O segredo que guardamos desde sempre
Meu nome é Claudia. Tenho 43 anos. O homem com quem divido a cama, a mesa e os medos se chama Rodrigo, meu irmão mais novo, que no mês passado fez 41. Para o resto do mundo — para a nossa mãe em Valência, para nossos irmãos Iván e Patricia — somos os dois esquisitos da família, os que foram juntos para um vilarejo perdido de Teruel depois de uma crise minha que nunca souberam bem em que consistiu. Não fizeram perguntas demais. Às vezes, as famílias preferem não saber.
Vivemos em Blancas, um vilarejo de duzentos habitantes cercado por campos de cereal. Compramos uma casa de pedra aqui há nove anos, quando ainda tremiam nossas mãos toda vez que nos olhávamos na frente de alguém. É longe o bastante de Valência para que ninguém apareça sem avisar, e perto o bastante da capital de Teruel para levar as crianças ao médico. No inverno, o frio desce da serra e congela até os ossos, mas isso também nos protege. O frio afasta as pessoas.
O que houve entre nós começou muito antes de virmos para cá. No apartamento dos nossos pais no bairro do Carmen, em Valência. Eu tinha 27 anos e Rodrigo 25. Sempre havíamos sido os quatro irmãos mais parecidos: os mesmos gostos, as mesmas piadas, essa maneira de completar as frases um do outro sem precisar de palavras. Ele me dizia que eu era sua pessoa favorita no mundo e eu ria, porque o que isso podia significar vindo do seu irmão?
Demorei para perceber. Talvez porque não quisesse perceber.
Comecei a notar que minha roupa íntima desaparecia do cesto de roupa suja e reaparecia, mas diferente. Uma calcinha que eu tinha deixado amassada aparecia dobrada. Outra, de algodão branco, tinha o tecido da virilha rígido, endurecido, como se tivesse sido molhado e secado ao ar. Levei semanas para me atrever a admitir o que aquilo significava. Disse a mim mesma que era coincidência, que eu estava me confundindo, que eu mesma as havia tocado sem me lembrar. Mas, à noite, eu me tocava pensando nele, com dois dedos enfiados no cu, imaginando meu irmão gozando sobre minha calcinha suja, e eu gozava tão forte que precisava morder o travesseiro para não gritar o nome dele.
Até uma tarde de fevereiro.
Eu tinha saído para comprar algo e voltei antes da hora porque o supermercado fechava para inventário. A casa estava em silêncio. Meus pais estavam trabalhando e nossos irmãos tinham ido ao cinema. Subi as escadas e, antes de chegar ao patamar, ouvi o som. Rítmico, denso, acompanhado de uma respiração contida que reconheci embora nunca a tivesse ouvido assim.
A porta do quarto de Rodrigo estava entreaberta.
Me aproximei sem fazer barulho. Disse a mim mesma que ia só dar uma olhada para saber se ele estava bem. Mas eu soube, mesmo antes de olhar, que aquilo não tinha nada de inocente.
Vi-o de costas, sentado na beira da cama, curvado sobre si mesmo. As calças abaixadas até os tornozelos. A mão se movendo com urgência sobre uma rola grossa e vermelha, brilhante de saliva e de líquido pré-ejaculatório, a pele da glande esticada, o punho subindo e descendo com um ritmo desesperado. E na outra mão — naquela outra mão que ele apertava contra o rosto — reconheci o tecido.
Eram minhas calcinhas. As de renda bege que eu tinha vestido dois dias antes e deixado no cesto naquela manhã. Ele as tinha enfiado contra o nariz, com a virilha achatada contra a boca, a língua aparecendo entre o tecido para lamber o que restava do meu cheiro, respirando com desespero, enquanto repetia meu nome em voz muito baixa, quase em silêncio, como se tivesse medo de que seus próprios medos o ouvissem.
