A praia de nudismo onde enfim fui eu mesma
Para Rodrigo eu era Sofia. Era assim que ele me chamava quando estávamos sozinhos, quando me envolvia por trás naquela cama pequena do apartamento alugado e sussurrava no meu ouvido tudo o que ia me fazer, tudo o que já tinha me feito, tudo o que me fazia esquecer o resto do mundo. Para Claudia, minha mãe, eu continuava sendo Santi: Santiago, seu filho mais velho, aquele que sempre tivera algo difícil de nomear nos gestos, na maneira de caminhar, no riso.
Eu estava havia quatro meses com hormônios quando mamãe anunciou que vinha me visitar. Quatro meses que tinham me mudado mais do que eu teria imaginado ser possível: os peitos ainda pequenos, mas já inconfundíveis por baixo de qualquer camiseta, os mamilos mais sensíveis, mais escuros, inchando com qualquer roçada; a pele mais macia nos antebraços, os quadris ligeiramente mais largos, a bunda se arredondando de um jeito que Rodrigo não se cansava de morder. Eu morava num apartamento pequeno de frente para o mar, numa praia do litoral atlântico onde ninguém me conhecia de antes. Onde Sofia podia existir sem dar explicações.
—A gente diz que sou teu colega de apartamento — tentou Rodrigo, na noite anterior à chegada dela—. Cobrimos a tua parte com roupa e pronto. Uma semana.
Fiquei olhando para ele por um momento. —Uma semana fingindo que eu não existo.
Ele não respondeu. Os dois sabíamos o que isso significava.
Fui para o banho e fiquei um bom tempo sob a água quente, com o rosto erguido e os olhos fechados. Pensei em quantas vezes eu tinha feito aquilo antes: desaparecer na água para não precisar decidir. Mas havia algo diferente agora. Já não era o corpo que eu sempre quis esconder. Era o meu.
Saí do banho e não disse mais nada sobre o assunto.
***
Mamãe chegou numa terça-feira ao meio-dia, com uma mala de rodinhas e aquele jeito dela de entrar nos lugares olhando tudo ao mesmo tempo. Me olhou da porta por alguns segundos. Depois entrou, largou a mala e me abraçou.
Não disse nada sobre meu cabelo, que me chegava aos ombros. Não disse nada sobre a roupa, que era feminina embora larga. Simplesmente me abraçou.
Naquela noite jantamos os três com conversa de superfície: a viagem, o mar, o preço do aluguel. Rodrigo foi amável e sem falhas. Eu estava tensa de um jeito que os músculos percebem antes da cabeça. Às onze, mamãe foi para o sofá-cama que tínhamos preparado, e Rodrigo e eu entramos no quarto.
Não sei bem como começou. Eu vinha havia dias com essa tensão acumulada no corpo que conheço bem: esse calor surdo que começa no estômago e desce sem pressa até a bunda, até me deixar pulsando a cada passo. Mal fechamos a porta, Rodrigo me prensou contra a parede e enfiou a língua na minha boca, a mão já descendo pela calça do pijama, os dedos me procurando entre as nádegas por cima do tecido. Ele mordeu meu pescoço, a orelha, o lóbulo.
—Você tá com tesão desde que ela chegou —me disse ao ouvido, com aquela voz baixa e rouca que me fazia tremer—. Eu te conheço. Você tá com a bunda apertada e molhada desde o jantar.
—Cala a boca e me despe —lhe disse.
Ele arrancou a camiseta por cima da minha cabeça e ficou um segundo olhando meus peitos, com aquela cara que sempre fazia, como se nunca terminasse de acreditar. Agarrou-os com as duas mãos, apertou os mamilos entre os dedos até me arrancar um gemido, inclinou-se e chupou um deles, devagar primeiro, depois com fome, arranhando com os dentes enquanto eu enterrava as mãos no cabelo dele. Senti a boceta —porque era assim que ele chamava e assim eu tinha aprendido a chamar também, embora a anatomia dissesse outra coisa— latejar entre as pernas. Senti o pau ainda meu endurecer contra a minha vontade, aquela contradição que quatro meses de hormônios ainda não tinham conseguido apagar, mas só amaciar.
