O que Yara escondia sob o vestido naquela noite
A primeira vez que vi Yara foi no espelho do camarim, não de frente. Eu estava retocando o delineado antes da segunda entrada e ela apareceu refletida atrás de mim, recém-chegada, com uma mala de couro gasto e um vestido verde que parecia feito para outro tipo de noite. Trabalhava no Marabú havia três anos; conhecia cada garota que passava por aquele corredor. Ela eu não conhecia, e ainda assim senti que a esperava havia uma vida inteira.
—Você é a novata? —perguntei sem me virar, falando com o espelho.
—Yara —disse, e o sotaque dela arrastava os erres de um jeito que não era da cidade—. Vim do norte. Muito do norte.
Ela tinha nascido num povoado de terra vermelha, junto a um rio largo e quente, numa região onde a selva começa onde termina a última casa. Contava isso sem nostalgia, como quem descreve o clima. Disse que, quando criança, tinha sido a única diferente, a que não se encaixava em nenhuma das caixinhas que o povoado tinha preparado, e que no dia em que fez dezoito anos juntou o pouco que tinha e desceu rumo ao litoral procurando um lugar onde ninguém lhe pedisse explicações.
—E aqui estou —concluiu, dando de ombros—. Você é a Daniela? Falaram de você pra mim.
Me deu graça que os boatos me precedessem. No Marabú eu era a veterana, a que abria e fechava a noite, a que ensinava as novatas a andar de salto sem tremer o tornozelo. O que nenhuma sabia, porque nunca precisou ser dito em voz alta, era que eu também tinha feito o meu próprio caminho até me sentir inteira. Meu corpo era meu por decisão, não por acidente, e isso me dava uma calma que o público confundia com elegância.
—Depois de mim é sua vez —avisei—. Veja como eu faço e depois esqueça tudo o que viu. No palco só serve o que sai de dentro.
Naquela noite eu a observei das coxias. Yara não precisava que ninguém lhe ensinasse nada. Saiu sob a luz âmbar como se o palco tivesse sido construído sob medida para as suas coxas, e o salão inteiro, que já tinha visto de tudo, calou de repente. Tinha a pele da cor de café com leite, ombros largos e uma cintura que se quebrava numa curva impossível. Mas o que hipnotizava não era a geografia do corpo. Era a segurança. Caminhava como se soubesse um segredo que o resto de nós levaria a vida inteira para descobrir.
***
Ficamos inseparáveis em questão de semanas. Dividíamos camarim, cigarros no beco dos fundos e cafés da manhã às cinco da manhã no único bar que ainda estava aberto àquela hora. Falávamos de tudo: dos homens que nos olhavam como se fôssemos um enigma a ser resolvido, das mulheres que se aproximavam com mais curiosidade do que coragem, do que queríamos fazer quando juntássemos o suficiente para ir embora para longe. Nunca falávamos do que acontecia entre nós, que crescia em cada toque e em cada olhar demorado um segundo a mais.
—Você nunca teve medo? —me perguntou certa madrugada, mexendo o café—. De se mostrar assim, inteira, na frente de toda essa gente.
—Antes, sim —admiti—. Agora me dá mais medo me esconder. E você?
Ela ficou olhando para a xícara por um bom tempo.
—Me ensinaram a me esconder por tanto tempo que quase esqueci como era o resto. Foi por isso que fui embora.
Naquela noite fomos andando até a pensão dela sem tocar no assunto, mas quando chegamos à porta ela não soltou minha mão. Ficou com meus dedos entre os seus, me olhando com uma pergunta que nenhuma de nós tinha coragem de dizer em palavras.
—Fica —disse por fim.
Não era um convite inocente, e as duas sabíamos disso.
***
O quarto era pequeno, com uma só lâmpada e uma janela que dava para o pátio. Yara acendeu a luz baixa e ficou parada no centro, ainda com o vestido verde do último número, aquele que se amarrava na nuca com um nó frouxo. Eu me sentei na beira da cama, sem pressa, deixando a tensão se esticar até se tornar insuportável.
