Minha prima me ordenou abrir a boca naquela noite
Ela escondia algo na mão e aquele sorriso não anunciava nada inocente. —Mostra a língua —me ordenou, e eu já sabia que ia obedecer.
Ela escondia algo na mão e aquele sorriso não anunciava nada inocente. —Mostra a língua —me ordenou, e eu já sabia que ia obedecer.
Carla surgiu descalça entre as sombras do jardim, com aquele ar de menina boazinha que escondia a garota mais perversa que eu já conheci.
Ela nadou até mim sem deixar de me olhar e, na água morna do entardecer, entendi que aquilo que sentimos quando crianças nunca tinha ido embora de verdade.
Cheguei à fazenda com minhas camisetas de marca e meus ares de cidade. Elas tinham as mãos calejadas, uma faca afiada e muita vontade de me colocar no meu lugar.
As decisões importantes sempre eram dele. Por isso, quando disse que precisava de alguém mais em casa por umas semanas, eu soube que já estava decidido.
Sempre soube que minha mãe era diferente das outras, mas foi só naquela madrugada que entendi o quanto — e até onde eu mesmo estava disposto a ir.
Eu sabia que aqueles dois não tinham me convidado só para pescar. E eu, se for sincera, também não tinha dito sim só pelo rio.
Afastei a cortina com medo, pensando que eram ladrões. O que vi no quintal me deixou sem fôlego e com a mão tremendo entre as pernas.
Quando ela saiu do banho com o robe amarrado de qualquer jeito e os mamilos marcando o tecido, eu soube que já não poderia vê-la como a prima dos verões na praia.
Mariana me perguntou se eu nunca tinha sentido curiosidade de beijar outra mulher. Eu respondi com um impulso que mudou para sempre o que éramos.
Quando apagamos as luzes e nos enfiamos sob o mesmo cobertor, não imaginei que aquela pergunta boba sobre beijos terminaria com os dedos dela procurando os meus no escuro.
Há coisas que nunca disse em voz alta. Esta é uma delas: o que minha prima planejou comigo naquele janeiro, sem que eu percebesse até já ser tarde.
Às três da madrugada Andrés bateu à nossa porta. O que aconteceu depois na beliche de baixo foi visto pelo meu gêmeo da de cima.
A primeira vez que me ajoelhei diante do meu primo deixei de ser quem eu era. O que veio depois mudou meu corpo para sempre.
Quatro anos atrás, a mãe dela entrou a tempo de evitar o pecado. Desta vez, com todo mundo longe e a banda estrondando lá embaixo, ninguém ia abrir aquela porta.
Nunca pensei que uma cena do jogo acenderia algo entre nós, nem que naquela mesma tarde eu teria o sabor dele na boca e o nome dele repetindo dentro da minha cabeça.
Nunca tinha me tocado. Naquela tarde, atrás de uma porta mal fechada, entendi por que meu corpo vinha me pedindo há anos algo que eu não ousava lhe dar.
Eu sabia a hora exata em que ela voltaria. Deixei a porta entreaberta, apaguei a luz e esperei ouvir seus passos no corredor para começar.
Eu digitava o nome dela de vez em quando para ver se a encontrava. Nunca aparecia. Até aquela madrugada, quando o primeiro resultado foi ela, exata, sem dúvidas.
Pedi uma massagem no pé quase de brincadeira. Não imaginava que naquela noite, diante da fogueira e com vinho na cabeça, meu pai e meu primo deixariam de se conter.