Eu marquei um encontro com ele vestida como minha irmã gêmea
O sábado amanheceu com uma luz indecisa, como se o céu não acabasse de escolher entre se abrir ou se cobrir. Acordei antes do alarme tocar e fiquei um tempo olhando para o teto, com o coração batendo num ritmo que eu não reconhecia. Hoje era o dia. O encontro de verdade com Mateo. Não um favor para a minha irmã, não uma saída improvisada: desta vez seria eu, só eu, diante de alguém que acreditava me conhecer com outro nome, outra pele, outra história.
Attravessei o corredor descalzo e encontrei Lucía sentada diante do penteadeira, o cabelo preso num rabo de cavalo frouxo e uma xícara de café fumegante entre as mãos. O quarto dela cheirava a jasmim. Ao me ver no batente, sorriu com aquela cumplicidade que cultivávamos desde crianças, essa linguagem de olhares que só os gêmeos entendem.
—Bom dia, madrugadora —disse, pousando a xícara na madeira—. Pronta para o grande dia?
A palavra “pronta”, no feminino, ressoou na minha cabeça sem terminar de assentar. Sentei na beira da cama dela.
—Estou apavorada —admiti, e a confissão saiu mais fácil do que eu esperava—. Mas também é como estar à beira de um precipício e querer pular. Sabendo que posso me espatifar. Sabendo que posso voar.
Lucía veio sentar ao meu lado, o ombro roçando o meu.
—A mamãe me disse uma vez que medo e empolgação são a mesma coisa —murmurou—. A única diferença é a história que você conta para si mesma. Você pode se contar que vão te descobrir. Ou pode se contar que finalmente vai deixar que te vejam como você é.
Algo no meu peito se afrouxou. O medo ainda estava ali, encolhido, mas de repente parecia menor do que a possibilidade que se abria diante de mim.
A transformação começou depois do café da manhã, quando nossos pais saíram para fazer compras e a casa ficou naquele silêncio cúmplice dos sábados. Sobre a cama, Lucía havia estendido os elementos que me transformariam nela: um vestido azul profundo, da cor do céu logo antes da noite, um par de sapatos de salto baixo, uma jaqueta jeans e a necessaire de maquiagem.
—Hoje eu quero que você se sinta confortável, não fantasiada —disse enquanto colocava as extensões em mim, os dedos trabalhando com a precisão de quem repetiu o gesto muitas vezes.
Senti o peso do cabelo caindo aos poucos sobre meus ombros, e quando ela me fez girar para o espelho, perdi o ar. O reflexo era e não era eu: meus olhos, meu nariz, o contorno dos meus lábios, mas emoldurados por ondas castanhas que suavizavam meu rosto inteiro. O vestido cedeu sob meus dedos como água, e quando o deixei escorregar sobre o corpo, o tecido frio me fez estremecer. Lucía aplicou a maquiagem com paciência metódica: base leve, um blush que imitava meu rubor natural, uma linha finíssima de delineador, os cílios separados um a um até parecerem leques.
—Perfeita —murmurou, dando um passo para trás—. Você parece você. A melhor versão de você.
Fui até o espelho de corpo inteiro. Senti minha postura mudar sozinha: os ombros mais retos, o queixo erguido, os passos mais curtos. Não era uma atuação, ou talvez fosse, mas tão ensaiada que se tornara natureza. Era como se eu tivesse passado a vida inteira vendo uma foto borrada de mim, e alguém tivesse acabado de ajustar a lente. Lucía borrifou seu perfume de jasmim e cítricos nos meus pulsos, e o aroma se misturou com algo que era só meu.
—Uma coisa a mais —disse quando já estava saindo—. Eu também vou ao centro, para tomar alguma coisa com a Sofía e comprar pincéis. Mas o centro é enorme. Zero chance de a gente se cruzar. Você vai ao café da rua Rivera; eu estarei do outro lado, perto da praça. Quilômetros de distância.
—Boa sorte —sussurrou no meu ouvido ao me abraçar—. Embora você não precise. Seja só você.
