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Relatos Ardientes

A garota doce que guardava a chave

Marco levava semanas contando os dias. Dezesseis anos de conversas noturnas por fóruns e aplicativos de mensagens, e finalmente ia conhecer pessoalmente a mulher que ocupava seus pensamentos com uma constância que ele próprio se recusava a analisar demais. Vera. O nome lhe parecera perfeito desde o começo: curto, claro, definitivo.

Eles tinham combinado num estacionamento nos arredores de Valência, longe do centro. Ela havia proposto aquilo com a lógica dela, sempre prática, sempre pensando nos detalhes que Marco deixava passar. Não queria que ninguém a reconhecesse. Ele entendeu sem perguntar.

O que ele não entendeu, ou não quis entender, foi que os detalhes em que Vera pensava não eram os que ele imaginava.

Ele a viu de longe e ficou parado. Ela usava um vestido vermelho, justo do ombro até o joelho, com uma textura que, mesmo à distância, entregava de que era feito. Marco conhecia aquele material. Há anos conhecia aquele material em fotografias, em vídeos, em conversas que os dois tiveram com uma franqueza que, naquele momento, lhe parecia absurda. Ele lhe tinha contado seu fetiche por látex e PVC numa noite de novembro, quase como uma confissão que esperava que caísse no silêncio. Escrevera para ela, com a rola na mão e as bochechas queimando diante da tela, que cada vez que via uma mulher envolta em látex ficava duro até doer, que a simples ideia de roçar a ponta naquele material o fazia gozar em segundos. Vera anotara. Vera anotava tudo.

Quando se aproximou para dar os dois beijos de rigor, o roçar do material contra as mãos dele foi suficiente. A palma deslizou pela cintura dela, por meio segundo apenas, e ele sentiu o látex esticado sobre a carne quente, o mamilo marcado duro sob o tecido como um botão pedindo para ser mordido. O pau inchou de golpe dentro da calça, empurrando o zíper, e uma gota de líquido pré-seminal manchou a cueca antes que ele pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Corou. Ela riu. Os dois riram, nervosos, embora por razões diferentes.

—Você está com o mesmo casaco da foto — disse ela, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

—E você com esse vestido — respondeu Marco, sem saber muito bem o que mais dizer.

Vera sorriu, baixou o olhar por um segundo até o volume óbvio na calça dele e voltou a subir sem apagar o sorriso.

—Vejo que você continua o mesmo porco de sempre — murmurou, e foi em direção ao carro sem acrescentar mais nada.

***

Já dentro do carro, com o motor ligado e o aquecimento acionado, Marco tentou se concentrar na estrada. Não conseguiu. O vestido de Vera terminava no meio da coxa e, a cada curva, o tecido vermelho brilhante subia ligeiramente, deixando ver a borda de uma meia arrastão escura, rente à pele. Marco olhava para frente com uma determinação que lhe parecia dolorosa em todos os sentidos. O pau não baixava. Cada lombada da estrada o sacudia contra o tecido da calça, lembrando exatamente o que havia no banco do passageiro.

—Estacione ali — disse ela, apontando para a entrada de um shopping que Marco nunca tinha visto.

—Aqui? Pensei que íamos direto ao cinema.

—Estacione no fundo. Onde não tenha carros.

Não era uma pergunta. Marco estacionou no fundo, onde não havia carros.

Quando desligou o motor, Vera se virou para ele com uma expressão que Marco nunca lhe tinha visto, apesar de achar que a conhecia bem. Seus olhos castanhos, que nas videochamadas sempre lhe pareceram quentes, agora tinham algo diferente. Não era frieza, exatamente. Era concentração.

—Marco — disse ela, com uma calma que ocupou todo o espaço do carro —, os dois sabemos que entre você e eu não vai acontecer nada. Nem vou chupar seu pau, nem você vai comer meu cu, nem você vai enfiar a língua no meu rabo por mais que tenha imaginado isso durante anos. Já conversamos muitas vezes e as duas partes sabem disso.

