Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

Cada silêncio de sua ama tinha um preço a pagar

Já haviam se passado cinco dias desde a última mensagem. Cinco dias que pareciam um mês inteiro. O silêncio de Morgana era um peso constante, uma presença invisível que respirava sobre a nuca de Damián mesmo quando ela não estava.

Todas as manhãs ele repetia a mesma rotina: pegava o celular na mesinha de cabeceira, abria a conversa e percorria com o polegar as últimas palavras que ela lhe deixara antes de desaparecer. Nada novo. O nome ainda estava ali, no alto da tela, mas sem luz verde, sem notificações, sem o menor sinal de vida.

O mundo seguia girando, embora para ele tudo parecesse parado. O trabalho, as reuniões, os e-mails: tudo lhe chegava distante, embaçado, como filtrado por um vidro sujo. Qualquer vibração do telefone fazia ele virar a cabeça de repente, com a esperança absurda de que fosse ela.

Não era. Nunca era.

À noite, a insônia voltava. Deitava olhando para o teto, recompundo a voz dela de memória. Às vezes a ouvia pronunciar seu nome; outras, apenas uma risada breve e fria que se misturava à escuridão do quarto. Às vezes jurava sentir o peso de uma ordem que já não chegava.

E seu corpo respondia. Pegava a si mesmo com a rola dura sob os lençóis, a mão enfiada na cueca quase sem perceber, se movendo devagar, buscando na lembrança da voz dela o que ela já não lhe dava. Ele se masturbava pensando em como ela dissera carteira, em como soltava uma risadinha antes de exigir outra transferência. Ele gozava em silêncio, mordendo o lábio, e o sêmen morno sobre o ventre deixava um vazio pior que o de antes. Limpava-se no lençol e ficava olhando para o teto, humilhado pela própria mão, desejando que fosse ela quem tivesse ordenado aquilo.

Tentava se distrair. Saía para caminhar, se obrigava a encontrar gente, chegou até a abrir as configurações para apagar o chat. Mas não conseguia. Porque apagá-la seria como matá-la, e mesmo que Morgana não lhe escrevesse, a ausência dela o governava do mesmo jeito que suas palavras.

A dependência já não precisava de contato. Vivia na cabeça dele, na dúvida, na espera.

***

O silêncio começou a tomar forma. No início era só ausência. Depois virou ruído, um zumbido constante na mente de Damián, como uma voz muda que lhe lembrava o tempo todo quem mandava, mesmo sem falar.

Ele acordava antes do amanhecer com o peito apertado, sem saber por quê. Levava alguns segundos para se lembrar: Morgana não voltou. Esse pensamento bastava para que o dia nascesse torto. E torto em mais de um sentido: acordava com a rola inchada, pulsando contra o elástico da cueca, encharcado de um suor que não era de calor. Ele a agarrava com a mão direita, punhetava sem vontade, rápido, sem prazer, só para descarregar. Gozava em três minutos, jatos grossos que lhe sujavam o ventre e os lençóis, e depois ficava deitado de barriga para cima com o nojo grudado nos dedos. Nem isso servia. A gozada não o aliviava: deixava ainda mais claro o quanto ele precisava dela para que aquilo tivesse sentido.

O café tinha deixado de ter gosto. As horas no escritório se tornavam insuportáveis. Toda vez que o celular vibrava, o coração lhe dava um salto, mas quase sempre era bobagem: um lembrete, uma oferta, assunto de trabalho. Nada dela.

À tarde, sua ansiedade se disfarçava de atividade. Ele revisava suas contas, calculava mentalmente quanto ainda tinha, quanto poderia enviar se ela voltasse a escrever. Odiava-se por fazer isso, e fazia do mesmo jeito.