***
O ônibus foi um exercício de contenção. Sentei perto da janela, tenso cada vez que alguém entrava, esperando um olhar de reconhecimento, um dedo apontando para mim. Nada aconteceu. As pessoas pagavam a passagem e se sentavam sem me dar mais atenção do que dariam a qualquer garota da minha idade num sábado à tarde. Eu era invisível no melhor sentido: não a invisibilidade de não ser visto que eu conhecia como menino, mas a de se encaixar tão bem que ninguém repara em você.
O café se chamava A Página Dobrada e ficava espremido entre uma livraria de velho e uma loja de antiguidades. Cheirava a café moído na hora, a papel antigo e a algo doce, talvez canela. A luz da tarde caía sobre as mesas em poças douradas onde flutuavam motes de poeira como pequenas constelações.
Mateo já estava lá. Vi antes que ele me visse: sentado junto à janela, com a câmera sobre a mesa e um copo de chá gelado entre as mãos. Usava uma camisa de linho branco com as mangas dobradas e aquele cabelo preto cacheado que sempre parecia ter vida própria. Vê-lo assim, sem saber que eu o observava, me provocou uma ternura que me surpreendeu. Esse cara tinha preparado um encontro para mim. E não fazia a menor ideia de quem eu era de verdade.
Empurrei a porta. O sino o fez virar a cabeça, e quando os olhos dele encontraram os meus seu rosto inteiro se iluminou. Ele se levantou tão rápido que quase derrubou o copo.
—Lucía —disse, e meu nome emprestado nos lábios dele soou como uma palavra que ele tivesse esperado a vida inteira para pronunciar—. Você veio. Você está… uau. Está linda.
O rubor que subiu às minhas bochechas não foi fingido. O calor se espalhou do centro do peito até o rosto, e abaixei os olhos por um instante, incapaz de sustentar o olhar dele. Ninguém tinha me chamado de “linda” antes, não daquele jeito.
—Obrigada —murmurei—. Você também está muito bem.
Pedimos café com leite de aveia e um brownie caseiro que ele jurava ser o teste decisivo de qualquer lugar. Quando o silêncio se instalou entre nós, não foi desconfortável, e sim expectante, como o espaço entre duas notas.
—Me conta uma coisa sua que ninguém mais saiba —disse, apoiando os cotovelos na mesa.
A pergunta me pegou de surpresa. Eu tinha um segredo enorme, pulsante, que ocupava cada canto da minha consciência. Mas fui procurar em outras gavetas, nas que eu guardava sob chave.
—Quando eu era pequena —comecei, usando o feminino com uma facilidade que já começava a parecer natural—, eu tinha um amigo imaginário. O nome dele era Bruma. Não era menino nem menina, era alguma coisa no meio. Ele me acompanhava a todos os lugares quando eu tinha medo. Nunca falava, só estava ali.
Mateo me escutava com uma atenção quase física.
—Acho que todo mundo tem uma versão de Bruma —disse devagar—. Para mim era a música. Quando meus pais brigavam, eu colocava os fones e aumentava o volume até só existir a melodia. Era meu jeito de fugir sem sair de lugar nenhum.
—É por isso que você gosta de fotografia? É outra forma de fugir?
—Mais de capturar o que eu quero lembrar. A vida passa rápido demais. Num segundo você está vivendo algo lindo e no seguinte já virou uma lembrança que vai se desfazendo. —Ele ergueu a câmera—. Posso?
Senti um arrepio no estômago, mas assenti. Havia algo na forma como ele segurava o aparelho, com reverência, que me fazia confiar. O obturador soou suave sob a música. Quando ele me mostrou a imagem, o ar me escapou dos pulmões. Era eu, mas não era eu: era a pessoa que eu sempre senti que era por dentro e nunca tinha conseguido mostrar.
—É assim que eu te vejo toda vez que olho para você —disse, e a simplicidade da frase me devastou mais do que qualquer declaração.
Saímos para caminhar. A tarde tinha ficado quente, com aquele sol de fim de primavera que aquece sem queimar. Mateo conhecia cada canto: um beco de murais, uma escada secreta até um mirante, uma rua cercada de jacarandás em flor que deixavam cair pétalas como confete roxo.
—Você tem um jeito muito particular de andar —observou—. É como se você flutuasse um pouco. Como se não quisesse fazer barulho ao pisar.
