A guarda loira e seu escravo de joelhos
A luz do amanhecer entrava oblíqua pelas seteiras do salão, acinzentada e sem calor. Não anunciava nenhum novo dia. Só iluminava o estrago com a frieza de um médico que examina uma ferida sem intenção de curá-la.
Felipe pendia do Pilar central, preso por um arnês de couro médico que estalava a cada respiração. Sua pele, antes de um tom acobreado, tinha agora a cor cinzenta de quem não dormiu, comeu nem bebeu em horas. A boca entreaberta, os olhos fechados, o peito se movendo mal. Entre as coxas, a jaula de aço polido refletia a primeira luz da aurora como uma zombaria brilhante e fria. Dentro das grades, seu pau passara horas tentando inchar em sonhos interrompidos, batendo sempre contra o mesmo metal gelado que lhe lembrava, mesmo dormindo, que já não era dele. O cateter permanecia dentro, um tubo longo e fino mergulhado em cada palmo da uretra até a bexiga, lembrando-lhe a quem pertencia seu corpo. Seus culhões, inchados sob a jaula, carregavam sêmen velho que ele nem podia sonhar em aliviar.
A seu lado, desabada sobre um banco de pedra junto à parede, dormia Clara. As mãos ainda estavam apoiadas no pomo da adaga por puro reflexo condicionado. A guarda aguentara até as quatro da manhã, e depois o corpo decidira por ela. Não era covardia. Era biologia.
O sono de Clara durou até que os pesados ferrolhos das portas principais se abriram com um som metálico e definitivo.
***
Duas mulheres cruzaram o umbral.
A primeira era a rainha Isadora. Usava um vestido de veludo azul-escuro com bordados em prata e uma dúzia de pérolas brancas costuradas à mão sobre o decote quadrado. O tecido era opulento, estruturado, feito para impor sem pedir licença. Seus pés, no entanto, calçavam sandálias de couro ocre completamente rasas, cheias de vincos e marcas do uso contínuo, com as tiras deformadas pela anatomia exata do seu pé depois de duas temporadas de desgaste. As unhas apareciam pintadas de vermelho vivo entre as tiras. Isadora não se importava com o contraste. Gostava de couro quando ele já tinha se rendido e seguia a forma do pé dela como se tivesse nascido para isso.
Um passo atrás, à sua direita, vinha Aurelia.
Aurelia era o oposto visual da escuridão régia de Isadora. Cabeleira loira presa num rabo alto que se balançava com a precisão de um pêndulo no ritmo dos seus passos. Armadura de couro endurecido que ajustava o torso como um corset de batalha, rebites de prata nos ombros, o ventre parcialmente visível sob a peça frontal. Debaixo da saia curta de couro não usava nada: qualquer um que se abaixasse na altura certa veria diretamente sua boceta raspada, ainda avermelhada pelo barbear da manhã. As sandálias de gladiadora subiam com tiras escuras entrelaçadas até a metade da coxa e terminavam em um salto de cinco centímetros que marcava cada passo sobre a pedra: tac, tac, tac. Seus pés eram de uma perfeição quase irritante: arcos impecáveis, proporções exatas, a pedicure imaculada aparecendo entre as tiras. Na mão esquerda levava enrolado, com cuidado, um chicote preto de couro trançado.
Clara acordou com o coração na garganta.
Ergueu-se de um salto, alisou o uniforme amarrotado com as duas mãos, fez uma reverência rápida demais para ser elegante. Isadora parou diante dela sem pressa alguma. Seus olhos escuros estudaram a guarda com a mesma expressão clínica com que alguém examina uma rachadura numa peça cara de cerâmica.
—A negligência —disse a rainha, a voz baixa e precisa como uma lâmina entrando na bainha— é o primeiro degrau para a traição. Enquanto você buscava refúgio no sono, esta sala era sua responsabilidade. O que teria dito se alguém tivesse atravessado essas portas enquanto você descansava tão confortavelmente?
