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Relatos Ardientes

Sou o vizinho que espia você quando acha que está sozinho

Sou eu.

Não me reconhece?

Sou seu vizinho. Aquele que pergunta sobre o concurso da sua filha, a moça que rala os miolos para conseguir uma vaga de auxiliar de serviços gerais em um hospital. Ou talvez eu seja seu cunhado, aquele que você não suporta porque sempre tira sua razão e a última porção de bacalhau da ceia de Natal.

Talvez eu seja o pai com quem você troca duas frases desanimadas todas as manhãs, quando coincidem levando seus filhos à escola. Ou o açougueiro que corta as costeletas que sua sogra vai servir no domingo.

Talvez amanhã eu conduza o ônibus que leva sua mulher até o escritório. Talvez eu sue ao seu lado na bicicleta ergométrica da academia.

Posso ser qualquer um.

Por que faço isso? Só uma pessoa me perguntou em toda a minha vida, e não foi fácil encontrar uma resposta sincera. Tampouco um sinal de arrependimento.

Por que há quem envenene os próprios pulmões conscientemente, até morrer entre estertores? Por que tantos desperdiçam metade da existência diante de uma tela que os ensina a odiar, desejar e, sobretudo, comprar? Por que você compra um celular para uma criança de doze anos com o único objetivo de que ela o deixe comer em paz?

O que eu faço, quando bem feito, não precisa prejudicar ninguém. Eu me esforço para isso. Dedico-me. É a primeira e mais sagrada das minhas prioridades.

Porque anos atrás, quando descobri que não era um monstro, que não precisava de anos de remédios nem de camisa de força, quando entendi que aquilo me dava prazer e que aquele era eu, sentei-me para escrever um decálogo. O decálogo que me impediria de humilhar, ferir ou arrancar uma única lágrima.

Um: nunca intervenho.

Dois: permaneço sempre escondido.

Três: jamais toco em uma mulher que não seja a minha.

Quatro: nada é gravado.

Cinco: nada é comentado.

Seis: se houver coincidências, elas nunca existiram.

Sete: nada é deixado por escrito.

Oito: não se julga.

Nove: não se humilha.

Dez: não se tira proveito.

Meu nome é… Não importa. Por mais que eu explique por que faço o que faço, será impossível compreenderem. Pelo menos publicamente. Porque muitos de vocês não têm coragem de reconhecer, diante da família, diante dos amigos, que isso que pratico desperta em vocês a mesma curiosidade que despertava em mim, antes de eu decidir que valia a pena.

***

É difícil explicar o que leva um homem como eu, bem-situado, que quase não bebe e jamais experimentou uma anfetamina, a se esconder às três e meia da madrugada de um tórrido oito de agosto, atrás de um arbusto plantado no meio do terreno baldio mais banal, nos limites da cidade onde suo e pago hipoteca.

Este lugar é grande. Monstruosamente grande. E somos milhões. Uma vantagem que torna quase impossível coincidir duas vezes com as mesmas pessoas, na mesma coisa, pelo mesmo motivo. E, se acontece, recorremos ao sexto mandamento.

Não estou com sono. Nem sequer bocejo. Depois de tantos anos de hábitos inconfessáveis, devo ter me transformado em algo parecido com um vampiro. Domino as circunstâncias, sei encontrar as posições privilegiadas, aquelas de onde se vê e é muito difícil ser visto.

Sei que o prefeito obriga todo boteco a fechar às três em ponto. Sei que da área de baladas até o terreno baldio são apenas quinze minutos. Sei que, logo, atravessando a língua de asfalto que começa no ginásio San Andrés, os faróis duplos vão surgir, percorrendo uma estrada normalmente deserta a estas horas.

Somos mais os que participamos deste teatro. Eu sei e eles sabem. Nós nos evitamos com solidária eficiência.

Você achava que eu era louco? Solitário? Um maluco de hospício? Hoje, calculo, seremos três os escondidos. Talvez quatro, se o rapaz que está se descobrindo conseguiu gasolina para a moto. Respeitamos nossos metros quadrados. Evitamos coincidir, evitamos nos ouvir.

Desprezamos aqueles que pretendem ser como nós e perdem a categoria assim que tiram um celular para gravar, se masturbam sem pudor ou se deixam ver no pior momento para satisfazer alguma inclinação muito mais turva.

