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Relatos Ardientes

A filha que acreditava ser a irmã mais nova da comissária

Carla tinha vinte e nove anos, os cabelos escuros sempre presos num rabo de cavalo de trabalho e umas mãos que meio povo de Cala Turquesa considerava um segredo bem guardado. No andar térreo da sua casa, uma construção de dois pavimentos com jardim e uma piscininha, atendia todas as tardes um grupo seleto de clientes. Todas mulheres. Todas dispostas a colocar os cuidados mais íntimos do corpo nas mãos de alguém que não julgava, não comentava e não falhava.

Era casada com Adrián havia seis anos. Ele era tenente, instrutor dos poucos agentes novos que a cada ano destinavam àquele povoado costeiro. Amava-a com aquela devoção tranquila que faz uma mulher se sentir segura, e por isso Carla nunca imaginou que acabaria testemunhando o segredo mais sombrio de toda a comarca.

Uma de suas clientes da manhã era Raquel, a comissária da região e chefe direta de Adrián. Com os anos, entre cera quente e confidências, tinham passado de cliente a amiga. Naquela sexta-feira de junho, enquanto Carla terminava de deixar a virilha dela perfeitamente lisa, Raquel rompeu o silêncio com uma voz que não parecia a da mulher de ferro que todos conheciam.

— Vou te contar uma coisa que ninguém sabe — disse, olhando para o teto—. Uma coisa que venho guardando há vinte e quatro anos.

Carla ergueu a cabeça do trabalho. A comissária tinha os olhos úmidos e a mandíbula travada.

— Tenho uma irmã mais nova, Nora. É isso que todo mundo acredita. — Raquel engoliu em seco—. Mas ela não é minha irmã. É minha filha. Tive-a aos quinze anos. Minha mãe a registrou como se fosse filha dela para me proteger, e Nora cresceu achando que éramos irmãs. Agora ela vem morar comigo, vai trabalhar com o teu marido, e eu estou farta de mentir.

— E por que você me conta isso? — perguntou Carla, em voz baixa.

— Porque vocês são as únicas pessoas em quem confio. — Raquel se sentou na maca, apertando o robe curto sem se dar ao trabalho de vestir nada por baixo—. E porque há mais uma coisa, algo que não me atrevo a dizer em voz alta nem diante do espelho.

— Diga.

— Quando Nora era adolescente, começou a me olhar de um jeito que não era de irmã. Nem de filha. — A comissária fechou os olhos—. E o pior, Carla, o que me corrói por dentro, é que eu também comecei a olhar para ela assim. Por isso a mandei embora para estudar. Por isso passei anos sem tê-la por perto. E agora ela volta.

Carla ficou muito quieta, com as luvas ainda nas mãos, sentindo como aquela confissão mudava o ar do ambiente.

***

Nora chegou naquela mesma tarde, trazida do aeroporto pelo próprio Adrián. Carla a viu surgir na varanda da casa de Raquel e sentiu o ar parar por um segundo no peito. Era o retrato vivo da comissária, mas mais jovem e muito mais descarada. Loira, com uma trança longa que lhe caía até a cintura, olhos cinzentos e uma calça tão justa que não deixava nada à imaginação.

— Então você é a famosa Carla — disse, percorrendo-a de cima a baixo, embora seus olhos voltassem uma e outra vez para a mãe—. Raquel sempre fala de você nas mensagens.

— Cuidado com essa — interveio Adrián, rindo para aliviar o clima—. A nova oficial tem fama de perigosa.

Raquel os fez sentar, serviu limonada e, com a voz trêmula, disse o que vinha calando havia metade da vida. Que não era irmã de Nora. Que era a mãe dela. Carla prendeu a respiração, esperando o desastre.

— Eu sei há anos, mãe — disse Nora, com uma calma que deixou todos petrificados—. Encontrei os papéis da avó quando era criança. E nunca disse nada porque achei que você não estava preparada para ouvir o que eu tinha a dizer.

— E o que você tem para me dizer? — perguntou Raquel, quase sem voz.

Nora se levantou, contornou a mesa e se ajoelhou diante da mãe, tomando-lhe as mãos.

— Que você me mandar embora não foi o que me afastou de você. Que pensar em você todos esses anos não foi coisa de filha. — Sua voz baixou até virar um sussurro que mal alcançou Carla—. Que vim a este povoado sabendo o que sentia, e disposta a descobrir se você sentia o mesmo.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que Carla pôde ouvir o zumbido da coifa da cozinha. Adrián, desconfortável, fingiu olhar o celular. E Raquel, em vez de se afastar, apertou as mãos da filha.

***

Foi Nora quem rompeu a tensão com uma saída tão sua quanto inesperada.

— Aproveitando que a Carla está aqui, eu gostaria que ela me deixasse os pelos da virilha como Deus manda. Vim do viagem toda acabada. — Olhou para a esteticista com um sorriso que pedia cumplicidade—. Aqui mesmo, na varanda. Não tenho nada a esconder da minha mãe.