Clara manteve o olhar nas sandálias gastas da monarca.
—Perdoe-me, minha rainha. O esgotamento da noite anterior…
—Silêncio.
Isadora não precisou levantar a voz. Uma mão com as unhas pintadas de carmim, erguida apenas alguns centímetros, foi suficiente.
—Vou tomar o desjejum aqui. Quero fruta madura do sul, queijo fresco, pão quente e o melhor vinho das adegas. Sirva nas bandejas de prata. E se demorar mais do que levo para terminar este pensamento, prometo que da próxima vez que dormir, você vai fazê-lo pendurada ao lado da nossa mascote nesse Pilar, com um cateter tão fundo quanto o dele e uma jaula ajustada à sua boceta.
Clara desapareceu pela porta lateral sem olhar para trás.
***
Isadora se virou lentamente para o fundo da sala.
—Acorde-o —disse—. Solte-o.
Aurelia assentiu com uma inclinação de cabeça e um sorriso que não chegava aos olhos. Caminhou até o Pilar com o passo seguro de quem não tem pressa porque sabe que o resultado já está garantido. O contraste ao se aproximar era brutal: a perfeição limpa de Aurelia, sua pele sem uma única marca, a cabeleira dourada brilhando sob as tochas que ainda ardiam nas paredes; e, diante dela, o corpo de Felipe, macilento, coberto de marcas que contavam as últimas horas com uma honestidade sem enfeites.
Aurelia trabalhou com eficiência e sem comentários. Tirou o anel de peso que havia passado a noite inteira puxando os culhões de Felipe para baixo, afrouxou o colar e desabotoou as correias do arnês. Seus dedos eram precisos. Não hesitavam nem se apressavam. Quando passou roçando a jaula, Felipe soltou um rosnado baixo: o mínimo contato era suficiente para que sua rola tentasse inchar de novo contra as grades, e de novo o metal a esmagava sem piedade.
Sem o arnês, Felipe não tinha nada que o mantivesse ereto.
Ele tombou para a frente. O impacto contra as lajes foi surdo e definitivo, como se alguém tivesse deixado cair um saco de farinha. Os joelhos bateram primeiro, depois os ombros. E no instante em que a jaula de aço bateu contra a pedra e contra a própria pelve, o cateter se moveu uma fração de milímetro por conta própria. Foi o bastante para arrancar dele um grito que ficou preso na garganta seca, convertido num som áspero e animal.
Ficou no chão encolhido, tremendo. Os músculos, saturados de ácido lático após horas de suspensão, recusavam-se a obedecer. A língua, colada ao céu da boca pela desidratação, era inútil para formar palavras.
***
—Ele está com sede —constatou Isadora do centro da sala, no mesmo tom que usaria para falar do tempo—. Se os rins dele falharem, a diversão termina cedo demais. Hidrate-o, Aurelia. Mas faça isso segundo nossos costumes.
Aurelia dirigiu-se à fonte de pedra lavrada que ocupava um dos lados do salão. Encheu um cálice de prata até a borda com água fria e transparente, sustentou-o com uma mão e voltou a caminhar até se posicionar bem diante do rosto de Felipe, que continuava colado ao chão. As sandálias de Aurelia pararam a centímetros da boca dele.
—Água, besta —disse Aurelia. Sua voz era melodiosa e completamente indiferente, como se falasse com um cão em vez de um homem—. Beba.
Felipe ergueu os olhos. Viu o cálice. Viu a água brilhando dentro da prata. Tentou mover a cabeça para a frente.
Aurelia inclinou a taça.
Não em direção à boca dele. Sobre o próprio pé.
A água caiu numa cascata transparente e gelada sobre o peito do pé nu de Aurelia, escorrendo entre as tiras de couro escuro da sandália, acariciando seus dedos perfeitos, acumulando-se nos vincos do couro antes de pingar lentamente nas lajes de pedra.