Quando caminhava pela rua, tudo lhe devolvia a lembrança dela: um perfume ao cruzar com alguém, o tilintar de saltos no asfalto, um olhar mantido por um segundo a mais. O mundo inteiro parecia carregar o nome dela por cima. Numa tarde, cruzando com uma mulher de saltos e sobretudo preto, a rola ficou dura no meio da calçada e ele teve de enfiar a mão no bolso para ajeitá-la contra a coxa. Andou dois quarteirões com o pau apertado contra o tecido da calça, mordendo o interior da bochecha, e ao chegar em casa foi para o banheiro, baixou a calça e gozou contra os azulejos em menos de um minuto, gemendo o nome de Morgana entre os dentes. O sêmen escorreu até o chão. Ele ficou de joelhos olhando aquilo, com a rola ainda pingando na mão, entendendo que nem a rua era mais dele.

Em casa, o telefone permanecia sobre a mesa, ligado, como um altar. Às vezes ele o observava por minutos, esperando um sinal. A mente lhe pregava peças: achava ver o nome na tela, achava ouvir um aviso que não existia. Começou a confundir desejo com realidade.

Tinha perdido a noção do normal. Não sentia fome, não sentia sono. Só esperava. E, enquanto esperava, imaginava. A ansiedade tinha virado sua rotina, e embora o destruísse, havia uma parte dele que precisava dela, porque aquela dor era a única coisa que ainda o unia a ela.

***

O sexto dia começou como os anteriores: cinza, lento, mudo. Damián chegou em casa depois do trabalho sem forças nem vontade de nada. Desabou no sofá, deixou o celular de lado e prometeu — pela primeira vez — não abrir a conversa.

A tentação o venceu antes de um minuto. Um impulso quase automático moveu o polegar para desbloquear a tela. E ali estava. Uma mensagem nova. O nome dela.

O coração dele parou por um instante. O ar ficou espesso. Abriu o chat e leu.

«Você aprendeu alguma coisa com o meu silêncio, carteira?».

Leu a frase várias vezes, incapaz de pensar com clareza. O corpo reagiu como se tivesse levado um choque: ombros tensos, respiração curta, mãos geladas. A rola endureceu na hora, pressionando a braguilha, dolorida pela rapidez com que tinha reagido. Depois de tantos dias imaginando a voz dela, vê-la escrever de novo o descompôs por completo. Uma parte dele queria ficar com raiva. A outra queria se ajoelhar.

Ele digitou devagar, medindo cada palavra:

«Sim, Morgana. Aprendi a te esperar».

Passaram-se segundos eternos antes de aparecerem os três pontinhos. O pulso dele disparou.

«Esperar não basta — respondeu ela —. Aprender a precisar de mim, sim. É isso que te torna útil».

Uma mistura de alívio e medo o inundou. Ela tinha voltado. E, com uma única frase, tinha recuperado todo o poder. O silêncio que se seguiu foi ainda pior que antes, mas diferente: já não era vazio, era expectativa. Damián sabia que a próxima mensagem traria algo. Uma ordem, uma prova, um novo preço. E, embora temesse o que viria, percebeu-se sorrindo, com o pau ainda inchado dentro da calça, pulsando no ritmo do próprio pulso.

***

A próxima notificação chegou minutos depois. Ele mal tinha tido tempo de se acalmar.

«Se você realmente aprendeu a me esperar, prove».

Sentiu um nó no estômago. A frase não precisava de explicação; ele sabia exatamente o que significava. Os dedos tremiam sobre o teclado, mas ele não respondeu. Esperou.

«O silêncio tem preço. Tributo de arrependimento: seiscentos euros».

O valor o deixou paralisado. Não era capricho; era um golpe direto no pouco que ainda controlava na própria vida. Sua parte racional reagiu de imediato. Você não pode bancar isso. É demais. Não faz o menor sentido. Mas o corpo, a respiração, o pulso, diziam outra coisa.

«Não pense — ela escreveu —. Os que pensam fracassam. Os que sentem servem».