Marco assentiu. Era verdade. Eles tinham conversado.

—Mas eu também sei como a sua cabeça funciona — continuou ela —. E sei como funciona esse pau que está querendo sair pela sua calça agora mesmo. Então decidi que, para os dois ficarem tranquilos esta tarde, eu preciso que você esteja usando alguma coisa.

Ela abriu a bolsa com movimentos lentos e deliberados. Marco não soube o que esperava encontrar. O que saiu da bolsa foi uma cinta de castidade de aço cromado, de tamanho médio, perfeitamente acabada, com um anel grosso e um cadeado minúsculo pendurado numa correntinha fina. Não era um brinquedo barato. Era o tipo de peça que alguém escolhe depois de pesquisar muito.

Marco sentiu algo escapar do controle do corpo. Não era metafórico. O pau deu um solavanco brutal contra o tecido e ele notou outra mancha de umidade se espalhando na ponta.

—Os banheiros ficam no fundo do estacionamento — disse Vera, apontando com a mesma calma de antes —. Você vai baixar a calça, vai tirar esse pau duro do caralho, e vai colocar o metal no lugar. O anel primeiro, por trás dos ovos, e depois a peça por fora. Você tem cinco minutos. Se demorar mais, eu pego o carro e a chave. E já vou avisando que essa chave não pode ser copiada.

Marco abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.

—Vera…

—Quatro minutos e cinquenta e sete segundos. E nem pense em gozar enquanto estiver colocando, porco, ou vai se arrepender.

***

Os banheiros do estacionamento estavam mais limpos do que Marco esperava. Não era o pensamento mais útil que poderia ter naquele momento, mas sua cabeça se agarrava a qualquer detalhe concreto para não flutuar longe demais.

Ele se trancou no último reservado. As mãos tremiam levemente. Baixou a calça e a cueca até os joelhos e ficou olhando para o próprio pau, inchado, vermelho, com a glande brilhando de fluido pré-seminal e as veias marcadas ao longo do tronco. Nunca o tinha visto tão duro. Nunca. Segurou-o pela base com dois dedos e conteve a vontade de se bater algumas vezes, só algumas, o suficiente para aliviar a pressão. Sabia que, se começasse, gozaria em dois segundos e Vera perceberia. Vera percebia tudo.

Ele vinha conversando com Vera sobre esse tipo de coisa há anos, sobre dinâmicas de poder, sobre entrega e controle, sobre o que significava confiar em alguém o bastante para entregar o pau e a chave e não poder gozar até que ela permitisse. Eles tinham falado disso em teoria. Sempre em teoria. Agora tinha o frio do aço polido na mão e o coração batendo nas têmporas.

Passou o anel por trás dos ovos, puxando o saco escrotal para a frente para encaixar. A pele beliscou por um instante e ele chiou entre os dentes. Depois veio a parte mais difícil: era preciso perder a ereção para enfiar o pau na peça. Marco fechou os olhos e pensou em coisas horríveis, no chefe, nas contas do gás, em qualquer coisa menos em Vera com aquele vestido de látex apertando os peitos. Aos poucos, a rola foi cedendo, e com dedos desajeitados ele conseguiu dobrá-la para baixo e encaixá-la no molde de aço. O cadeado fez clique com um som pequeno e definitivo.

Naturalmente, o pau tentou endurecer de novo na hora, e não conseguiu. O metal o apertava de todos os lados, o mantinha dobrado, impossibilitado, preso. A sensação foi tão intensa que Marco teve de apoiar a testa na parede do reservado por um momento para respirar.

O anel de base era estreito, o bastante para dispensar qualquer componente adicional. Vera tinha calculado. Naturalmente, tinha calculado.

Marco saiu do banheiro apressado, sem olhar para ninguém, com a certeza irracional de que sua forma de andar entregava tudo. A cada passo, o aço se movia entre suas pernas, frio contra a pele, lembrando a cada roçada o que ele estava usando. Cruzou o estacionamento em linha reta até onde tinha deixado o carro.

