A segunda-feira em que minha esposa decidiu meu destino
Não preguei o olho a noite inteira. Ao meu lado, Helena dormia placidamente, com aquela respiração ampla de quem não teme nada porque tudo lhe pertence. Eu, ao contrário, olhava para o teto e sentia o coração golpeando minhas costelas.
Eu temia o dia que começava. Temia os exames, as provas, o lugar para onde aquela manhã me levaria. Mas, acima de tudo, temia uma ideia que ela havia deixado cair na noite anterior, como quem solta uma pedra num poço: se eu falhasse, acabaria em um daqueles lugares. As fazendas. As maternidades públicas. Eu não queria nem nomeá-los na minha cabeça.
Tudo em que eu acreditara sobre o mundo — e tudo a que havia me resignado — tinha se partido em pedaços na sexta-feira anterior, no escritório dela.
Começou a clarear. A luz entrou morna pela janela e os pássaros romperam o silêncio. Eu continuava imóvel na beira da cama, rezando para que o despertador nunca tocasse, para que seis e meia jamais chegasse.
A noite inteira eu sentira o cheiro dos charutos dela impregnado nos cabelos, e suas palavras girando na minha cabeça, uma vez após outra, sem descanso. E algo mais: o cheiro da boceta dela impregnado na minha língua, o gosto salgado e espesso que havia ficado grudado no meu palato depois de horas chupando-a de joelhos, obediente, enquanto ela puxava meu cabelo e me chamava de sua puta.
Eu ainda conseguia vê-la: reclinada no sofá de couro, cruzando as pernas com aquela calma que só têm as mulheres acostumadas a mandar. A fumaça formava uma nuvem imóvel sobre a escrivaninha. Eu, de pé diante dela, com as mãos unidas sobre a saia, esperando.
— Querido — disse enfim —, já é hora de você entender por que cuidei tanto de você todos esses anos. Não foi apenas por amor. O que você é, o que representa, tem um valor que até pouco tempo atrás era impossível imaginar.
Levantou-se devagar e caminhou até mim sem desviar o olhar.
— Durante séculos, os homens acreditaram que só podiam semear a vida, nunca concebê-la. Esse mito caiu por terra décadas atrás. Nossas cientistas descobriram um vestígio biológico esquecido na maturidade masculina e aprenderam a despertá-lo. Por isso, hoje são vocês que geram e carregam nossas filhas dentro de si até o parto.
Ela me observava com uma ternura que dava mais medo do que qualquer ameaça.
— Não tenha medo. Não é uma transformação brutal nem antinatural. É maturidade. Uma evolução. Algumas mulheres como eu financiaram as pesquisas que prolongam a vida dos homens após o parto e tornam o processo menos invasivo. Você será um dos primeiros a desfrutar disso. Seu corpo vem se preparando há anos: nutrição rigorosa, tratamentos, estimulação celular controlada. Cada uma das suas células foi guiada com precisão para tornar possível o que antes era impensável.
— Eu vou morrer? — perguntei, ouvindo minha própria voz tremer.
— Não, querido. Já não há risco. Você vai gestar nossas filhas como nós temos feito durante milênios. E vai sentir orgulho disso.
Ela segurou meu queixo com dois dedos, como se me revelasse um segredo sagrado. Depois deslizou a mão pelo meu pescoço, enfiou-a no decote e apertou um seio meu com a palma inteira, avaliando-me como se avalia uma égua de criação.
— Não pense nisso como um fardo, mas como um privilégio. A forma mais elevada de poder que um homem pode alcançar neste mundo novo é a entrega.
Baixei a cabeça. Senti minhas pernas tremerem e também senti o volume úmido entre elas, aquela umidade idiota que meu corpo treinado já liberava apenas ao ouvi-la falar. Ela percebeu. Sempre percebia.
— Ajoelhe-se — ordenou baixinho —. Antes que você vá embora amanhã, quero que se lembre de a quem pertence.
Caí de joelhos sobre o tapete sem pensar. Desabotoei a saia dela com dedos desajeitados, baixei-a até as coxas e enfiei o rosto entre suas pernas como ela me ensinara a fazer desde o primeiro dia. Não usava calcinha: nunca usava no escritório. Sua boceta cheirava a charuto, perfume caro e fêmea quente. Passei a língua inteira, de baixo para cima, devagar, pressionando os lábios contra os lábios molhados dela, e ela se deixou afundar mais no sofá e cravou os saltos nas minhas costas.
