Quatro amigos, um resort naturista e um trio inevitável
Valentina dirigia com as duas mãos apoiadas no volante e o olhar fixo na A7 que se abria diante deles como uma promessa longa. O Mediterrâneo apareceu à esquerda dela alguns quilômetros depois do último pedágio, azul e denso sob a tarde de julho, e no banco de trás Sofia colou o rosto na janela e soltou um suspiro longo.
—Já dá para ver — disse ela.
—Ainda falta meia hora — respondeu Tomás do outro lado do banco, sem tirar os olhos do celular, onde passara a última hora lendo avaliações do resort.
Rodrigo, no banco do passageiro, fechou os olhos e encostou a nuca no apoio de cabeça. Faziam quatro horas de estrada desde Madri e o cansaço lhe esvaziara a mente de tudo, exceto de uma coisa: a imagem dos quatro cruzando o portão da La Cala Libre sem roupa, caminhando por aqueles caminhos que ele tinha visto nas fotos. A ideia lhe parecia tão excitante quanto ridícula, e essa mistura era, segundo Valentina, exatamente o ponto.
Valentina havia organizado tudo. Ela encontrou o resort num fórum, convenceu os outros um a um em conversas separadas, reservou a cabana com quatro meses de antecedência. Quarenta e três anos, advogada, cabelo preto cortado na altura do queixo e uma capacidade para tomar decisões que às vezes intimidava. Rodrigo a conhecia desde a universidade e sabia que, quando Valentina planejava algo, levava até o fim.
Dessa vez não vai ser diferente, pensou ele, sem saber se isso lhe trazia tranquilidade ou o deixava ainda mais nervoso.
***
A La Cala Libre estava encaixada entre duas colinas a três quilômetros da costa, protegida do vento por uma fileira de pinheiros e dos olhares alheios por uma cerca de madeira alta e discreta. O guarda da entrada conferiu a reserva sem fazer perguntas, entregou um mapa do recinto e apontou o caminho para as cabanas do setor B com a indiferença tranquila de quem passa anos vendo gente nervosa chegar e sair relaxada.
Deixaram o carro no estacionamento sombreado e tiraram as malas em silêncio. Havia famílias com crianças ao fundo, perto da piscina central, e grupos de gente de todas as idades caminhando sem pressa e sem roupa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era, segundo as regras do resort: nudez obrigatória nas áreas comuns, respeito, discrição, sem fotografias.
—Bom — disse Sofia, e se calou.
Ela era a mais jovem dos quatro, trinta e um anos, enfermeira, uma cabeleira ruiva que ia até os ombros e uma maneira de franzir a testa quando algo lhe causava dúvida que a fazia parecer ainda mais nova. Passara semanas falando da viagem com uma mistura de entusiasmo e pânico que não conseguira disfarçar por completo.
Tomás pôs uma mão no ombro dela sem dizer nada. Ele era o que menos perguntas tinha feito quando Valentina lhe propôs o plano, o que menos dúvidas expressara em voz alta. Quarenta anos, construtor, os braços cobertos de tatuagens até os pulsos e uma calma corporal que Rodrigo sempre achara invejável. A calma de alguém que confia no próprio corpo.
A cabana era pequena, mas bem equipada: uma cama de casal, um sofá que virava cama, um terraço com vista para os pinheiros e para o mar que se adivinhava entre os troncos. No criado-mudo, alguém da equipe havia deixado uma nota de boas-vindas, um abridor e uma garrafa de água. O ar dentro cheirava a madeira aquecida e limpeza.
Valentina percorreu o espaço com os olhos antes de largar a bolsa sobre a cama.
—Começamos? — disse, e era uma pergunta, mas soava a proposta.
***
Tirar a roupa num lugar aberto, com três pessoas olhando, era mais difícil do que Sofia imaginara. Não porque tivesse vergonha do próprio corpo, mas porque o gesto em si tinha um peso que ela não esperava. Cada peça que caía no chão era uma coisa a menos entre ela e o resto.
