O que vi na tela me entregou diante dela
Nós estávamos juntas há pouco mais de um ano, e eu ainda não tinha contado a Camila tudo o que queria. Não porque não confiasse nela, mas porque eu mesma não sabia dar nome àquilo. Havia coisas que cruzavam minha cabeça quando estávamos na cama, impulsos que vinham de dentro e que eu esmagava antes que fossem longe demais. Eu me convencia de que era estranho querer aquilo. Que ela não entenderia. Que alguma coisa mudaria entre nós, e o que tínhamos era bom demais para arriscar.
Então eu guardava. Deixava aquilo existir só na minha cabeça, naquele espaço privado onde as coisas não têm consequências.
Aquela noite de outubro, as duas estávamos no sofá do apartamento dela, com a manta até a cintura e uma taça de vinho pela metade na mesinha. Tínhamos começado a terceira temporada de uma série que vinha nos prendendo havia semanas, aquele tipo de drama escuro e tenso que te obriga a ficar acordada até mais tarde do que planejou. Camila estava com a cabeça apoiada no meu ombro e eu brincava com o cabelo dela sem pensar em nada específico. Lá fora chovia. Era uma daquelas noites perfeitas para não sair de onde você está.
Então veio a cena.
Não era o centro do episódio, nem mesmo o momento mais dramático. Era um instante de dez segundos que os roteiristas tinham colocado ali quase de passagem. O personagem masculino, sem aviso, agarrava sua professora pelo pescoço com uma mão e atirava o rosto dela contra a parede. Não com violência cega, mas com uma calma que era pior do que qualquer brutalidade. Ele a mantinha assim, sem apertar demais, deixando-a perfeitamente consciente de que poderia apertar se quisesse. A professora não resistia. Pelo contrário, deixava cair o livro que tinha na mão.
Alguma coisa em mim se retesou.
Não foi um pensamento consciente. Foi mais físico do que isso: uma contração no estômago, o ritmo da respiração mudando de uma vez sem que eu mandasse. Fiquei muito quieta, olhando a tela, esperando a cena passar e me libertar do que eu estava sentindo. Mas a câmera a sustentava. E eu não conseguia parar de olhar.
Eu quero isso. Eu quero exatamente isso.
A ideia foi tão clara e tão incômoda que me mexi no sofá, como se o movimento pudesse dispersá-la. Camila levantou a cabeça por um momento, me olhou, não disse nada, e voltou a apoiá-la no meu ombro. Eu respirei devagar. A série continuou. Os personagens falavam de coisas que eu já não estava processando.
Eu continuava pensando na parede.
E então senti a mão dela.
Não sobre meu joelho, onde ela costumava pôr quando estávamos vendo algo juntas. No meu coxa, mais acima, com uma pressão diferente de tudo o que tinha sido naquela noite até então. Não era carinho. Era pergunta. Era “estou entendendo direito o que eu acabei de ver?”. Virei para ela devagar e soube na mesma hora: Camila me olhava com aquela expressão que ela tinha quando já tinha chegado a uma conclusão antes de eu começar a pensar.
Abri a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, uma brincadeira, uma saída lateral. Não cheguei a fazê-lo.
Ela me beijou.
Ou melhor, tomou minha boca, porque foi exatamente isso: tomá-la, com a mão subindo pela minha coxa enquanto a língua dela encontrava a minha. Não era o tipo de beijo que trocávamos normalmente, aquele beijo confortável de casal que já se conhece bem. Era mais direto. Mais afirmativo. Como se as duas tivéssemos empurrado aquilo para depois tempo demais sem saber que a outra também queria chegar ali.
A mão dela continuou subindo até entrar sob a cintura da calça, e quando me roçou por cima da calcinha eu já estava em chamas. A tensão de antes, a cena da série, a vergonha de ter sido pega desejando algo tão bruto, tudo se acumulou entre minhas pernas como uma descarga. Camila percebeu na hora. Ela separou só um pouco a boca da minha e sorriu com um canto dos lábios, como se tivesse encontrado exatamente o que procurava.
—Isso te deixou assim? —murmurou, colada na minha boca.
