O mês que passei no sótão da minha irmã
A chave girou na fechadura com um estalo seco que soou mais alto do que deveria. Ao entrar no sótão de Renata, o ar me recebeu com uma mistura de sândalo e um calor adocicado que reconheci na hora, embora nunca tivesse sabido nomeá-lo. Não era o cheiro de uma irmã. Era o de uma mulher de trinta e três anos que se movia pelo mundo sabendo exatamente o tipo de poder que tinha.
—Deixa as malas no corredor, Adrián. Esta também é sua casa —disse, sem se virar.
Ela estava de pé diante da janela panorâmica, de costas para mim, recortada contra a luz laranja do pôr do sol de Valência. Usava um vestido de seda escura, tão fino que parecia desenhado sobre o corpo dela. Meus olhos fizeram o percurso sozinhos: a linha das costas, a curva dos quadris, o modo como o tecido se esticava no final. Desviei o olhar, mas já era tarde. A imagem tinha ficado grudada em mim.
—Obrigado, Rena —consegui dizer, com a garganta áspera.
O diminutivo me fez sentir um moleque, e isso contrastava de forma ridícula com o que começava a acontecer dentro da minha calça só de ver o movimento dos ombros dela.
Ela se virou devagar. Renata não tinha a fragilidade das garotas da minha idade; tinha a segurança de quem passou anos acostumada a ser olhada. Seu rosto tinha traços firmes, com lábios que pareciam sempre prestes a soltar algo que era melhor não ouvir, e olhos escuros que me mediram de cima a baixo sem pressa.
—Você mudou, maninho —comentou, vindo na minha direção—. Ficou forte. A academia te fez bem.
Parou a um palmo de distância. Senti o vinho no hálito dela e o calor que seu corpo exalava. Era mais baixa do que eu, mas naquele instante me senti pequeno. Levantou uma mão e, com uma lentidão calculada, percorreu meu peito até o pescoço. Tinha os dedos frios, e ainda assim o contato queimava.
—Você está tenso —sussurrou, e os olhos dela desceram por um segundo até minha virilha, onde já não havia nada para disfarçar. Um sorriso torto apareceu no canto da boca—. Fica incomodado de estar a sós com sua irmã mais velha?
—É a viagem. O cansaço —menti, sentindo o suor surgir na testa.
Ela deu mais um passo e eliminou qualquer distância. Notei o roçar dos seios dela no meu peito, uma pressão mínima que percorreu minha coluna como uma corrente elétrica. Ela não se afastou. Pelo contrário, subiu a mão até minha nuca, enroscou os dedos no meu cabelo e me obrigou a sustentar seu olhar.
—Nesta casa não existem segredos, Adrián. E muito menos entre você e eu. Se vamos dividir o teto por um mês inteiro, você vai ter que entender uma coisa: aqui mandam as minhas regras. E a primeira é a honestidade absoluta.
Baixou a outra mão e, com uma ousadia que me deixou sem ar, roçou com o dorso dos dedos o tecido esticado da minha calça. Foi só um instante, mas suficiente para me arrancar um som abafado.
—Olha pra você —ronronou, a voz descendo um tom—. Sangue do meu sangue, e me olha como se quisesse me devorar. Sabe o que acontece com quem deseja o que não lhe pertence?
Não soube responder. Algo tinha rachado, e pela fenda começava a entrar uma escuridão que eu não sabia nomear. Renata me soltou, mas não para se afastar; contornou meu corpo a caminho da cozinha, deixando as unhas arranharem de leve minhas costas ao passar.
—Toma um banho frio —disse por cima do ombro—. Vai precisar. Hoje à noite jantamos sozinhos, e eu quero que preste muita atenção ao que vou te ensinar.
Fiquei parado no meio da sala, com o coração disparado e a incômoda certeza de que minha irmã tinha acabado de abrir uma porta que não se fecharia mais.
***
A água gelada não serviu para nada. Cada gota que escorria pela minha costas me devolvia a pressão dos dedos dela na minha nuca. Me enxuguei às pressas e vesti só uma calça de moletom cinza, com o peito exposto. O vapor embaçava o espelho, mas não apagava a imagem de Renata.
Quando saí do banheiro, o apartamento estava em penumbra, iluminado apenas por algumas velas na sala. O silêncio era denso, quebrado só por uma música suave que saía das caixas de som. Caminhei descalço, tentando não fazer barulho, e parei seco ao chegar à soleira.