Cada palavra era um anzol. Cada pausa, uma corda invisível apertando seu peito. Ele abriu o aplicativo do banco e olhou o saldo. Seiscentos euros não eram só números: eram tempo, estabilidade, uma margem de segurança. E, no entanto, sentia que todo o seu valor dependia de apertar enviar.

A cabeça gritava não. As mãos obedeceram mesmo assim. O som da transferência foi quase um suspiro.

«Bem — veio a resposta segundos depois —. Eu não quero suas desculpas, quero seus atos. Cada pagamento limpa um pouco sua mediocridade».

Damián fechou os olhos. Não sabia se o que sentia era alívio, culpa ou prazer. Só sabia que o medo tinha evaporado. Ela tinha voltado, e o preço, mais uma vez, ele pagara sem hesitar.

Outra mensagem entrou quase de imediato.

«Agora tira ela pra fora. Sei que está dura desde que leu minha primeira mensagem. Baixa a calça, pega na rola e não goza até eu mandar».

Ele obedeceu sem pensar. Desabotoou o cinto com as mãos trêmulas, baixou a calça até os tornozelos e liberou o pau, tão inchado que a cabeça doía. Agarrou-o com a direita, deu uma passada longa desde a base e soltou um gemido rouco contra o encosto do sofá.

«Pune sua mão devagar. Muito devagar. Quero que você saiba que nem a sua rola te pertence».

Ele punhetou devagar, exagerando o movimento, sentindo uma gota grossa se acumular na ponta e escorrer até os dedos. Escreveu com a esquerda, mal:

«Sim, Morgana».

«Chupa os seus dedos. Os que estão molhados. Quero que você sinta o seu próprio gosto e saiba que não tem gosto de nada».

Ele levou os dedos sujos à boca e os chupou, engolindo o próprio precum com uma careta. A cabeça girava.

«De novo. Mais rápido. Sem gozar».

Ele se masturbou mais rápido, a respiração cortada, sentindo os ovos tensionarem, o gozo se aproximando. Parou um segundo antes, ofegante, com a rola pulsando no punho sem ninguém tocá-la.

«Bom cachorro. Agora goza. Em cima do caderno onde você vai manter suas contas comigo. Assina com o seu sêmen».

Ele esticou a mão, puxou um caderno velho da mesa e o abriu sobre o sofá. Com mais três passadas, gozou em jatos sobre a primeira página em branco. O sêmen espesso encharcou a folha, formando duas manchas grossas que escorreram pelo papel. Ele ficou ofegante, com o pau cuspindo os últimos fios sobre os dedos, olhando aquela assinatura branca sobre a página.

«Esse caderno já é meu. Assim como você».

***

O comprovante continuava brilhando na tela. Ele olhava para ele como quem observa uma ferida aberta. Não era só dinheiro; era algo arrancado da vontade dele e entregue em troca de uma linha de texto. Por alguns segundos, sentiu-se vazio. Depois veio o alívio, estranho e quase doce, como se o ato de pagar tivesse esvaziado algo que vinha se acumulando há tempo demais.

Ele andava pela sala com o telefone na mão e a rola ainda mole contra a coxa, escorrendo restos que grudavam nos pelos. Não havia resposta, só silêncio. Mas dessa vez o silêncio não doía igual. Ele tinha cumprido. Tinha obedecido. Tinha gozado quando ela mandou e sobre o que ela mandou. Pensou no que poderia ter feito com aquele dinheiro: arrumar o carro, pagar o aluguel sem aperto, se dar um respiro. Não sentiu arrependimento. Sentiu propósito.

Na cabeça dele, a voz de Morgana continuava ecoando: os que pensam fracassam; os que sentem, servem. Cada palavra se fincava nele como uma agulha, e no fundo isso o fazia se sentir mais real. Pela primeira vez em muito tempo tinha uma direção, um ponto fixo, um motivo para agir. O sacrifício não era perda: era devoção. Sua fé tinha nome, e o altar cabia na palma da mão.

