A noite em que Valentina cobrou o que vale
Valentina tinha conhecido Rodrigo três semanas antes, em um bar do centro histórico. Era um homem de uns quarenta anos, terno escuro, mãos grandes e o tipo de segurança que só o dinheiro e o costume de ter tudo o que se deseja podem dar. Naquela primeira noite, sem muitos preâmbulos, Valentina acabou de joelhos no banheiro do bar, olhando nos olhos dele enquanto ele enredava os dedos em seu cabelo. O combinado ficou claro desde então, sem necessidade de dizer muita coisa.
— Sei que você gosta dos que pagam bem — disse ele, sem que soasse como pergunta.
— Gosto dos que sabem o valor das coisas — respondeu ela.
Desde aquela noite, Rodrigo lhe enviava presentes. Lingerie de seda, perfumes europeus, dinheiro vivo dentro de envelopes de papel pardo. Valentina gostava de ser tomada sem contemplações, mas também adorava saber que eles tinham de dar algo em troca. Não era uma questão de necessidade. Era uma questão de princípios.
***
A ligação chegou numa quarta-feira à tarde, quando Valentina terminava de se maquiar diante do espelho do banheiro. Viu o nome de Rodrigo na tela e largou o batom sobre a prateleira antes de atender.
— No sábado tenho três amigos que querem te conhecer — disse ele ao telefone—. Falei de você para eles. Disse que você é a melhor companhia possível... e que você não é de graça.
Valentina se olhou no espelho por um instante antes de responder.
— Quantos são?
— Três. Mais eu.
— Quatro — repetiu ela em voz baixa, calculando—. Cada um traz a sua parte. Sem exceções. E sem surpresas de última hora.
— Eles já sabem. Cada um leva presente e dinheiro. Você decide se aceita ou não quando chegar. Se alguma coisa não te agradar, você vai embora e pronto.
Valentina apoiou uma mão na pia e olhou para o teto por um segundo.
— Diga a eles que sim. Mas na quarta-feira seguinte você me deposita o que acertarmos, sem eu ter que pedir.
— Feito.
— Então até sábado.
***
Ela se preparou com antecedência. Banho demorado, creme em cada centímetro da pele, o ritual completo de quem sabe que vai ser observada com atenção sustentada durante horas. Escolheu um vestido de cetim vermelho que lhe chegava justo abaixo dos glúteos, lingerie preta de renda que mal cobria o necessário, meias arrastão e um salto que a deixava quase na altura de qualquer um deles. Diante do espelho, se estudou por um longo momento.
É exatamente isso que eu sou.
Magro, com quadris largos e glúteos redondos que o vestido marcava sem disfarce. O batom no mesmo vermelho do tecido. O cabelo castanho, longo e ondulado, caindo sobre os ombros. Valentina não fingia ser algo que não era: era uma mulher trans que sabia exatamente quanto seu corpo e seu tempo valiam, e naquela noite pensava que os quatro iam entender isso muito bem.
Tomou um táxi até o décimo quarto andar, com vista para o rio. No elevador, retocou o batom e conferiu se a bolsa estava bem fechada.
***
Quando entrou, os quatro estavam de pé perto da janela, com copos de uísque na mão. Rodrigo, Damián, Sebastián e Iván. Sobre a mesa de jantar havia quatro pacotes embrulhados em papel de presente e quatro envelopes brancos empilhados com capricho. Valentina olhou para eles primeiro, depois para a mesa, e assentiu levemente.
— Cavalheiros — disse Rodrigo —, apresento a vocês Valentina.
Os quatro a olharam da forma específica como se olha para algo que custou dinheiro e promete valer cada centavo. Valentina reconheceu esse olhar e não se incomodou. Fazia parte do acordo.
O protocolo foi simples: cada um se aproximou, lhe entregou seu presente e seu envelope, e recebeu um sorriso em troca. Damián lhe trouxe um colar de prata com uma pedra azul que brilhava sob a luz do teto. Sebastián, um par de brincos de ouro trabalhados à mão. Iván, um relógio fino com pulseira de couro marrom. Rodrigo acrescentou outro envelope com o dobro do combinado, sem dizer nada a respeito, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Valentina guardou tudo na bolsa sem pressa, conferindo cada um com calma.
— Obrigada, papais — disse, olhando um por um—. Já que pagaram, esta noite estou completamente à disposição de vocês.
***
Foi Rodrigo quem se aproximou primeiro. Deslizou as mãos pelas coxas dela por trás, ergueu o vestido com calma deliberada, mostrando aos outros a calcinha preta que desaparecia entre os glúteos. Os outros três observavam de perto, os copos já esquecidos sobre a mesa.
— Ela é exatamente como eu descrevi — disse Rodrigo aos amigos, sem tirar as mãos dela—. E isso é só o começo.
Valentina se acomodou no sofá grande, de quatro, com o vestido levantado até a cintura e assim ficaria. Quatro homens ao redor dela, e a sensação daquele poder particular que tem quem dá acesso a algo que pode negar quando quer. Essa tensão, essa margem de decisão que nunca desaparece por completo, era parte do que fazia noites como aquela parecerem interessantes para ela.