Carla deveria ter dito não. Em vez disso, posicionou a maca de modo que o sol incidisse sobre ela, e Nora tirou a roupa sem um pingo de pudor. Tinha o corpo da mãe vinte e cinco anos antes: pele dourada, quadris firmes, seios que se sustentavam sozinhos. Raquel não conseguia desviar os olhos, e já não se dava ao trabalho de disfarçar.

Carla aqueceu a cera e começou a trabalhar. O primeiro puxão fez Nora arquear as costas e soltar um suspiro que não era de dor. Mas os olhos da jovem não estavam em Carla. Estavam cravados na mãe, que se aproximara da maca como atraída por um ímã.

A esteticista trabalhava em silêncio, medindo cada movimento, consciente de que qualquer palavra poderia quebrar algo que já não podia ser contido. Passava a cera morna pela pele do interior das coxas, puxava com um golpe seco e depois deslizava a ponta dos dedos para conferir se tudo ficava liso. Toda vez que fazia isso, Nora prendia a respiração e procurava os olhos de Raquel, como se fosse ela, e não Carla, quem a estivesse tocando. A comissária tinha as bochechas coradas e a respiração cada vez mais curta.

— Mãe — murmurou Nora—, por que você não segura minha mão? Essa parte sempre dói.

Raquel pegou a mão dela. Carla percebeu como os dedos da comissária tremiam, como o polegar dela começou a acariciar o pulso da filha num gesto que já não tinha nada de maternal. A esteticista tirou as luvas devagar. Já não havia cera que justificasse nada.

— Adrián — disse Carla, com uma serenidade que surpreendeu a si mesma—, acho que nós dois estamos sobrando neste momento. Vamos dar um pouco de intimidade a elas.

Seu marido a olhou, atônito. Mas Carla não se moveu em direção à porta: apoiou-se no batente, do lado de dentro, onde a sombra os ocultava sem impedir que vissem. Adrián, ao lado dela, engoliu em seco e ficou. Nenhum dos dois já era capaz de ir embora.

***

Na varanda, mãe e filha haviam ficado sozinhas aos olhos do mundo, sem saber que duas sombras as observavam da sala.

Raquel se inclinou primeiro. O beijo que deu em Nora não foi o de uma mãe: foi longo, faminto, o tipo de beijo que se reprime por anos até explodir. Nora respondeu puxando-a para perto da maca, até que o robe curto da comissária caiu no chão de cerâmica quente.

— Passei a vida toda sonhando com isso — arfou Nora contra sua boca—. Desde antes de saber que você era minha mãe. E depois, ainda mais.

Raquel não respondeu com palavras. Desceu pelo pescoço da filha, pelo vale entre os seios, pelo ventre recém-depilado, lendo aquele corpo que era uma versão jovem do seu. Quando chegou entre as pernas dela, Nora enroscou os dedos no cabelo da mãe e deixou escapar um gemido que ricocheteou nas paredes da varanda.

Da penumbra, Carla sentiu a mão de Adrián se fechar sobre a sua. Não disseram nada. Não era preciso. Ver a comissária de ferro se desfazer entre as coxas da própria filha era a coisa mais proibida que qualquer um dos dois já tinha presenciado, e nenhum conseguiu desviar o olhar.

Carla pensou em todas as tardes que passara naquela varanda, nas confidências, nos silêncios que agora ganhavam sentido. Toda a rigidez de Raquel, sua solidão escolhida, sua recusa em se envolver com qualquer pessoa: não havia sido disciplina, mas uma represa segurando aquilo durante vinte e quatro anos. E agora a represa se rompia diante dos seus olhos, com a ousadia de quem já não tem mais nada a perder.

— Não para, mãe — pedia Nora, os quadris se movendo contra a boca de Raquel—. Por favor, não para.

Raquel não parou. Sustentou o ritmo com a língua até a filha se tensionar por completo, apertar-lhe a cabeça com as coxas e se desfazer com um grito que terminou de quebrar vinte e quatro anos de silêncio. Quando voltou a respirar, Nora puxou a mãe para cima e a beijou fundo, saboreando-se nos lábios dela sem o menor pudor.

— Agora você — sussurrou a jovem, empurrando suavemente Raquel sobre a maca—. Quero recuperar todo o tempo que perdemos.

***

Carla percebeu que Adrián a havia envolvido pela cintura. Virou-se para ele e, pela primeira vez em seis anos, viu nos olhos do marido um desejo que não tinha sido despertado por ela, mas por aquela cena impossível ardendo sob o sol. Gostou. Gostou de saber que aquele segredo agora os unia aos quatro numa cumplicidade sem volta.

Na varanda, Nora se inclinava sobre a mãe com a mesma entrega com que Raquel se inclinara sobre ela, e a comissária, que mandava em meio povoado, deixava-se mandar enfim pela única pessoa a quem jamais pôde dar ordens. O sol caía a pino, as cigarras enchiam o silêncio, e nenhuma das duas mulheres parecia lembrar que, do outro lado do vidro, duas testemunhas guardavam seu segredo.

Carla pensou que tinha passado a vida toda despindo a intimidade de outras mulheres sem se atrever a olhar de verdade o que escondiam. Naquela tarde, em Cala Turquesa, vira o desejo mais proibido de todos romper a última fronteira. E, longe de a assustar, soube que voltaria àquela casa muitas outras vezes.

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