A noite em que um cliente tirou a camisinha
Sou Valentina, e já faz três anos que trabalho nas noites de sexta. A essa altura, conheço o ritual de cor: a preparação, o ônibus, a esquina, a espera, o carro que para. Tem noites que passam sem incidentes, como uma burocracia. E tem outras que ficam na memória por razões que nem sempre consigo classificar direito. A noite de outubro foi uma dessas.
Me preparei devagar. Passei a base com cuidado, esfumando bem as bordas no pescoço e ao redor das orelhas, e usei o delineador preto que reservo para os dias de trabalho: preciso, sem falhas. Os lábios deixei por último porque sempre deixo por último, como se fosse o detalhe que decide todo o resto. Escolhi o vermelho vinho de sempre. Não o brilhante, mas o escuro, o que fica bonito com pouca luz e deixa marca nos copos.
Vesti a blusa preta de alças finas, a saia que me cobria até a metade da coxa, e as sandálias prateadas de salto que fazem minhas pernas parecerem durar até onde alguém quiser olhar. Por baixo, nada: sem calcinha, sem sutiã. É mais prático assim, e os clientes gostam de descobrir isso. Perfume no pescoço, nos pulsos, no espaço entre a blusa e a saia, e uma gota entre as coxas, bem acima da boceta depilada naquela mesma tarde. Olhei no espelho antes de sair. Estava bom. Não era vaidade: era controle de qualidade.
Fui de ônibus porque naquela noite não quis gastar com táxi antes de trabalhar. Sentei perto da janela e vi a cidade passar: os comércios de portas baixadas, os casais voltando de algum bar, os porteiros de prédio olhando a rua com cara de quem não está olhando nada. Fazia fresco, mas não frio. O tipo de noite em que as pessoas saem em busca de companhia, mesmo sem chamar assim.
Às dez cheguei na minha esquina de sempre. Acendi um cigarro e esperei.
***
Passaram dois carros devagar que não pararam. Um homem a pé perguntou o preço, achou caro demais e seguiu. Deixei ir sem comentário: eu não sou feira. Quarenta minutos depois chegou o que ficou.
Baixou o vidro do lado do passageiro, mas manteve o motor ligado. Uns quarenta anos, cabelo curto com fios grisalhos nas têmporas, gravata afrouxada como se tivesse saído de uma reunião longa. Não era feio. Não era bonito. Era o tipo de homem que a gente nota porque olha de frente, sem a ansiedade culpada que muitos têm naquele primeiro momento.
—Quanto? — perguntou.
Falei o preço sem enfeite. Ele aceitou sem pechinchar, o que é sempre um bom sinal. Abri a porta e entrei.
Saímos sem apresentações. Ele dirigia com uma mão no volante e a outra apoiada perto da alavanca, a centímetros do meu joelho, mas sem tocar. Reparei nisso também: sabia esperar. Há diferença entre os que apalpam desde o primeiro semáforo e os que guardam a ansiedade para a hora certa.
Em poucas quadras, pus a mão na coxa dele e fui subindo até o volume que já marcava contra o tecido da calça. Estava duro antes de eu tocar, preso de lado, desconfortável. Abri o zíper devagar, puxei o elástico da cueca e tirei o pau pra fora. Era grosso, com a veia principal marcada e a cabeça já brilhando de precum. Agarrei com a mão inteira e fiz uns punhetões lentos, apertando o prepúcio para baixo, para deixar a glande toda exposta.
—Dirige tranquilo — eu disse.
Me inclinei sobre a alavanca de câmbio e coloquei na boca. Primeiro só a cabeça, chupando com os lábios fechados ao redor da borda, tirando o ar para fazer mais pressão. Depois desci, devagar, deixando a boca se encher, até a ponta bater no fundo da garganta e eu ter de segurar o reflexo. Subi de novo com a língua colada por baixo, desenhando a veia de cima a baixo, e desci outra vez. Um ritmo longo, molhado, barulhento. A cidade passava do lado de fora das janelas sem perceber nada. Ele dirigia com os olhos na pista e a mão só encostada na minha cabeça, sem empurrar, apenas para ter onde se apoiar. Eu sentia os quadris dele se tensionarem cada vez que eu engolia o pau até o fundo.