— Chupa devagar, puta — sussurrou —. Que dure. Que você leve o gosto para a clínica.
Mamei o clitóris dela com a ponta da língua, em círculos apertados, e enfiei dois dedos até o fundo. Ela estava encharcada. Eu sentia a boceta dela pulsar ao redor dos meus dedos como um coração pequeno e furioso. Fodi-a com eles num ritmo lento, entrando e saindo, enquanto lambia a carne inchada acima e engolia o fluxo espesso que escorria até o cu. Quando passei a língua ali, naquele cu apertado e salgado, ela gemeu mais alto e agarrou meu cabelo com as duas mãos.
— Aí, aí, continua aí — arfou —. Enfia a língua aí dentro, porquinha.
Enterrei a língua no cu dela, ainda fodendo sua boceta com os dedos, e ela começou a cavalgar meu rosto como se eu fosse um consolo de carne. O corpo inteiro tremia. Pressionou minha cabeça contra sua virilha até quase me impedir de respirar e gozou na minha boca e no meu queixo, numa longa e densa esguichada que escorreu pelo meu pescoço até o decote. Eu a lambi toda, dócil, obediente, engolindo cada gota como se fosse minha última ceia.
— Muito bem — disse quando conseguiu falar —. É esse o gosto que você vai levar. Não se esqueça.
Eu não me esqueci. Passei a noite inteira com aquele gosto na língua e aquela ordem na cabeça.
***
O despertador tocou e me arrancou da lembrança. Dei um salto, tateei o aparelho para desligá-lo antes que ela acordasse e o derrubei no chão com um estrondo.
— Pela Deusa! Que diabos você está fazendo? É assim que se acorda alguém? — rugiu Helena, erguendo-se de repente.
— Desculpa, desculpa, meu amor — balbuciei —. Eu só queria desligá-lo e deixar você dormir mais um pouco.
Deusa, se algum dia precisei da sua ajuda, é agora.
Se minha intenção tivesse sido começar o dia da pior maneira possível, eu não poderia ter conseguido melhor. Levantei-me, procurei os chinelos e disparei para o banheiro, contendo as lágrimas. Sabia que seria um dia longuíssimo, e não apenas por causa do horário.
Enquanto eu tomava banho, ela entrou sem pudor, fez o que precisava fazer, não me dirigiu a palavra e foi embora. Bem, quase. Antes de sair, abriu o boxe, olhou meu corpo molhado de cima a baixo e enfiou a mão entre minhas pernas com a frieza cirúrgica com que examinava tudo que era seu. Abriu os lábios da minha boceta com dois dedos, remexeu lá dentro, verificou que tudo continuava lubrificado e sensível e retirou a mão cheia da minha baba. Chupou-a devagar, olhando-me nos olhos.
— Você continua deliciosa — disse, sem sorrir —. Espero que a doutora pense o mesmo.
E foi embora.
Terminei, sequei-me, vesti o robe e desci para preparar o café da manhã dela, tentando corrigir meu erro. Encontrei-a folheando o jornal. Quando me aproximei para beijá-la, ela virou o rosto. Não comi nada: eu precisava me apresentar em jejum.
Subi para fazer as malas. No começo coloquei o mínimo: três vestidos simples, roupas íntimas, meias, dois pares de sapatos sóbrios e a nécessaire com o indispensável. Mas então o pânico entrou em cena. Meu futuro inteiro seria decidido naqueles dias, e eu iria com quatro coisas? Meu temperamento frágil venceu o pouco orgulho que me restava, e terminei carregando duas malas abarrotadas. Se querem que eu seja eu, que arquem com tudo de que preciso para sê-lo.
Maquiei-me destacando o olhar e prendi o cabelo num coque que deixava o pescoço à mostra, exibindo um colar de pérolas. Escolhi uma blusa de seda cor de pérola, saia e jaqueta azuis com botões de madrepérola, meias semitransparentes, luvas brancas e sapatos de salão de sete centímetros. Por cima de tudo, um casaco de lã rosa-pálido com detalhes de pele. Por baixo de tudo isso, uma calcinha de renda branca tão fina que cada dobra da minha boceta depilada ficava marcada, e um sutiã sem bojo que mal continha meus mamilos já duros, sempre duros, sempre me denunciando.