Felipe entendeu sem que ninguém precisasse explicar. A sede era um tirano mais forte que qualquer outro pensamento. Arrastou-se os últimos centímetros, abriu a boca e começou a lamber.
Primeiro o peito do pé, prendendo a água fria que escorria pela pele imaculada de Aurelia. A língua percorreu cada centímetro, parando no arco do pé, subindo até o tornozelo, descendo de novo até os dedos. Aurelia abriu os dedos do pé para que Felipe pudesse enfiar a língua entre eles, um por um, chupando-os como se fossem uma rola dura. E ele fez isso. Enfiou a língua entre o dedão e o segundo dedo, sorvendo a água fria presa ali, e então levou o dedão inteiro à boca e mamou com uma desesperação que não era só sede. Aurelia soltou uma risada baixa, gutural, quase um ronronar.
—Olha como ele mama, minha rainha —disse, sem desviar o olhar do escravo—. Os porcos da cidade não chupam um peito com tanta vontade.
—É a única coisa útil que ele sabe fazer com a boca —respondeu Isadora, cruzando os braços—. Continue.
Felipe passou às tiras de couro, sugando o líquido que havia ficado preso entre o couro e a carne. O gosto era estranho: água pura misturada com o cheiro do couro curtido e algo parecido com poeira e metal frio. Mas o frio da água descendo pela garganta ressecada era tão intenso, um alívio tão absoluto, que seus olhos se encheram de algo parecido com lágrimas. Ele virou um animal bebendo, sem vergonha nem capacidade de tê-la, sugando cada traço de umidade de entre os dedos da gladiadora loira. Quando terminou com um pé, Aurelia ergueu o outro sem dizer nada, apoiando o primeiro com firmeza sobre a nuca de Felipe para mantê-lo abaixado, e ele, sem hesitar, começou a lamber o outro peito do pé, o outro arco, os outros cinco dedos, com a mesma devoção faminta. Serviu-lhe de segundo cálice.
Dentro da jaula, a rola de Felipe tentou outra vez inchar. O couro molhado, os dedos perfumados, o sabor feminino da pele de Aurelia — tudo isso mandou uma ordem para sua rola que ela não podia obedecer. A carne se apertou contra o metal, o cateter lhe apunhalou a uretra por dentro, e Felipe gemeu enquanto mamava, um gemido a meio caminho entre o prazer impossível e a dor real.
Aurelia o observava de cima sem se mover. Deixou que seus pés ficassem limpos pela língua de Felipe como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, com a mesma expressão que faria ao olhar um gato lambendo um prato vazio. Quando terminou, apoiou a sola de uma sandália na bochecha de Felipe e empurrou com desprezo; ele caiu de lado sobre as lajes, ofegante, com a boca ainda babando água, saliva e o gosto do couro da gladiadora.
—Bom cachorrinho —disse Aurelia, e desta vez o sorriso realmente chegou aos seus olhos, embora não fosse um sorriso gentil.
***
Clara voltou empurrando um carrinho carregado de bandejas de prata reluzentes. O cheiro de pão recém-assado encheu o salão em questão de segundos. Uvas, figos maduros, queijo branco, uma jarra de vinho escuro com especiarias. O estômago de Felipe emitiu um som involuntário que ecoou no silêncio do salão.
Ninguém olhou para ele.
—Tire as algemas dele —ordenou Isadora—. Não quero que o metal arranhe o mobiliário. E ponha-o na posição. Meu desjejum informal requer um suporte adequado para minha convidada.
Aurelia tirou uma chave pequena do cinto. As algemas que mantinham as mãos de Felipe presas nas costas cederam com um estalo seco. Os ombros rangeram quando os braços caíram ao lado do corpo. O sangue voltou aos dedos em forma de agulhas, um formigamento agônico que durou quase um minuto inteiro.
—A quatro patas —disse Aurelia—. Ao lado da mesa baixa.