—Meu Deus — disse em voz baixa. Não era para mim. Era para ele mesmo.
Dediquei mais alguns minutos, babando em cima, deixando a saliva escorrer pelo comprimento até os ovos, que apertei com a outra mão. Quando chegamos ao motel, ele estava completamente ereto, encharcado, pulsando. Limpei os lábios com o dorso da mão, conferi se o vermelho seguia mais ou menos intacto — uma marca circular no começo do pau dele, como um anel — e esperei ele estacionar o carro.
***
O quarto era exatamente o que eu esperava: cama de casal, espelho emoldurado na parede do fundo, banheiro com uma única toalha dobrada sobre o vaso. Deixei a bolsa sobre a mesa e fui ao banheiro lavar as mãos. Um momento só meu, para ajustar o ritmo.
Quando saí, ele já estava sentado na beira da cama, com a camisa meio aberta e os sapatos no chão. Tinha baixado a calça até os joelhos e o pau ficava apontado para o teto, apoiado na barriga. Me olhou de um jeito diferente de como tinha me olhado no carro. Com mais atenção, talvez. Como se só agora estivesse processando o que tinha na frente.
Tirei a blusa pela cabeça e deixei ele ver os peitos, menores do que ele provavelmente esperava, mas com os mamilos bem marcados pelo frio do ambiente. A saia deixei no lugar, levantada até a cintura. Ajoelhei na frente dele, entre as pernas abertas, e agarrei o pau com as duas mãos.
—Olha pra mim — eu disse.
Passei a língua dos ovos até a ponta, uma lambida longa só, e, na glande, pressionei a língua achatada sobre a fenda, saboreando o precum salgado. Depois coloquei inteiro na boca de novo, dessa vez sem pressa, com mais calma, consciente de que não iríamos mais a lugar nenhum. Chupei os ovos um por um, tomando meu tempo, e subi de novo. Ele pôs a mão na minha cabeça, não para controlar, mas para se apoiar. A respiração foi ficando mais irregular. Trabalhei o freio com a ponta da língua, em círculos, até sentir as pernas dele se tensionarem debaixo de mim. Quando senti que estava pronto, peguei a camisinha na embalagem com os dentes, a coloquei nos lábios e a desenrolei pelo pau só com a boca, até a base, sem usar as mãos. Uma coisa que sempre os surpreende, mesmo quando já viram antes.
Fiquei de pé, levantei a saia até a cintura e subi nele.
Agarrei o pau pela base e fui me colocando devagar, deixando-me descer centímetro por centímetro. A primeira sensação foi familiar: o tamanho dele, o formato, o látex morno pelo calor, o alongamento inicial que sempre arde um pouco. Quando o tive inteiro dentro, fiquei quieta um segundo, sentada sobre ele, sentindo bem no fundo. Ele segurou minha cintura com as duas mãos enquanto eu começava a me mexer. Não era exagerado, mas era satisfatório. Ajustei nos primeiros movimentos e encontrei o ângulo que funcionava, o que fazia meu clitóris roçar no púbis dele cada vez que eu descia.
Ele não movia os quadris. Só me sustentava, me deixando controlar completamente o ritmo. Tinha os olhos semicerrados e a boca entreaberta. Cada vez que eu descia com força, ele puxava o ar entre os dentes. Gostei mais disso do que se ele estivesse gritando.
Segurei uma mão dele e pus no meu seio. Ele entendeu e apertou meu mamilo entre dois dedos, puxando de leve. Cavalguei mais rápido, me apoiando com as palmas no peito dele, sentindo como ele entrava inteiro e saía quase até a ponta a cada balanço. O quarto foi esquentando. O som da minha bunda batendo contra as coxas dele encheu o cômodo.
Cavalguei por vários minutos, até sentir minhas pernas começando a tremer pelo esforço e perceber que ele já não aguentava ficar parado por muito mais tempo.