Helena voltou do banho e sorriu ao me ver pronto.
— Que surpresa. É assim que eu gosto de você. Vejo que tudo o que lhe disse neste fim de semana fez efeito nessa cabecinha. Parabéns, querido. Deixe suas coisas, que depois eu as desço. Vá arrumando a casa, pois ficará vários dias fora.
Ela se aproximou, ergueu minha saia até a cintura e enfiou a mão na minha calcinha. Um dedo, depois dois. Abriu-me e fechou-me como quem revisa uma pasta.
— Molhado. Muito bem. Que encontrem você assim.
Retirou os dedos, passou-os pelos meus lábios pintados e me obrigou a chupá-los. Depois ajeitou minha saia, arrumou meu coque com cuidado e deu um tapa na minha bunda.
— Vamos.
Depois de algum tempo, desceu com minhas malas e a nécessaire, sem praguejar, sem reprovações. Saímos. Sentei-me no carro enquanto ela carregava o porta-malas, e partimos rumo ao desconhecido.
***
No meio de um engarrafamento, ela me pediu um cigarro e me deixou fumar também. No rádio, entrevistavam uma ministra da Saúde que anunciava um evento próximo no centro de exposições: Fertilidade, Gravidez e Parto Masculino, com a comunidade médica internacional, casos reais de homens do mundo inteiro e avanços na obstetrícia masculina.
Helena segurou minha mão para conter meu nervosismo. E, da minha mão, levou-a à minha coxa, e da coxa subiu-a sozinha até debaixo da saia.
— Agora entende por que você é tão importante, querido? E quem é sua esposa? — disse, acariciando minha coxa e enfiando os dedos pela borda da calcinha.
Assenti, apagando o cigarro. Ela enfiou dois dedos na minha boceta ali mesmo, no semáforo, com os carros parados ao lado. Começou a me foder devagar, sem olhar, com os olhos fixos à frente. Apertei as coxas ao redor da mão dela e mordi o lábio para não gemer.
— Responda. Quem é sua esposa?
— Você — sussurrei —. Só você.
— Muito bem. — Enfiou um terceiro dedo. Doeu um pouco e depois me deu prazer —. É por isso que você me trouxe hoje?
— Sim. Vão fazer os exames finais para apresentar seu caso no simpósio. Eu mesma pedi isso à ministra. Se for escolhido, viajará para Velmar dentro de alguns meses, depois da nossa viagem a Adaris.
— E se tudo correr bem... vou voltar a vê-la? — perguntei com a voz quebrada, enquanto a mão dela continuava me fodendo devagar, sem piedade, com o semáforo mudando do vermelho para o verde.
— Não saberia dizer — respondeu, olhando para a rua —. Mas temos Adaris pendente. Gostaria de levá-lo e mostrar-lhe um mercado com muito potencial.
— Negócios, investimentos, lucros — disse, e minha voz se quebrou quando o polegar dela encontrou meu clitóris.
— Exatamente, querido.
Ela me apertou ali, em pequenos círculos, e continuou enfiando os dedos até o fundo enquanto dirigia com a outra mão. Senti que ia gozar, que o orgasmo subia dentro de mim como uma onda quente, e cravei as unhas no pulso dela. Gozei na mão dela, ali no carro, mordendo minhas luvas brancas para não gritar. Ela não olhou para mim uma única vez.
Retirou os dedos encharcados, levou-os ao nariz, cheirou-os e enfiou-os na minha boca. Chupei-os inteiros, um por um, engolindo o gosto do meu próprio orgasmo como ela me ensinara.
Acendeu outro cigarro. Pedi permissão para fazer uma pergunta, e ela concedeu.
— Fui o primeiro? Você tem outros homens como eu?
Ela riu.
— A permissão era para uma pergunta, não para duas. Mas as duas têm a mesma resposta. Se você se sair mal nos exames, será substituído. Se for bem, já sabe o que lhe disse. Você não vai se sair mal. — Entregou-me um refrescante bucal do porta-luvas —. Tire o cheiro de cigarro antes de chegarmos. Fica feio num homem. E limpe a baba dos dedos, que está aparecendo.