—Faz semanas que eu penso nisso —confessei—. Toda vez que você trocava de roupa ao meu lado e eu fingia que não estava olhando.
—Você olhava —disse ela, com um sorriso lento—. Eu vi. E gostava que você olhasse. Às vezes eu me demorava de propósito, sem calcinha, pra ver se sua mão tremia com a máscara de cílios.
—Tremia —admiti—. Toda maldita vez.
Ela ergueu as mãos até a nuca e desfez o nó. O tecido caiu pelo peito com uma preguiça deliberada, descobrindo primeiro os ombros, depois a curva pesada dos seios, os mamilos escuros e endurecidos pelo ar fresco do pátio. Quando o zíper lateral cedeu, o vestido inteiro escorregou até o chão e ficou ali, parada diante de mim, sem nada para cobri-la e sem um grama de vergonha. Entre as coxas, meio dura já de finalmente saber que estávamos sozinhas, a rola lhe curvava pesada contra o ventre, grossa, com a ponta brilhando de um fio precoce.
Entendi então por que o salão calava quando ela entrava. O corpo dela era uma contradição magnífica: os quadris largos, a cintura impossível, as coxas firmes, e entre eles um sexo que não pedia licença a definição nenhuma. Yara não escondia nada. Mostrava tudo como quem exibe uma verdade pela qual lutou todos os dias da vida.
Isso é o mais honesto que eu vi em muito tempo, pensei.
—E então? —perguntou, inclinando a cabeça e baixando a mão até envolver o pau, apertando-o devagar para mim—. Continua olhando ou vem me chupar?
Levantei e a beijei antes que terminasse a frase. A boca dela era quente e tinha gosto de café e tabaco, e quando envolvi sua cintura com as mãos senti como ela estremecia contra mim. Mordi o lábio inferior dela, devagar, e ela respondeu apertando-se mais, deixando-me sentir o pau duro inteiro contra o ventre, pulsando ali através do tecido do vestido. Desci uma mão e o agarrei pela primeira vez: pesado, morno, latejando como um bicho vivo na palma. Arrastei o prepúcio com o polegar e arranquei dela um gemido que me ficou preso na boca.
—Safada —sussurrou contra meus dentes—. Você sabe o que faz.
—Aprendi sozinha —respondi, apertando mais forte, puxando com calma, sentindo-o ainda mais duro entre meus dedos.
Empurrei-a com suavidade até que se sentasse na cama. Ajoelhei-me entre suas pernas e a encarei de baixo, esperando, querendo que me pedisse. Tinha o pau erguido a um palmo do meu rosto, grosso, com as veias marcadas e a ponta já perlada de líquido. Passei a língua pela base e subi devagar até a glande, chupando o fio de pré-gozo como quem saboreia uma fruta.
—Não tenha medo —murmurou, repetindo minhas próprias palavras daquela madrugada—. Só sirva o que sai de dentro. Chupa pra mim, Dani, por favor, chupa como você sabe.
Obedeci. Abri a boca e o enfiei inteiro de uma vez, até a ponta tocar o fundo da garganta e as lágrimas turvarem o delineado que eu acabara de retocar. Yara gemeu alto, longo, e cravou os dedos na minha nuca sem me obrigar, só me sustentando, me deixando conduzir o ritmo. Comecei a subir e descer de boca aberta, a língua achatada contra o verso do pau, chupando-o com fome de meses. Cada vez que o tirava de uma vez, a saliva me escorria pelo queixo, e eu o enfiava de novo até o nó da garganta, engolindo ao redor, sentindo-o pulsar contra o céu da boca.
—Assim, puta, assim —ofegava ela, arqueando os quadris—. Chupa tudo, não deixa nem um segundo.