O comentário me fez tropeçar em mim mesmo, de repente consciente de cada gesto. Feminino demais? Óbvio demais? Mas ele não parecia desconfiar, apenas curioso.
—Prefiro passar despercebida —disse, escolhendo as palavras.
—Que estranho —sorriu de lado—, porque me parece impossível não te notar.
Foi no mirante que tudo mudou. Tínhamos subido a escada secreta e o lugar estava deserto, apenas um banco de pedra e a cidade se abrindo lá embaixo como um mapa desdobrado. Mateo largou a câmera no banco e se virou para mim. Eu estava apoiada no muro baixo, com o cabelo emprestado se movendo de leve na brisa, e quando ergui os olhos encontrei os dele a poucos centímetros.
—Desculpa —sussurrou—, mas passei a tarde inteira querendo fazer isso.
A boca dele encontrou a minha e o mundo inteiro se reduziu ao calor dos seus lábios sobre os meus. Foi um beijo desajeitado no começo, um reconhecimento tímido de um e de outro, e depois algo mais fundo: a língua de Mateo pedindo passagem, entrando devagar, procurando a minha. Um gemido baixo escapou da minha garganta e ele o engoliu como se fosse a melhor coisa que já havia provado. Enlacei o pescoço dele com os braços, sentindo-o inteiro contra mim, e quando o quadril dele se apoiou no meu percebi sem sombra de dúvida o volume duro pressionando o tecido do vestido.
Ele se afastou só um pouco, ofegante, com a testa colada à minha.
—Meu apartamento fica a três quadras —disse com a voz rouca—. Estou sozinho até a noite. Se você quiser.
O coração batia tão forte que eu o ouvia nos ouvidos. Cada célula de bom senso gritava para eu dizer não, fugir, lembrar que a mentira não aguentaria um quarto fechado. Mas outra parte, mais profunda, mais antiga, a parte que tinha esperado a vida inteira para alguém me olhar daquele jeito, respondeu por mim.
—Quero.
***
O apartamento era um estúdio pequeno com as paredes forradas de fotos dele e uma cama grande encostada na janela. Mal fechou a porta, ele me prensou contra ela. A boca voltou à minha com uma urgência diferente, sem mais o pudor do mirante, sem mais nada. As mãos dele me procuraram por baixo do vestido, subindo pelas coxas, e eu tremi porque sabia o que elas iam encontrar.
—Espera —murmurei contra os lábios dele, com o fôlego entrecortado—. Antes eu preciso te dizer uma coisa.
Ele parou. Os olhos escuros, dilatados, buscaram os meus.
—O que for.
Engoli em seco. A mentira se desfazia na minha boca. Eu não podia deixar que ele descobrisse sozinho o que ia descobrir. Peguei a mão dele e, sem dizer mais nada, a guiei por baixo do vestido até que os dedos dele roçaram o tecido apertado da cueca boxer e o volume duro que vinha pulsando por ele havia dias.
Ele ficou muito quieto. Vi o segundo exato em que entendeu. Os dedos dele se fecharam com cuidado em torno da forma sob o tecido, como quem reconhece algo pelo tato antes que pela vista.
—Eu não sou… —comecei, e a voz me quebrou—. Não sou exatamente o que você pensou. Posso ir embora se você quiser. Posso ir agora mesmo.
Mateo demorou uma eternidade para responder. E quando respondeu, não foi com palavras. Voltou a me beijar, mais devagar dessa vez, mais fundo, e a mão dele não recuou: apertou, mediu, começou a acariciar por cima do tecido até minhas pernas cederem.
—Você é exatamente o que eu quero —disse no meu ouvido—. Com tudo o que vier junto.
Ele me levou até a cama aos beijos, mordendo meu pescoço, empurrando com o quadril. Quando caí de costas sobre o colchão, o vestido subiu até a cintura e eu fiquei exposta: as meias, a boxer preta, o pau duro marcando o tecido, a maquiagem escorrida nos cantos. Eu devia ter sentido vergonha. Senti, em vez disso, um alívio brutal, como se finalmente alguém estivesse me vendo por inteiro.