***
Chegamos a um edifício imponente, antigo mas impecável. Várias mulheres se aproximaram para falar com Helena enquanto uma abria o porta-malas e levava minhas coisas. Outra abriu minha porta e estendeu a mão para me ajudar a descer, dando-me as boas-vindas ao centro de saúde e procriação.
Lá dentro, algumas pessoas me cumprimentavam como se me conhecessem. Pela primeira vez vi homens usando macacões cor-de-rosa, esfregando o chão e carregando correspondência, com o olhar apagado e vazio. Meu sangue gelou.
No elevador, fomos recebidos por outro homem de cabeça raspada, usando uniforme cinza de saia plissada, saltos altos e meias arrastão. Operava o elevador com uma única mão enluvada e a cabeça baixa. Vi meu reflexo no espelho — vestido, maquiado, impecável — e, ao lado dele, o seu, quase invisível. Ele me observava de soslaio e, com um gesto discreto, tirou um fiapo da minha lapela antes que as portas se abrissem.
Caminhamos por um longo corredor de mármore onde apenas meus saltos ecoavam. Depois da papelada, colocaram em meu pulso uma pulseira com código de barras rosa-chiclete. Um leitor confirmou meus dados e me conduziram ao meu quarto, luxuoso e acolhedor, com minhas malas ao lado da cama.
Logo entraram duas mulheres vestidas de médica e enfermeira. Apresentaram-se como a doutora Belmonte, especialista em obstetrícia masculina, e a enfermeira Ferreyra. A enfermeira passou o leitor pelo meu pulso.
— A partir de agora você é o paciente dezoito mil seiscentos e dois. Sempre que o chamarem, responderá com esse número.
— Eu sou o marido dela — protestei.
— Sinto muito, querido — interrompeu-me a doutora —. Esse já não é o seu nome. Você o teve enquanto dependia da senhora Mendizábal, sua formadora. O trabalho dela terminou. Agora você pertence ao Estado.
— Sim, doutora — murmurei.
A enfermeira ajudou-me a despir-me e a vestir uma bata rosa. Deixou-me nu diante das duas por um longo tempo. A doutora me rodeou devagar, examinando-me. Tocou meus mamilos com as costas da mão, verificou como endureciam ao contato e anotou algo no tablet. Pesou meus seios nas mãos, avaliando-os. Abriu minhas nádegas e pediu à enfermeira que lhe trouxesse um pequeno espéculo frio. Abriu meu cu com dois dedos enluvados e introduziu o espéculo até o fundo. Senti o rangido metálico expandindo-me por dentro e mordi a bochecha para não chorar.
— Boa resposta muscular — murmurou —. Elasticidade correta. Já está preparado.
Retirou o espéculo e virou-me para que eu me deitasse sobre uma maca portátil. Abriu minhas pernas e examinou minha boceta com a mesma frieza, abrindo meus lábios, passando um longo cotonete por dentro, coletando amostras do fluxo. Eu estava molhado. Estava molhado de nervosismo, de medo, daquele hábito estúpido que Helena havia instalado em meu corpo: ficar molhado ao ser tocado por mãos femininas.
— Muito lubrificado — disse a doutora à enfermeira, sem se dirigir a mim —. Reflexo treinado. Excelente. Anote.
A enfermeira anotou. Depois me vestiram com a bata rosa, colocaram-me numa cadeira de rodas e levaram-me a uma sala enorme onde coletaram amostras de sangue e urina, mediram minha pressão, meu peso, minha altura, até o tamanho dos lóbulos das minhas orelhas. Num canto, outras enfermeiras fizeram-me abrir as pernas outra vez, em estribos, e passaram um ultrassom transvaginal — foi assim que o chamaram, embora eu ainda não tivesse vagina — pelo ânus, procurando o canal mencionado pela ministra. Senti a sonda grossa e fria entrar devagar, girando, enquanto as mulheres olhavam para a tela e falavam em sussurros.
— Já é possível ver o tecido incipiente — disse uma —. Muito avançado para a idade dele.
— A formadora o estimulou bem — disse outra.