Não respondi. Não porque eu não quisesse, mas porque naquele momento a única coisa que eu conseguia fazer era me agarrar ao ombro dela com força e deixar que ela continuasse me tocando. Ela passou dois dedos por cima da minha calcinha, devagar, deslizando pelo centro úmido até me fazer tremer. Depois enfiou a mão por dentro, sem rodeios, e afastou o tecido o suficiente para afundar um dedo em mim com uma precisão que me fez gemer de imediato.
Não era suave. Não era cuidadosa. Era exata.
Senti como ela me abria, como afundava o dedo até o fundo e depois o tirava só um pouco para entrar de novo, insistente, empurrando contra aquele ponto que me fez arquear as costas. Ergui uma mão para tapar a boca e ela a capturou no ar.
—Não se tape —disse, com a voz baixa e firme—. Quero te ouvir.
O dedo entrou outra vez, depois outro, dois ao mesmo tempo, e o som úmido do meu próprio corpo encheu o sofá com uma obscenidade que me fez apertar as coxas em volta da mão dela. Camila não acelerou; pelo contrário, baixou o ritmo com uma crueldade paciente, esticando cada segundo até torná-lo insuportável. Me mantinha aberta com a palma e me fodia com os dedos, fundo, constante, me olhando sem piscar enquanto eu começava a perder a capacidade de pensar.
—Por favor —disse. Não era exatamente um pedido. Mas também não era outra coisa.
Ela não respondeu com palavras. Enterrou mais os dedos, girando-os um pouco por dentro, procurando o ângulo que me deixou sem ar. Eu ofeguei, as costas encostadas no encosto do sofá, com a pelve se erguendo sozinha para buscar mais. Camila me segurou ali com a outra mão no quadril, me imobilizando como se quisesse deixar claro que, naquele momento, mandava ela, e que eu ia ficar quieta enquanto me desfazia entre os dedos dela.
Então os tirou.
Antes que eu pudesse protestar, levou-os à boca e os colocou entre meus lábios, empurrando-os até o fundo com uma pressão que me obrigou a me abrir ainda mais. O gosto de mim mesma, misturado com a saliva e o calor da pele dela, me atingiu na língua de um jeito que me deixou tonta. Chupei os dedos, obediente, sentindo a mandíbula tremer enquanto ela me sustentava o olhar de cima, muito quieta, muito dona da situação.
—Olha só você —murmurou—. Toda encharcada por causa de uma cena de merda.
O impacto desse comentário me atravessou como um chicote. Fechei a boca sobre os dedos dela com mais força, chupando sem pudor, e ela soltou uma risada curta, satisfeita. Depois retirou a mão e voltou a descer imediatamente entre minhas pernas, desta vez mais fundo, com uma segurança brutal que me arrancou um gemido longo e rouco.
Ela me beijou de novo, mas não como antes. Agora me beijava enquanto me fodida com a mão, enquanto eu me contorcia sob ela, enquanto minha calcinha se deslocava para o lado e a palma dela se enchia de mim. O atrito da mão dela contra meu clitóris me fez ver estrelas; toda vez que pressionava ali, bem onde mais doía de prazer, um tremor me percorria inteira. A série continuava ao fundo, as vozes dos atores subiam e desciam sem importar nada, e o sofá rangia sob nossos corpos sempre que eu me arqueava.
Camila me olhava com uma concentração feroz.
—Foi assim que você queria? —perguntou, apertando os dedos dentro de mim até me fazer soltar um som abafado.
Assenti, excitada demais para responder.
—Quero te ouvir dizer.
—Sim —disse enfim, com a voz quebrada—. Sim, assim.
Ela sorriu como se isso bastasse para deixá-la ainda mais perversa. Cuspiu na minha cara.
Ela nunca tinha feito aquilo. Eu não esperava e não tinha pedido, mas quando a saliva atingiu minha bochecha, alguma coisa se fechou na minha cabeça e outra completamente diferente se abriu ao mesmo tempo. Olhei para ela. Ela sustentou meu olhar sem piscar, sem se desculpar, sem me perguntar nada. Não era um gesto agressivo de quem quer machucar. Era outra coisa, que levei um segundo para identificar: era ela me fazendo saber que podia, que eu estava deixando, que era exatamente disso que se tratava aquela noite.