***

Do meu esconderijo observo a estrada se pontilhar de luzes que ziguezagueiam, tremem, avançam. São um, dois, três… vinte veículos. Vinte aos quais sobra paixão e falta dinheiro para pagar um quarto de hotel onde se aliviar. Uma carência que favorece meus desejos.

Meu posto é escolhido por um esportivo alemão cinza-metálico. Ouço-o rugir enquanto enfrenta o último impulso até se encaixar bem diante do meu arbusto. Ao vê-lo tão de perto, pergunto-me o que terá levado seu dono, um sujeito capaz de pagar sessenta mil euros por um carro, a um lugar normalmente reservado a carros populares amassados de universitários.

Ele estaciona com uma freada, desliga o motor, apaga as luzes e fica imóvel sob uma lua insultantemente cheia, entre o ronronar dos grilos. A passageira acende a luz interna, como quem quer avaliar aquilo que vai devorar.

Algo nela se destaca: o rosto. Uma cara redonda, vivaz, com óculos imensos de armação grossa que, longe de enfeiá-la, realçam sua beleza. Não é uma beldade de tapete vermelho, mas exala um aroma libidinoso, sexy sem querer ser, sexy talvez sem saber. Daquelas mulheres que de manhã resolvem logaritmos e à noite olham para você como se soubessem exatamente que pau querem chupar.

Ele é mais velho. Mais velho que ela e mais velho que eu. Careca, raspado rente, com uma barriga que estufa ao sentar, mas que ele disfarça de pé. Deve ter cinquenta e cinco, sessenta no máximo. Sob a camisa de linho azul, aberta e desabotoada, aparece um homem que se acha demais em qualquer circunstância, daqueles que lembram que na carteira há um cartão platinum à espera.

Estou perto. Apenas cinco metros me separam da placa. O couro cabeludo sua, e o suor escorre lentamente, de modo desagradável, obedecendo às leis da física. Eu não pisco.

Ele fala, ela escuta e finge uma timidez na qual nem ela acredita. Ele a beija primeiro na bochecha, depois nos lábios. Ela, sob aqueles óculos robustos, fecha as pálpebras e corresponde. A doçura do primeiro contato se desfaz, acelerada pelo desejo, até que ambos abrem a boca e se enredam num beijo babado, de línguas grossas, de saliva compartilhada sem frescura.

Ele começa a perder a postura quando ela pousa a mão em sua bochecha e desce depressa até o pescoço, onde aperta, retém, domina. O gesto revela unhas bem-cuidadas, pintadas de azul-marinho intenso, prova de que, neste desafio, apesar da diferença de idade e da arrogância do dono do carro, é ela quem vai conseguir o que quer.

As mãos grossas dele tateiam por baixo do vestido, puxam o sutiã até libertá-lo. Ele belisca os mamilos, aperta-os como se quisesse extrair suco deles, e ela se arqueia contra o encosto. Seios pequenos, brancos, coroados por duas auréolas rosadas que endurecem sob a ponta de seus dedos. Um gemido breve, claro, celestial, atravessa o cri-cri dos grilos.

—Está sensível, sua puta? —pergunta ele, torcendo um mamilo com crueldade calculada.

—Chupa eles —geme ela—. Chupa, seu puto, estão inchados.

Ele abaixa a cabeça e engole um seio inteiro, trabalhando o mamilo com a língua, com a voracidade de uma criança faminta. Marina enfia os dedos no crânio careca e o aperta contra si, obrigando-o a chupar com mais força, até a morder. Quando ele solta a teta com um estalo úmido, o mamilo fica brilhante, inchado, escurecido.

Ela desce a mão pelo peito dele, em velocidade torturante, até o ponto que já não consigo ver. Mas ouço. Ouço o tinido da fivela, o zumbido do zíper descendo, o sussurro do tecido sendo afastado. E então o gemido profundo, animal, dele, quando aqueles dedos de unhas azul-marinho se fecham em torno do pau e começam a masturbá-lo com destreza pausada, apertando a base, subindo até a glande, espalhando o líquido pré-ejaculatório por toda a ponta.