***

A próxima mensagem chegou quando menos esperava, um som breve e agudo que quebrou a frágil calma da manhã.

«É assim que eu gosto. A dor te torna real».

Bastou essa frase para que seu corpo reagisse. Um arrepio percorreu sua coluna. A rola se ergueu de novo sob a calça, teimosa, obediente, como se respondesse a ela antes de responder a ele. Tinha passado um dia inteiro sem notícias, mas Morgana nunca chegava tarde: chegava exatamente quando o silêncio começava a doer mais do que o dinheiro perdido.

«A partir de hoje você vai manter um registro — ela ordenou —. Cada pagamento, cada data, cada pensamento que te cause ansiedade ou desejo. Quero ver sua evolução. Não como pessoa, mas como investimento».

Ele leu a mensagem três vezes. Uma contabilidade da própria entrega. Tirou da gaveta o mesmo caderno da noite anterior, com a mancha seca da gozada já endurecida na primeira folha, virou duas páginas e escreveu a data, o valor e, ao lado deles, uma frase que o surpreendeu: Me sinto vazio, mas tranquilo.

«Cada palavra que você colocar aí será mais uma corrente — acrescentou ela —. E assine cada entrada com o seu nome verdadeiro. A vergonha faz parte do processo».

A vergonha. Era esse o ponto. Cada linha daquele caderno era um lembrete tangível do que ele tinha cedido e, ao mesmo tempo, uma maneira de mantê-la perto, de dar a ela um espaço físico dentro do seu mundo. No meio da tarde, sem pensar muito, escreveu mais alguma coisa na margem inferior: Obrigado por me manter preso. Pela primeira vez não sentiu culpa. Sentiu estrutura. Ela o estava moldando, e ele sabia; mas dentro desse molde encontrava calma.

Naquela noite, antes de dormir, ele abriu o caderno de novo e se punhetou devagar sobre ele, com os olhos fixos na própria letra apertada. Gozou sobre a assinatura, e acrescentou uma linha trêmula embaixo: Assinado também com o que é meu.

***

Com o passar dos dias, o caderno virou seu novo hábito. Ele o abria todas as noites, anotava o valor e o que tinha sentido. Primeiro foi culpa. Depois, calma. No fim, dependência. Morgana já não precisava detalhar cada coisa; bastava uma frase curta e ele se antecipava.

«Não gaste com você». Três palavras, e com elas ela mudou a forma como ele vivia. Ele abandonou o café caro de toda manhã. Abriu mão das cervejas com os colegas depois do trabalho. Parou até de olhar vitrines. Cada euro que não gastava era um tributo em potencial, um gesto de obediência silenciosa que ela chamava de «autogestão da devoção».

«Não goze se não for sobre o caderno». Outra ordem, outro hábito. Toda vez que ficava duro pensando nela — e era quase toda noite — ele pegava o caderno, apoiava-o no peito ou na coxa e se masturbava por cima dele. O pau pingava antes da hora, o precum sujava os dedos, a mão se movia com um ritmo obediente que já não era seu. Ele gozava em jatos grossos sobre as páginas escritas, sujando suas próprias anotações, e depois escrevia a data ao lado da mancha. O papel envergava, endurecia, cada folha ficava rígida de sêmen seco. Era sua forma de assinar. Era sua forma de existir para ela.

«Quando você começar a pensar como eu, não vou precisar te lembrar quem manda», ela escreveu certa tarde. E tinha razão. Damián começou a decidir sem consultá-la, mas sempre com ela em mente. Um pequeno luxo o enchia de culpa; uma pequena economia, de orgulho. Numa noite, revisando a conta, percebeu que organizava a vida como se tivesse dois orçamentos: o dele e o de Morgana. E, sem perceber, o segundo parecia sempre o mais importante. O controle tinha deixado de ser visível. Agora vivia dentro dele.