O carro não estava lá.

Ele ficou imóvel no espaço vazio. Durante alguns segundos que lhe pareceram longos demais, processou a situação com pânico crescente: não tinha as chaves do carro, não tinha o telefone — tinha deixado no bolso lateral da porta —, não tinha a chave da gaiola e também não fazia ideia de onde exatamente estava nem de como voltar para lugar nenhum em particular.

Uma buzina ecoou por todo o estacionamento.

Marco se virou. Vera estava ao volante, estacionada dez metros adiante, rindo com aquela risada que ele conhecia bem das videochamadas: aberta, sem disfarce, completamente satisfeita consigo mesma. Com o vidro abaixado, ela estendeu a mão e balançou algo metálico que brilhou sob as lâmpadas fluorescentes.

A chave.

Marco caminhou até o carro sentindo-se ridículo e excitado em partes iguais, o pau tentando inchar dentro da gaiola e encontrando repetidas vezes o limite do aço, sem poder fazer nada com nenhuma das duas coisas.

***

O cinema ficava do outro lado da cidade. Vera dirigiu com a mesma tranquilidade de sempre, escolhendo a música, contornando as rotatórias sem perguntar. Marco olhava pela janela e tentava respirar normalmente, o que era mais difícil do que o habitual. Cada vez que tentava endurecer, e tentava o tempo todo, o metal o impedia e lhe mandava uma fisgada de frustração doce pela virilha. Os ovos estavam ficando pesados, carregados, tensos.

—Escolhi um filme de ação — disse Vera —. Daqueles em que não é preciso prestar atenção à trama.

—Por que não é preciso prestar atenção?

Ela sorriu sem tirar os olhos da estrada.

—Você vai ver.

Quando chegaram e passaram pelas portas de entrada, Vera se aproximou do ouvido dele com a mesma naturalidade com que poderia ter dito que o banco estava molhado.

—Falta uma coisa — sussurrou —. Vá ao banheiro e coloque isto. Enfia bem lá dentro, até a base ficar colada no seu cu. Tem lubrificante dentro da embalagem, mas não use demais ou vai sujar a calça, e aí todo mundo ao redor vai saber que tipo de homem você é. Um porco que vai ao cinema com o pau enjaulado e o cu tampado.

Ela colocou algo na mão dele. Marco não olhou até estar dentro do banheiro com a porta fechada.

Era um butt plug. Não dos pequenos. Um cone grosso de silicone preto com base larga, do tamanho do punho de uma criança na parte mais grossa, difícil até de encarar.

Marco apoiou as costas na porta do reservado e demorou alguns segundos para reagir. Ouvia o ruído abafado das pessoas nos corredores, o zumbido da ventilação, o bip distante de alguma sirene do filme. Tudo soava irreal e concreto ao mesmo tempo.

O espaço era reduzido. Ele baixou a calça. A gaiola apareceu cromada entre as coxas, ridícula e obscena sob a luz branca do banheiro público. Apoiou uma perna na tampa do vaso e se curvou para a frente, buscando o ângulo. Com dois dedos besuntados de lubrificante, afastou as nádegas e procurou o buraco. O primeiro dedo entrou com facilidade, deslizando. Enfiou um segundo dedo e se surpreendeu apertando o cu em torno deles quase com fome. Moveu os dedos devagar, abrindo espaço, respirando pela boca.

Quando se sentiu pronto, agarrou o plug pela base e o levou ao cu. A ponta era estreita e entrou bem. O problema veio com a parte grossa. Empurrou e a carne resistiu. Empurrou mais e ardeu. Parou, respirou, e voltou a empurrar, desta vez sem parar, cerrando os dentes até o músculo do ânus ceder com um espasmo e o plug afundar de uma vez, a base plana chocando-se contra a pele entre as nádegas.