Mateo se ajoelhou entre minhas pernas. Me olhou com uma intensidade que doía e baixou a boxer devagar, muito devagar, até me liberar. O pau saltou contra meu ventre, vermelho, inchado, com uma gota clara tremendo na ponta.
—Porra —murmurou ele, e não era nojo, era fome—. Você está linda assim.
Ele se inclinou e passou a língua por todo o comprimento, da base à ponta, e eu gritei. Um grito rouco, surpreso, animal. Ninguém nunca tinha me tocado assim. Ninguém. E agora Mateo enfiava a cabeça inteira do meu pau na boca e chupava, com os olhos fechados, gemendo também, como se me chupar fosse uma recompensa.
—Mateo, por favor —arquejei, agarrando o cabelo cacheado dele—. Por favor, por favor.
Ele me chupou inteira, levando-me até o fundo da garganta e trazendo de volta devagar, com a língua trabalhando por baixo. Cada vez que engolia até a base, eu empurrava o quadril sem querer e ele se deixava fazer, me engolindo, engasgando um pouco, gemendo ao redor da carne. A saliva escorria pelo queixo dele e pingava nos lençóis. Eu estava prestes a gozar em menos de dois minutos.
—Espera, espera —consegui dizer, puxando o cabelo dele para cima—. Vou gozar.
Ele tirou a boca com um som úmido, os lábios vermelhos, brilhantes, e riu baixinho.
—Ainda não, então.
Ele se levantou, tirou a camisa pela cabeça, desabotoou as calças. Quando baixou a boxer, o pau saltou no ar, grosso, curvado para cima, com as veias marcadas. Fiquei com água na boca só de ver. Sentei na cama, ainda com o vestido enroscado na cintura e as extensões caindo sobre o rosto, e o coloquei na boca sem pensar.
Mateo gemeu tão forte que até ele pareceu surpreso. Agarrei a base com uma mão, trabalhei com os lábios, tentando imitar o que ele tinha feito comigo. A língua dele contornou a glande, subiu pela veia de baixo, brincou com a pele esticada. O gosto era salgado, denso, com aquela gota espessa que brotava da ponta e eu engolia como se tivesse sido ensinada para isso.
—Assim, linda, assim —arquejava ele com a mão enredada no meu cabelo—. Chupa assim. Que boca, meu Deus, que boca.
Chupei o pau dele até as pernas começarem a tremer. Então ele me afastou, me empurrando com suavidade até eu cair de costas outra vez. Arrancou minhas meias com duas puxadas. Levantou o vestido até o peito. Abriu minhas pernas.
—Já fez alguma vez? —perguntou, com a voz rouca.
Balancei a cabeça. Um rubor terrível subiu ao meu rosto, mais intenso do que qualquer maquiagem.
—Nunca.
Ele se inclinou, beijou minhas coxas, beijou meu ventre, beijou meu pau outra vez, só de leve. Depois alcançou a mesinha de cabeceira e pegou um frasquinho. Passou lubrificante nos dedos e os levou entre minhas nádegas. O primeiro dedo entrou devagar, e eu cerrei os dentes, com o cabelo emprestado colando na minha testa úmida.
—Respira —sussurrou—. Relaxa, meu amor. Relaxa para mim.
Relaxei. Um dedo, dois dedos, se movendo, me abrindo. Senti uma fisgada de dor e depois uma onda de prazer surdo, profundo, que me fez arquear as costas. Mateo olhava meu rosto o tempo todo, atento a cada gesto, e quando agarrei o pulso dele pedindo mais ele sorriu e enfiou um terceiro dedo.
—Agora, Mateo, agora, por favor —gemi—. Me come, por favor.
Ele vestiu uma camisinha com dedos desajeitados, passou mais lubrificante, e se posicionou entre minhas coxas. Quando a ponta do pau dele empurrou contra minha entrada, achei que não ia caber. Ele avançou devagar, milímetro por milímetro, e eu mordi o lábio até sentir gosto de ferro. A dor durou só alguns segundos: depois veio o resto, aquela sensação de estar completo, de estar cheio, de estar finalmente dentro do corpo que me correspondia.
—Você está dentro —murmurei, incrédula, quase rindo—. Você está dentro.