Ele me empurrou para a cama. Fiquei de bruços sobre o travesseiro, abri as pernas, ergui a bunda. Rodrigo abriu a gaveta da mesinha de cabeceira sem acender a luz. Ouvi ele destampar o pote de lubrificante, ouvi aquele estalo úmido de quando o colocava nos dedos. Os dedos dele entraram devagar, com o lubrificante frio que sempre usávamos, girando, procurando o ritmo. O primeiro foi fácil. Ele o enfiou até o fundo e começou a movê-lo em círculos, me separando, me abrindo.
—Olha como ele chupa o dedo —me disse, e a voz dele me atravessava a coluna—. Como você segura. Precisa de mais, não precisa?
—Preciso —suspirei contra o travesseiro—. Mais.
O segundo me fez agarrar o tecido do travesseiro com as duas mãos. Ele girou os dois juntos, abriu em tesoura, enfiou até os nós dos dedos. Toda vez que roçava aquele ponto interno eu sentia uma fisgada que me subia pela espinha e me deixava molhada de suor frio. Eu tinha o rosto enterrado no travesseiro para não gritar. Tinha as nádegas afastadas com a outra mão. Tinha a bunda aberta, pulsando, pronta para ele.
Estava dentro até os nós dos dedos quando a porta se abriu.
Mamãe não gritou. Isso foi a primeira coisa que pensei, com uma lucidez estranha: não gritou. Ficou imóvel no batente. Rodrigo retirou a mão. Eu me cobri com o lençol e me sentei, com o coração batendo tão forte que eu ouvia.
—Claudia —disse Rodrigo, em voz baixa.
Mas mamãe olhava para mim. Para os peitos que apareciam por cima da beirada do lençol. Para meu cabelo comprido. Para meu rosto sem barba.
—Há quanto tempo você está assim? —perguntou. A voz dela era estranha. Não era raiva. Era algo que eu não soube nomear naquele momento.
—Quatro meses com hormônios —respondi—. Mas desde sempre, na verdade.
O silêncio durou o que me pareceu uma hora inteira.
—Como você se chama agora? —disse ela por fim.
Engoli em seco. —Sofia.
Ela assentiu. Devagar, como se estivesse processando cada sílaba separadamente. Depois se virou e fechou a porta. Não bateu.
Não dormi a noite inteira.
***
Na manhã seguinte mamãe estava na pequena varanda, com um café na mão e o olhar no mar. Sentei ao lado dela sem falar nada. Era um daqueles silêncios densos, cheios de coisas se movendo por baixo da superfície.
—Você tá bem? —perguntou afinal. Não era a pergunta que eu esperava.
—Estou —disse—. Pela primeira vez em muito tempo, estou.
Mamãe tomou um gole de café sem desviar os olhos da água. —Então isso é o que importa.
Não acrescentou mais nada sobre o assunto. Mas quando Rodrigo saiu com o café da manhã, ela o olhou de outro jeito. Não com desconfiança. Com algo mais parecido com a aceitação tranquila de quem tomou uma decisão interior sem anunciar.
Foi Rodrigo quem mencionou a praia nudista durante o café, com aquela naturalidade dele que às vezes me irritava e outras vezes me salvava.
—Tem uma enseada a quatro quilômetros, acesso por trilha entre pinheiros. Às segundas quase ninguém vai. É bem tranquila.
Mamãe franziu a testa. —Nudista de verdade?
—Nudista de verdade —confirmei—. Tem algo muito libertador em tirar tudo diante do mar e ninguém ligar para nada.
Mamãe hesitou. Eu conhecia aquela hesitação: era a mesma que eu tivera da primeira vez, antes de saber que o nudismo tem essa capacidade estranha de apagar as diferenças em vez de expô-las. Acabou dizendo que sim com um aceno quase resignado e quase curioso.
—Vou levar protetor —disse.
***
Mamãe tinha quarenta e quatro anos e um corpo que me dava uma mistura estranha de admiração e de algo que demorei a identificar como inveja. Miúda, com os ombros finos e os quadris largos que todas as mulheres daquela família herdamos, um par de peitos generosos que a gravidade tinha começado apenas a curvar, os mamilos grandes e escuros, a boceta coberta por pelos castanhos bem aparados. Quando ela tirou o vestido na areia e ficou nua sob o sol do meio-dia, vi em sua postura aquele instante de dúvida que precede a liberdade.
