A tarde do nosso aniversário que mudou tudo
Tenho quarenta e dois anos e ainda me lembro daquela tarde com uma nitidez que não consegui repetir com nenhuma outra lembrança. O calor de julho entrando pelas persianas. A música baixa na sala. Camila sentada no chão com as pernas cruzadas, me olhando como se já estivesse há algum tempo esperando que eu dissesse alguma coisa.
Tínhamos nascido com cinco dias de diferença, os dois na segunda semana de julho, e desde crianças comemorávamos o aniversário juntos com nossas famílias. Naquele ano decidimos fazer isso sozinhos pela primeira vez. Meus pais estavam viajando por um fim de semana. Ela soube porque eu mencionei sem querer uma semana antes, na frente de mais três amigos. Todos riram. Camila não disse nada, mas me olhou de um jeito que eu não soube decifrar até aquela tarde.
Ela chegou à minha porta às seis. Vestido de linho branco, sandálias rasteiras, o cabelo solto. Já fazia quase um ano que éramos algo mais do que amigos, embora nenhum dos dois soubesse dar nome exato ao que éramos. Nossos amigos sabiam. Nossas famílias desconfiavam. Nós fingíamos não ver, e esse jogo tinha durado bem até aquele momento.
— Feliz aniversário — disse quando abri a porta.
— Feliz aniversário — respondi, e a abracei como sempre. Mas quando a soltei, demorei um segundo a mais, e ela também não se afastou de imediato.
Algo havia mudado. Não sei se foi o calor, ou se era mais um ano de idade, ou simplesmente se os dois tínhamos decidido, sem dizer nada, que naquele dia as coisas seriam diferentes.
***
Colocamos música, conversamos por quase uma hora sobre nada importante: os planos para agosto, um filme que ela tinha visto, uma conversa que tínhamos deixado pela metade semanas antes e que nunca terminamos. O calor era brutal e nenhum dos dois tinha vontade de se mexer. Em algum momento reparei que a luz do entardecer batia nos ombros dela e pensei que era a pessoa mais bonita que eu conhecia, embora não tenha dito isso.
— Te incomoda se eu ficar mais um pouco? — perguntou Camila, apoiando a cabeça no encosto do sofá.
— Foi pra isso que você veio — eu disse.
Rimos. Ela se virou para mim, apoiou o queixo na mão e me olhou por um segundo com aquele olhar que eu já conhecia: direto, sem disfarce, como se estivesse me avaliando.
— Oi — disse ela. — Posso te perguntar uma coisa sem você ficar estranho?
— Depende da pergunta.
— Você já pensou na gente? Sério, quero dizer. Não daquele jeito vago em que a gente pensa sempre.
Fiquei em silêncio por um momento. Lá fora, um carro passou com o som ligado e o barulho foi se afastando até sumir.
— Sim — disse.
Ela assentiu devagar, como se aquilo fosse exatamente o que esperava ouvir.
***
O primeiro beijo daquela tarde não foi o primeiro entre nós. Já tínhamos nos beijado antes, na véspera de Ano-Novo, numa festa na casa de um amigo, numa tarde de chuva em frente ao prédio dela. Mas aquele beijo foi diferente desde o começo. Ela apoiou a cabeça no meu ombro, eu virei o rosto sem pensar, nos olhamos por um segundo e não precisou de mais nada.
Nos beijamos devagar, sem pressa, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Havia algo que reconheci de imediato, embora nunca tivesse sentido antes: a sensação de que aquilo era exatamente o que tinha que estar acontecendo. Em algum momento eu pus uma mão na cintura dela e ela se virou para mim, e o beijo deixou de ser pausado para virar outra coisa. A língua dela entrou na minha boca sem pedir licença e eu a recebi com uma fome que me surpreendeu. Senti a respiração dela pesada pelo nariz, segurando minha nuca com uma mão, empurrando o peito contra o meu. Os mamilos tinham endurecido sob o linho do vestido e senti eles se cravando na minha camiseta como dois pontinhos duros que me mandaram o sangue direto para a rola.
Paramos para respirar.
— Você tem certeza? — perguntei.
Ela não respondeu de imediato. Me olhou, e naquele olhar não havia nervosismo, mas algo mais firme. Decisão.
— Faz tempo que eu tenho certeza — disse ela. — Você é que demorou.
Eu ri. Ela também. E aquele riso quebrou algo que estava tenso demais.
— Então me deixa de uma vez — murmurou contra minha boca —. Me leva pra sua cama e faz o que você vem pensando há um ano.