Marco ficou curvado sobre si por um instante, com a boca aberta e os olhos fechados, sentindo o cu se fechar em torno do pescoço mais estreito do brinquedo, prendendo-o, aceitando-o. A sensação de preenchimento era brutal. Sempre que contraía os músculos, sentia o plug ali, denso, contundente, pressionando de dentro contra a próstata. O pau tentou endurecer dentro da gaiola e o metal o castigou por tentar. Algumas gotas de líquido pré-seminal brotaram da ponta e caíram no chão do reservado, formando uma poça minúscula.

Respirou devagar. Subiu a calça com cuidado, sentindo a base do plug pressionar as nádegas sempre que se movia. Lavou as mãos com a água mais fria que saía da torneira.

Vera estava encostada na parede, em frente aos banheiros, olhando o celular. Levantou os olhos quando o viu sair e os baixou de novo imediatamente, mas Marco percebeu a curva de um sorriso no canto da boca dela.

—Bom garoto — murmurou ao passar por ele, sem olhá-lo —. Dá para ver no seu rosto que você está bem colocado.

Eles caminharam juntos até a sala. Marco andava devagar. Cada passo movia o plug meio milímetro para dentro, e o roçar contra a próstata lhe enviava descargas que subiam pela coluna até a nuca.

***

A sala estava quase vazia. Duas pessoas no fundo, separadas deles por várias fileiras. As luzes se apagaram e a tela ganhou vida com o estrondo habitual dos trailers. Marco tentou se concentrar nas imagens. Não conseguiu.

Sentiu a vibração antes de entender o que era. Um zumbido suave e contínuo vindo de dentro do seu cu e se espalhando para fora em ondas que chegavam ao pau enjaulado, aos ovos, à boca do estômago. O plug era um vibrador. Claro que era. Marco olhou para Vera. Vera olhava para a tela com expressão serena, com o celular discretamente apoiado na coxa, um dedo deslizando devagar pela tela do aplicativo.

—Vera — disse ele bem baixinho.

—Cala a boca — respondeu ela, com a mesma voz suave que usaria para pedir que ele abaixasse o volume da televisão.

As vibrações aumentaram um pouco. Marco apertou o apoio de braço até os nós dos dedos embranquecerem. O pau preso contra o metal pulsava a cada onda, tentando encher, castigado no instante seguinte. Os ovos pareciam de pedra, pesados. Sentia a próstata inchada, pressionada de dentro pelo plug que zumbia sem parar, sem deixá-lo pensar.

Na tela, um prédio explodia em câmera lenta. Marco não viu.

Vera se inclinou para ele sem deixar de olhar para a tela e falou em seu ouvido num sussurro tão baixo que mal se ouvia acima do som surround da sala.

—Quero que você entenda uma coisa — sussurrou —. Esse pau não vai sair da gaiola até eu te levar de volta para casa. E eu não vou deixar você me tocar com ele. Nem roçar. Nem chegar perto de mim. Você vai gozar hoje porque eu decidi que vai gozar, não porque você vai se aliviar sozinho, nem porque vai foder alguma coisa, nem porque eu vou chupar uma gota sequer. Você vai gozar pelo cu, porco, como uma fêmea. Está claro?

Ela pronunciou a última palavra com uma suavidade que fazia a firmeza por trás dela ficar ainda mais evidente, não menos. Marco assentiu porque não podia fazer outra coisa. O corpo dele já fazia um tempo vinha tomando decisões próprias, à revelia de qualquer intenção consciente. Sentia o ânus se contrair em torno do plug a cada poucos segundos, involuntariamente, como se o próprio cu estivesse chupando o brinquedo.

Vera aumentou mais um nível as vibrações. Marco teve de abrir a boca para respirar. O zumbido dentro dele havia se tornado insuportável, tão intenso que lhe custava distinguir onde o brinquedo terminava e seu próprio corpo começava. A próstata era um ponto ardente, golpeado sem descanso. Sentia a gozada se acumulando em algum lugar profundo, sem saída, presa como o pau, empurrando para escapar.

Um terceiro nível. Marco dobrou os dedos dos pés dentro dos sapatos.