Rodrigo caminhou primeiro em direção à água, sem olhar para trás. O pau pendia pesado entre as coxas, ainda meio mole, mas grosso, e vi de relance como mamãe demorou meio segundo a mais para desviar o olhar. Fiquei ao lado dela enquanto tirávamos as sandálias.
A água estava fria nos primeiros passos e depois simplesmente salgada e clara. Rodrigo nos esperava até a cintura, com os braços abertos. Entramos as duas ao mesmo tempo, e uma ondinha nos sacudiu juntas e nos fez rir.
O mar tem algo que iguala. Com roupa você é de um lugar, de uma história, de uma forma de caminhar pelo mundo. Sem roupa você é simplesmente um corpo na água, igual a todos. Senti isso com uma clareza que me apertou o peito: o sol nos meus ombros, o sal nos lábios, o corpo que finalmente era meu sem nenhum nome que o contradissesse.
As ondas nos empurravam na direção de Rodrigo. As mãos dele procuraram minha cintura, depois as coxas, depois se enfiaram entre minhas nádegas por baixo da água, me apertando contra ele. Senti o pau dele endurecer contra a minha lombar, longo e quente, separado de mim apenas pela corrente salgada. Cada vez que uma onda quebrava, eu caía contra ele, e ele aproveitava para esfregá-lo devagar entre minhas nádegas, escondido do olhar de mamãe pela água. Tive de morder o lábio para não gemer. Mamãe flutuava a dois metros dali, de barriga para cima, os peitos aparecendo entre as ondas, os olhos fechados e o rosto no sol.
Meia hora depois, mamãe disse que ia se refrescar nos chuveiros.
—Pra tirar o sal —explicou. Mas havia algo diferente em seus olhos: um olhar de lado para Rodrigo e para mim que era perfeitamente eloquente.
Vimos ela caminhar até as pedras. O corpo nu dela se movia com mais soltura do que na chegada, as nádegas firmes balançando a cada passo, os pés deixando pegadas úmidas na areia clara. O mar faz isso: devolve um pouco de você para você mesma.
Esperei até ela desaparecer entre as pedras.
***
Rodrigo já estava duro quando chegamos à lona estendida na areia. O pau dele se erguia contra o ventre, grosso, com a veia lateral marcada e a glande brilhante de sal e da gota transparente que já se formara na ponta. Ajoelhei-me na frente dele sem que nenhum dos dois dissesse nada. O sol queimava meus ombros. Peguei-o com as duas mãos —não me bastava uma só para abraçá-lo— e o pus na boca devagar, sentindo o peso dele, o gosto de sal e pele quente, a pulsação do sangue contra a língua.
—Sofia —disse ele, com aquela voz baixa que era só para mim—. Isso. Chupa bem.
Deixei-o entrar mais, até senti-lo bater no fundo da garganta. Tossi, meus olhos marejaram, cospi um fio de saliva que desceu pelos ovos dele e os deixou brilhando ao sol. Voltei a engoli-lo. Uma mão ficou na base, girando, enquanto a outra segurava os testículos, pesando-os, acariciando-os. Chupei a glande com os lábios fechados, passei a língua plana pela parte de baixo, enfiando-o de lado para chupá-lo como um doce. O pau dele inchava mais na minha boca a cada investida.
Ele agarrou meu cabelo com as duas mãos, fechou um punho, e começou a foder minha boca ele mesmo, marcando o ritmo, enfiando-o até os ovos contra os meus lábios. Eu me deixava, com a mandíbula relaxada e os olhos chorando, sentindo a baba quente escorrer do queixo até os peitos. Eu poderia ter gozado assim, sem que ele me tocasse, só de tê-lo tão dentro.
Depois ele tirou o pau da minha boca de uma vez, me levantou pelos ombros e me beijou longo, sujo, provando a si mesmo na minha língua. As mãos percorrendo minhas costas, descendo até as nádegas e apertando com as duas palmas, afastando-as.
—Vira de costas —disse—. Quero ver essa bunda aberta ao sol.