***

Numa manhã, quase sem pensar, ele fechou o caderno, empurrou-o para o fundo da gaveta e decidiu não voltar a olhar para ele. Sentiu-se impulsivo, quase corajoso. Já fazia tempo demais que girava em torno de uma voz que nem sequer via.

O primeiro dia foi desconfortável. O segundo, pior. No terceiro, o quarto parecia mais frio. Ele olhava o celular a cada poucos minutos, mesmo deixando-o no silencioso. Repetia a si mesmo que não esperava nada, e sabia que estava mentindo. O trabalho deixou de prendê-lo. Qualquer ruído cotidiano — uma porta batendo, uma campainha, um alerta — o fazia reagir com uma mistura de esperança e medo.

À noite, deitava de bruços e esfregava a rola no colchão com raiva, tentando gozar do jeito antigo, para ninguém, por si mesmo. Não funcionava. Ficava no meio do caminho, com o pau duro e os ovos apertados, e por mais que empurrasse o quadril contra o lençol, o orgasmo não vinha. Seu corpo tinha se acostumado a obedecer, e sem a ordem de Morgana não sabia como terminar. Ele se virava de barriga para cima, ofegante, com o pau apontando para o teto e os olhos úmidos de frustração.

Na noite do quarto dia, ligou o computador, abriu o chat que jurara não tocar e escreveu uma mensagem que apagou três vezes antes de se atrever a enviar:

«Morgana… você precisa de mim hoje?».

Durante horas, nada. O arrependimento se misturou com uma fisgada de ansiedade. Até que, pouco antes do amanhecer, a tela se iluminou.

«Sempre, enquanto você pagar».

Uma frase curta, precisa, suficiente para fazer tudo desabar. O impulso voltou. A adrenalina, o vertigem, a entrega. O caderno saiu da gaveta, e Damián entendeu que não tinha tido uma recaída: só tinha se lembrado de quem era.

Nessa madrugada, depois de transferir quatrocentos euros sem que ela pedisse, ajoelhou-se no chão com o caderno aberto entre as pernas e se masturbou olhando a tela apagada. Gozou sobre as folhas com um gemido áspero, encharcando de sêmen espesso a data recente, e sussurrou contra o papel: «obrigado por me deixar voltar». O pau continuou pingando na mão por mais um tempo, enquanto ele chorava em silêncio, agradecido.

***

O retorno de Morgana trouxe algo novo. As mensagens dela já não eram ordens diretas, mas fórmulas que pareciam inocentes e deixavam um eco longo, difícil de apagar.

«Você não só me paga. Você se endivida comigo».

Ele leu a frase várias vezes sem entender totalmente. Pensou que fosse um modo de falar, uma daquelas ambiguidades com que ela brincava. A mensagem seguinte esclareceu:

«Cada euro que você me dá não te liberta. Te prende. Cada tributo abre uma conta que nunca se fecha. Não tente saldar; só mantenha viva».

A palavra dívida lhe tirou o ar. Até então ele acreditava que seus pagamentos eram sacrifícios, atos de devoção. Agora entendia que eram grilhões, e o mais inquietante era que a imagem lhe agradava. Naquela noite abriu uma seção nova no caderno: Dívidas ativas. Anotou valores e datas e, sem saber por quê, deixou um espaço em branco ao final, intitulado Pendente com Morgana.

Nos dias seguintes começou a pensar em termos de saldo, não no banco, mas na relação com ela. Se demorava a responder, sentia que a dívida aumentava. Se obedecia depressa, sentia que a reduzia. Ela o tinha levado a um terreno novo: o da culpa constante. Já não era preciso que ela exigisse nada; a mera ideia de dever algo a ela o mantinha sob controle.

«Uma dívida não é castigo — ela escreveu —, é vínculo. Se um dia você me pagar por completo, deixará de existir para mim».