Renata estava ali, mas não como eu a tinha deixado. Tinha tirado o vestido. Usava um conjunto de renda cor de vinho que parecia feito para sublinhar cada centímetro da sua maturidade. Estava recostada no sofá de couro, com uma perna dobrada e a outra esticada, exibindo coxas firmes e lisas.
—Você estava demorando demais —disse, erguendo uma taça.
Os olhos dela percorreram meu torso nu. Pararam nos meus ombros, desceram pelo abdômen e terminaram onde o algodão cinza não disfarçava nada. Uma faísca de triunfo atravessou seu olhar.
—Chega mais perto, Adrián. Traz a garrafa da mesa.
Obedeci como um autômato. Ao me inclinar para servir, o cheiro da pele dela me atingiu em cheio. Renata não se moveu; deixou que meu braço roçasse seu joelho. A coxa dela estava quente.
—Gosta do que vê? —perguntou, com uma voz que era veludo e veneno em partes iguais—. Não mente pra mim. Sei que você passou anos imaginando como seria o corpo da sua irmã mais velha sem roupa.
—Rena, a gente não devia… —minha voz era um fio, uma protesto sem força que ela espantou com um gesto.
—O que a gente devia ou não devia morreu no instante em que você cruzou aquela porta, maninho. Somos adultos. E somos os únicos que sabem o que corre nas nossas veias.
Ela deixou a taça de lado e se ergueu até ficar sentada de frente para mim. A renda mal continha os seios dela. Apoiou as mãos na minha cintura e me puxou para o vão entre as pernas abertas.
—Ninguém neste mundo te conhece melhor do que eu —murmurou, subindo as mãos pelas minhas costas, cravando as unhas—. Ninguém sabe melhor o que te faz tremer. E o que você precisa agora é que sua irmã tire de cima de você essa moral que não deixa você respirar.
Ficou de pé sem me soltar, me empurrando até minhas costas baterem na parede. Colou o corpo inteiro no meu. Senti o calor do ventre dela, a maciez dos seios se achatando contra o meu peito.
—Olha nos meus olhos —ordenou, e a voz voltou a ter aquele tom de mando que me dava vontade de obedecer—. Hoje à noite você vai aprender que aqui você não é de nenhuma garota da sua idade. Você é meu.
Ela baixou a mão até o cordão da minha calça e, com um movimento experiente, desfez o nó. O ar frio roçou minha pele, mas o que importava era o calor que vinha dela.
—Hoje à noite você vai esquecer que somos irmãos —sentenciou, roçando os lábios nos meus sem chegar a me beijar—. Só vai lembrar que eu sou a mulher que pode te destruir ou te fazer rei. E você vai escolher me servir.
***
O quarto de Renata era feito de sombra e cetim. A lua entrava pelas frestas da persiana e desenhava listras prateadas sobre a colcha. Ela entrou primeiro, sem soltar minha mão, me arrastando para o território dela com a calma de quem sabe que a presa parou de lutar.
—Senta —disse, apontando para a beira da cama.
Me deixei cair ali, com a calça meio abaixada e o pulso martelando nas têmporas. Ela ficou em pé diante de mim. Daquela altura, o triângulo de renda vinho ficava na altura dos meus olhos. O cheiro cru do desejo dela embaralhava meu juízo.
—Você está tremendo —disse, acariciando meus ombros com uma lentidão insuportável—. A vida inteira você foi o irmão mais novo, o orgulho da casa. Mas agora você é só um homem desejando a única mulher que tem proibida. E é exatamente isso que você mais gosta, não é?
Não consegui falar. Ela levou as mãos às costas e, com um gesto fluido, tirou o sutiã. A renda caiu no chão. A visão me arrancou um suspiro.
—Me toca —ordenou. Não era um convite—. Quero que sinta o calor do sangue que a gente compartilha.
Levantei as mãos quase com medo. Ao tocá-la de leve, um gemido me escapou. Meus dedos afundaram na pele dela e Renata arqueou as costas com um suspiro que queimou nos meus ouvidos.
—Isso. Se renda —sussurrou, segurando minha cabeça e apertando-a contra o peito—. Cheira o desejo que eu guardei por anos só pra você.
Ela se afastou um centímetro, o suficiente para me encarar com um brilho de domínio absoluto. Depois se virou e se inclinou sobre a cama, apoiada nos antebraços, oferecendo os quadris.
—Tira isso —disse, olhando por cima do ombro—. E depois você vai entender que a minha autoridade não fica nas palavras.