Ela estalou o couro do chicote contra a própria coxa. Só uma vez. O som foi suficiente.
Felipe se arrastou até ficar paralelo à pequena mesa de carvalho onde Clara dispunha as bandejas. Apoiou as palmas e os joelhos nas lajes frias. Manteve a cabeça baixa. O colar pesava sobre a nuca. A jaula pendia perigosamente perto do chão entre suas coxas.
Isadora se sentou na poltrona com a naturalidade de quem passou a vida inteira sendo servida. Cruzou as pernas com calma. Uma das sandálias ocre ficou no ar, balançando com arrogância.
Aurelia se virou para Felipe. Sem dizer uma única palavra, com a mesma graça com que teria se sentado num banco do jardim, virou-se de costas para o escravo e se deixou cair sobre ele.
O impacto inicial foi uma pressão concentrada e esmagadora sobre as vértebras lombares de Felipe. Aurelia não era pesada; sua figura era esguia e fibrosa. Mas a armadura de couro endurecido, os rebites de prata, o peso concentrado naquele único ponto da coluna transformaram-na numa carga constante e imóvel. Aurelia acomodou as pernas, apoiou as solas das sandálias de gladiadora na pedra e distribuiu o peso até ficar confortável. Cruzou as mãos sobre o colo.
Felipe virou um banquinho.
Não era a dor do ferro em brasa nem o fogo do iodo. Era outra coisa. Era a compreensão lenta e devastadora de ter deixado de ser uma pessoa e se tornado um objeto de madeira, couro e carne, ao qual ninguém dava atenção porque fazia parte do mobiliário da sala.
***
Isadora e Aurelia tomaram o desjejum durante uma hora.
Falaram dos impostos das províncias do leste, da qualidade do vinho da estação, dos novos modelos de armadura que haviam chegado do continente. Suas vozes eram melódicas e cristalinas, flutuando nas abóbadas do castelo como sinos de cristal. Riram. Brindaram. Provaram os figos com queijo e discutiram sobre qual era a combinação mais acertada.
Debaixo de Aurelia, Felipe sustentava o peso em silêncio absoluto.
Os braços tremiam visivelmente. O suor frio lhe perlava a testa. O ácido lático nos músculos era uma dor surda e constante que se somava a todo o resto. Se cedesse um centímetro, se os cotovelos dobrarem ainda que levemente, Aurelia se desequilibrava. E quando isso acontecia, Aurelia simplesmente se movia, cruzava as pernas ou mudava o peso de um lado para o outro para voltar a ficar confortável sobre ele.
Meia hora depois, Aurelia ergueu a taça para Isadora e sorriu.
—Com vossa permissão, minha rainha, quero mudar de assento —disse—. Este banquinho tem outro lado que também deve servir.
—Concedido —respondeu Isadora, mordendo um figo—. Que ele trabalhe por inteiro.
Aurelia se levantou das costas de Felipe com um pequeno impulso dos quadris. Contornou o corpo do escravo com dois passos e voltou a se posicionar, desta vez diante da cabeça dele. Abaixou-se, segurou o colar com uma mão e com a outra agarrou o cabelo dele, úmido de suor. Puxou para cima e para trás até que o rosto de Felipe ficasse vertical, a mandíbula apontando para o teto, a boca aberta por reflexo. Então ergueu a saia curta de couro da armadura até a cintura.
Debaixo não havia nada. Sua boceta raspada apareceu na altura dos olhos do escravo: dois lábios avermelhados pela excitação acumulada durante o desjejum, já brilhantes por uma umidade clara que descia muito devagar pela parte interna da coxa. O cheiro chegou a Felipe antes da imagem: quente, salgado, denso, íntimo. Sua rola, dentro da jaula, voltou a disparar uma ordem inútil que só serviu para cravar-lhe o cateter mais um milímetro.
—Abre —ordenou Aurelia.