—Estou dentro —ele repetiu, com a testa colada à minha—. E não quero sair nunca mais.
Ele começou a se mover. No começo com investidas curtas, cuidadosas, medindo quanto podia me dar. Depois, quando comecei a gemer e a levantar o quadril para recebê-lo, mais fundo, mais forte. A cama rangia. O vestido azul amarrotava contra meu peito. As extensões tinham escorregado para um lado. A maquiagem escorria em lágrimas pretas pelas têmporas. Eu nunca me senti tão bonita.
—Olha para mim —implorei—. Olha para mim enquanto me come.
E ele olhou. Olhou como se não houvesse mais nada no mundo. Agarrou meu pau com a mão e começou a me masturbar no ritmo das investidas, e eu gritei, e ele engoliu meus gritos com a boca, e seguimos assim, fodendo, nos beijando, nos mordendo, até que o corpo inteiro começou a se contrair de dentro para fora.
—Vou gozar, Mateo, vou gozar —arquejei.
—Goza para mim, linda. Goza toda.
Gozei gritando o nome dele, com jatos grossos de sêmen saltando sobre meu ventre, sobre o peito, manchando o tecido azul do vestido de Lucía. O orgasmo me sacudiu inteiro, e a cada espasmo eu apertava o pau de Mateo dentro de mim, extraindo tudo dele, até que ele também gritou e empurrou mais três, quatro vezes, até o fundo, e ficou quieto, se esvaziando dentro de mim com o corpo tremendo sobre o meu.
Ele desabou ao meu lado. Me puxou contra o peito. Eu estava chorando sem perceber, e ele limpava minhas lágrimas com o polegar.
—Você está bem? —perguntou.
—Estou melhor do que bem —sussurrei—. Estou inteiro.
Ficamos assim, enroscados, por muito tempo. Depois ele se levantou para buscar uma toalha úmida e me limpou com cuidado, primeiro o ventre, depois entre as pernas, com uma ternura que quase me fez chorar outra vez. Ajudou a arrumar meu cabelo. Retocou minha maquiagem com a ponta dos dedos.
—Ainda não sei seu nome verdadeiro —disse baixinho, sem cobrança, com curiosidade.
Contei, encostando a bochecha no ombro dele. Contei tudo: o favor para a minha irmã, o engano, o corpo errado, o fato de que eu tinha esperado a vida inteira para que alguém me visse. Ele escutou em silêncio, com os dedos no meu cabelo emprestado.
—Não me importa como começou —disse por fim—. Me importa como continua.
***
O que nenhum de nós dois sabia era que, a poucas quadras dali, outro drama silencioso começava a se desenrolar. A Galeria Norte se erguiа como um mastodonte de vidro e aço, quatro andares de lojas que aos sábados se enchiam de famílias e adolescentes sem rumo.
Lucía —a Lucía original— entrou às cinco e vinte. Usava jeans gastos, uma camiseta cinza, tênis branco e zero maquiagem, com o cabelo preso num rabo de cavalo descuidado. Ao lado dela, Sofía falava sem parar sobre um garoto que tinha conhecido numa festa.
—Te espero lá fora —disse Sofía quando chegaram à Traço e Cor—. Vou ver aquela loja de maquiagem que está em promoção de batons.
Três andares acima, apoiado no guarda-corpo do último piso, Bruno terminava de comer um hambúrguer. Ele era meu melhor amigo desde a escola primária: alto, desengonçado, com óculos de armação grossa e um corte irregular porque insistia em cortar o próprio cabelo. Me conhecia melhor do que ninguém no mundo, além da minha irmã.
E então viu uma garota caminhando pelo corredor do segundo piso. Vestido azul escuro, cabelo castanho em ondas, do braço de um cara de cabelo cacheado com uma câmera. Os dois riam, inclinados um para o outro, com aquela proximidade impossível de fingir.
Bruno franziu a testa. Havia algo naquela garota que lhe parecia impossivelmente familiar. A maneira de inclinar a cabeça ao rir. O gesto de afastar uma mecha com a mão direita. O contorno do nariz, a linha da mandíbula.