Ela cuspiu de novo. Desta vez nos meus lábios.
Instintivamente ergui a mão para me limpar. Ela segurou meu pulso e o afastou.
—Não —disse. Só isso.
Os dedos não tinham parado. Eu não conseguia mais pensar com clareza. Ela me obrigou a abrir a boca e enfiou dois dedos molhados com minha própria umidade entre meus lábios, não para me beijar, mas para me sujar, para me marcar. Chupei-os com fome, sentindo o contraste entre a aspereza da ordem dela e a intimidade absoluta de estar assim, largada no sofá, feita um desastre por ela enquanto me olhava como se já soubesse como tudo terminaria.
Camila me conhece bem. Bem demais. Sabe quando estou perto e sabe quando ainda pode esticar as coisas. Aquela noite ela escolheu esticar. Me levou até a beira duas vezes seguidas e duas vezes me deixou ali, suspensa, sem terminar, ofegando no sofá enquanto a série seguia na televisão sem que nenhuma das duas prestasse a mínima atenção. Toda vez que eu achava que ela ia me deixar gozar, retirava a mão por um segundo, me acariciava quase nada e recomeçava com uma lentidão que era puro castigo.
Na terceira vez ela agarrou meu cabelo e puxou para trás, expondo meu pescoço. A combinação disso com o que ela fazia com a mão foi demais. Me agarrei ao braço dela com as duas mãos, cravei as unhas no antebraço dela e gozei. Longo, intenso, com as costas arqueadas e os pés empurrando contra o sofá, e ela segurando meu cabelo o tempo todo como se precisasse me ancorar. Senti o orgasmo subir do ventre, me quebrando em ondas e me deixando sem força nas pernas, com um tremor brutal que me fez apertar os dentes até doer a mandíbula.
Demorei um momento para recuperar algo parecido com um ritmo normal de respiração.
Camila soltou meu cabelo devagar e se deitou ao meu lado.
—Há quanto tempo você queria isso? —perguntou.
Pensei em desviar da pergunta. Decidi que já não fazia mais sentido fazer isso.
—Há muito tempo —disse.
Ela assentiu bem devagar, como se sempre tivesse sabido e estivesse só esperando eu alcançar.
***
Mas uma vez nunca foi suficiente entre nós, e naquela noite menos do que em qualquer outra.
Camila me colocou de bruços com uma mão na minha lombar, um gesto que era mais ordem do que carinho. Eu me ajeitei sem que ela precisasse pedir duas vezes, porque já entendia como o resto da noite ia funcionar. Ela tinha suas próprias regras quando ficava assim, e eu tinha passado mais de um ano sem saber sequer que elas existiam.
A boca dela chegou primeiro às minhas costas, seguiu pela cintura, foi descendo com uma lentidão que me fazia retesar cada músculo em antecipação. Ela não ia a lugar nenhum com pressa. Foi me beijando a coluna, mordendo de leve a pele das minhas costelas, enterrando a língua nas dobras da minha carne com uma atenção que me fazia me contorcer sobre o sofá. Eu podia sentir a respiração quente dela colada na minha bunda enquanto ela me abria as pernas com uma mão, me ajeitando sem pedir permissão, e o simples roçar do alento dela ali embaixo me fez soltar um gemido abafado.
Primeiro ela me abriu com os dedos. Dois, depois três, empurrando-os devagar enquanto a outra mão me segurava pelo quadril para eu não me mover demais. Ela ia me enchendo com uma paciência brutal, procurando o ponto exato em que eu deixava de me retesar e começava a abrir de verdade. Quando encontrou o ângulo, me tocou onde sabia que eu enlouquecia e arrancou de mim um gemido que me fez cravar o rosto no encosto.
Depois se aproximou com a boca.
Não foi um toque tímido nem uma carícia bonita. Ela me lambeu de cima a baixo, devagar, com a língua quente e úmida, me separando com os lábios, comendo tudo o que eu tinha deixado da primeira vez. Ouvi-la enquanto fazia isso era seu próprio tipo de tormento e de prazer ao mesmo tempo: aquele som grave e concentrado que ela fazia quando realmente gostava de alguma coisa, diferente de qualquer outra coisa e que eu reconheceria em qualquer lugar.