—Claudia… porra, Claudia… teu cu, irmã, teu cu…
Eu deveria ter ido embora. Era isso que eu tinha que fazer: dar meia-volta, descer as escadas, sair para a rua e não voltar até que o coração parasse de bater nos meus ouvidos. Mas eu não fui. Fiquei colada ao batente da porta, com a sacola de compras na mão, sentindo o calor subir pelo meu pescoço, os mamilos endurecerem dentro do sutiã e a calcinha encharcar de repente entre as pernas. Algo muito diferente de nojo percorria meu corpo de cima a baixo.
Entrei. Fechei a porta no trinco.
O clique metálico foi como um disparo. Rodrigo se virou de supetão. Pálido. Os olhos arregalados. A rola ainda dura e pulsando contra o ventre, vermelha até o prepúcio, com uma gota grossa tremendo na ponta. Ele tentou esconder a roupa atrás das costas e abaixar as calças ao mesmo tempo, e naquele movimento desajeitado e aterrorizado eu vi toda a sua vergonha e todo o seu desejo juntos, impossíveis de separar.
—Claudia, eu… isso não é o que… eu só… —ele gaguejou, e vi o maxilar dele tremer.
Deixei a sacola no chão. Me aproximei devagar, sem tirar os olhos da rola dele.
—Me dá —eu disse, apontando para o que ele escondia atrás das costas.
Ele abriu a mão lentamente, como se isso lhe custasse a própria vida. O tecido de renda estava amassado, morno e úmido, com manchas esbranquiçadas já secas de outras vezes e uma área nova, brilhante, onde ele acabara de esfregar a ponta da glande.
—Sou um doente —ele sussurrou, e as lágrimas caíram de repente, sem aviso, escorrendo pelo rosto sem que ele fizesse nada para detê-las—. Me desculpa, Claudia. Eu vou embora de casa, juro que vou. Você não precisa mais me ver se não quiser.
Me ajoelhei diante dele. Não pensei. Pus as mãos sobre os joelhos dele e o encarei de baixo, com a rola dura a um palmo do meu rosto, esperando que ele retribuísse o olhar.
—Desde quando? —perguntei.
Ele demorou um momento para responder. Quando respondeu, fechou os olhos.
—Desde sempre. Desde que eu sei o que sou. Me odeio por isso há anos. Guardo isso há anos. —Ele balançou a cabeça—. Estou ficando louco. Gozo pensando em você todas as noites, Claudia. Todas.
Eu deveria ter me levantado. Eu deveria ter dito algo sensato.
Em vez disso, tirei a roupa da mão dele, deixei cair no chão e agarrei a rola. Estava quente, mais grossa do que eu imaginara nas vezes em que me atrevi a imaginá-la, com as veias marcadas sob a pele esticada. Rodrigo deu um sobressalto e soltou um gemido abafado, como se o simples toque dos meus dedos doesse de tanto prazer contido.
—Olha pra mim —eu disse.
Ele abriu os olhos. E, sem tirar os olhos dele, levei a rola até a boca. Primeiro só a glande, chupando a gota que tremia na ponta, saboreando o gosto salgado e espesso do meu próprio irmão na língua. Depois mais fundo, empurrando com os lábios até sentir o peso dele contra o céu da boca e a cabeça bater na garganta. Rodrigo gemeu meu nome e agarrou meu cabelo, não para me forçar, mas para se apoiar em algo que o impedisse de desmaiar.
—Porra, Claudia, porra… você não pode… sua boca…
Chupei a rola dele devagar, usando a língua inteira, sugando-o todo e engolindo de novo, chupando os ovos, subindo pelo tronco com lambidas longas, cuspindo na glande e usando a saliva para masturbar com a mão enquanto lambia por baixo. Nunca na vida chupei uma rola com tanta vontade. Minha boca enchia d’água sabendo de quem era, sabendo o que eu estava fazendo, e essa ideia fazia meu cu escorrer dentro da calcinha.