Passei a língua por baixo, pelos ovos tencionados e quentes, e os coloquei um por um na boca, sem parar de puxar o pau com o punho. Yara se contorcia, enterrava os dedos no meu cabelo, pedia mais com aquela voz rouca que eu não conhecia. Quando voltei à glande e apertei com os lábios logo atrás da coroa, senti o corpo dela inteiro tremer, com as coxas endurecendo ao lado do meu rosto.
—Espera —ofegou depois de um tempo, puxando meu cabelo para eu subir—. Se você continuar assim eu vou gozar na sua boca agora, e eu não quero. Quero isso com você. As duas. Quero te comer, Dani. Quero ver sua cara quando eu te meter.
***
Ela me ajudou a me despir com uma urgência terna, parando para beijar cada parte que ia descobrindo, como se reconhecesse um terreno que pensava habitar por muito tempo. Chupou meus mamilos um a um, mordendo-os até o limite da dor, e desceu a mão pelo meu ventre até encontrar o meu pau, também já duríssimo, escorrendo contra a pele. Agarrou-o com a mesma calma com que eu tinha agarrado o dela e começou a puxá-lo, olhando nos meus olhos, mordendo o lábio.
—Você está tão dura quanto eu —murmurou—. Você é tão safada quanto eu.
—Pior —respondi, rindo com o ar cortado.
Ela desceu da cama e me chupou também, ajoelhada entre minhas pernas, sugando-me até o fundo com uma destreza que me fez fechar os olhos e me agarrar à cabeceira. Tirava-o da boca para lamber da base à ponta, cuspia sobre a glande e voltava a engoli-lo inteiro, se engasgando de propósito para eu sentir bem bater em sua garganta. Quando tirou de mim uma gota espessa com a língua e me sorriu com os lábios brilhando, tive que apertar seus ombros para que parasse antes de eu gozar em seu rosto.
—Vem —pedi, rouca—. Vem pra cima. Me come.
Quando ficamos as duas nuas sobre aquela cama estreita, nos olhamos por um segundo em silêncio, reconhecendo-nos no espelho uma da outra. Dois corpos que o mundo tinha querido corrigir e que naquela noite se celebravam exatamente como eram. Yara tirou um frasquinho da mesa de cabeceira, passou lubrificante na mão e primeiro espalhou em mim, besuntando meu pau com carícias longas, e depois encheu os dedos e foi procurar meu cu. Virei-me de costas, com as pernas abertas, e senti o primeiro dedo entrando devagar, até a junta, girando dentro de mim com uma paciência que me fez gemer de puro alívio.
—Relaxa, meu amor —murmurou, e acrescentou outro dedo—. Vou te comer devagar. A noite inteira se for preciso.
Ela me abriu com dois dedos, depois com três, procurando aquele ponto que me arrancava tremores nos quadris sempre que roçava ali. Quando eu estava frouxa, ofegante, com o peito subindo e descendo como se eu tivesse corrido um quarteirão, subiu em cima de mim. Agarrou meus joelhos e os abriu mais, encaixou a ponta do pau contra mim e empurrou devagar, ganhando-me centímetro por centímetro. Senti o estiramento, o calor, a carne dura entrando até o fundo, e soltei um gemido longo que ela abafarou com a boca.
—Toda —sussurrou contra meus dentes quando a teve inteira dentro—. Sente tudo, puta.
Começou a se mover, primeiro em estocadas curtas, depois mais longas, mais profundas, me tirando quase inteira e me enterrando num impulso que fazia minha nuca bater no travesseiro. Eu cravava as unhas em suas costas, envolvia seus quadris com os tornozelos, pedia mais com palavras que nem eu reconhecia na minha boca. Cada vez que ela me metia até o fundo, meu próprio pau pulava contra o ventre, deixando um charquinho de pré-gozo no meu umbigo.
—Mais forte —implorei—. Me come mais forte, Yara, não tenha pena de mim.