Começou por Rodrigo. Pegou-o com a mão esquerda enquanto levava a boca a Damián, abrindo-a devagar, deixando a língua deslizar por todo o comprimento antes de fechá-la de novo sobre ele com um movimento úmido e firme. Chupou a ponta, percorreu a base com a boca e, quando sentiu Rodrigo tensionar os quadris, ergueu o olhar com um sorriso torto. Damián, ao lado, já estava perto demais para fingir calma. Valentina levou Damián à boca depois, alternando sucção e pressão com uma paciência cruel, enquanto continuava apertando Rodrigo com a mão, marcando o ritmo com os dedos e com a língua. Sebastián e Iván esperavam ao lado com uma paciência tensa que ela achava muito satisfatória.
É assim que deve ser.
***
Quando Iván se colocou às costas dela, Valentina soltou o ar devagar. Sentiu os dedos dele sem pressa, a umidade do óleo morno que alguém havia deixado sobre o braço do sofá sem que ela pedisse. Ela apreciava isso nos que já tinham feito aquilo antes: sabiam que a pressa destrói o que é bom.
A entrada foi lenta. Centímetro a centímetro, a pressão se construindo com paciência até que algo cedeu e Valentina soltou o ar que vinha prendendo sem perceber. O corpo primeiro se enrijeceu por reflexo, depois foi se abrindo, acomodando-se àquele volume que a preenchia por dentro. Iván não se apressou. Empurrou só um pouco, recuou o suficiente, voltou a entrar mais fundo, e esse vai e vem arrancou de Valentina um gemido rouco que ela não se deu ao trabalho de conter.
— Aí — disse em voz baixa—. Devagar no começo.
Iván obedeceu. Os quadris dele começaram a se mover num ritmo medido, e ela voltou ao que tinha à frente: a boca cheia, as mãos ocupadas, o corpo trabalhando em várias direções ao mesmo tempo. A ardência inicial foi se dissolvendo até virar algo denso e quente que descia da base da coluna para as pernas. Valentina fechou os olhos por um instante e deixou que o corpo encontrasse seu próprio ritmo dentro do ritmo dos quatro. A saliva escorria no canto da boca, o cabelo caía sobre o rosto, e ainda assim ela continuava se movendo, engolindo, rodeando com a língua, apertando com as coxas quando outro corpo se acomodava perto dela.
— Não para — disse a Iván, quando ele diminuiu sem necessidade.
O ritmo acelerou.
***
Damián foi o primeiro a terminar. Fez isso com brusquidão, segurando-a pelo cabelo, e Valentina o recebeu sem se afastar, engolindo a pressão final com a mesma disciplina com que o havia levado até ali. Quando ele terminou e se recostou, Sebastián tomou o lugar antes que passassem dois segundos.
Era mais largo que Iván. Valentina percebeu na hora e respirou fundo, deixando o corpo levar o tempo necessário para se acomodar. Sebastián a segurou pelas ancas, ajustou o ângulo com cuidado e começou a se mover. Em poucos minutos encontrou algo preciso, sem que ela precisasse indicar. Cada investida arrancava de Valentina um gemido mais alto, mais quebrado, enquanto ele a preenchia com força constante, firme, fazendo o sofá ranger sob o vai e vem.
— Aí — repetiu Valentina, mas desta vez de outro jeito. Mais urgente.
As pernas dela tremeram. Aquele ponto que Sebastián tinha encontrado continuou recebendo cada investida direta e rítmica, sem descanso. Valentina apoiou a testa no braço do sofá e fechou os olhos. A pressão foi crescendo de um jeito impossível de ignorar ou controlar, até que o corpo decidiu por ela: um espasmo longo e profundo que a sacudiu inteira enquanto Sebastián continuava sem parar, sem mudar o ritmo, como se estivesse esperando exatamente aquilo. O tremor subiu da barriga até a garganta e escapou em um gemido alto, aberto, impossível de esconder.
Rodrigo, que naquele momento tinha a boca de Valentina ocupada, sorriu.
— Aí está — disse em voz baixa, quase para si mesmo.
Sebastián terminou pouco depois, com um som grave e as mãos apertadas sobre as ancas dela. Valentina ficou um momento parada, respirando com os olhos ainda fechados.
***
Rodrigo a pegou pela mão e a levou até a parede de vidro. A cidade inteira brilhava quatorze andares abaixo, alheia, indiferente. Ele a fez curvar as costas para a frente, as palmas apoiadas no vidro frio, e entrou sem aviso prévio.
A temperatura do vidro contra as palmas e o calor dele por dentro era uma combinação de que Valentina não esperava gostar tanto. A pressão a fez arquear um pouco mais, procurando sem querer um ângulo melhor, e Rodrigo aproveitou de imediato para colá-la contra si, empurrar mais fundo e mantê-la assim, aberta e exposta diante da janela. Ela olhou para baixo, para a cidade em miniatura, e sentiu o contraste dos dois extremos do corpo ao mesmo tempo.
