O naufrágio que mudou tudo entre meu filho e eu
Diário de náufraga. Entrada 1.
Minhas pontas dos dedos escorregam sobre a folha do caderno. Durante anos implorei ao mar por um pedaço de papel e uma ponta afiada com a qual enterrar minhas palavras. Nesta tarde, a maré alta empurrou até a areia uma caixa embrulhada em plástico, com o selo desbotado de um serviço de encomendas. Dentro: cadernos, lápis, envelopes, um grampeador enferrujado. Uma ironia cruel: a ilha me presenteava com palavras justamente quando eu já não tinha mais nada de pé.
Hoje começo este diário. Escrevo para você, leitor desconhecido. Já é tarde para contar a cronologia do naufrágio; ofereço, em vez disso, a fratura de uma alma. Se no final ainda lhe restar compaixão, perdoe-me pelo que vou fazer. Eu não creio que seja capaz de fazê-lo.
Ao meu lado Tomás dorme aquecido pela fogueira. O que separa o filho do homem? A mãe da mulher? A água salgada lava os contornos até transformá-los em formas borradas, em um pesadelo que se dissipa com o tempo.
Toda a tarde choveu. A água entra na horizontal pelas frestas da cabana e o fogo é apenas um tremor alaranjado contra a escuridão. Jantamos cedo e nos enroscamos como sempre. Ele dormia com as costas apoiadas em meu peito, minhas coxas fechadas sobre seu torso num abraço que pretendia ser apenas calor e ternura. Seu ventre subia e descia sob minhas palmas.
A chuva me embalou e, como um filme defeituoso, minha cabeça projetou as noites com Sebastián, meu falecido marido. Não demorei a perceber a umidade que me habitava no centro e o calor espalhado por todo o corpo. Não houve decisão premeditada. Apenas uma descida. Um movimento mínimo, involuntário. Meus dedos descobriram outra textura. Uma presença que não estava ali um instante antes. Uma tensão sustentada que crescia sob minha palma. A respiração me faltou por um segundo e voltou em golpes desiguais.
—Era a isso que você se referia —sua voz foi um murmúrio sem inflexões.
O silêncio ficou denso.
—Sim. A isso.
—Você vai me ensinar o que tenho que fazer?
—Amanhã veremos. Hoje vamos dormir.
As palavras saíram sozinhas. Quis que fossem uma trégua para ganhar tempo, mas soaram mais como uma promessa.
***
O sono se recusa a vir e me sento junto ao fogo com o caderno novo. Ainda sinto na palma aquela tensão palpitante que me reclamava. Tomás dorme com o cenho franzido, igual ao de Sebastián. A mesma ruga entre as sobrancelhas que ele tinha na noite em que eu disse sim diante do pastor. Vê-lo assim me devolve a outra tempestade.
O aroma de couro do jato particular se misturava com a pressão de sua mão sobre meu ventre. Sebastián, herdeiro de um império têxtil, não desviava o olhar de mim. Seus dedos traçavam círculos sobre o tecido.
—Minha mãe nunca vai parar de me pressionar —disse, soturno.
—Ela quer o melhor para você —tentei soar conciliadora.
Ele pousou a palma ali onde a vida mal começava a se mover. Lá fora, alguns relâmpagos ao longe me fizeram sobressaltar.
—Você também vai ser assim com nosso filho?
—Vou ser a melhor mãe do mundo —prometi—, ainda que me odeie no processo.
Seus lábios buscaram os meus com uma ternura infinita. Depois a comissária nos serviu o jantar e ele me mostrava na tela fotos do hotel do Caribe onde passaríamos a lua de mel.
—É um paraíso —murmurei, entregue ao balanço do voo—. Eu adoraria viver a vida toda numa ilha deserta com você.
Suas mãos se fecharam sobre as minhas. Adormecemos assim, unidos por uma promessa que o céu decidiu cobrar naquela mesma madrugada.
Uma sirene rasgou o ar. O avião se sacudiu como um pano molhado. Sebastián me colocou o colete salva-vidas e apertou o cinto com mãos de ferro. A asa se arrancou com um estrondo seco. A pressão abandonou meus ouvidos. A queda foi um redemoinho gelado. Um impacto, e tudo escureceu.
Acordei debaixo d’água. Sebastián boiava ao meu lado, com um pedaço de metal atravessado no peito. Os olhos abertos, fitando o infinito. Nadei em direção à saída, desviando do corpo da comissária, agarrei o que encontrei à mão e deixei que o colete me empurrasse até a superfície. O sol queimava meu rosto, a chuva me dava de beber. Não sei quantas horas se passaram até meus pés tocarem a areia. Arrastei-me até a praia seca e dormi.