Valentina se despiu sem pausa, com a eficiência de quem faz algo há tempo. Rodrigo fez isso mais devagar, olhando para o lado por um instante antes de se olhar no espelho da porta. Tomás tirou a camiseta pela cabeça e dobrou a calça jeans sobre a cadeira com cuidado excessivo, como se precisasse colocar ordem em algum lugar.
Saíram para os caminhos do resort com o sol já descendo em direção às colinas. A terra estava quente sob os pés. O ar cheirava a pinho e protetor solar. A poucos metros, dois homens jogavam cartas numa mesa de madeira, e um grupo de mulheres ria perto do bar ao ar livre com uma naturalidade que, a princípio, pareceu quase perturbadora a Sofia e depois, aos poucos, reconfortante.
Caminharam por quase uma hora. Pouco a pouco, os ombros de Sofia baixaram. A tensão que lhe apertava o pescoço desde a manhã foi cedendo a cada passo. Era estranho, sim. Era incômodo no começo, sim. Mas também havia algo libertador em se mover assim, sem camadas, sem nada para esconder.
Valentina caminhava ao lado de Rodrigo, com as mãos roçando sem chegar a se tocar. Tomás e Sofia vinham atrás e, em certo momento, quando a trilha se estreitou entre dois arbustos altos, Tomás pôs a mão nas costas dela para deixá-la passar primeiro, e ela sentiu o contato como uma corrente breve que não se dissipou por completo quando ele retirou a mão.
Isso vai acontecer, pensou Sofia. Não sei quando esta noite, mas vai acontecer.
***
De volta à cabana, Valentina abriu a garrafa de vinho que trouxera de Madri e serviu quatro taças enquanto os outros se distribuíam pelo espaço reduzido, sentados na cama e no sofá, falando de coisas sem importância. A conversa foi esvaziando seu conteúdo aos poucos, como a água que vai baixando de nível até sobrar só o fundo.
Foi Rodrigo quem se aproximou primeiro de Valentina. Ele a conhecia bem demais para contornar o momento com muitas palavras. Pôs a mão na nuca dela, e ela ergueu o rosto em direção a ele, e se beijaram devagar, sem pressa, como se estivessem sozinhos.
Não estavam sozinhos.
Sofia os observava da beira da cama, com a taça de vinho entre as mãos, os dedos apertados em volta do cristal. Tomás estava sentado ao lado dela, e ela podia sentir o calor da coxa dele contra a sua, embora não se tocassem. Em algum momento, deixou a taça no chão, e Tomás fez o mesmo.
—Está bem? — ele perguntou em voz baixa.
—Sim — respondeu ela—. Estou muito bem.
Ela o beijou, não ele. Isso também era diferente do que ela imaginara.
***
O que veio depois não foi caótico nem apressado. Teve a lentidão estranha das coisas que se esperam há muito tempo. Valentina se recostou na cama e Rodrigo se ajoelhou entre as pernas dela, as mãos abrindo-a devagar, a boca descendo até tocá-la com a língua. Ela fechou os olhos e apoiou os calcanhares nas costas dele, respirando fundo enquanto ele a lambia com paciência, passando a ponta da língua pelo centro, separando-a com os dedos, afundando a boca com uma mistura de fome e controle que a fazia arquear-se cada vez mais.
—Assim — murmurou Valentina, com a voz já quebrada—. Não para.
Sofia e Tomás tinham se recostado ao lado deles. A cama rangia levemente a cada movimento e isso, por algum motivo, tornava tudo mais real. Tomás passava a palma pelos seios dela, devagar, sem pressa, pesando-os, apertando os mamilos entre os dedos até Sofia soltar pequenos gemidos que tentava morder. As mãos dele eram grandes e quentes, e sabiam quanta pressão aplicar sem que ninguém precisasse explicar. Ele desceu pelo ventre dela, roçou o monte de Vênus com os nós dos dedos e então, com uma determinação lenta, enfiou dois dedos nela enquanto a beijava outra vez, fundo e sujo, com a língua empurrando o ofego para a garganta dela.