Meus dedos trêmulos puxaram o tecido para baixo. Ajoelhei atrás dela, no chão, e enfiei o rosto nas curvas do corpo dela.
—Usa a mim, Renata… por favor —implorei, completamente quebrado.
—Ah, eu vou te usar —respondeu, girando com a agilidade de uma gata até ficar sentada sobre minhas coxas, me obrigando a sentir o calor dela contra a minha pele—. Mas será do meu jeito. Aqui eu sou a sua lei. E hoje a sua lei quer que você a adore de joelhos antes de deixar você entrar.
***
O chão de madeira estava frio, mas eu era uma fogueira. Renata me manteve de joelhos enquanto se sentava na beira da cama e abria as pernas com uma elegância que me lembrava a distância entre a experiência dela e a minha falta de jeito.
—Olha pra mim direito, Adrián —ordenou, agarrando meu cabelo para erguer minha cabeça—. Isso não é pra nenhum outro homem. Nem pro meu ex, nem pros que ficam me rondando no escritório. Isso é do seu sangue. E hoje sua única missão é provar que merece me servir.
Ela me empurrou para a frente. Quando a toquei pela primeira vez, um choque subiu pela minha coluna. Renata soltou um gemido curto e autoritário e cravou as unhas nos meus ombros.
—Isso. Usa essa língua que passou anos calada sobre o que sentia por mim —sussurrou, arqueando-se—. Saboreia o pecado, maninho.
Me perdi nela. Eu a devorava com uma desesperação que misturava anos de desejo reprimido com algo quase reverente. Renata guiava minha cabeça, marcava o ritmo, me castigava com pequenos puxões quando eu me distraía. Era o prazer mais obscuro que eu já tinha conhecido.
—Me prova —disse de repente, me afastando com um empurrão e se pondo de pé. A pele dela estava em chamas e os olhos cheios de uma luxúria que beirava a crueldade—. Vira. De bruços. Não quero que você me olhe enquanto decido o que faço com você.
Virei e me enterrei no colchão. Ouvi uma gaveta se abrindo e o roçar de algo que não era pele. Meu coração parou.
—Você foi um bom menino com a língua —disse, sentando sobre meus rins, o peso quente dela me esmagando contra a cama—. Mas agora vou te mostrar de verdade o que significa sua irmã mais velha ser sua dona.
Senti a primeira pressão, uma invasão lenta que me fez cravar as unhas no cetim. A ardência era aguda, mas vinha acompanhada de uma descarga tão intensa que um grito abafado me escapou. Renata não parou; aumentou o ritmo, se deliciando com a minha vulnerabilidade, inclinando-se para morder meu lóbulo da orelha.
—Olha pra você —zombou—. O herdeiro da família, destruído pela própria irmã.
E então alguma coisa fez clique dentro de mim. Talvez tenha sido a humilhação levada ao extremo, ou talvez o fato de o próprio desejo dela a ter deixado descuidada. Senti que ela arfava, vibrando de excitação enquanto me submetia. Num impulso nascido de uma raiva que eu carregava há anos, apoiei os antebraços com força e, num giro violento, a derrubei.
Ela não esperava. Soltou um grito de surpresa quando os ombros dela bateram no colchão e eu fiquei sobre ela, segurando seus pulsos acima da cabeça.
—O que você está fazendo? —ofegou, mas nos olhos dela não havia medo, e sim uma faísca elétrica.
—Acabou o jogo da tirana, Rena —eu disse, com uma voz que saiu de muito fundo, carregada de uma autoridade que eu nem sabia que tinha—. Você me despertou. Agora vai ter que lidar com as consequências.
Soltei-a, mas não para deixá-la ir. Agarrei suas pernas e as puxei para trás. Sem pedir permissão, sem preliminares, me encaixei nela de uma só investida que a deixou sem ar.
—Adrián! —gritou, e desta vez não era uma ordem, era um pedido.
Comecei a me mover com uma fome selvagem, ditando eu o ritmo, cada investida mais profunda e possessiva que a anterior. Já não era o irmão mais novo buscando aprovação. Renata arqueava as costas, procurando algo em que se segurar enquanto eu a tomava com uma força que a transbordava.
—Me diz quem manda agora —exigi, com a voz rouca—. Diz.
—Você… você, Adrián… não para —gemeu ela, de olhos virados, entregue por completo à força que ela mesma tinha soltado.
Entendi então que ela sempre tinha querido isso: que eu tomasse o controle, que eu a dominasse com a mesma intensidade com que ela tinha me humilhado. Minha irmã mais velha tinha se tornado minha igual e, enfim, algo que era meu.