***
Depois de um tempo, com a voz rouca e baixa, ele me disse:
—Quero você de quatro.
Desci, sentindo o vazio imediato do pau saindo, e me posicionei de joelhos na cama, apoiada nos cotovelos, a saia ainda enrolada na cintura, a bunda bem alta. Abri bem as pernas, sabendo que por trás ele veria tudo: a boceta aberta, brilhante, e o cu mais acima. Ele se colocou atrás de mim. Senti as mãos na minha cintura, mais firmes agora, menos cerimoniosas. Agarrou o pau com uma mão, passou umas duas vezes pelos lábios da boceta para lambuzá-lo, e então se enterrou de uma vez, fundo, até onde conseguiu chegar.
Gem eu forte, com a boca contra o lençol. Não foi um gemido fingido: foi a reação imediata àquela primeira penetração, que sempre tem algo diferente do que vem depois, mais direta, mais completa. Nessa posição ele parecia maior, tocava lugares que, sentada por cima, não alcançava.
—Assim — disse ele.
Começou a se mexer. Apoiei a testa no antebraço e fechei os olhos. Ele tinha um ritmo constante, sem pausas nem variações, entrando inteiro e saindo até a ponta, cada estocada chegando ao fundo. A cama rangia levemente a cada movimento. Eu sentia os ovos dele batendo no meu clitóris a cada investida, e aquele barulho molhado, chapinhado, da boceta já bem encharcada se abrindo para ele outra vez e outra vez.
E então algo mudou.
Não foi dramático. Não houve um som diferente nem um movimento diferente. Foi só uma sensação: mais calor, mais atrito direto. A pele do pau dele roçando nas paredes da boceta sem a barreira plástica do látex. Uma umidade que reconheci porque já a tinha sentido antes, anos atrás, numa época em que eu não exigia camisinha logo de cara.
Não.
Abri os olhos. Ele continuava se mexendo. As mãos na minha cintura eram as mesmas. O ritmo era o mesmo. Mas o que eu sentia já não era o mesmo. O pau entrava mais fundo, mais quente, mais vivo. Em algum momento ele tinha tirado a camisinha ou ela tinha escapado, e ele não tinha dito nada.
Fiquei quieta por um segundo.
Ele também não parou. Pelo contrário: aproveitou que eu estava imóvel para me cravar até o fundo e ficar ali, apertando meus quadris, apoiando todo o peso.
Aí começou o que me custa explicar: eu não me afastei. Não gritei. Não disse nada. O que fiz foi ficar exatamente onde estava, com ele dentro, se mexendo, enquanto minha cabeça processava a informação mais devagar do que meu corpo.
Eu devia ir embora. Isso era o certo.
Mas o corpo às vezes tem seu próprio sistema de decisão, e o meu naquele momento estava respondendo à sensação direta antes que eu pudesse transformá-la numa escolha consciente. Havia algo brutalmente diferente naquilo: mais calor, mais pressão, a textura da pele real contra a minha, uma intensidade que o látex nunca transmite por inteiro, mesmo quando está bem colocado. E, o que me custava admitir ainda mais, minha boceta estava se molhando mais do que antes, se apertando ao redor dele sem que eu pudesse evitar.
—O que você fez? — perguntei, sem me mover, sentindo-o pulsar dentro de mim.
Ele parou por um instante. Não para se desculpar. Para responder.
—O que você merecia — disse.
Não era uma resposta que justificasse nada. Mas as duas coisas eram verdade ao mesmo tempo: o que ele fez estava errado, e a sensação era diferente de um jeito que eu não podia ignorar.
Ainda posso ir embora.
Não fui.
—Termina o que começou — eu disse —. Dentro. É isso.
Algo mudou nele. Como se a frase tivesse liberado algo que antes estava só contido. As mãos na minha cintura apertaram um pouco mais, os dedos se cravando na carne. O ritmo ficou mais fundo, mais direto, com menos distância entre cada movimento. Ele me comia sem medir, com o pau inteiro, tirando quase tudo para enfiar de novo num golpe só. Cada estocada me empurrava para frente, e ele me puxava pelos quadris para que eu voltasse a me empalar nele.