—Vou gozar —ele ofegou—. Claudia, para, vou gozar na sua boca…
Não parei. Acelerei. Enterrei a rola até o fundo, apertei os lábios e senti o corpo inteiro dele se tensionar, os ovos encolherem contra a base, e o primeiro jorro de sêmen quente explodir na minha garganta. Ele gozou em jatos, longo, espesso, com um gemido partido que saiu do peito, agarrado ao meu cabelo, tremendo inteiro. Engoli tudo. Cada gota. E quando tirei a rola da boca, ainda meio dura, com um fio de saliva e sêmen pendendo entre meus lábios e a glande, lambi meus lábios devagar na frente dele.
—Agora me beija —eu disse.
E ele me beijou. Não foi um beijo suave. Foi o tipo de beijo que sai de um lugar onde você passou muito tempo apertando algo que não quer encarar de frente. Tinha gosto de lágrimas, de dentes, de sêmen e de anos sem se dizer nada. As mãos dele agarraram meus ombros, primeiro tentando me afastar, depois sem me soltar, depois arrancando minha camiseta pela cabeça e puxando o sutiã até minhas tetas saltarem para fora, pesadas, com os mamilos inchados.
—Não podemos —ele disse contra minha boca, já com as mãos cheias das minhas tetas, apertando, beliscando meus mamilos.
—Já estamos fazendo —respondi.
***
Ele me jogou na cama. Arrancou minha calça e a calcinha num só movimento e ficou olhando meu cu aberto, molhado, com os pelos aparados e os lábios brilhantes de tão encharcada que eu estava. Eu tinha as pernas totalmente abertas, sem vergonha, oferecendo tudo a ele.
—Olha pra mim —eu disse—. Olha o que você fez comigo.
Ele se lançou para me chupar. Enfiou a língua inteira, depois dois dedos, depois a língua de novo, chupando meu clitóris com uma fome acumulada de anos. Ele me lambia de olhos fechados, com o nariz esmagado contra o púbis, gemendo dentro de mim, e eu segurava a cabeça dele com as duas mãos e fod**ia sua boca, me esfregando, cavalgando o rosto dele, com as pernas fechadas ao redor das orelhas dele. Gozei na boca dele em menos de dois minutos, sacudindo-me inteira, com o orgasmo saindo do ventre em ondas, apertando os dedos dele com tanto força no meu cu que cravei as unhas no couro cabeludo dele.
—Me fode —eu arfei quando ainda não tinha parado de tremer—. Agora. Me fode agora.
Ele subiu na cama e abriu minhas pernas bem abertas. Colocou a rola entre os lábios do meu cu, esfregando-a no clitóris de cima a baixo, encharcando-se inteiro com meu fluxo. Eu agarrei a rola com a mão, coloquei-a na entrada e empurrei os quadris para cima.
Quando o senti dentro, nós dois ficamos quietos por um momento, nos olhando, como se precisássemos confirmar que aquilo era real. A rola dele me preenchia inteira, me abria até o fundo, e senti a pulsação dele nas paredes do meu cu.
—Você é minha irmã —ele disse, com a voz quebrada.
—Eu sei —respondi—. Agora me fode como se eu não fosse. Me fode como se você tivesse gozado nas minhas calcinhas mil vezes pensando nisso.
Ele começou a se mover. Devagar no começo, puxando-me até a glande e me enchendo de novo por completo, cada investida arrancando um gemido mais alto de mim. Depois mais rápido, segurando meus quadris, enfiando fundo com golpes secos que faziam meus peitos baterem no meu queixo. A cama rangia. A cabeceira batia na parede. E eu, por baixo, com as pernas abertas e as mãos agarradas aos braços dele, pedia mais.
—Mais forte, Rodrigo, mais forte, porra, me fode mais forte…
Ele me pôs de quatro. Agarrou meu cabelo com uma mão e o quadril com a outra e me comeu por trás, a rola entrando inteira de uma vez, arrancando de mim um grito que tive de abafar no travesseiro. Ele me fod**ia brutalmente, com os ovos batendo no meu clitóris a cada investida, esfregando meu rosto no lençol, sussurrando safadezas no meu ouvido.
