O amigo que me espiava no rio do povoado
Eu tinha me acostumado a ser observada, mas naquela tarde, sozinha na cachoeira, decidi que dessa vez não ia me cobrir quando o descobrisse escondido entre as árvores.
Eu tinha me acostumado a ser observada, mas naquela tarde, sozinha na cachoeira, decidi que dessa vez não ia me cobrir quando o descobrisse escondido entre as árvores.
Eu a vi pela primeira vez incentivando da arquibancada, com o cabelo molhado e aquele riso fácil. Dez dias depois, atrás da quadra de frontão, ela me ensinou algo que nunca esqueci.
A cada carícia, estrelas líquidas e flores novas brotavam de seu corpo. Naquela noite, as eras se cumpriam, e ela estava prestes a arder como nunca.
Às quatro da manhã, trancado sob os lençóis com o telefone da minha mãe, comecei a abrir pasta por pasta sem imaginar que nada jamais seria igual.
A janela do nosso quarto dava bem de frente para o terraço dele. Naquela noite entendi que a ideia de ser observada me excitava mais do que eu jamais admitiria.
Tínhamos nos reunido para revisar as finais, mas às seis os livros já estavam fechados e ninguém queria ir embora. O que veio depois ainda acelera meu pulso.
Abri a cortina só o bastante para confirmar minha suspeita: ele estava lá fora, com a mão metida na calça, esperando ver algo que não deveria ter visto.
Naquele fim de tarde, com a casa em silêncio, um roçar acidental me revelou uma linguagem que meu corpo falava e que eu ainda não sabia ler.
Quando ela enfiou a mão sob a minha mesa, eu soube que naquela manhã não resolveria uma só incidência. Só conseguia pensar nela e no que acabara de me deixar.
Ele repetia que estava errado, que não devia me tocar. Mas a mão dele já buscava minha cintura e os dois sabíamos que nada ia nos deter nesses cinco dias.
Deixei as cortinas abertas de propósito e fingi não vê-lo. Ele, parado na sua laje, não perdia um só detalhe do meu corpo nu.
Na última noite antes de se tornar mortal, ela se aninhou entre suas duas mães divinas sabendo que, ao amanhecer, teria de enterrar tudo o que era sob camadas de tecido comum.
Nunca tinha sentido tanto com um simples roçar de coxas. Quando ela se ajeitou atrás de mim no ônibus lotado, eu soube que aquela viagem não terminaria como as outras.
—Marina, você não vai acreditar: entrei para arrumar o quarto e tinha um casal na cama. E eu fiquei olhando da porta, sem conseguir me mexer.
Desceu do plano do prazer para um apê em Ruzafa e, no instante em que o desejo da rua roçou sua pele, soube que nem a roupa mais folgada conteria o que era.
Você não nos conhecia de nada, mas passou a tarde toda com a mão dentro da sunga, nos vendo brincar. E nós sabíamos disso desde o começo.
Ninguém naquela trilha imaginava o que eu levava vestido sob a roupa, nem a mulher selvagem que o roçar do ar acabou despertando naquela tarde.
Troquei a música por uma mais lenta, deixei meus dedos descerem pelo pescoço e, de repente, a massagem deixou de ser só uma massagem. Você topa imaginar isso comigo?
Eu vinha imaginando aquilo havia semanas. Naquela madrugada, abri o portão, dei um passo no asfalto e soube que não ia parar até alguém me ver.
Achei que o fim de semana em família seria como qualquer outro. Até ela atravessar o portão e eu entender que o passado nunca tinha sido totalmente enterrado.