Me agarrei ao travesseiro, mordendo-o. Um dedo dele desceu, entre minhas pernas, e encontrou o clitóris. Começou a esfregá-lo em círculos, desajeitado, mas constante, enquanto continuava me fodendo por trás. Minha boceta se apertou ao redor dele, involuntariamente, e senti o orgasmo subindo pelo ventre, quente e súbito. Gozei com o rosto afundado no travesseiro, tremendo inteira, apertando-o por dentro com os espasmos, molhando o pau dele com meu próprio gozo.
Ele acelerou ainda mais. O quarto se reduziu ao som dos dois respirando, ao estalo do sexo, à carne batendo contra carne, ao calor acumulado sob os lençóis revirados, ao movimento que já não tinha nada de transacional nem de formal. Senti os ovos dele se contraírem, o pau inchar, o ritmo perder a cadência um instante antes.
Quando terminou, fez dentro. Senti tudo, sem mediação: os dois primeiros jatos contra a parede do fundo, quentes, e depois o pulso repetido, cada vez mais, um calor que se expandiu por dentro e durou mais do que eu esperava. Ele ficou imóvel por alguns segundos, ainda dentro de mim, esvaziando-se até a última gota, com a testa apoiada nas minhas costas.
—Meu Deus — disse pela terceira vez naquela noite. Mas dessa vez foi diferente. Dessa vez era comigo mesmo.
Quando finalmente saiu, senti o sêmen escorrendo por dentro da coxa, morno, espesso, caindo em um fio lento sobre o lençol. Fiquei um momento de quatro, respirando, sentindo como a boceta se abria e se fechava sozinha, expulsando aquilo aos poucos.
***
Nos separamos sem drama. Ele foi ao banheiro. Eu me sentei na beira da cama, com as pernas ainda fracas, e me olhei no espelho da parede. O delineador levemente borrado no canto direito. O cabelo um pouco desgrenhado. Os lábios ainda vermelhos, embora mais opacos do que quando saí de casa. Entre as pernas, uma mancha úmida já marcava o lençol debaixo de mim.
Eu estava exatamente igual a sempre.
Quando ele voltou do banheiro, estava abotoando a camisa. Colocou as notas sobre a mesa, o preço combinado. Não disse nada sobre a camisinha. Eu também não. Havia coisas que poderiam ter sido ditas, perguntas que poderiam ter sido feitas, uma cobrança que eu tinha todo o direito de fazer. Ficaram em silêncio.
Não sei se foi porque eu não quis conflito. Não sei se foi porque uma parte de mim não queria enquadrar o que aconteceu nesses termos. Talvez tenha sido simplesmente porque já não havia nada a recuperar, e exigir mais dinheiro ou dar sermão parecia igualmente vazio.
Saímos do quarto na mesma hora. Ele seguiu pelo corredor até o estacionamento. Eu esperei na recepção e pedi um táxi por telefone.
Lá fora fazia mais frio do que antes. Cruzei os braços e esperei.
No táxi de volta não coloquei música. Olhei a cidade pela janela, igual na ida, mas já não eram os mesmos prédios, mesmo sendo os mesmos. Algo no enquadramento tinha mudado e eu não saberia explicar exatamente o quê. Ainda sentia o resto dele escorrendo entre as pernas, encharcando a calcinha que eu não usava.
Não sei se o que aconteceu naquela noite foi bom ou ruim. Sei que foi real, mais concreto do que muitas outras noites naquele trabalho. Sei que escolhi ficar quando podia ter ido embora, e que essa escolha foi minha, mesmo sem eu tê-la planejado.
Também sei que, meses depois, ainda penso nisso às vezes. Não com culpa, mas com algo mais difuso, como quando você se lembra de um sonho que não saberia classificar como bom ou ruim, mas que, de algum jeito, você não queria que acabasse.
Esse tipo de lembrança é a que dura mais.