Quando gozou, foi sem aviso, sem conseguir evitar, sem que nenhum movimento externo provocasse aquilo. Só a pressão acumulada, a vibração constante contra a próstata, a voz de Vera no ouvido e dezesseis anos de conversas que tinham chegado a esse ponto específico, nesta sala escura, com a gaiola apertando e sem saída possível. O pau, preso dentro do aço, nem chegou a inchar. Os ovos se contraíram com uma força que doeu, e ele sentiu o sêmen escapar em ondas espessas, empurrado pelas contrações da próstata, escorrendo pela peça de metal, pingando entre as coxas, encharcando a cueca. Foi uma gozada estranha, grossa, longa, sem pulsação, sem prazer agudo, apenas um vazamento lento e humilhante que durou mais do que qualquer gozada que ele já tivera na vida. Ele mordeu o interior da bochecha para não gemer.

Vera percebeu. Enfiou a mão devagar por dentro da cintura da calça de Marco, com a mesma calma com que fazia tudo o mais, e passou os dedos pela peça da gaiola, recolhendo o sêmen morno e espesso que escorria pelos ovos. Tirou a mão brilhando, coberta de branco até o pulso. Marco não precisou que ela dissesse nada. Vera levou os dedos à boca dele e Marco a abriu sem protestar. Chupou-os um a um, saboreando o próprio sêmen salgado na própria língua, enquanto as vibrações continuavam zumbindo em seu cu e ele seguia vazando dentro da gaiola.

—Muito bem — disse Vera, bem baixinho, retirando a mão e limpando o resto na perna da calça dele —. Porco bonzinho.

Ela subiu as vibrações mais um nível. Marco fechou os olhos e cerrou os dentes para não fazer nenhum som. O pau enjaulado, exausto e sensibilizado, pulsava de dor. Cada onda do plug contra a próstata já vazia era uma tortura fina, deliciosa, insuportável. Sentiu lágrimas subindo aos olhos sem saber muito bem de onde vinham.

Em algum momento dos minutos seguintes, Vera diminuiu as vibrações a um ronronar mínimo e apoiou a cabeça no ombro dele. Foi um gesto pequeno, quase doméstico, completamente inesperado depois de tudo o mais. Ela pôs a mão na coxa dele com suavidade, um toque morno e humano que para Marco tinha gosto de mais do que qualquer outra coisa daquela tarde. Continuaram assistindo ao filme. O prédio na tela continuava em chamas.

***

Quando saíram, o estacionamento do cinema estava meio vazio. O ar da noite era frio e límpido. Caminharam até o carro sem falar, os dois envoltos naquele silêncio particular que se instala depois que algo mudou e nenhum dos dois ainda disse em voz alta que mudou. Marco caminhava com a cueca encharcada de sêmen frio colada às coxas e o plug ainda dentro, agora desligado, mas presente em cada passo.

Vera dirigiu de volta. Marco observava o perfil do rosto dela iluminado pelos postes da estrada e pensava em todas as noites em que tinham conversado até as três da manhã sobre esse tipo de coisa, sobre limites e acordos e o que significa controle quando alguém o entrega voluntariamente. Sobre o pau, sobre o cu, sobre o quanto uma pessoa pode se entregar a outra se essa outra soube ouvir tempo suficiente.

Ele nunca tinha falado tanto de nada com ninguém na vida.

—Você está bem? — perguntou Vera, sem virar a cabeça.

—Sim — respondeu Marco.

—Tem certeza?

—Completamente.

Vera assentiu. Mudou de faixa. O motor do carro soava uniforme e constante no silêncio da noite.

—Na semana que vem tem outro filme — disse ela —. Daqueles em que também não é preciso prestar atenção à trama.

Marco demorou um momento para responder.

—A mesma poltrona?

—Pode ser — disse Vera, e embora não sorrisse, Marco levava dezesseis anos aprendendo a ler as pausas que ela colocava entre as palavras.

Era o suficiente.

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