—Vadia… minha irmã vadia… olha como eu enfio… como você gosta… olha meus ovos batendo em você…
—Isso, isso, assim, não para…
Ele tirou a rola e me virou de lado. Levantou uma perna minha e me penetrou de novo, e daquele ângulo a rola dele tocava um ponto que me fez ver estrelas. Gozei outra vez, escorrendo por cima dele, com meu cu apertando tanto que ouvi ele gemer de dor e prazer ao mesmo tempo. Ele não parou. Me virou de barriga para cima de novo, enfiou até o fundo e me fod**u olhando nos meus olhos, com a calcinha de renda bege — a que tinha começado tudo — ainda jogada ao lado da minha cabeça.
—Vou gozar dentro —ele ofegou—. Claudia, dentro, dentro…
—Goza —eu disse, agarrando a bunda dele com as duas mãos e puxando-o para mim—. Goza dentro da sua irmã. Me enche toda. Quero sentir você dentro de mim a tarde inteira.
Ele gozou com um grunhido animal, enfiando a rola até o fundo, tremendo sobre mim, e senti os jatos de sêmen quente explodirem dentro de mim, me enchendo, transbordando pelas bordas do cu e escorrendo pela bunda. Ele ficou ali, sobre mim, com a rola ainda dentro, pulsando, os dois suados, ofegantes, sem saber o que dizer.
Fodemos por mais horas, parando só quando ouvimos o bater da porta da entrada anunciando que alguém chegava. Nos separamos de repente, em silêncio, com os corações disparados, o sêmen ainda escorrendo pelas minhas coxas e a rola do meu irmão meio dura entre minhas mãos. Desde aquele dia, nada voltou a ser como antes.
***
Levamos dois anos para sair de Valência. Dois anos de noites roubadas, de desculpas e pequenas mentiras, de nos olharmos à mesa da família como se não soubéssemos tudo um do outro. Dois anos de entrar no quarto dele de madrugada e chupá-lo até acordá-lo, de me deixar foder contra a parede do banheiro com a mão sobre a boca para que ninguém ouvisse, de gozar montada nele com os pés apoiados na estrado da minha própria cama de solteira. Quando finalmente empacotamos as caixas e viemos para Blancas, dissemos que eu precisava mudar de ares. Que Rodrigo vinha me ajudar a me instalar e depois ficaria uma temporada. A temporada nunca acabou.
Aqui construímos uma vida que só existe dentro destas paredes. Lá fora, somos dois irmãos que se apoiaram num momento difícil. Por dentro, somos o que somos: duas pessoas que escolheram isso sabendo tudo o que implicava, inclusive o que viria depois.
Mateo e Noa nasceram quatro anos depois de nos instalarmos aqui. Gêmeos. Hoje têm cinco anos. Sabíamos dos riscos antes de tentar. Conhecíamos, havíamos buscado, havíamos lido em artigos que nenhum dos dois queria abrir, mas abrimos mesmo assim. Sabíamos que a consanguinidade multiplica as chances de certas coisas acontecerem. E fizemos mesmo assim, porque havia uma parte de nós que queria existir fora de nós mesmos.
A bala nos acertou de raspão.
Os dois são autistas. Notamos antes dos dois anos: o olhar evasivo, a ausência de apontar, os padrões rígidos de brincadeira que não admitiam variação. Mateo alinha objetos com uma precisão que espanta os terapeutas e tem uma capacidade para números que às vezes parece impossível numa criança da idade dele. Mas, se qualquer detalhe da rotina muda, o mundo desaba para ele. Noa ainda não fala. Emite sons, pequenos e musicais quando está tranquila, e gritos que atravessam seu peito quando algo a sobrecarrega. Ela vive num lugar ao qual nem sempre conseguimos chegar, e aprender a nos aproximarmos desse lugar sem forçar a entrada foi a coisa mais difícil que já fiz na vida.
Para a família, eles são filhos de um homem que desapareceu. Rodrigo é o irmão que se sacrificou. Às vezes, quando ligam por videochamada e veem as crianças correndo pela sala, dizem que Rodrigo se parece com elas, que tem a mesma maneira de mexer as mãos. Sorrimos e mudamos de assunto.