***
Fomos para o quarto sem dizer mais nada. A luz da tarde entrava pelas persianas meio cerradas e tudo tinha aquela qualidade suave e difusa do verão às sete. Camila se sentou na beira da cama e eu fiquei em pé na frente dela, sem saber muito bem o que fazer com as mãos.
— Você está com medo? — perguntou.
— Um pouco — admiti. — E você?
— Outro pouco.
Rimos de novo, e essa segunda risada acabou dissolvendo a tensão. Sentei ao lado dela, peguei sua mão e voltamos a nos beijar, dessa vez sem pressa. Éramos só nós dois naquele quarto, naquele calor de julho, e o resto do mundo podia esperar perfeitamente.
Tirei o vestido dela com cuidado, puxando o linho para cima enquanto ela levantava os braços. Embaixo ela não usava sutiã. Os seios se soltaram na minha frente, redondos, brancos onde o sol não pegava, com os mamilos escuros e eriçados apontando para mim. Ela me olhava enquanto fazia isso, sem desviar os olhos, como se quisesse ver exatamente o que eu via. Tinha o corpo que eu vinha imaginando havia meses sem nunca tê-lo visto: curvas amplas, pele macia e morna de verão, barriga lisa e quadris largos que se abriam sob uma calcinha branca de algodão já úmida entre as pernas. Achei-a perfeita.
— Gostou do que viu? — perguntou, e havia na voz dela uma insegurança pequena, mas real.
— Muito — eu disse, e era a resposta mais honesta que já tinha dado na vida.
— Você é o primeiro homem que me vê assim — disse ela, baixando um pouco a voz. — Não sei se você sabia.
— Você também é a primeira para mim — eu disse.
Ela pegou minha mão e apertou. Uma lágrima escorreu pela bochecha dela sem nenhum gesto dramático, como se simplesmente tivesse escapado. Enxuguei com o polegar. Voltamos a nos beijar, e dessa vez levei uma mão ao peito dela pela primeira vez, sentindo o peso quente de um seio enchendo minha palma, o mamilo duro roçando o centro da minha mão. Ela soltou um pequeno suspiro contra minha boca e eu entendi isso como permissão para continuar.
***
Empurrei-a devagar até deitá-la na cama e tirei a camiseta e a calça sem deixar de olhá-la. Quando abaixei a cueca, minha rola saltou dura contra a barriga e ela ficou olhando com os olhos bem abertos, sem disfarçar a curiosidade.
— É maior do que eu pensava — disse, com um meio sorriso.
— Você tinha pensado nisso?
— Um milhão de vezes. Vem.
Me aproximei e ela esticou a mão e a segurou pela primeira vez. Fechou os dedos em volta do tronco, hesitou um segundo e depois começou a acariciá-la com uma timidez desajeitada que me pareceu mais excitante do que qualquer técnica. A ponta ficou úmida quase na hora, e ela percebeu, levou o polegar à boca sem pensar, molhou-o e voltou a passá-lo no glande, espalhando o que tinha saído. Um gemido rouco escapou de mim.
— Assim — eu disse. — Um pouco mais apertado.
Ela obedeceu. Começou a me masturbar devagar, olhando meu rosto para saber se estava fazendo certo, e eu tive que tirar a mão dela depois de um minuto porque estava prestes a gozar só com aquilo.
— Espera — ofeguei. — Quero durar.
Tirei a calcinha dela pelas pernas. Estava encharcada, o tecido colado entre os lábios da buceta, e quando a tirei por completo fiquei um segundo olhando. Ela tinha o púbis com uma mata macia de pelos escuros e os lábios internos já aparecendo, inchados e brilhantes. Abri seus joelhos com as mãos e me deitei entre as pernas dela.
— O que você está fazendo? — perguntou, se erguiendo um pouco.
— Quero provar você. Posso?
Ela voltou a se jogar no travesseiro e assentiu, cobrindo metade do rosto com o antebraço. Abaixei a boca até sua buceta e passei a língua inteira, de baixo para cima, saboreando-a pela primeira vez. O gosto encheu minha boca, salgado e espesso, e senti o corpo todo dela se sacudir contra meu rosto.
— Meu Deus — sussurrou. — Meu Deus, meu Deus.
Lambi-a devagar, aprendendo. Abri seus lábios com os polegares e procurei o clitóris com a ponta da língua, dando voltas suaves ao redor até ouvi-la prender a respiração. Então fiquei ali, chupando com os lábios, enfiando a língua dentro de vez em quando para que ela sentisse as duas coisas ao mesmo tempo. Ela segurou meu cabelo com as duas mãos e começou a mover os quadris contra minha boca, sem vergonha nenhuma, me procurando.