Eu estava encharcada, aberta, perdida. Toda vez que a língua dela voltava ao centro, o impulso de me empurrar contra ela era insuportável. Ela não deixava. Me segurava pelas nádegas, me mantinha parada, e continuava lambendo com uma precisão implacável, alternando pressão, ritmo e profundidade até me fazer chorar de puro prazer. Quando enfiou um dedo enquanto continuava com a boca colada em mim, senti meu corpo inteiro se desmanchar de uma vez.
—Assim —murmurou contra a minha pele—. Assim que eu gosto de você.
A voz dela, baixa e rouca, me fez tremer ainda mais forte.
Quando terminou e se deitou ao meu lado, eu ainda tinha as pernas frouxas e a respiração irregular.
—Agora você —disse, virando-se de barriga para cima.
Não precisei de nenhuma instrução a mais.
Fiquei entre as pernas dela e comecei pelas coxas, porque ela me ensinara assim desde o começo: não se vai direto ao centro, primeiro se constrói. Levei meu tempo. Afastei as pernas dela com as duas mãos, beijei a parte interna das coxas, a pele morna e sensível que arrepiava só de eu roçar, e fui subindo com a língua por onde ela já estava molhada. Ouvi a respiração dela. Fui percebendo o que fazia ela se mexer e o que fazia prender o ar, e fui ajustando conforme isso, como se estivesse lendo algo que conhecia mas que sempre podia entender um pouco melhor.
Camila tem uma sensibilidade que vai de zero a cem em questão de segundos se você souber o que está fazendo, e eu já vinha aprendendo havia tempo. Comecei com suavidade, depois com mais pressão, depois naquele ritmo constante de que ela precisa quando já está perto, esse ritmo que não muda nem quando ela enfia a cabeça no sofá nem quando o mundo acaba. Abri a boceta dela com os dedos e afundei a língua onde ela mais pedia, sentindo as pernas se contraírem, sentindo ela me agarrar pelo cabelo sem querer me soltar, sentindo gemidos curtos e desordenados escaparem dela e me queimarem ainda mais.
Ela se agarrou à minha cabeça com as duas mãos.
Não foi gentil e eu não queria que fosse. Ela me enterrou o rosto ali e eu não resisti, não me mexi, não interrompi nada. Ouvi ela subir, ouvi ela chegar àquele ponto em que a respiração se fragmenta e os sons se tornam completamente involuntários, e engoli tudo. Sem soltar. Sem deixar nada. O corpo dela se retesou sob minha boca e depois se quebrou numa série de espasmos que me deixaram encharcada da gozada dela e com o gosto dela preso na língua.
***
Depois ficamos um tempo quietas, as duas deitadas de barriga para cima no sofá, com a televisão ainda ligada e a série já nos créditos finais. A manta estava no chão. Lá fora continuava chovendo. O apartamento cheirava a nós.
Camila foi a primeira a rir. Eu a acompanhei sem entender muito bem por quê, mas às vezes o riso é a única resposta que sobra ao corpo depois que ele deu tudo o que tinha.
—Por que você não me contou antes? —perguntou quando parou.
—Não sabia como começar essa conversa.
—Bastava procurar a cena e me mandar no WhatsApp.
Ri mais alto do que antes.
Nessa noite não falamos de rótulos nem do que significava o que tinha acontecido nem se íamos repetir. Não precisava de nenhuma dessas conversas. Algumas coisas os corpos dizem antes das palavras, e de um jeito muito mais honesto, e o nosso já vinha com coisa demais pendurada havia tempo.
Desliguei a televisão depois das duas da manhã. Me enrolei na manta que recolhi do chão e fiquei olhando para o teto enquanto Camila adormecia com a mão sobre meu quadril.
Logo antes de fechar os olhos de vez, ela disse baixinho:
—Da próxima vez eu amarro suas mãos.
Não respondi.
Mas também não dormi tão rápido naquela noite.