Quando terminaram, levaram-me a um bar cheio de mulheres onde meu café da manhã já estava servido. Todas eram gentis, mas distantes. Apenas uma permaneceu afastada; mais tarde soube que era a ministra da Saúde.
***
De volta ao quarto, a ministra entrou sem pedir licença e sentou-se com naturalidade.
— Dezoito mil seiscentos e dois. Eu queria conhecê-lo antes que sua avaliação começasse. A senhora Mendizábal fez um trabalho magnífico com você.
Fiquei sem palavras.
— Você terá muitas perguntas. Separar-se da formadora gera um apego doloroso no início; é normal, faz parte da última etapa da sua evolução. Nossa equipe de psicologia chegará em breve. Mas eu queria explicar algo pessoalmente.
— Que provas vão fazer em mim? — perguntei, tremendo.
— Primeiro confirmaremos sua fertilidade. Depois avaliaremos se seu corpo consegue se adaptar à gestação, sua resistência às gravidezes e, por fim, se seu parto atende aos padrões. De vinte casos, apenas três serão apresentados no simpósio. Esperamos que o seu seja um deles.
— E o que vai mudar no meu corpo? — O nó na garganta mal me deixava falar.
Ela acendeu um cigarro, pensativa.
— Seu sistema reprodutivo já foi preparado por dentro. Em breve você desenvolverá um novo canal que só se abrirá durante a gravidez. Não sentirá dor: seu corpo está pronto. Produzirá leite para suas filhas, e sua semente será preservada para os bancos de fertilidade.
— Isso quer dizer que o desejo, o sexo... serão história para mim?
— Exatamente — respondeu sem piscar —. Precisamos de você para a procriação. Seu papel anterior já não importa. Toda essa parte sua, aquela que a senhora Mendizábal despertou para tê-lo a seu serviço, irá se apagar. Sua boceta vai se fechar. Seus mamilos deixarão de responder ao toque e só se abrirão para o leite. Você nunca mais gozará. Nunca mais sentirá desejo. É mais limpo assim.
Senti um frio na nuca. Ao mesmo tempo, senti entre as pernas a umidade estúpida do meu corpo, que não entendia nada do que ela acabara de dizer e continuava reagindo ao som de uma voz feminina.
Ela apagou o cigarro e se levantou.
— Você conhecerá seu destino em nove dias. Se for inteligente e superar as provas, será apresentado no simpósio.
Fiquei sozinho, olhando para a bituca no chão. Abri as janelas e comecei a limpar o quarto, lembrando das palavras de Helena. E lembrando, acima de tudo, do gosto da boceta dela na minha boca na noite anterior, a última vez que eu teria aquilo. Eu não sabia que cada um daqueles gestos — o modo como dobrava a bata, o modo como apertava as pernas ao me abaixar, o modo como mordia o lábio — estava sendo observado e anotado.
***
Ao meio-dia vieram buscar-me para o primeiro teste de fertilidade. Levaram-me a outra sala, menor, com uma maca ginecológica no centro e uma lâmpada no teto apontada para minha virilha. A doutora Belmonte já me esperava, de luvas calçadas, e outras duas mulheres com tablets a seus lados.
— Dezoito mil seiscentos e dois, suba e abra as pernas.
Obedeci. Deitaram-me, colocaram meus pés nos estribos e abriram meus joelhos de par em par. A luz queimava minha boceta depilada. A doutora sentou-se entre minhas pernas como quem se senta para trabalhar.
— Vamos extrair uma amostra seminal agora e depois estimular o canal em formação. Tudo será filmado. Olhe para a câmera e responda com clareza quando falarem com você.
Uma das mulheres colocou uma câmera num tripé aos pés da maca. Outra abriu uma caixa com instrumentos: luvas, lubrificante, um vibrador em forma de ovo, outro longo e curvo, uma máquina com ventosa. Senti meus seios endurecerem só de olhar. Odiei meu corpo por isso.
— Nome e número — disse a doutora, seca.
— Dezoito mil seiscentos e dois — murmurei.
— Mais alto.
— Dezoito mil seiscentos e dois.
— Muito bem. Vamos começar.
Colocaram a ventosa sobre meu pau. Um pau pequeno, treinado, que havia meses não era usado para nada além de urinar. A máquina zumbiu e começou a me sugar num ritmo constante, para cima e para baixo, com sucção regulada. Tentei não sentir nada. Fechei os olhos.