—Assim — disse Sofia, sem especificar mais, porque não era preciso: estava molhada, aberta, tremendo sob ele.
Valentina abriu os olhos em algum momento e viu Sofia sobre Tomás, se movendo com uma concentração que lhe pareceu linda e um pouco surpreendente. Não esperava isso dela, pensou, e sorriu antes de Rodrigo reclamá-la de novo. Rodrigo a virou com cuidado, afastou as pernas dela com as mãos e a penetrou devagar, primeiro só a ponta, depois mais, deixando-se engolir por aquele calor apertado que lhe arrancou um rosnado baixo. Valentina reclamou de prazer, apoiou a testa no travesseiro e ele segurou os quadris dela para entrar mais fundo, puxá-la quase até fora e voltar a afundar, marcando um ritmo firme que fazia pele bater contra pele num som úmido e constante.
Os corpos foram encontrando suas posições de maneira orgânica, sem longas negociações. Rodrigo se posicionou atrás de Valentina enquanto ela se apoiava nas mãos e nos joelhos, e a penetrou devagar, deixando-a se acostumar ao ritmo antes de aprofundar. Valentina soltou um som baixo, quase um rosnado, e ele tomou aquilo como sinal para continuar. Agarrou o cabelo da nuca dela, arqueou suas costas com uma mão no sacro e começou a fodê-la com investidas cada vez mais cheias, cada vez mais fortes, até que o choque dos quadris dele contra os dela arrancou de Valentina um gemido longo, trêmulo, que rebateu nas paredes de madeira da cabana.
Sofia, de onde estava, estendeu a mão e tocou o ombro de Valentina. Foi um gesto breve, quase instintivo. Valentina virou a cabeça e a olhou, e naquele olhar havia algo que não precisava de nome.
—Vem — disse Valentina.
Sofia se aproximou de joelhos sobre o colchão, e Valentina a puxou para si com uma mão firme no quadril. O que veio depois era novo para Sofia, completamente novo, e ela o sentiu como uma revelação física, imediata e sem ambiguidade: a boca de Valentina encontrando exatamente o ponto de que ela mais precisava. Valentina a lambeu devagar no começo, com a língua dura e paciente, separando os lábios, entrando entre eles, chupando seu clitóris com uma precisão que fez Sofia se retorcer e buscar o lençol com os dedos. Depois acelerou, sem perder o controle, ouvindo cada ofego, cada tremor, até Sofia começar a pedir mais com uma voz quebrada que já não parecia sua.
Tomás as observava de trás, em pé ao lado da cama. Ele se acariciava com deliberada calma, com aquela tranquilidade que tinha para tudo. Em algum momento Rodrigo fez um gesto com a cabeça, convidando-o, e Tomás pegou o lubrificante do criado-mudo e se aproximou de Valentina por trás.
—Sim? — perguntou ele, com a mão pousada no quadril dela, mas sem se mexer.
—Sim — disse Valentina sem se separar de Sofia—. Devagar.
A entrada foi gradual, milímetro por milímetro, com Tomás parando cada vez que Valentina tensionava os músculos e retomando o movimento só quando ela relaxava. Primeiro a ponta, depois mais um pouco, até tê-la inteira dentro, e os dois respirarem ao mesmo tempo. Tomás segurou os quadris dela com firmeza e começou a empurrar com um ritmo medido, profundo, fazendo Valentina se abrir e fechar ao redor dele enquanto Rodrigo, ao lado, segurava seu ombro e beijava as costas suadas dela. Sofia, ainda se estremecendo sob a boca de Valentina, desceu a mão e apertou a coxa de Tomás, sentindo o vai e vem do corpo dele atrás de si, a maneira como as investidas levantavam a cama inteira.