Felipe abriu a boca o máximo que pôde. Aurelia se posicionou sobre o rosto dele em cavalga, com os joelhos apoiados nas lajes de cada lado dos ombros do escravo, e desceu os quadris até que sua boceta se assentasse completamente sobre a boca dele. Os lábios da gladiadora se esmagaram contra a língua e os lábios de Felipe. O nariz dele ficou enterrado contra o púbis loiro. Não havia ar nem espaço para pensar em ar. Só carne quente, molhada, levemente ácida, fechando todos os sentidos.
—Come —disse Aurelia. E voltou a pegar um figo com a mão livre.
Felipe começou a comer a boceta dela com a desesperação de quem sabe que respirar depende de fazer aquilo direito. Esticou a língua o máximo que pôde e a enfiou entre os lábios de Aurelia, buscando a entrada. Encontrou-a: um anel macio e ardente que se abriu assim que ele a tocou. Enfiou a língua dentro, tirou, enfiou de novo. Lambia para cima pela fenda até encontrar o clitóris inchado e o chupava, primeiro com cuidado, depois com mais força quando percebeu que Aurelia se apoiava um pouco mais sobre seu rosto. Mordiscou-o bem devagar com os lábios fechados sobre os dentes. Aurelia soltou um gemido baixo que ficou abafado pelo som do vinho sendo servido nas taças.
—Ele sabe fazer quando quer —comentou Aurelia para a rainha, sem olhar para baixo—. Os animais aprendem se forem bem ensinados.
—Os animais aprendem se tiverem fome e sede suficientes —corrigiu Isadora—. A ternura não ensina nada.
Abaixo, Felipe continuava mamando sua boceta. A língua não descansava. Ia e voltava do clitóris à entrada, subia para lamber o grelo da boceta e descia para chupar os lábios um por um. Quando Aurelia se mexia para pegar outro figo, os quadris dela se roçavam em pequenos círculos sobre a boca dele, e Felipe entendeu que também precisava empurrar para cima com a língua, buscando o prazer dela mesmo com os pulmões ardendo pela falta de ar. A cada poucos segundos Aurelia levantava um pouco os quadris, só um dedo, para deixá-lo respirar; ele inspirava uma única golfada do cheiro da boceta dela e voltava à boca aberta antes que ela descesse de novo.
Os braços de Felipe continuavam suportando o peso. Os ombros tremiam. A jaula batia entre suas coxas a cada movimento involuntário dos quadris. O cateter lhe partia a uretra por dentro. E ainda assim ele lambia, chupava, mamava o clitóris de Aurelia com toda a habilidade de que era capaz.
Aurelia terminou a taça de vinho. Riu de uma piada sobre o conselheiro do norte. E em algum momento, sem deixar de conversar com a rainha, começou a mover os quadris de modo mais marcado sobre a boca de Felipe. O ritmo se acelerou. As coxas tensas. Os músculos do ventre, visíveis sob a armadura, se contraindo. Felipe reconheceu os sinais. Chupou o clitóris com a força exata, segurou-o entre os lábios e o fez vibrar com a ponta da língua sem soltá-lo. Aurelia gemeu em voz alta pela primeira vez, sem disfarce, e o gemido ecoou na abóbada do salão.
Ela gozou sobre o rosto dele sem deixar de sustentar o figo na mão direita.
Foi um orgasmo longo, silencioso, muito físico. Os músculos das coxas se fecharam com força sobre as orelhas de Felipe. Os quadris empurraram com espasmos curtos contra a boca dele. Uma onda de umidade mais quente e mais densa desceu pela língua e pelo queixo. Felipe engoliu tudo. Não tinha escolha, mas também não queria ter escolha: naquele momento, engolir a porra de Aurelia era a única coisa que seu corpo entendia como missão.
Aurelia ficou mais um pouco sentada sobre o rosto dele, aproveitando o tremor final do clitóris contra a língua exausta do escravo. Só quando terminou de vez se afastou, limpou a boceta com o guardanapo de linho da rainha e voltou a baixar a saia curta de couro. O rosto dela não mudara em nada: o mesmo sorriso frio, a mesma expressão de tarefa concluída.
