Eu sabia que alguém nos observava do edifício em frente
Deixei a cortina entreaberta de propósito. Naquela tarde não era só para Adrián e para mim: alguém mais esperava o espetáculo do outro lado da rua.
Deixei a cortina entreaberta de propósito. Naquela tarde não era só para Adrián e para mim: alguém mais esperava o espetáculo do outro lado da rua.
Na primeira tarde, eu ainda nem tinha desfeito a mala e já sabia que ali ninguém desviaria o olhar. E o pior era isso: eu estava começando a gostar.
Eu sabia que ele me espiava todas as tardes da sacada. O que eu não sabia era o quanto eu gostava disso — nem até onde estava disposta a ir.
Já fazia semanas que eu não saía e o fogo me consumia. Numa madrugada, coloquei a peruca, abri o casaco na grade e deixei a rua decidir por mim.
As paredes eram de papel. Nós a ouvimos gemer no quarto ao lado e entendemos que ela nos escutava o tempo todo, esperando um convite.
Há meses eu a observava pelo olho mágico às 7h15 em ponto. O que eu não sabia é que ela contava meus passos atrás dos dela toda vez que descia a escada.
Na primeira manhã eu a encontrei na cozinha quase nua, se movendo como se eu não existisse. Aí entendi que o jogo do marido dela estava só começando.
Marcos achava que comandava o jogo. A esposa dele me olhou por cima do ombro, deixou a toalha cair e eu entendi que a única regra era a dela.
Passei anos cuidando para que ninguém a olhasse demais. Naquele fim de tarde, escondido entre as ervas altas, eu não conseguia parar de olhar.
Nunca pensei que me sentir observada por completos desconhecidos me excitasse tanto. Naquela noite, atrás do vidro, descobri o que eu realmente gostava.
Cheguei à casa dela uma hora antes do jantar e a encontrei nua diante do espelho, em dúvida entre dois vestidos e prestes a mudar tudo.
Ele me pediu que segurasse umas ferramentas de cócoras. Eu sabia perfeitamente o que ele estava fazendo, e mesmo assim não me levantei.
Acreditávamos que brincávamos às escondidas na areia, até que um estranho se aproximou e confessou que nos observava havia horas. E trazia uma proposta.
Eram mais de onze da noite, todos dormiam e a chuva caía forte. Achei que só ia me molhar um pouco no quintal. Não imaginava até onde eu iria naquela noite.
As paredes do apartamento eram de papel, e a melhor amiga da minha namorada dormia parede com parede. Naquela primeira manhã fingimos não lembrar que ela estava ali.
Subi até aquele apartamento por um corte de cabelo. Ela abriu a porta com a promessa de ficar de tanguinha diante de um completo desconhecido.
Essa noite o desafio era simples e insano ao mesmo tempo: atravessar o terreno nua, de quatro, passando bem em frente à janela de vidro onde qualquer um podia me ver.
Caminhei até a beira d’água com um plano bobo: passar na frente dela e memorizá-la. Eu não sabia que aquela desconhecida ia se deixar olhar como se tivesse decidido isso.
Na primeira vez em que entrei no seu apartamento, encontrei uma tanguinha pendurada no chuveiro e soube que aquele acordo de comida por água quente ia me custar bem mais que empanadas.
Na primeira vez que ele me mandou abaixar a cabeça enquanto me fodia, achei que resistiria. Não resisti. E descobri o quanto eu gostava de parar de decidir.