— Não para, por favor não para — murmurava —. Ai, ai, assim.
Enfiei um dedo dentro dela enquanto continuava chupando o clitóris. Estava tão apertada que mal cabia, quente e cerrada, com as paredes internas pulsando em volta do meu dedo. Comecei a mexer devagar, entrando e saindo, e ela soltou um gemido longo que se quebrou no ar. Senti a buceta toda se contrair em volta do meu dedo, senti as coxas dela se endurecerem dos lados do meu rosto, e de repente ela arqueou as costas no colchão e gozou com um tremor longo que durou vários segundos, apertando minha cabeça contra ela com as duas mãos.
Quando a soltei, ela estava corada, o cabelo grudado na testa e os olhos brilhando.
— Eu não sabia — disse, respirando forte. — Não sabia que era assim.
— Agora você a mim — pedi, subindo na cama ao lado dela.
Deitei de costas e ela se sentou entre minhas pernas, olhando para minha rola como se estivesse estudando algo novo. Abaixou-se devagar, segurou-a com uma mão e a lambeu da base até a ponta, com a língua plana, me olhando nos olhos o tempo todo. Depois abriu a boca e colocou o glande dentro. Estava quente, úmida, e embora desse para notar que ela nunca tinha feito aquilo antes, a desajeitada com que me chupava e a forma como ia testando o quanto podia colocar me matavam.
— Cuidado com os dentes — eu disse. — Isso, assim. Agora chupa como se fosse sorvete.
Ela me obedecia em tempo real, ajustando a boca, a língua, a pressão. Mamou em mim devagar, subindo e descendo, ajudando com a mão na base. Num momento a vi de olhos fechados, a bochecha afundada pela sucção, e estive a ponto de gozar na boca dela sem avisar.
— Para — ofeguei, puxando de leve o cabelo dela. — Para, para, vem aqui.
***
A coloquei por cima de mim, beijei sua boca sentindo meu próprio gosto misturado ao dela e a deitei de costas outra vez. Me posicionei entre suas pernas e acariciei sua buceta com a ponta da rola, me molhando com o que tinha saído dela.
— Posso? — perguntei.
— Pode — disse ela. — Mas devagar.
Empurrei a ponta contra a entrada e senti o quanto ela estava apertada. A cabeça entrou com esforço, e ela fechou os olhos e soltou o ar entre os dentes. Tentei com toda a calma que consegui reunir. Percebi quando encontrei resistência e a olhei antes de continuar. Ela apertou os lábios, mas não pediu para eu parar. Empurrei mais um pouco, sentindo a buceta apertar minha rola centímetro por centímetro, e alguns segundos depois o obstáculo cedeu com um pequeno estalo interno e eu deslizei inteiro dentro dela. Ficamos os dois parados, nos olhando, recuperando o fôlego. Eu a sentia pulsando ao redor da rola, tão apertada que eu quase não conseguia me mover.
— Tudo bem? — sussurrei.
— Tudo bem — disse ela. — Só me dá um momento. Você está enorme aí dentro.
Esperei. Acariciei a bochecha dela. Dei um beijo na testa. Passei a língua por um mamilo ereto e o chupei devagar até senti-la relaxar debaixo de mim. Depois, bem devagar, comecei a me mexer, recuando só um pouco e voltando a me afundar, medindo cada estocada.
***
Não sei quanto tempo durou. O tempo faz coisas estranhas nesses momentos: se alonga e se comprime conforme a intensidade do que está acontecendo. O que eu lembro com clareza é o instante em que Camila começou a gemer, baixo e suave, e como isso mudou alguma coisa em mim. Parei de pensar no que estava fazendo e comecei a sentir.
Aumentei o ritmo aos poucos, seguindo o que ela me pedia sem palavras: o arco das costas, a pressão dos calcanhares nos meus quadris, o som da respiração dela ficando mais irregular. Cada estocada entrava com um ruído úmido que enchia o quarto, misturado aos gemidos dela e ao leve rangido da cama. Estava quente. A tarde continuava entrando pelas persianas. Fora do quarto, o mundo existia, mas estava muito longe.
— Mais forte — disse ela, agarrando minha bunda com as duas mãos. — Você não vai quebrar, mete mais forte.