Foi assim, leitor, que cheguei a esta ilha, grávida e sozinha.
***
Diário de náufraga. Entrada 2.
Vários dias se passaram. Não voltamos a falar daquela noite. A rotina de náufragos nos engoliu: pescar, coletar, consertar o abrigo. Parecia que a normalidade, essa nossa versão do normal, havia voltado a se instalar.
Hoje de manhã a tensão voltou. Afastei-me da cabana para urinar e senti sua presença. Eu estava agachada; ele, parado a alguns metros. Que privacidade existe numa ilha minúscula? Nunca tentei esconder meu corpo. Fiz um gesto com a cabeça para ele.
—Está curioso? Você já me viu urinar muitas vezes.
—Você não urina como eu. Não entendo por onde sai.
—Quer ver?
—Sim.
Observou a micção como um cientista observa um experimento, tentando decifrar os intrincados mecanismos que permitiam ao meu corpo eliminar líquido. Quando terminei, sentei-me num tronco próximo e me sequei com uma folha larga. Ele se aproximou sem timidez, o olhar fixo em meu centro. Abri as dobras e lhe mostrei o interior, a região mais sensível.
—Esta é a parte mais importante —eu disse.
Ele assentiu como se estivesse diante de um experimento escolar. Estendeu um dedo, fascinado e cauteloso. O roçar contraiu meus músculos. Um gemido me escapou. Afastei sua mão de imediato.
—Por hoje basta.
—É aí que faz coçar? Essa é a parte que deve ser tocada?
—Sim. É aí. Vamos cozinhar.
Ele se virou para me seguir, mas parou.
—E em mim onde você tem que tocar?
Fiquei olhando para ele. A pergunta pairava no ar úmido da manhã.
—Outro dia eu explico —disse, adiando sua cobrança.
“Outro dia eu explico”. As palavras ficaram na minha boca como um nó amargo.
***
Diário de náufraga. Entrada 3.
É a época dos coqueiros mais altos, os que crescem no coração da ilha. De manhã subi numa árvore com os pés descalços. Tomás esperava lá embaixo para recolher os que eu fazia cair. Meu corpo, endurecido pelos anos, movia-se com uma segurança nova, mas a seiva do tronco era escorregadia.
A queda foi curta e aterrissei sobre ele. Meu peso lhe tirou o ar por um instante. No começo rimos, uma gargalhada nervosa, estranha. Fiquei por cima, com as pernas abertas de ambos os lados de sua cintura, numa posição desajeitada e cômica. O som se cortou de golpe.
Sua rigidez cresceu contra minha virilha. Não me movi. Deixei que ele se apoiasse em um contato prolongado que meu corpo recebeu com uma fome que eu havia esquecido. Sua respiração se quebrou num ofegar profundo. Uma inércia incontrolável. Um segundo a mais ali e não haveria volta.
Afastei-me num salto. Deixei-o jogado na grama, olhando para mim com uma mistura de confusão e necessidade. Não disse nada. Caminhei até a cabana e ele me seguiu, arrastando os cocos.
Sei que amanhã virão as perguntas. É inevitável. A curiosidade é o que nos mantém vivos. E a solidão da ilha a amplia.
Preciso confessar, leitor. Eu também tive essa mesma curiosidade muito antes. Numa noite Tomás acordou ardendo. Sua pele era uma brasa, seu corpo tremia com leves convulsões. Banhei-o com água fresca, as mãos urgentes para baixar a temperatura. As palmas, no afã de ajudá-lo, trombavam repetidas vezes com uma parte dele que raramente tocava. Surgiu uma dureza inesperada, uma presença alheia naquele corpo frágil e febril. Quando a febre cedeu e ele adormeceu, eu continuava desperta. Na escuridão, com o eco do calor dele nas minhas mãos, a curiosidade me dobrou. Dediquei um longo tempo a inspecionar os recantos de seu centro, provocando um estiramento que eu não tocava havia anos. Uma necessidade obscura que me apavorou.
Ele jamais soube. Mas não posso culpá-lo agora por ter a mesma necessidade.
***
Diário de náufraga. Entrada 4.
Ontem a queda cobrou seu preço. A dor me manteve acordada. O que pensei ser apenas um machucado transformou-se numa fisgada surda e profunda ao longo da coxa. De manhã eu não conseguia me mexer.
—Tomás —pedi, a voz rouca por falta de sono—. Você faria uma massagem em mim? O creme que fiz com a polpa de coco e aloe.