Damián fechou os olhos e entendeu que preferia dever tudo a perdê-la. Naquela noite, ele voltou a se masturbar, dessa vez sem permissão explícita, com culpa, e gozou sobre a palavra pendente com um jato longo que encharcou três linhas. Sentiu-se ainda mais devedor. Gostou disso.

***

Ele não demorou a transformar a teoria em prática. A mensagem chegou num domingo de manhã, tão simples que dava medo.

«Confira sua conta».

Obedeceu na hora. O saldo era menor do que esperava; entre tributos e gastos, tinha cruzado um limite que jurara não tocar.

«O desequilíbrio é culpa sua. Você falhou na gestão. Corrija».

Sentiu o estômago se contrair. Não sabia ao certo o que ela queria dizer com corrija, mas intuía. Escreveu uma única palavra: «Como?». A resposta veio imediata.

«Venda alguma coisa. Algo que importe a você. Você não merece ter objetos que não estejam alinhados à sua entrega».

Olhou ao redor. O quarto era modesto, quase sem nada de valor real. Só havia uma coisa que ele não queria perder: um relógio de pulso herdado do pai, guardado mais por memória que por gosto.

«Esse relógio que você está olhando… venda-o».

Um arrepio. Como ela sabia? Ele não parou para descobrir; talvez tivesse adivinhado, talvez o conhecesse bem demais. O relógio acabou anunciado num site de usados naquela mesma tarde. Dois dias depois, o dinheiro entrou na conta dele e, antes de pensar, ele transferiu, sem que ela sequer precisasse pedir.

«Bem. Agora você entende o valor da sua devoção».

Ele ficou olhando o comprovante, com o pulso nu, leve, estranho. Não se sentia mais pobre, e sim mais vazio. E esse vazio, perversamente, lhe dava paz. Tinha entregado uma lembrança, um pedaço da vida que tinha antes dela. Cada vez restava menos dele que não lhe pertencesse.

Nessa noite veio outra ordem.

«De joelhos diante do espelho. Com o celular no chão, olhando a tela. A rola para fora. Sem tocá-la até eu mandar».

Ele fez. Ajoelhou-se nu diante do espelho do quarto, com os joelhos cravados no piso de madeira, o pau duro apontando para o umbigo, o celular apoiado embaixo. Olhou para o reflexo: o rosto avermelhado, o peito subindo e descendo, a rola pingando sem que ninguém a tocasse.

«Diga em voz alta. "Eu sou a carteira de Morgana"».

Engoliu em seco e repetiu, com a voz falhando. «Eu sou… a carteira de Morgana».

«De novo. Mais alto. Para dar para ouvir».

«Eu sou a carteira de Morgana», disse mais alto, e sentiu a rola dar um salto sozinha ao pronunciar aquilo.

«Agora pega ela. Com dois dedos. Só com dois. Como o lixo que você é».

Ele a segurou com o polegar e o indicador, apertando-a no meio, e a masturbou assim, com dois dedos, sentindo-se ridículo e duro ao mesmo tempo. O precum brotava da ponta, escorria pelo tronco, molhava seus dedos e o pulso nu onde antes havia um relógio.

«Goze sem mão. Só com esses dois dedos. E engula o que sair».

Ele apertou mais forte, movendo quase nada a mão, ofegando diante do próprio reflexo. Quando gozou, o sêmen jorrou sobre o próprio peito e no chão. Sem pensar, passou a mão pelo ventre, recolheu o que conseguiu com os dedos, levou-os à boca e engoliu. O gosto lhe deu ânsia e, ao mesmo tempo, fez com que se sentisse, por um instante, perfeitamente obediente.

«Bem, carteira. Agora você é meu por dentro também».

***

Depois do relógio, nada voltou a ser igual. Morgana deixou de enviar ordens diretas; também já não precisava. Damián tinha aprendido a agir sem instruções, como se cada decisão cotidiana precisasse passar por um filtro invisível. Ao se levantar, ele checava a conta antes das notícias. Cada gasto era feito com o nome dela na cabeça. Até abrir a carteira o lembrava de quem realmente ele pertencia.