Eu sei, conheço e imagino. Tenho uma imaginação poderosa, e basta observar o rosto do agraciado para saber o que acontece sob o volante. Ela se abaixa. O vulto de sua nuca balança ritmicamente sobre o colo de Andrés. Eu a ouço engolir, chupar, sorver. Um gorgolejo obsceno, salivoso, de garganta profunda, que a própria Marina alimenta com pequenos gemidos guturais, como se mamar aquele pau a deixasse mais excitada do que a ele.

Olho para o relógio. Dez minutos e ela já está chupando até a raiz. Ele parece relaxar, mas é um sinal falso. Seu peito inspira cada vez mais rápido, os dentes se cerram, seus dedos grossos como salsichas se agarram ao volante e depois descem para se enredar na cabeleira dela, marcando o ritmo, empurrando-lhe a cabeça contra a virilha.

—Continua, Marina… continua, chupa assim… ah, porra… engole tudo —geme ele.

Ótimo. O nome dela é Marina. Toda informação é retida, mas nunca liberada. A informação é um afrodisíaco tão eficaz quanto perigoso. Já descobri gravidezes antes das próprias donas, divórcios que se reconciliam à base de mentiras, segredos que ninguém suspeitaria. A informação proporciona poder. Poder e ereções.

Ouço Marina se afastar por um segundo, cuspir saliva sobre a glande, bater de leve com ela contra a bochecha e depois contra a língua estendida. A safada sabe que ele a observa, e sabe que eu também poderia estar observando. Volta a engoli-lo. Dessa vez até a garganta protestar, até as lágrimas escaparem, até os óculos se embaçarem.

Às vezes sinto a tentação de me aproximar, esticar a corda e ver com meus próprios olhos o que apenas imagino. Mas ainda não cheguei ao ponto em que minha curiosidade me obrigue a assumir esse risco. Suspeitar excita mais do que confirmar. Entrever, mais do que certificar.

Algo me diz que Marina não vai deixá-lo terminar em sua boca. Ela o conduzirá até a beira do ponto sem retorno, aquela fronteira onde qualquer homem venderia a mãe por um pouco mais. E, de fato, ela se ergue quando sente o pau ficar duríssimo entre seus lábios, pulsando, a segundos de gozar. Concede-lhe alguns segundos, recostada no vidro, limpando os fios de saliva e de sêmen pré-ejaculado com o dorso da mão, ofegante, com o batom borrado e um sorriso de puta satisfeita.

—Você tem camisinhas? —pergunta ele, com a voz rouca, fazendo menção de abrir o porta-luvas.

—Não —ela o impede—. Látex não entra na minha boceta. Eu fodo sem camisinha ou não fodo.

Ela sorri, abre a porta e caminha até se colocar diante do capô, de costas para mim. Está tão perto que pressinto as sardas entre suas omoplatas. Ergue o vestido até a cintura, revelando uma bunda redonda, branca, dividida por uma minúscula tanga preta. Baixa-a devagar, rebolando, até deixá-la cair sobre a terra. Pega-a, cheira com expressão marota e a joga no para-brisa.

—Olha só que puto você é —sussurra—. Toda sua. Toda a minha boceta para você.

Ele sai do carro com o pau à mostra, duro, apontado para ela. É um caralho grosso, curto, escuro, coroado por uma glande brilhante que a saliva de Marina deixou polida. Pega a peça, cheira profundamente, esfrega-a no rosto e guarda-a no bolso como um troféu.

—Vou comprar uma dúzia para você —aproxima-se, beija-a, senta-a sobre o capô—. Das mais caras. As que você quiser, minha puta.

Ela se acomoda com as pernas abertas, tão abertas que, do meu arbusto, vejo, iluminada pela luz interna do carro, toda a boceta de Marina: uma boceta depilada, rosada, inchada, com os pequenos lábios grossos já aparecendo, encharcados. Os saltos apoiados no para-choque. Ele se ajoelha depressa, sem preliminares, e enterra o rosto inteiro contra a vulva. Lambe-a de cima a baixo com a língua estendida, insistente, ruidoso, como se estivesse há semanas sem comer.

—Assim, seu puto, assim… chupa meu clitóris… enfia dentro, a língua, enfia —ordena Marina, segurando-o pelas orelhas.