Ela me virou de barriga para baixo sem me tirar nada, se acomodou atrás e me montou de novo, agarrando meus quadris com as duas mãos. Aí me fodeu sem cuidado, até o fundo, com investidas rápidas e secas que faziam suas coxas baterem contra as minhas com um estalo úmido. Arqueei-me e empurrei meu cu contra ela, procurando-a, e Yara riu baixinho, satisfeita, enquanto passava uma mão por diante e agarrava meu pau para começar a puxá-lo no mesmo ritmo das estocadas.
—Goza pra mim —pediu no meu ouvido—. Goza com o meu dentro. Quero sentir você me apertando quando acabar.
Não aguentei muito mais. A mão dela me puxando, o pau dela entrando em mim de novo e de novo, a voz rouca respirando na minha nuca. Gozei com um grito abafado, escorrendo inteira sobre os lençóis e sobre os dedos dela, me contraindo ao redor dela em espasmos que arrancaram um gemido gutural dela.
—Isso, isso, assim —ofegou, investindo mais rápido—. Você vai me fazer gozar, puta, vai me fazer gozar dentro.
—Dentro —lhe disse, com a voz partida—. Goza dentro de mim, Yara, eu quero sentir você.
Ela gozou poucos segundos depois, me cravando até o fundo, mordendo meu ombro para não acordar metade da pensão. Senti-a pulsar dentro de mim, jorro após jorro, me enchendo quente, enquanto ela tremia sobre mim com a respiração cortada e me segurava pelos quadris como se tivesse medo de eu escapar.
Depois ficamos assim por um bom tempo, ela ainda dentro, as duas ofegantes, encharcadas de suor e de sêmen. Quando por fim ela o tirou, com um beijo na nuca, senti o rastro morno descendo pela minha coxa e me arrepiei de novo. Rolou para o meu lado, me puxou contra o peito, e lambeu os dedos que eu tinha sujos com minha própria gozada, um por um, me olhando.
—Olha pra mim —pedi, segurando o rosto dela entre as mãos, ainda agitada—. Não fecha os olhos.
E ela não fechou. Ficamos assim, nos olhando, com o pátio entrando pela janela e a lâmpada baixa nos desenhando em sombras na parede. Foi longo e foi limpo, sem teatro, uma verdade compartilhada entre duas pessoas que enfim tinham encontrado um lugar onde ninguém lhes cobrava nada.
Depois ficamos enroscadas, recuperando o fôlego, a cabeça dela no meu peito e minha mão desenhando as costas dela.
—Sabe o que me ocorreu? —disse ela, ainda ofegante—. Um número juntas. Você e eu, no mesmo palco.
Eu ri, porque era exatamente o que eu estava pensando.
—O dono vai desmaiar quando vir a fila na porta.
—Que desmaie —disse Yara, me beijando o ombro—. A noite fica pra nós.
***
Dois meses depois estreamos o número. Saíamos as duas ao mesmo tempo, uma de cada lado do palco, vestidas iguais e ao mesmo tempo opostas, e nos encontrávamos no centro sob a mesma luz âmbar que a tinha recebido naquela primeira noite. O salão enchia todos os fins de semana. Vinham nos ver às duas: duas mulheres trans que não pediam desculpas por existir, que tinham transformado em espetáculo aquilo por que tanto haviam querido castigá-las.
Mas o verdadeiro espetáculo era o outro, o que só nós víamos, quando voltávamos de madrugada para a pensão e fechávamos a porta do mundo. Ali não havia público nem luzes nem nomes na fachada. Só Yara e eu, dois corpos extraordinários que tinham cruzado meio país procurando a mesma coisa e se encontrado no reflexo de um espelho de camarim.
—Você imaginava algo assim quando desceu do norte? —perguntei numa dessas madrugadas, abraçada às costas dela, com o pau dela ainda morno contra a concha da minha mão.
—Nem em sonho —murmurou, já meio adormecida—. Vim pra me esconder menos. Não sabia que ia encontrar alguém com quem não esconder nada.
Apertei-a mais forte e não respondi. Não precisava. As duas sabíamos que aquela era, exatamente, a única classe de noite pela qual valia a pena ter percorrido todo o caminho.