Rodrigo se posicionou de lado para lhes dar espaço, e dali observava a cena com os olhos semicerrados, com a mão de Sofia entrelaçada à sua de um jeito que nenhum dos dois lembrava bem quando havia começado. Levou os dedos dela à boca, chupou um por um, e depois a beijou com fome aberta, língua contra língua, enquanto a outra mão descia entre as pernas dela para encontrá-la outra vez encharcada, quente, trêmula.
Durante um tempo que ninguém saberia medir, os movimentos se sincronizaram sozinhos. Não havia ninguém conduzindo. Não era preciso. Os corpos encontravam seus ritmos e se ajustavam e os reencontravam, e o som que enchia a cabana era o de quatro pessoas completamente presentes no que faziam. Nada mais. Valentina empurrava os quadris para trás para receber Tomás mais fundo; Rodrigo a tomava pela frente com a mão fechada em seu peito, apertando o mamilo até fazê-la gemer; Sofia subia sobre Tomás, montava-o com movimentos curtos no começo e depois mais amplos, cravando as unhas nos ombros dele enquanto ele a segurava pela cintura e a fazia quicar sobre o pau com uma facilidade brutal.
Valentina foi a primeira a chegar, com uma contração que lhe percorreu o corpo inteiro e um grito curto e sem enfeite. Sofia chegou pouco depois, com o rosto comprimido contra o pescoço de Rodrigo, apertando tanto as pernas que mal conseguia respirar. Tomás se retirou a tempo e terminou sobre as costas de Valentina com um som grave que não tentou disfarçar. Rodrigo se ergueu, olhou para os três e soltou uma risada que não tinha nada de forçado.
—O quê? — perguntou Valentina, se virando.
—Nada — disse ele—. É que fazia anos que eu não ria assim depois de foder.
***
Depois ficaram deitados desordenadamente sobre os lençóis amarrotados, respirando. O terraço estava aberto e entrava uma brisa que cheirava a pinho e à noite que havia caído enquanto eles estavam lá dentro.
Sofia mantinha os olhos abertos, olhando para o teto. Não pensava em nada específico, só sentia o peso do próprio corpo sobre o colchão e o calor dos outros ao redor. Era uma sensação estranha e muito limpa.
—Alguém está com fome? — perguntou Tomás.
Todos riram. Era o tipo de riso que afrouxa alguma coisa no peito.
—Tem pão e queijo na bolsa — disse Rodrigo—. E mais uma garrafa.
—Perfeito — disse Valentina, sem se mover ainda.
Sofia virou a cabeça e a olhou. Valentina tinha os olhos fechados e uma expressão tranquila que Sofia nunca lhe vira antes, ou talvez já tivesse visto e antes não soubera ler. Conhecera-a três anos antes, por intermédio de Rodrigo, e sempre lhe parecera uma pessoa de poucas rachaduras visíveis. Naquela noite tinha visto algumas, e gostara delas mais do que da superfície.
Lá fora, nos caminhos do resort, ouviam-se vozes distantes e risadas, e o som de música que alguém havia colocado em alguma das outras cabanas. A La Cala Libre ainda tinha dois dias pela frente, e dentro da cabana, entre os quatro, havia algo que não tinha nome exato, mas que todos reconheciam.
Valentina abriu os olhos e olhou para o teto.
—Amanhã exploramos a praia do outro lado — disse—. Dizem que há área de casal e área privada.
—E qual é a diferença? — perguntou Sofia.
—Nenhuma — respondeu Tomás—. Essa é a graça.
Rodrigo se levantou para buscar o pão e o queijo e, da cozinha, com a voz um pouco amortecida pela distância, perguntou se alguém queria que ele acendesse a luz.
—Não — disseram os três em uníssono.
A escuridão estava perfeita assim como estava.