— Olhe para mim — ordenou a doutora —. Não feche os olhos. Faz parte da avaliação.
Abri os olhos. Olhei para ela. Sua mão enluvada, cheia de lubrificante, empurrava-se entre minhas pernas, procurando meu ânus. Ela enfiou dois dedos e tocou um ponto por dentro que me fez estremecer.
— Aí. Anote: reflexo prostático preservado.
Começou a massagear-me por dentro com os dedos enquanto a máquina me sugava por fora. Tentei não gemer. Não consegui. Ao primeiro gemido, as mulheres anotaram. Dois minutos depois, gozei na ventosa, num espasmo longo, e a máquina recolheu cada gota num tubo transparente que etiquetaram com meu número.
— Volume normal — disse uma —. Boa densidade. Guardem.
— Agora, o canal — disse a doutora.
Não me deixaram descansar. Retiraram a ventosa, limparam minha boceta e minhas pernas com uma toalha morna e viraram-me na maca, deixando-me de quatro. Abriram meu cu. Introduziram o vibrador longo e curvo, procurando aquele tecido novo de que falavam. Empurraram-no até o fundo e ligaram-no. Eu gritei.
— Silêncio — disse a doutora, sem elevar a voz —. Silêncio ou colocaremos uma mordaça em você. Está sendo avaliado.
Foram para quatro. Enfiaram o vibrador longo e curvo, procurando aquele tecido novo de que falavam. Empurraram-no até o fundo e ligaram-no. Eu gritei.
— Silêncio — disse a doutora, sem elevar a voz —. Silêncio ou colocaremos uma mordaça em você. Está sendo avaliado.
Abafei a boca com o punho. O vibrador zumbia dentro de mim. A doutora o girava devagar, apontando-o para diferentes pontos, enquanto as outras duas anotavam o que viam num monitor ligado à sonda.
— Sensibilidade muito alta no quadrante anterior — disse uma —. O canal está abrindo caminho. Estará operante antes do previsto.
Fizeram-me gozar outra vez, sem pau, apenas com aquilo dentro de mim. Senti um orgasmo diferente, mais profundo, mais estranho, que saiu do ventre e não da pica. Convulsionei inteira sobre a maca e mordi o punho até fazê-lo sangrar. Ouvi a doutora sorrir.
— Perfeito. Este é dos bons. Anotem.
Quando terminaram, limparam-me com toalhas, tiraram-me da maca e fizeram-me caminhar até uma cadeira. Minhas pernas tremiam. Vestiram-me novamente com a bata, alisaram meu cabelo e passaram batom na minha boca inchada. A câmera continuava filmando.
— Muito bem, dezoito mil seiscentos e dois — disse a doutora —. Você passou pela primeira. Agora vá se arrumar para o almoço. O comitê não deve perceber que acabou de estar aqui.
***
À tarde, prepararam-me para o almoço, que não era um almoço, mas um exame de etiqueta e protocolo. Um comitê de mulheres avaliaria cada postura, cada palavra, cada olhar. Eu ainda sentia o zumbido do vibrador entre as pernas, a umidade grudada na coxa, e tive de me sentar ereto como se nada daquilo tivesse acontecido.
O salão tinha uma mesa comprida, talheres reluzentes, taças alinhadas e toalha de linho branco. Conduziram-me até meu lugar, e cada passo ecoava no mármore. Ao meu redor, outros homens sentavam-se tensos, alguns cambaleando sob a pressão. Vi que mais de um tinha dificuldade para se sentar: haviam feito o mesmo com todos naquela manhã.
— Dezoito mil seiscentos e dois — disse uma das avaliadoras —, durante esta refeição avaliaremos seu autocontrole e sua capacidade de seguir instruções. Cada gesto conta.
Coloquei as mãos sobre a toalha como me haviam ensinado. Repassei mentalmente a posição de cada talher: garfos à esquerda, facas à direita, a taça de água e a de vinho alinhadas. As mulheres anotavam em seus tablets, falando entre si em voz baixa.