Fiquei de quatro sobre a lona, com os joelhos bem afastados e a bunda erguida para ele, o rosto apoiado nos antebraços. Senti o ar quente entre as nádegas, senti o olhar de Rodrigo demorando. Ouvi ele chupar os dedos, ouvi ele cuspir, ouvi o lubrificante da bolsa destampando com aquele estalo seco.
—Olha você —murmurou ele, e passou o polegar úmido pelo anel, em círculos—. Tudo apertadinho, como se fosse a primeira vez toda vez.
—Enfia logo —gemei.
—Devagar. Vou te abrir como você gosta.
Ele untou os dedos com paciência, passou primeiro por fora, massageando o anel, e depois empurrou o primeiro. Frio, escorregadio. Girou-o com paciência enquanto eu apoiava a testa no antebraço e esperava. Conheço bem essa sensação: o corpo que resiste um instante e depois cede, como uma porta que se abre por dentro.
O segundo dedo entrou com mais facilidade. Ele os moveu em tesoura, ampliando o espaço, enfiando até os nós dos dedos e puxando quase tudo para fora para voltar a enfiá-los inteiros. Senti o calor se espalhar em direção à pelve, aquele formigamento que vai ficando mais grave, mais urgente. Quando encontrou o ponto exato com a ponta do dedo, meu corpo respondeu sozinho: um espasmo que subiu pela coluna e me fez fechar os olhos com força. O pau ainda meu se sacudiu contra o ventre, escorrendo outra gota.
—Eu te tenho —disse ele, rindo baixinho—. Olha como isso tá pingando. Olha como você me pede.
Enfiou um terceiro dedo. Aguentei. Aguentei até parar de aguentar e começar a empurrar eu mesma para trás, fodendo os dedos sozinha, cavalgando a mão dele, gemendo contra a lona sem ligar para nada.
—Pronta? —perguntou.
—Sim —disse. E eu dizia de verdade—. Enfia logo, por favor. Enfia tudo.
Ele tirou os dedos. Senti o vazio por um segundo, depois a roçada da glande grossa contra o buraco recém-aberto. Ele a apoiou ali, moveu em círculo, pressionou de leve. Empurrou devagar. A pressão cresceu até um limite que reconheci e então esse limite cedeu, e senti ele entrar: me preenchendo, ocupando esse espaço que era meu assim como o meu novo nome era meu, me abrindo centímetro por centímetro até sentir os ovos dele baterem na minha bunda. Soltei o ar que vinha prendendo sem perceber.
—Toda dentro —suspirou ele—. Você sente toda?
—Toda —disse, e a voz saiu quebrada.
Ele se moveu devagar no começo. Tirou-a quase inteira, deixando só a glande dentro de mim, e voltou a enterrá-la devagar. A fricção era intensa e precisa. O sol nas minhas costas, o som das ondas, a areia quente debaixo da lona. Tudo era sensação sem enfeite. As mãos dele agarraram meus quadris, os polegares cravando-se nas nádegas, afastando-as para ver entrar e sair.
—Você tá se abrindo pra mim —ele dizia—. Cada vez você se abre mais. Cada vez você me chupa melhor com a bunda.
Depois acelerou. O ritmo ficou mais urgente, a investida mais direta. O choque dos ovos contra a minha pele soava seco, úmido, obsceno sob o barulho do mar. Quando ele encontrou o ângulo exato, eu também encontrei: uma descarga que começou de dentro, funda e longa, sem pressa. Não era dor nem era exatamente prazer no sentido ordinário: era algo mais completo, que preenchia o corpo inteiro ao mesmo tempo. Senti o pau que ainda era meu pulsar sem que ninguém lhe tocasse, vi a mancha de líquido transparente que se formara na lona debaixo do meu ventre. Ouvi meus gemidos contra a lona e não me importei.
—Assim —disse ele—. Assim exatamente. Aperta. Me faz gozar na tua bunda.
Ele empurrou minhas costas para baixo até me deixar quase estendida e subiu em cima de mim, os antebraços dos lados da minha cabeça, me fodendo com todo o peso do corpo, enterrando-o até o fundo a cada vez. Apertou. Apertou mais. Senti o pau dele inchar ainda mais dentro de mim, aquela pulsação diferente que eu já conhecia, e soube que ele estava prestes a terminar.
—Dentro —lhe pedi—. Goza dentro de mim.