—Ainda há banquinho —disse, e se virou para voltar a se sentar sobre as costas dele. Acomodou-se de novo com a mesma naturalidade de antes—. Perdoe a interrupção, minha rainha.
—Ao contrário —respondeu Isadora, olhando o rosto brilhante e encharcado de Felipe com uma satisfação tranquila—. O desjejum fica completo quando também se faz uso da louça.
Esse movimento microscópico era o verdadeiro inferno.
Cada vez que Aurelia se reposicionava, o peso dela se redistribuía sobre a pelve de Felipe. E a gravidade fazia o resto: a jaula oscilava, o cateter roçava o tecido inflamado uma fração de milímetro, e a pontada elétrica subia das entranhas até a mandíbula. Felipe cerrava os dentes. Mordia os próprios lábios, ainda lambuzados pela porra de Aurelia. Não emitia som algum. Um gemido arruinaria o desjejum da rainha, e as consequências disso eram algo que ele preferia nem imaginar.
Isadora o observava de vez em quando.
Olhava para ele como se olha um quadro bem colocado na parede: com satisfação estética, sem envolvimento emocional. A imagem tinha uma lógica obscura e deliberada. Aurelia, perfeita e radiante, com sua cabeleira dourada capturando a luz da manhã e sua postura de guerreira orgulhosa; e, sob ela, servindo de base para tanta magnificência, o corpo avariado de Felipe, trêmulo, silencioso, reduzido à função mais básica que um ser vivo pode cumprir: sustentar o peso de quem o domina e ser esvaziado pela boceta dela quando ela decidia.
Para Isadora, essa era exatamente a imagem do poder.
***
Quando a rainha limpou os lábios com o guardanapo de linho e assentiu com a cabeça, Clara começou a recolher as bandejas em silêncio.
Aurelia se ergueu das costas de Felipe com a mesma graça com que havia se sentado.
A coluna de Felipe soltou uma série de estalos quando o peso desapareceu. Um alívio brutal e doloroso ao mesmo tempo. Ele desabou com os braços estendidos sobre as lajes, ofegante em silêncio, o rosto ainda brilhante pela umidade da boceta da gladiadora.
Isadora se pôs de pé e alisou o veludo do vestido com as duas mãos.
—Leve-o para passear pelos corredores internos —ordenou, sem se dar ao trabalho de olhar para Felipe—. Faça-o se mover um pouco. Músculos atrofiados não me servem para esta noite. Lembre-o de qual é o lugar dele enquanto faz isso.
Aurelia recolheu a corrente do colar de Felipe. Enrolou-a na mão uma vez, ajustou bem e puxou para cima com uma sacudida seca e autoritária.
Os dentes do colar morderam o pescoço de Felipe. Ele foi forçado a tentar se levantar, mas antes que pudesse ficar de pé, um puxão descendente de Aurelia deixou tudo claro.
—A quatro patas, besta —disse Aurelia, com a voz de quem explica algo óbvio—. Os cachorros da rainha não andam sobre duas pernas. Nem fodem. Lambe-se a boceta deles e se chuta a bunda deles, e eles aprendem a agradecer as duas coisas.
***
Aurelia seguiu rumo às portas que ligavam o Grande Salão aos corredores internos do castelo. Seu passo era elegante, seguro, rítmico. O tac, tac, tac dos saltos de suas sandálias de gladiadora ressoando contra a pedra se tornou o metrônomo do sofrimento de Felipe.
O escravo rastejava atrás, arrastando os joelhos e as palmas sobre os mosaicos frios. Os joelhos não demoraram a começar a sangrar.