— Olha para eles — disse Rodrigo ao ouvido dela, apontando com um gesto para os outros três que continuavam na sala—. Todos pagaram para estar aqui. Para te ver assim.
Valentina ergueu o olhar. Damián, Sebastián e Iván a observavam do fundo do apartamento, copos na mão, com o tipo de atenção concentrada que não finge nada. Havia algo naquele escrutínio, em se saber o centro de quatro pares de olhos ao mesmo tempo, que produzia exatamente o efeito que Rodrigo queria.
Ele começou a se mover com força. As nádegas de Valentina batiam contra o quadril dele com um som seco e repetido que enchia o silêncio do décimo quarto andar. Ela fechou os olhos, o vidro frio nas palmas, e se deixou levar completamente pelo ritmo. Cada golpe lhe arrancava um suspiro curto; cada pausa, uma necessidade ainda mais intensa. Rodrigo a segurava com força pelos quadris, marcando o vai e vem sem lhe dar espaço para perder o compasso.
— Não para — pediu.
Rodrigo não parou.
***
O que veio depois foi mais difícil de acompanhar em ordem. Mudavam-na de posição com frequência: de barriga para cima sobre a mesa, com as pernas erguidas e os saltos apontando para o teto, de joelhos no chão entre dois deles, sentada sobre um enquanto outro lhe puxava o cabelo por trás. Valentina tinha entrado no apartamento com uma ideia aproximada de como seria a noite e essa ideia já não servia para nada.
Em algum momento, Iván a deitou no tapete. Colocou-se sobre ela, levantou suas pernas sobre os ombros e a penetrou por cima, aproveitando todo o peso do corpo em cada movimento. Era uma posição que não deixava para onde ir, nenhum espaço para se mover: só receber o que viesse. Valentina cravou os dedos no tapete e aceitou o ritmo sem resistência, sentindo como a umidade, o atrito e a pressão iam se acumulando de novo no corpo, cada vez mais perto do limite. Rodrigo, ao mesmo tempo, agarrou sua nuca com uma mão e a obrigou a erguer a cabeça só o suficiente para beijá-la com fome, enfiando a língua em sua boca enquanto outro corpo continuava se movendo dentro dela.
Durante muito tempo, não houve conversa. Só respirações, o rangido do assoalho quando alguém mudava de posição, o barulho específico de corpos que se conheciam pela primeira vez com uma honestidade sem rodeios.
Valentina fechou os olhos e pensou em nada em particular. Só na sensação, que era considerável.
***
Perto da meia-noite, os quatro já tinham terminado ao menos uma vez e o ritmo da noite havia mudado de tom. As vozes estavam mais baixas, os movimentos mais lentos. Valentina ficou deitada no sofá, as meias arrastão amassadas até os tornozelos, o vestido vermelho dobrado sobre o braço do sofá, o cabelo completamente desfeito. Os saltos continuavam nos pés, não por vaidade, mas porque ela havia se esquecido de tirá-los em algum momento do caos.
Rodrigo se sentou ao lado dela. Colocou um copo de água gelada em sua mão sem dizer nada.
— Como você está? — perguntou depois de um instante.
— Bem — disse ela, e dizia a sério.
Os outros três se tinham espalhado pela sala, se recuperando em silêncio com aquela camaradagem tranquila de quem compartilhou algo intenso. Damián tinha encontrado sua jaqueta e a segurava sem vesti-la ainda. Sebastián olhava pela parede de vidro com as mãos nos bolsos. Iván tinha desaparecido rumo ao banheiro e ouvia-se o ruído distante da água.
Sobre a mesa de jantar, os envelopes continuavam ali. O colar azul brilhava no pescoço de Valentina. O relógio no pulso.
***
Rodrigo acariciou o cabelo dela com calma, sem pressa, como quem tem todo o tempo do mundo.
— Na semana que vem? — perguntou por fim.
Valentina terminou a água antes de responder. Deixou o copo sobre a mesa de centro e se ergueu devagar, procurando os sapatos com um pé.
— Depende do que oferecerem.
— O dobro do que foi hoje. Os mesmos quatro.
Sempre o mesmo argumento. Sempre funciona.
Ela se levantou com a calma de quem sabe que a noite terminou a seu favor. Pegou o vestido, foi até o banheiro retocar-se brevemente e voltou com o cabelo preso em um coque imperfeito e o batom ligeiramente refeitos. Vestiu o vestido de novo, conferiu se os envelopes continuavam na bolsa e dirigiu-se à porta sem pressa.
No batente, virou-se por um momento, olhando para os quatro dali.
— Me liga na quarta-feira — disse a Rodrigo—, e a gente vê.
Depois, aos quatro em geral, com um sorriso breve e direto:
— Foi um prazer, cavalheiros. Caro, sim. Mas valeu cada centavo, e vocês sabem disso.
Fechou a porta atrás de si.
No elevador, a caminho do lobby, olhou para si no espelho metálico da cabine. O colar azul caía bem nela. O relógio também. Sorriu para ninguém em particular e esperou as portas se abrirem no térreo.