Ele assentiu sem hesitar. Trouxe o recipiente com a pasta branca e perfumada. Deitei-me de bruços, a cabeça virada para um lado. Ele espalhou o creme nas minhas panturrilhas, depois nas minhas coxas. O alívio foi imediato. Seus dedos liberavam a tensão. Suas mãos continuaram subindo, deslizando para além da dor, avançando por terrenos novos. Eu deveria tê-lo impedido, mas as palavras se afogaram na minha garganta.
Ele avançava rapidamente, com o caminho facilitado pelo creme. Os movimentos, cada vez mais erráticos, o levaram a espaços que ninguém havia tocado. Nem mesmo Sebastián. Os dedos afundaram e uma parte minha, adormecida havia anos, despertou. Meu corpo umedecido o reclamou com uma urgência silenciosa. Sua exploração avançou sem piedade, submetendo-me. Um gemido me escapou, profundo e visceral.
Suas mãos se detiveram de repente.
—Você está bem? —perguntou, a voz trêmula.
Apoiei a testa no chão. Não podia olhá-lo.
—Sim. Continue —respondi, envergonhada.
Ele obedeceu. O instinto e minhas contorções transformaram seu movimento desajeitado em algo rítmico e deliberado. A dor na perna se dissolveu sob o calor espesso que subia do meu interior. O corpo se tencionou até o limite e não foi preciso muito mais para ceder diante de um espasmo impiedoso que me esvaziou.
Quando terminei, ele retirou a mão. Fiquei imóvel. A respiração agitada enchia a cabana e a culpa pesava como um suor frio. Eu havia usado a curiosidade dele para saciar o vazio que me sufocava. Não disse nada. Olhei para ele e ele me devolveu o olhar esperando uma instrução, uma explicação. Eu não tinha nenhuma.
Comemos em silêncio e nos jogamos para dormir. Antes que o sono me reclamasse, a verdade caiu por seu próprio peso: nesta ilha, a linha nunca existiu.
***
Diário de náufraga. Entrada 5.
Vários dias se passaram. O silêncio sobre a massagem ficou mais pesado. Tomás não o mencionou e eu não ousava. Como mãe, eu deveria lhe dar uma palavra tranquilizadora, uma orientação. Mas minhas dúvidas sempre foram veneno.
Esta noite, enquanto o fogo consumia os últimos restos de lenha, toquei no assunto.
—Sobre o que aconteceu dias atrás —comecei, sem olhá-lo—. Você se lembra de que eu te disse que isso é algo normal? Algo que homens e mulheres sentem às vezes?
—Sim, as cosquinhas. Você me perguntou quando eu estava urinando outro dia.
—Isso mesmo. As cosquinhas.
—Durante a massagem você sentiu cosquinhas?
—Senti, meu amor. Suas massagens me deram cosquinhas.
—Eu nunca senti assim.
—Porque ninguém te ensinou —eu disse, forçando uma firmeza alheia—. Mas vou corrigir esse erro.
Sentei-me ao seu lado na esteira. Minha mão encontrou sua coxa e subiu, devagar, sem pressa. Expliquei que não se tratava de força, e sim de ritmo. De conhecer o próprio corpo. A tensão apareceu sob meus dedos como uma resposta imediata.
—Aqui? —perguntou ele, sua voz num sussurro.
—Sim. Mas não se trata de apertar. É como se você estivesse traçando um círculo. Veja como responde.
—Entendo —respondeu, com o fôlego curto.
—Agora você. Fique em pé na minha frente.
Ele se levantou, o corpo iluminado pelo fogo trêmulo. Começou a se acariciar com movimentos erráticos, desajeitados. Corrigi a velocidade, a pressão.
—Mais devagar. Não é uma corrida. Siga o percurso.
O ritmo constante o levou ao limite. Seu corpo se sacudiu e um resto morno saiu dele. Um espasmo de assombro lhe contraiu os ombros.
—Calma —eu disse, me aproximando—. É normal. Significa que você fez direito.
***
Diário de náufraga. Entrada 6.
Hoje foi o dia mais angustiante da minha vida nesta ilha. Mais do que o primeiro dia, mais do que a noite do parto.
Tomás saiu para nadar, como tantas outras vezes. Mar adentro estão os melhores peixes.
As horas passaram. O sol atingiu seu ponto mais alto e começou a baixar. Eu o esperava na praia, com os olhos cravados no horizonte. Nada. O pânico apertou minha garganta. Corri até o rochedo mais alto. Apenas o oceano imenso e indiferente. Nadei até onde ousei, gritando seu nome até a garganta arder. Nada.
O sol estava prestes a se esconder quando ele apareceu. Vinha se arrastando pela praia, mancando. Corri na direção dele. Tinha a perna inchada e avermelhada, marcada por finas linhas vermelhas.