Ele obedece, enfia a língua na entrada da boceta, mexe, suga, tira-a coberta de corrimento e volta a subir até o clitóris inchado. Enfia dois dedos grossos dentro dela, curvando-os, enquanto a boca chupa a cabecinha com avidez. O rosto redondo de Marina desenha uma careta de prazer que não nasce apenas de se ver devorada, mas de tê-lo ali, prostrado, ajoelhado a seus pés, comendo sua boceta como um cãozinho de colo apesar do cartão platinum na carteira.

E então, enquanto a satisfazem, ela olha para a frente. Bem na minha direção.

E eu tremo.

Não é a primeira vez que me sinto descoberto. São três ou quatro segundos em que a taquicardia percorre seu corpo inteiro e você sente a tentação de fugir. Segundos em que a experiência conta e é preciso demonstrar sangue-frio para manter a posição sem piscar uma única vez.

Porque cheguei a suspeitar que alguns sabem que os observo e continuam, excitados com a ideia de trepar com testemunhas. Nada de ménage. Apenas serem vistos. Pela maneira como Marina esquadrinha o mato através dos óculos embaçados, algo me diz que ela é dessas. E pior: pelo modo como começa a gemer mais alto, a dizer obscenidades ainda mais sujas, suspeito que a safada sabe perfeitamente que há olhos ali, e que goza mais pensando nisso.

—Chupa mais, seu puto, você está me deixando louca… assim, assim, não para, porra, não para…

Seu riso é quase malicioso. Ela finca os dedos na careca dele, aperta-lhe o pescoço entre as coxas e controla o ritmo e a pressão até que, molhada, começa a tremer as pernas, a ofegar em arquejos, a soltar um gemido longo e agudo que faz os grilos silenciarem. A barriga lisa se retesa, as coxas se crispam, e ela termina jogando a cabeça para trás, gritando seu prazer sem recato, gozando sobre a boca de Andrés com uma descarga de fluido que lhe banha o queixo e o pescoço. Os grilos parecem retomar o coro sob um calor impiedoso.

—Enfia —ordena, sem admitir réplica—. Enfia agora, até o fundo, quero senti-lo dentro. Agora.

O homem abandona toda fingida compostura. Não acredita na sorte que tem e teme perdê-la. Ergue-se às pressas, o pau duro e brilhante de saliva e boceta, as calças nos tornozelos, e se acomoda desajeitadamente entre aquelas coxas abertas. Segura o caralho, esfrega-o nos pequenos lábios de Marina, alinha-o e empurra de uma só estocada.

Ela o acolhe com um grunhido animal, surpresa mais pela dureza do que pelo tamanho, como se não esperasse semelhante vigor de alguém a dois passos da aposentadoria.

—Ai, seu puto, como você fode bem… enfia tudo, até as bolas, assim, assim…

As estocadas são secas, rápidas, impiedosas. O capô do esportivo alemão começa a quicar a cada investida, um chape-chape carnal que se mistura ao gemido contínuo de Marina. Ela o recebe aos gritos, que tenta sufocar mordendo o tecido da camisa dele, mas escapam mesmo assim, obscenos, estridentes.

—Mais forte, seu puto, mais forte, arrebenta minha boceta… assim, assim… ai, seu pau, porra, seu pau…

Ele agarra as pernas dela abaixo dos joelhos e as levanta até dobrá-las contra o peito, dobrando-a ao meio sobre o capô. Agora a penetra por cima, caindo com todo o peso, e do meu arbusto vejo claramente o caralho entrar e sair da boceta encharcada, brilhante, arrastando o corrimento esbranquiçado de Marina, lambuzando suas coxas, a barriga, a pele do abdômen. Os pelos da virilha dele se achatam contra os pequenos lábios dela a cada estocada, chapinhando obscenamente.

—Não goza dentro… não, espera… não goza… —geme Marina, mas diz sem convicção, com as pernas abertas como portas e as mãos agarradas às nádegas dele para que empurre mais fundo.

Até chegarem aonde não existe recuo nem meio-termo. Ele acelera, ela enlouquece, agarrada ao ombro dele com uma mão e ao capô com a outra. Já não ri. Apenas tenta libertar o que a assedia. Seus seios pequenos quicam a cada golpe, os mamilos rígidos apontando para o céu. Seu rosto se contorce atrás dos óculos, a boca aberta num O silencioso, e de repente ela começa a gemer um orgasmo longo e áspero, um grito de gata no cio que ricocheteia na lataria do carro.