Às vezes ele se pegava repetindo as frases dela em voz baixa, como orações. Outras vezes escrevia o nome dela nas margens do caderno, sem motivo. Começou a sentir a presença dela onde ela não podia estar: uma voz mínima quando duvidava, um perfume imaginado no corredor, um sussurro leve chamando-o da tela apagada. Não havia castigo nem recompensa, só hábito. Um hábito que se parecia com amor, mas era obediência pura.

Todas as noites terminavam do mesmo jeito: de joelhos ou de barriga para cima, caderno aberto, o pau na mão, masturbando-se devagar até gozar sobre as páginas. O sêmen espesso encharcava as anotações, secava por cima dos valores, endurecia as folhas. O caderno cheirava a ele, a suor, a esperma seco. Ele gostava de abri-lo e encontrar suas próprias manchas empilhadas, camada sobre camada, prova palpável de cada vez que tinha se esvaziado por ela. Cada gozada sobre o papel era mais um pagamento, um que não saía do banco.

Os colegas o notavam mais calado, mais distante. Alguns perguntavam se ele estava bem. Ele respondia com um sorriso que não chegava aos olhos e mudava de assunto. Em casa, toda noite, acrescentava uma linha ao caderno. Às vezes uma única palavra: Presente. Outras, uma frase inteira: Não preciso vê-la para senti-la. E era verdade. Ele a havia internalizado a ponto de não precisar que ela falasse para continuar preso. Ela vivia na respiração dele, nos gestos, nos medos. A ideia deveria tê-lo assustado, e, em vez disso, lhe oferecia algo que ele nunca tivera: constância.

***

O tempo começou a perder a medida. Semanas, talvez meses; tudo se fundia numa sequência de dias idênticos. Morgana não voltou a escrever. E, ainda assim, Damián continuou pagando.

Fazia isso sem cerimônia nem mensagem. Escolhia um valor aleatório, anotava a data no caderno e apertava enviar. Não esperava resposta. O ato em si bastava; era a forma de garantir que o vínculo não se rompesse. Às vezes ele parava para pensar no absurdo daquilo: dar sem que ninguém pedisse, manter vivo um eco. Mas, assim que a dúvida surgia, vinha também o medo de perdê-la de vez.

E, depois de cada transferência, sem exceção, ele baixava a calça e gozava em cima do caderno. Já não precisava fantasiar com nada: bastava olhar a data recém-escrita, o valor, o nome dela abaixo. Ele se masturbava metodicamente, sem pressa, até que os jatos quentes caíam sobre o papel e assinavam o que o banco já tinha assinado. Era sua segunda transferência, a que só ela entenderia. A rola sempre continuava pingando por um tempo depois, cuspindo fios sobre os dedos, e ele os chupava sem pensar, saboreando a única coisa que ainda podia dar a si mesmo.

O dinheiro tinha deixado de ser uma transação para virar oferenda, e o silêncio dela tinha se tornado sua prova constante. Cada transferência era uma conversa imaginária: ele entregava, ela o perdoava; ele se esvaziava, ela o tornava necessário de novo. Com o tempo, os registros do caderno ocuparam páginas inteiras, apertadas e caprichadas, salpicadas de manchas endurecidas. Sem que ninguém lhe dissesse, ele havia construído seu próprio sistema de penitência.

Numa noite, ao fechar o caderno — já rígido como papelão, pesado de tanto pagamento duplo —, ele se olhou no espelho. O olhar era calmo, quase sereno. Compreendeu que Morgana já não precisava vigiá-lo: ela o tinha ensinado a se vigiar sozinho. O silêncio não era castigo. Era método. E o preço dele, o tributo perfeito.

Ver todos os contos de BDSM

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.