—Uma água-viva —ele me disse, a voz quebrada—. Ela me picou. Minha perna paralisou. Fiquei boiando... horas. Não conseguia me mexer.
Eu o abracei com toda minha força. Beijei-o. Na testa, nas bochechas. Beijos maternais, de agradecimento. A pele sob meus lábios, seu cheiro de sal e medo, dobraram minha resistência. Desci a boca até a dele e o beijei.
Ele ficou imóvel, surpreso.
—Você nunca tinha me beijado assim.
—É outra forma de expressar amor —sussurrei contra seus lábios.
—Entendo.
E então ele me devolveu o beijo. Seus lábios, inexperientes mas famintos, se abriram sob os meus. Nossas línguas se encontraram, explorando, compartilhando saliva e fôlego na urgência do limite.
Levei-o para a cabana. Ajoelhei-me diante dele e esvaziei minha urina num recipiente. Passei o líquido amarelo sobre o ferimento e a ardência cedeu de imediato. Depois espalhei o creme em sua perna. Ele havia acalmado minha ansiedade quando eu mais precisava, e agora meu corpo exigia devolver o gesto. Minha mão subiu desde seu joelho, lentamente. Logo encontrei a tensão que procurava.
Abaixei-me e introduzi aquela dureza em minha boca. Foi uma apropriação. Movi a língua com um ritmo seguro, ditado por um instinto primordial. Ele se recostou e jogou a cabeça para trás. Meus dedos acariciaram com carinho a base dele enquanto a respiração se tornava errática e agitada. Minha saliva se misturava com um líquido transparente e espesso, de sabor salgado como o mar. Aumentei o ritmo, movendo os lábios com firmeza, exigindo o que já era meu. A base enrijeceu de repente e um gemido lhe rasgou a garganta. Seus músculos se contraíram por um segundo, antes de se romperem. Um espasmo o sacudiu ao me entregar sua essência e encher minha boca com um calor úmido. Engoli com satisfação, saboreando a vitória.
Adormecemos abraçados, com o cheiro de mar, de amônia e dele impregnado em minha pele.
***
Diário de náufraga. Entrada 7.
Faz dois dias desde a picada. Hoje de manhã desci até a escuridão da minha perversão e não há mais retorno.
Havíamos voltado à rotina e estávamos exaustos, cansados demais para nos mover. Ficamos ali, deitados, enquanto o despertar da ilha zumbia ao nosso redor. Voltei a dormir. Mais tarde, uma rigidez contra meu ventre me arrancou do sono. Eu tinha a perna jogada sobre o seu quadril e sua presença pulsava a centímetros de minhas dobras. Aproximei-me dele; sua pele sensível roçou meu centro. Não levou muito tempo até que meu corpo se abrisse como um convite silencioso. Tomás acordou com meu movimento. Beijei-o, um beijo profundo e cheio de promessas.
—Tem uma coisa que eu não te expliquei —disse, minha voz num sussurro.
—O quê?
—A tensão tem um propósito. Ela foi feita para ocupar o interior. Você entende?
Ele me olhou, processando a ideia.
—Mais ou menos. Por onde você urina?
Sorri.
—Não. Outro lugar. Vou te mostrar.
Peguei seus dedos e os levei até meu centro.
—Entendo. E supõe-se que o meu... tenha que ir aí?
—É a sensação mais bela que existe. A verdadeira união entre dois corpos.
—Quero experimentar —ele respondeu sem preconceitos.
Peguei a rigidez com a mão e a guiei até o ponto exato. Com uma leve pressão nos glúteos, ajudei-o a entrar. Um único gemido escapou de nós ao mesmo tempo.
—Aí... você gosta? —perguntei.
—É quente e úmido.
—Está assim porque eu também gosto.
—Fico feliz que você goste.
—Eu te quero.
As coxas dele apressaram o ritmo com movimentos mais rápidos, mais seguros. Deitei-me e o abracei com as pernas, puxando-o para mim, fundindo-nos. Logo a inércia se tornou incontrolável, um frenesi desesperado. Nossos corpos se chocavam, banhados em suor, gemendo num eco que encheu a cabana. Um som animal, libertado, rasgou minha garganta. O corpo dele se tencionou até o limite uma última vez e se esvaziou dentro de mim. Um calor que me preencheu por completo. Adormecemos assim, unidos.
À tarde, quando o sol começava a baixar, um piscar no horizonte quebrou a linha do mar. Um truque de luz, eu disse a mim mesma. Depois o lampejo se tornou constante. Luzes. Pequenas, mas inequívocas, rompendo a escuridão do oceano.
Um cargueiro. Ele viu nossa fogueira e se aproxima da ilha.
Acho que estamos prontos para voltar.