—Goza, seu puto, goza dentro, me enche toda… agora, agora, agora…

Com um grito rouco, ele afunda o máximo que consegue entre as coxas brancas de Marina e, em uma dezena de espasmos, esvazia-se. Vejo suas costas retesadas, a bunda pálida se contraindo a cada jorro, a barriga tremendo contra o ventre dela. Marina fecha as pernas ao redor dos quadris dele para mantê-lo dentro, para extrair até a última gota de sêmen, gemendo satisfeita cada vez que sente uma nova descarga quente subir por sua boceta.

Durante alguns minutos, os arquejos dos dois se fundem aos grilos e às batidas desvairadas do meu coração. Quando enfim ele se retira, o pau sai flácido, brilhante, pingando, e atrás dele surge um fio espesso de sêmen que escorre pela rachadura da bunda de Marina até cair, gota a gota, sobre o metal quente do capô.

Eu suo. E não é por causa do calor.

***

O assunto durou pouco, mas nem ele se desculpa nem ela demonstra desagrado. Pelo contrário: o rosto de Marina reflete satisfação. Ela gozou duas vezes, e intensamente. Desce do capô com as pernas trêmulas, passa dois dedos pela boceta para recolher o sêmen que escapa e os leva à boca sem parar de encará-lo, chupando-os devagar, com a impudência calculada de quem sabe exatamente o efeito que provoca. Apoia os pés descalços na terra e se recompõe com uma rapidez que ele não consegue imitar.

—Anda, vista-se —ordena ela, com o ar de uma loba apiedando-se da ovelha desgarrada—. Vamos, Andrés, você vai esfriar. E guarde minha tanga muito bem, seu puto, porque, se sua mulher a encontrar, você está morto.

O tal Andrés sobe as calças, abotoa-se, tenta limpar o suor da careca e os restos de corrimento do queixo. Ao fazer isso, redescobre o brilho do anel no dedo. Seus olhos já não avaliam a mulher diante dele; agora procuram a desculpa que justifique chegar em casa às quatro da madrugada cheirando a boceta alheia.

Os dois entram no carro. Ele dá a partida, dá ré bruscamente e, assim que pisa no asfalto, acelera. Está com pressa de se livrar das provas. Tem medo de perder tudo —casa, filhos, o carnê do futebol, a consideração dos amigos— por um deslize de uma noite de verão.

Sobre o monte desolado, ficamos a poeira que vai baixando e eu. Estou excitado, estou de pau duro, dolorosamente duro, com a braguilha me apertando, mas não me masturbo. Nunca faço isso. Sou cauteloso demais, e essa cautela já me poupou de mais de um problema com os homens de farda. Só saio quando me sinto completamente seguro, e às vezes isso leva mais algumas horas.

***

Caminho sob a lua até o esconderijo onde me espera uma moto velha, usada, quase sem potência, fácil de ocultar perto dos locais que frequento. Está muito tarde e ontem trabalhei até a exaustão, mas não estou com sono. Nós que sofremos da minha patologia particular padecemos, unanimemente, de insônia.

Nunca me arrependi de abrir essa brecha. Reorientei minha peculiaridade até conseguir que ninguém descobrisse e, portanto, ninguém se ofendesse. Não quero humilhar. Não quero causar dor.

Senti isso pela primeira vez aos vinte e cinco anos, através da janela sem persiana que dava para o pátio interno do prédio operário onde eu morava. Minha vizinha não punha cortinas porque não suportava a escuridão, e naquela tarde de 1992 essa fobia me atingiu de maneira inesperada. A senhora, já com mais de cinquenta anos, cavalgava o rapaz que lhe levava as compras do mercadinho da rua Mendoza. Tinha os seios caídos quicando sobre o peito sem pelos do rapaz, enfiava o pau até o fundo com o rosto desfigurado, e esfregava o clitóris com a mão livre como se devesse isso ao mundo inteiro. Gozava menos pelo prazer desajeitado do garoto do que pela novidade da carne nova, por sentir aquele pau jovem e duro dentro dela depois de anos de um colchão farto de roncos e tédio. Quando gozou, gritou tão alto que até os pombos do pátio levantaram voo.