Comecei a foder ela de verdade. Enfiei a rola até o fundo com uma estocada profunda e ela soltou um grito que engoliu pela metade contra meu ombro. Segurei uma perna dela por baixo do joelho e a ergui, abrindo-a mais, e daquele ângulo entrei ainda mais fundo. Vi os peitos dela balançando a cada investida, os mamilos escuros dançando na minha frente, e baixei a boca para chupar um deles enquanto continuava fodendo.
— Assim, isso, assim — ela ofegava, com a voz completamente quebrada. — Não para, não para, não para.
Virei-a de lado por um momento e voltei a entrar nela por outro ângulo, com uma das pernas dela por cima do meu ombro. Eu a sentia tão molhada que escorregava, e ainda assim apertava tanto que cada investida me arrancava um rosnado. Ela levou uma mão ao clitóris e começou a esfregá-lo enquanto eu a penetrava, me olhando nos olhos, e aquela imagem — Camila gozando sozinha em cima da minha rola — quase acabou comigo ali mesmo.
— Não para — disse ela, de olhos fechados.
Não parei.
Senti o corpo dela se tencionar sob minhas mãos, ouvi a respiração cortar, e senti a buceta se apertar em espasmos rítmicos ao redor da rola. Ela gozou pela segunda vez, apertando meus quadris com os calcanhares e cravando as unhas nas minhas costas. Naquele instante, eu não consegui controlar o que aconteceu. Me afundei inteiro uma última vez, senti tudo disparar da base, e ejaculei dentro dela em jatos longos que não consegui impedir. Senti-a se enchendo por dentro, jato após jato, enquanto continuava tremendo debaixo de mim. Fiquei imóvel sobre ela enquanto os dois recuperávamos o fôlego, ouvindo o silêncio da casa e o barulho distante do bairro, com a rola ainda enterrada, pulsando dentro da buceta encharcada dela e minha.
Ficamos assim por um bom tempo. Nenhum dos dois falou. Quando finalmente saí, um filete espesso de sêmen escorreu entre as coxas dela e manchou o lençol. Ela olhou de lado e não disse nada.
— Você gozou dentro — disse ela por fim. Não era uma pergunta.
— Não consegui evitar — eu disse. — Desculpa.
Ela não respondeu de imediato. Estava olhando para o teto.
— Eu também não queria que você parasse — disse enfim. — Então acho que nós dois somos responsáveis.
— Você está em período fértil?
— Acho que não. Mas também não tenho total certeza.
Nos olhamos. Havia algo estranhamente cômico naquela conversa, nós dois pelados na minha cama, com a luz do entardecer cada vez mais baixa e o calor ainda grudado na pele.
— O que acontecer — eu disse —, eu não vou te deixar sozinha.
Ela se virou para mim e me olhou nos olhos por alguns segundos que pareceram longos demais.
— Eu sei — disse.
***
Depois tomamos banho, colocamos música de novo e comemos alguma coisa na cozinha como se fosse uma tarde normal. Não era uma tarde normal. Nós dois sabíamos disso e nenhum de nós dizia nada, e havia algo confortável nesse silêncio compartilhado. Saímos mais tarde para encontrar os outros e comemoramos o aniversário como tínhamos planejado, com música e risadas e algumas cervejas no terraço de sempre.
Nossos amigos notaram algo diferente em nós. Alguns falaram, outros só nos olharam com aquele sorriso que quer dizer que já tinham visto aquilo chegar. Nessa noite o mundo lá fora me pareceu um pouco irreal, como se o que tinha acontecido naquela tarde no meu quarto fosse a única coisa verdadeira e todo o resto fosse cenário.
***
Continuamos juntos depois disso. Continuamos nos vendo, dormindo juntos, construindo algo que já não precisava de nome porque era real demais para qualquer palavra. Semanas depois, Camila comprou um teste de gravidez numa farmácia de outro bairro, para que ninguém conhecido nos visse.
Ela me ligou do banheiro da casa dela.
— Deu positivo — disse.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Tá — eu disse.
— Tá? — ela repetiu, e havia mais incredulidade do que susto na voz.
— Fico feliz — eu disse, e era completamente verdade.
Foi naquele momento que tive certeza do que vinha suspeitando havia meses: Camila não era só meu primeiro amor nem minha primeira vez. Era a pessoa com quem eu queria construir tudo o que viesse depois.
Hoje temos dois filhos e uma vida que eu não teria conseguido imaginar naquele julho. Mas às vezes, quando o calor do verão entra de um certo jeito pelas janelas, eu me lembro dela sentada na beira da minha cama, me perguntando se eu estava com medo.
Eu estava com medo. E fiz mesmo assim. E foi a melhor decisão da minha vida.