A mecânica do rastejar era uma tortura feita especificamente para o estado dele. Cada vez que avançava um joelho, os quadris se moviam. Esse balanço pélvico contínuo agitava a jaula. O cateter roçava. O fogo, adormecido pela imobilidade, reacendia a cada metro percorrido. Era uma ardência surda, constante, sem trégua, que acompanhava cada movimento como um contador instalado nas entranhas dele. Seus culhões, carregados de sêmen velho, balançavam sob a jaula, batendo entre as coxas a cada passo.
Se afrouxava o ritmo nem por um segundo, a corrente se esticava de imediato. A inércia do corpo de Aurelia puxava para a frente, e os dentes do colar cortavam a passagem de ar pela traqueia. Felipe aprendeu rápido. Precisava manter sempre certa folga na corrente para conseguir respirar, o que significava ajustar o passo exatamente ao de Aurelia, sem possibilidade de descanso nem dúvida.
Os corredores internos não estavam vazios.
Criadas com cestos de roupa encostavam-se às paredes para deixar passar a gladiadora loira. Guardas em armadura baixavam os olhos diante de Aurelia em sinal de respeito, e depois os desviavam, inevitavelmente, para a criatura que rastejava atrás dela. Escravos de menor categoria cruzavam o olhar com o de Felipe e o desviavam de imediato, como se encará-lo por muito tempo fosse perigoso.
Todos viam a mesma coisa: um homem completamente nu, coberto de hematomas, os joelhos sangrando sobre a pedra, o colar de pontas apertado no pescoço, os genitais presos na jaula de aço que oscilava com cada movimento dos quadris, o rosto ainda brilhante pela umidade de outra boceta. Viam a baba pendendo do queixo pelo esforço de respirar. Viam seus olhos fixos no chão, esvaziados de qualquer expressão que não fosse a concentração animal de quem só pensa em continuar se movendo.
Não era um prisioneiro de guerra. Não era alguém sendo castigado publicamente.
Era um animal de estimação exótico e quebrado, levado para fazer suas necessidades antes da próxima sessão noturna.
No meio do corredor longo da ala oeste, Aurelia parou sob uma tapeçaria de caça. Puxou a corrente para cima com força para erguer o rosto de Felipe. Duas criadas jovens haviam parado na entrada do corredor para olhar. Aurelia sorriu para elas sem dizer nada, virou-se para Felipe e apoiou uma sandália de gladiadora diretamente contra a boca dele.
—Beije —disse—. Com a língua. Para que elas vejam o que você sabe fazer.
Felipe entendeu. Esticou a língua e começou a lamber o couro do salto da ponta até o arco, subindo pelas tiras entrecruzadas do peito do pé, chupando cada sulco. A saliva se acumulava na boca. Ele engolia e voltava a lamber. As criadas cobriram a boca com as mãos, mas não foram embora. Olharam, de olhos muito abertos, enquanto o escravo da rainha mamava uma sandália no meio do corredor como se fosse a coisa mais importante do mundo. Quando Aurelia decidiu que bastava, afastou o pé e voltou a caminhar sem olhar para trás.
—Bom cão —disse por cima do ombro, e o metrônomo do tac tac tac voltou a marcar o passo.
Aurelia caminhou durante vinte minutos pelos corredores sem lhe dirigir mais nenhuma palavra. O rabo loiro se balançava. Os saltos marcavam o compasso. Felipe rastejava. A corrente permanecia tensa o suficiente para que ele respirasse, e nem um centímetro mais. Quando as portas do Grande Salão reapareceram ao fundo do corredor principal, Aurelia parou.
Virou-se para olhar o escravo que ofegava a seus pés.
O sorriso dela era perfeito. Os dentes, brancos e uniformes. Os olhos, completamente frios e indiferentes, como os de alguém que terminou uma tarefa menor e já está pensando na próxima.
—Bem —disse—. Isso é tudo por enquanto.
Ergueu a corrente mais uma vez, obrigando-o a permanecer na posição.
Felipe entendeu que o passeio havia terminado. E que a noite, com tudo o que essa palavra significava naquele castelo, ainda nem tinha começado.