Dona Amparo hoje é uma octogenária trêmula, viúva, que cumprimenta com ar dissimulado no elevador e reclama sem parar de ruídos inexistentes. Mas Dona Amparo teve um passado. E eu sei disso.

Assim como meu tio Ricardo teve um passado. Certa noite reconheci sua placa numa ruela dos fundos e descobri que o amor único não existe: às escondidas, ele nunca deixou de adorar aquela garota que, na universidade, lhe havia revelado o segredo do verdadeiro sexo. Os seios da dita-cuja eram uma ode ao declínio, longos, moles, com os mamilos apontados para o chão, mas ele os devorava como um devoto, enfiava-os inteiros na boca, esfregava o pau duro entre eles até gozar em jatos sobre o pescoço enrugado da mulher. Ela lambia o sêmen do decote com o sorriso satisfeito de quem passara trinta anos sabendo-se superior à esposa oficial. Minha tia não era surda nem idiota; um dia colocou a quitação sobre a mesa, e aquele amor de juventude se desfez assim que Ricardo apareceu à sua porta com o coração esperançoso e a mala cheia.

Conheço estacionamentos afastados, mal iluminados, longe de qualquer câmera, tão tentadores para um ladrão quanto para um casal ardente. Sei da filha de um magistrado que toda semana chupa um homem diferente, sem jamais permitir ser ela a penetrada, esbofeteando o amante que ousar desviar o olhar de seu rosto enquanto fode. Já a vi de joelhos sobre a brita, com os seios para fora do sutiã branco de renda, engolindo paus alheios até a garganta, recebendo a gozada na língua estendida, sorrindo com os lábios esbranquiçados de sêmen antes de cuspi-lo no asfalto e limpar o queixo com dois dedos. Depois, nos eventos do bairro, vejo-a benzer-se com rosário e mantilha, olhando para a imagem de gesso com o mesmo rosto torturado do rapaz que, quatro horas antes, gozava em sua boca.

***

Subo a pé até meu sexto andar. Raramente uso o elevador: vencer aqueles noventa degraus me mantém em forma e me permite captar o menor som em cada patamar. No quarto A mora Renata, uma brasileira de trinta e poucos anos que trabalha como uma mula na lanchonete da piscina pública e ainda encontra forças para se aliviar, de vez em quando, com algum universitário dos que contrata no verão. Suas fodas seriam imperceptíveis não fosse o epílogo: orgasmos graves, prolongados, guturais, uma voz tão retumbante que sobe pelo vão da escada e assusta as septuagenárias da portaria, a quem, no dia seguinte, cumprimenta com sincera cordialidade. Já a ouvi gritar em português “mete mais, pau, mete mais” com uma crueza que até a mim arrepia.

É um bairro tranquilo. Daqueles que não escondem ameaças entre as sombras.

Não procuro me despir nem ser eu a atração. Sou passivo. Ou ativo, muito ativo, mas à minha maneira. Sempre ansiei pela realidade, não pelo sexo de corpos perfeitos e paus descomunais, que não passa de ficção científica copulatória. Procuro situações de sentimento, de prazer culpado, de má consciência: olhos que revelam aquilo de que o corpo desfruta e que a alma censura. Deitar-me, sem tocá-los, com aqueles que depois cumprimento na rua, sabendo onde dói, onde escondem o trauma, sabendo como gemem quando gozam, sabendo que palavra suja lhes brota da boca quando lhes arrebentam a boceta ou a boca. Esse é o maior dos afrodisíacos.

Esse, e outro. O maior de todos. O que até alguém como eu afasta de toda a sanidade. Um daqueles que nunca se confessam.

Abro a porta. Tento não fazer barulho. Tiro as botas no patamar. Só quando me alcança o cheiro conhecido de casa, de velas de chocolate, de lençol corporalmente seu, sinto o cansaço desabar, pesado como chumbo, sobre meus ombros. Visto a camiseta puída de um velho show a que fui em Londres, quando ainda acreditava em certas coisas. Deito-me. Respiro fundo.

Ao meu lado, ela se mexe, abraça-se a mim, beija meu queixo malfeito como gesto de boas-vindas. Cheira a sabonete recém-enxaguado, a boceta limpa, a sêmen alheio lavado às pressas no chuveiro antes de entrar na cama.

—Boa noite, meu bem —murmura, com aquela voz terna e meio sonolenta.

—Boa noite, Marina.

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