***
No dia seguinte, o sol inundava a sala, mas o clima não tinha nada de inocente. Renata estava na cozinha, de costas, fazendo café. Usava uma das minhas camisas brancas, que mal cobria a parte alta das coxas. Vê-la com a minha roupa sobre o corpo de trinta e três anos dela acelerou meu pulso como uma marca de posse.
Fui até ela sem fazer barulho. Ao me notar, os ombros dela enrijeceram, mas ela não se virou. Sabia o que vinha.
—Bom dia, Rena —sussurrei, colando meu corpo nas costas dela.
Passei as mãos pela cintura, deslizando-as por baixo do tecido até encontrar a pele dela. Renata suspirou e apoiou a cabeça no meu ombro, se rendendo. Já não havia mais traço da mulher gélida que tinha me recebido no primeiro dia.
—Adrián… o café vai queimar —murmurou, embora os quadris dela já buscassem os meus.
—Que queime —respondi, girando-a para que me olhasse.
Ergui-a sem esforço e a sentei sobre o mármore frio da bancada. Ela enlaçou minha cintura com as pernas e me puxou com uma urgência que não admitia espera.
—Gosto que você não pergunte —disse, acariciando minha nuca enquanto eu desabotoava os botões da camisa que tinha roubado de mim—. Gosto que você me tome como se eu fosse sua por direito.
—Você é —respondi, enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando aquele cheiro de café e pele quente.
O que aconteceu na cozinha foi lento e intenso. Não havia pressa, só o prazer de possuir minha própria irmã num lugar tão comum. Ela abafava os gemidos no meu pescoço para que não escapassem pelas janelas abertas. O mundo lá fora não existia; só existia o que acontecia sob aquele teto.
Quando terminamos, deixei-a sobre a bancada, ofegante. Dei um beijo na testa dela, um gesto que misturava o carinho de irmão com a posse mais absoluta.
—Hoje à noite fechamos o mês —sussurrei no ouvido dela—. E vamos fazer isso do meu jeito.
***
A última noite no sótão não pareceu uma despedida, mas uma coroação. O ar estava carregado, quase sólido. Não restavam mais jogos de poder; só uma certeza que se instalara entre nós como uma lei natural invertida para sempre.
Renata me esperava na sala, banhada pela lua que entrava em abundância. Estava nua, com uma taça de vinho na mão, me observando entrar com a serenidade de quem já se entregou por completo.
—Sabia que você viria —disse, num sussurro rouco—. Estava te esperando para te entregar as chaves deste lugar.
Fui até ela sem hesitar. Segurei sua nuca e tirei a taça com a outra mão, sem desviar os olhos dos dela. A puxei contra mim e senti o choque da nossa pele nua. Ela soltou um suspiro longo, de alívio, como se toda a autoridade que tinha diante do mundo não passasse de um peso do qual eu, enfim, a tinha libertado.
—Não tem volta, Rena —eu disse—. Amanhã sairemos daqui e voltaremos a ser os irmãos perfeitos na frente do papai e da mamãe. Mas toda vez que você me olhar num jantar de família vai se lembrar de como eu fiz você minha.
—Eu sei —respondeu, cravando os dedos nos meus ombros, procurando minha boca—. E é isso que me mantém viva. A ideia de ser o seu segredo, Adrián.
Levei-a até o sofá de couro, o lugar onde tudo havia começado a ruir semanas antes. Dessa vez não houve preliminares. Eu a possuí com uma determinação lenta, quase cerimonial. Cada movimento era uma assinatura sobre a pele dela. Renata se arqueava sob meu corpo, com os gemidos enchendo a sala, repetindo meu nome com uma entrega que apagava qualquer ideia de culpa.
Quando o mundo se reduziu ao pulsar dos nossos peitos colados, ela me abraçou com uma força que me deixou sem ar. Tínhamos cruzado o limiar e, do outro lado, não havia abismo, só plenitude.
—Você é meu —sussurrou contra meu ouvido enquanto recuperávamos o fôlego—. Meu irmão, meu amante. Para sempre.
—E você é minha —respondi, beijando a testa dela—. O mês termina, mas o que é nosso acaba de começar.
Ficamos ali, vendo o amanhecer começar a tingir o céu de Valência. O sótão guardaria o segredo, mas nós carregaríamos sua marca em cada olhar furtivo e em cada toque "casual" que, de agora em diante, definiria o que éramos quando ninguém nos via.





