas cruzadas na ponta do sofá e esperou.
Quando desci com a bandeja, mamãe tinha os pés outra vez apoiados no colo dela e Lucía segurava o tornozelo direito com a perfeita calma de quem só está aliviando umas contraturas.
Preparei o lanche, desci, e nós três ficamos um tempo juntas. Biscoitos, alfajores, chá. Lucía falou de uma série que estava assistindo. Mamãe fez perguntas. Eu comi olhando o celular, sem prestar muita atenção.
Absolutamente normal.
Hoje essa cena me parece impossível de lembrar da mesma forma.
Porque eu também sei o que produz uma massagem nos pés com essa classe de atenção sustentada. O calor que começa na sola e sobe devagar pelas panturrilhas, pelas coxas, até se instalar em outro lugar. Quando se está predisposta, essa massagem não fica nos pés. Nunca fica só nos pés.
A forma como Lucía segurava o pé de mamãe era atenciosa demais. Devagar demais. Havia algo naquele sorriso que ela não largou em nenhum momento, na maneira como mamãe se entregava àquilo sem o menor pudor, que não combinava apenas com a dinâmica de duas amigas que se mimam depois de um dia longo.
Ou talvez combinasse, sim. Talvez o carinho de quarenta anos tenha essa textura quando é verdadeiro, e a linha entre o afeto profundo e o desejo se torne difusa sem que nenhuma das duas tenha decidido isso, sem que nenhuma nomeie nem reconheça.
Agora sei que elas já tinham nomeado isso havia muito tempo. Que já tinham decidido havia muito mais. Que só eu, a menina que entrava e saía de casa com a mochila pendurada no ombro, era a que não via.
***
O que eu sei é que as três situações terminaram do mesmo jeito: com as duas rindo baixinho de algo que eu não ouvi, como se compartilhassem um idioma próprio ao qual ninguém mais tinha acesso e que se fechava assim que alguém mais entrava no quarto.
Lucía se mudou há três anos para outra cidade por causa do trabalho. Ainda é a melhor amiga de mamãe. As duas se ligam aos domingos sem falta e se visitam duas ou três vezes por ano. Quando se encontram na porta de casa, o abraço que trocam não tem pressa. Sempre me pareceu um abraço diferente do que mamãe dá nas outras amigas, embora eu não saiba dizer exatamente por quê.
Eu as observo e penso nessas três tardes. Nas mãos de Lucía sobre as costas de mamãe. Na conchinha no sofá às três da madrugada, aquela mão aberta e tranquila sobre o ventre da outra. No pé sustentado com uma delicadeza que não era só funcional, e naquele sorriso que Lucía manteve o tempo inteiro, lento e cúmplice.
Sei que aconteceu. Não digo. Não cabe a mim dizer. Continuo pondo a mesa quando Lucía vem nos visitar, continuo cedendo meu quarto para ela dormir quando papai está viajando, continuo descendo de manhã e encontrando as duas na cozinha com duas xícaras e a mesma risada baixa que as acompanha desde antes de eu nascer.
Mas também não consigo mais lembrar disso como se não significasse nada.