Rodrigo trabalha numa metalúrgica no polo industrial da cidade vizinha. Sai às sete da manhã e volta às sete da noite, com as mãos manchadas e os ombros pesados. Cada euro que ganha vai para as terapias, para o fonoaudiólogo que vem duas vezes por semana, para os materiais sensoriais de que Noa precisa para dormir, para a escola de educação especial onde levo as crianças todas as manhãs por uma estrada que no inverno congela.
Eu fico em casa. Meu trabalho são eles, e é o trabalho mais exaustivo que existe. Há dias em que Noa tem uma crise longa, daquelas que duram horas, e eu não posso fazer nada além de ficar perto e esperar passar, porque não posso explicar com palavras que a entendo nem ela pode me explicar o que dói. Esses dias me quebram por dentro de um jeito que não sei descrever a ninguém porque ninguém entenderia por completo. Mas então há momentos em que Mateo pega minha mão sem que eu tenha pedido, ou em que Noa se aproxima, apoia a cabeça no meu ombro e fica quieta, e sinto que tudo o que quebramos para chegar aqui tinha um sentido que eu também não saberia explicar em palavras.
***
À noite, quando a casa finalmente fica em silêncio, Rodrigo se senta aos pés da cama. Pega meus pés entre as mãos — essas mãos grandes e ásperas que durante o dia apertam parafusos e soldam metal — e começa a massageá-los devagar, dedo por dedo, com uma delicadeza que de longe ninguém imaginaria.
Às vezes ele ergue meus pés e os cheira. Beija o peito do pé. É um gesto que naquele momento não tem nada de sexual; é algo mais parecido com gratidão, ou contrição, ou as duas coisas misturadas em algo para o qual não existe nome exato.
—Me perdoa —ele diz, sem erguer os olhos—. Pelas crianças. Por tudo o que eu coloquei nas suas costas. Você merece uma vida mais fácil do que esta.
Eu me sento. Passo a mão no cabelo dele. E devagar, sem dizer nada, agarro a mão dele e a levo entre minhas pernas, por baixo da camisola, até que os dedos ásperos encontrem meu cu já molhado. Digo isso assim, com o corpo, porque as palavras não dão conta.
—Não se desculpe —eu digo—. Nunca. Vem cá.
Ele sobe na cama, se deita ao meu lado e me penetra por trás, muito devagar, agarrando uma teta com uma mão e esfregando o clitóris com a outra. Fodemos assim quase todas as noites, em silêncio para não acordar as crianças, com a boca colada ao meu ouvido sussurrando que me ama, balançando-nos até eu gozar apertando os dedos dele com o cu e ele gozar dentro de mim, mordendo meu ombro para não gemer.
Depois ele me abraça por trás, com a rola ainda dentro e já mole, e ficamos assim até um de nós dormir.
Sei que a culpa não desaparece. Vejo isso no jeito como ele olha para Mateo quando acha que ninguém está observando, na tensão dele quando Noa tem uma das noites ruins. A culpa o corrói por dentro, e não há como tirá-la completamente porque eu também não a tiro completamente de mim. Mas há diferença entre se carregar de culpa até não conseguir mais andar e saber viver com o peso das decisões que se tomou de olhos abertos.
Nós tomamos as nossas de olhos abertos. Isso eu não posso esquecer.
Quando digo que não mudaria nada, não estou mentindo por completo. Eu mudaria a dor das crianças se pudesse. Mudaria os dias em que o sistema não dá conta e as listas de espera se estendem por meses. Mas eu não mudaria eles. Não mudaria esta casa no meio do nada, com o vento batendo nas janelas no inverno e os campos amarelos no verão. Não mudaria este homem que massageia meus pés cansados e chora em silêncio porque me ama demais para não se culpar pelo que fizemos juntos.
Há uma frase que repito só para mim nos momentos mais difíceis: vivemos no segredo que escolhemos, não no segredo que nos escolheu.
Não sei se isso nos absolve. Não sei se algo pode absolver alguém de algo assim. Mas é o que temos, e nisso que temos também existe, entre tudo o mais, muita coisa que vale a pena.