Ele terminou com as mãos cravadas nos meus quadris e um gemido que guardou entre os dentes. Senti o jato quente, o primeiro, o segundo, o terceiro, me preenchendo, me molhando por dentro, e ao senti-lo eu também gozei, sem me tocar, uma gozada longa que me deixou a lona encharcada por baixo e o corpo frouxo, sacudido. Depois ele desabou ao meu lado, os dois suados e com a boca aberta. Quando saiu, o esperma escorreu morno entre minhas nádegas, desceu pela minha coxa até a areia. As ondas continuavam. O mundo continuava. Ficamos um tempo sem nos mover, apenas respirando.
Entramos na água para nos lavar. O mar estava igual: indiferente e perfeito, igual para todos.
***
Mamãe não estava nos chuveiros quando olhamos para as pedras.
Levamos um momento para encontrá-la. Ela estava na água, na parte mais afastada da enseada, onde as pedras formam uma espécie de lagoa protegida da arrebentação. Ao lado dela havia um homem. Alto, de costas largas, a pele escura e brilhante de quem passa muito tempo ao sol. Não estavam abraçados, não exatamente. Estavam muito perto, com a água até o peito, conversando em voz baixa.
Enquanto os observávamos, sem querer, o homem deslizou as mãos pela cintura de mamãe e ela não se afastou. Ela apoiou as mãos nos ombros dele e fechou os olhos por um instante. Uma das mãos do sujeito desceu pelas costas dela e desapareceu sob a água, e vi como mamãe abria um pouco a boca, como o pescoço dela se retesava. A corrente os embalava de leve. Os peitos dela subiam e desciam com a água, os mamilos duros, e ele inclinou a cabeça para chupá-los enquanto continuava fazendo o que lhe fazia abaixo da linha do mar.
Rodrigo tocou meu braço com suavidade. —Vamos voltar para a lona.
Voltamos. Deitamos de barriga para cima na areia, um ao lado do outro, com os olhos fechados. Não falamos. Não era preciso.
Mamãe demorou mais de meia hora para aparecer pela trilha que contornava as pedras. Caminhava sozinha, com as faces acesas e uma expressão que eu nunca tinha visto antes: algo entre surpresa e calma, como quem acabou de lembrar de algo que havia muito tempo tinha esquecido. O cabelo dela estava mais molhado que antes e os mamilos ainda duros sob o sol.
Recolhemos tudo em silêncio. Sacudimos a areia da lona, guardamos a bolsa, calçamos as sandálias. O caminho de volta ao carro era íngreme e estreito, em fila indiana entre os pinheiros. Eu ia por último.
No meio do caminho, mamãe se virou sem parar de andar.
—Como é mesmo o nome deste lugar?
—Enseada do Farol —disse.
Ela assentiu devagar, como guardando o nome para alguma coisa.
***
Chegamos ao carro. Rodrigo abriu o porta-malas para guardar a bolsa. Mamãe e eu ficamos de pé junto à porta traseira, olhando para o mar ainda visível entre os pinheiros. Ela me olhou por um segundo, diretamente.
—Quando você tem consulta médica de novo? —perguntou. Era a primeira vez desde a noite anterior que tocava no assunto.
—Daqui a três semanas —respondi.
—Me avisa. Quero ir com você, se estiver bem pra você.
Não respondi de imediato. Senti alguma coisa se mover no peito, alguma coisa que eu não sabia nomear com precisão, mas reconheci como alívio. O tipo de alívio que só deixa de doer quando vai embora, e que faz você perceber o quanto doía antes.
—Pra mim está bem —disse.
Ela assentiu e entrou no carro. Rodrigo me olhou por cima do teto antes de se sentar ao volante. Entrei por último, fechei a porta e me encostei no banco, sentindo ainda o esperma dele escorrendo dentro de mim, a bunda aberta e latejando contra o assento.
Pela janela, o mar ainda brilhava entre as árvores. A enseada tinha ficado para trás, mas algo dela vinha conosco: a areia entre os dedos, o sal no cabelo, e essa sensação de ter atravessado algo que não tem nome exato, mas que muda para sempre a forma como você se vê quando ninguém está olhando.
Sofia. A filha dela. A mulher de Rodrigo. E os três, pela primeira vez, indo para o mesmo lugar.