Não pode ser, pensou, e um arrepio percorreu sua espinha. Era ele. Era seu melhor amigo. Vestido como uma garota. Maquiado, com extensões, do braço de um cara, deixando-se fotografar como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Com as mãos trêmulas, sacou o celular e deu zoom. Tirou uma foto. Outra. Não sabia por quê; só precisava de prova de que não estava enlouquecendo.
Quinze minutos depois ele ainda estava paralisado. E então o mundo parou pela segunda vez. Ele baixou o olhar e lá estava ela outra vez. A mesma garota. O mesmo rosto. Mas todo o resto era diferente: jeans gastos, camiseta cinza, rabo de cavalo simples, tênis, zero maquiagem, uma sacola da loja de artesanato na mão.
Bruno olhou para o relógio: 17h37. Doze minutos antes tinha visto a de vestido azul desaparecer pelas escadas do outro lado. Trocar de roupa e cruzar o shopping inteiro nesse tempo era fisicamente impossível. A menos que fossem duas pessoas. Gêmeas.
A peça se encaixou com um clique quase audível. Seu melhor amigo tinha uma irmã gêmea da qual nunca havia falado. Mas isso abria mais perguntas do que resolvia. Guardou o telefone com a garganta seca, sabendo, com uma certeza que lhe gelava o sangue, que acabara de esbarrar em algo que mudaria tudo.
***
Mateo e eu nos despedimos quando o sol era apenas uma linha laranja. Paramos na esquina da rua Rivera, a meia quadra do café onde tudo tinha começado. O ar estava mais fresco, com aquele cheiro das primeiras horas da noite. Eu caminhava com as pernas ainda trêmulas, com o sêmen dele escorrendo de leve entre as nádegas, com a marca dos dedos dele na cintura, por baixo do vestido.
—Podemos repetir? —disse ele, enfiando as mãos nos bolsos—. Tudo. O encontro. O resto. Tudo.
—Eu adoraria —respondi, e a verdade dessas palavras me surpreendeu.
Ele deu um passo em minha direção e me beijou de leve no canto dos lábios. Um arrepio percorreu minha nuca e desceu pela espinha, lento, acordando de novo o desejo que tínhamos acabado de apagar uma hora antes.
—Até logo, Lucía —murmurou.
—Até logo, Mateo.
Vi ele se afastar até se perder no meio do povo e só então me permiti respirar.
***
Encontrei Lucía na cama, com um bloco de desenho sobre as pernas. Ao me ver entrar, bateu com a mão no espaço ao lado dela.
—Me conta tudo. Não omita nenhum detalhe.
Contei quase tudo: o café, as fotos, o mirante, o beijo. Guardei o que aconteceu no apartamento. Aquilo ainda era íntimo demais para dividir.
—Parece que foi perfeito —disse, e havia algo na voz dela, orgulho e nostalgia misturados.
—Foi.
Então começou o ritual inverso. Sentei diante do penteadeira e Lucía passou algodão com água micelar no meu rosto. A cada passada, uma camada dela desaparecia e o garoto de baixo voltava a aparecer. Tiramos as extensões uma a uma e as deixamos sobre a madeira como relíquias.
Troquei de roupa no banheiro, pendurando o vestido azul com um cuidado quase reverente. Vi a mancha seca do meu gozo no tecido e senti um aperto no estômago. Teria de lavar aquilo eu mesmo, às escondidas. Quando me olhei no espelho, o contraste cravou uma fisgada parecida com dor. Era como ver um estranho que usava meu rosto.
Voltei para o quarto de Lucía arrastando os pés.
—E você, como foi? —perguntei, me jogando ao lado dela.
Ela me contou da Sofia, dos pincéis, da galeria lotada. Eu assentia, mas por dentro ainda estava no apartamento de Mateo, com a boca dele no meu pescoço e o quadril dele me empurrando contra o colchão. Alguma coisa tinha despertado hoje e não ia voltar a dormir. Eu ainda não sabia como aquilo se chamava, mas sabia que era meu. O que eu não suspeitava, enquanto Lucía apagava a luz e o quarto se enchia de jasmim, era que no telefone de Bruno já havia três fotos esperando, e que o segredo que achávamos estar seguro havia começado, em silêncio, a desmoronar.