Um homem pegou a taça errada, e a avaliadora ao lado franziu o cenho. Outro tossiu alto demais e rompeu a harmonia do salão. Mantive-me alerta, medindo cada sorriso, cada gole. Propunham-nos situações: como receber uma convidada, como contornar um comentário incômodo, como conservar a calma diante do inesperado.
— Lembrem-se — disse uma delas —: a perfeição não é apenas estética. É comportamento, elegância e autocontrole.
O almoço durou mais de duas horas. E, por mais impossível que pareça, fui sentindo uma estranha sensação de orgulho. Havia algo quase libertador em obedecer à risca, em sentir que cada ato contava. Ao terminar, o comitê nos parabenizou, mas lembrou que nada estava decidido. Entre os homens trocavam-se olhares cúmplices, pequenos gestos de apoio. Compartilhávamos o mesmo medo e o mesmo desejo de ser aprovados.
***
Ao cair da tarde, o jantar exigiu ainda mais. Escolhi um vestido de corte clássico azul-pálido com renda branca, retoquei a maquiagem e prendi o cabelo, deixando o pescoço descoberto. O salão estava solene, iluminado por candelabros que faziam o cristal das taças brilhar como pequenas joias.
— Sente-se — indicou uma avaliadora —. Este jantar faz parte da avaliação final. Cada gesto, cada palavra, cada olhar conta.
Sentei-me mantendo a postura, os cotovelos discretamente para dentro. As mulheres nos apresentavam situações novas: receber uma convidada importante, tratar de um assunto delicado com tato, responder com equilíbrio. Um erro diminuía a nota; uma reação impecável somava pontos. O simples ato de servir água ou segurar a faca pesava tanto quanto uma conversa inteira.
Por fim, o comitê se levantou.
— Vocês demonstraram uma notável capacidade de adaptação. Alguns se destacaram pela elegância; outros deverão se esforçar mais. Amanhã começam os exames individuais que definirão seu lugar no simpósio.
Acompanharam-nos até os quartos. A sensação era agridoce: orgulho por ter superado o dia, ansiedade pelo que viria. Sentei-me diante da penteadeira e repassei cada gesto, cada protocolo, certificando-me de não esquecer nada.
Antes de apagar a luz, a enfermeira Ferreyra entrou sem bater. Trazia uma bandeja com lubrificante, um consolo fino com base de silicone e uma tira de tecido.
— Dezoito mil seiscentos e dois, ordens da doutora. Você dormirá com isto dentro todas as noites até o fim da avaliação. Ajuda na formação do canal. Fique de joelhos sobre a cama, com o rosto voltado para o colchão e a bunda para cima.
Obedeci sem olhá-la. Ajoelhei-me na beira da cama, apoiei a bochecha no colchão macio e arqueei a bunda para ela. Senti suas mãos enluvadas separarem minhas nádegas, o jato de lubrificante frio escorrendo por dentro e, depois, o consolo entrando devagar, milímetro a milímetro, até o fundo. Ela o prendeu com a tira ao redor dos meus quadris para que não se movesse.
— Aperte — disse —. Não deixe cair durante a noite. Se amanhã eu o encontrar fora, colocarei em você diante do comitê.
— Sim, enfermeira — sussurrei.
Ela saiu. Fiquei assim por algum tempo, de joelhos, com o consolo enterrado, até reunir forças para me levantar. Caminhei até a penteadeira com as pernas apertadas para mantê-lo dentro de mim. Sentia como ele me abria a cada passo, obrigando-me a contrair músculos que eu nem sabia que tinha.
Permiti-me um instante de introspecção. Compreendi que cada ação, cada palavra, cada decisão era medida e registrada. Que meu futuro dependia inteiramente de como eu assumisse o papel que haviam me atribuído. E, ainda assim, uma parte de mim — pequena, teimosa, ainda minha — agarrava-se à ideia de não desaparecer por completo. Uma parte de mim ainda se lembrava do gosto de Helena na língua e sabia que queria senti-lo mais uma vez antes que o apagassem para sempre.
Olhei meu reflexo pela última vez: a maquiagem intacta, a postura correta, a imagem perfeita do que queriam que eu fosse. O consolo enterrado sob a camisola, invisível, obediente. Só assim eu sobreviveria àquele mundo novo, onde minha vida já não me pertencia.
Continua...


