Vesti-me de mulher na floresta e ele me descobriu
Pintei os lábios encostada no tronco, certa de que estava sozinha. Então ouvi o estalo de umas folhas e soube que alguém me observava havia um tempo.
Pintei os lábios encostada no tronco, certa de que estava sozinha. Então ouvi o estalo de umas folhas e soube que alguém me observava havia um tempo.
Assinei minha renúncia sem olhar para trás. Naquela noite seria a última transa da minha vida como homem, e eu pretendia aproveitá-la antes de começar a ser quem Carla sempre quis.
Diante do espelho, com os lábios pintados e os saltos calçados, não vi ninguém fantasiado: vi a mulher que sempre quis ser quando me entrego.
Cruzei a porta do bar de saltos novos e o coração na garganta. Eu não imaginava que naquela noite alguém do meu passado entraria.
Cheguei à porta dele com uma bolsa escondendo minha outra pele: corset, meias e saltos. Nessa noite deixei de ser Adrián para me entregar inteira como Selene.
Coloquei o vestido vinho que ele tinha escolhido, respirei fundo e entendi que aquela noite seria o verdadeiro presente: sentir-me, enfim, a mulher que sempre fui.
A primeira vez que me vi no espelho com o vestido vermelho, soube que Daniela já não se contentaria em sair só quando o povoado dormia.
Todas as noites ela se tocava às escondidas e chorava de culpa. Naquela madrugada, caminhou rumo às dunas sem saber que o deserto guardava um templo e, dentro dele, uma figura que mudaria tudo.
Três noites de mensagens com um desconhecido e, quando ele perguntou se eu estava sozinho, resolvi contar a verdade sobre mim pouco antes de dar meu endereço.
Quando a assistente do diretor me entregou a bolsa com a lingerie, soube que não havia mais volta: naquela noite, eu pertenceria a todos os homens da sala.
Passei semanas contendo-o com um sorriso e um «ainda não». Naquela noite, quando a mão dele encontrou a minha, soube que não queria mais esperar.
Coloquei os scarpins vermelhos, o baby doll e a peruca, fiz um pedido qualquer e sentei para esperar um desconhecido tocar minha porta sob a chuva.
Nunca tinha estado com alguém assim. Quando ele abriu a porta e tive que erguer o olhar para encará-lo, soube que aquela noite deixaria de me pertencer.
Bastou um sussurro junto ao meu ouvido para que toda a minha vida de homem correto começasse a desabar sob o clique de saltos que ainda não eram meus.
Fui pedir trabalho como garçom em um clube de beira de estrada. Três semanas depois, servia bebidas de tanga, salto alto e um nome novo: Adriana.
Aceitei o jogo só por uma noite: um vestido, uma peruca e um nome que não era o meu. Jamais imaginei que a garota do espelho me devolveria o olhar como se me esperasse.
Me arrumei como uma deusa para passar a noite diante da câmera. Quando a campainha tocou, não era o entregador: era ele, real e com o fim de semana inteiro pela frente.
Tinha vinte e sete anos, uma namorada e uma vida regrada. Então aquele vizinho o olhou no ônibus como se soubesse algo que Tobías ainda não ousava nomear.
Quando abri a porta, esperava encontrá-la sozinha no sofá, como sempre. Não contava com a segunda silhueta que me observava na penumbra da sala.
Desliguei o motor no canto mais escuro do posto, retocando os lábios no retrovisor, e soube que aquela noite eu não ia embora sozinha.