Minha ama definiu as regras e eu as obedeci
A fama funciona como a água: sempre encontra o caminho até o ponto mais baixo. Na faculdade, esse ponto era o canto das árvores no fundo do campus, entre a quadra abandonada e o depósito de materiais que ninguém usava. O que tinha começado como um arranjo sussurrado entre corredores e mensagens de voz tinha se tornado, com o tempo, algo com forma própria. Já não era um segredo passado de mão em mão. Era quase uma instituição.
Minha Ama, Rebeca, tinha essa capacidade que algumas pessoas têm de transformar o caos em sistema. As duas horas livres da tarde — entre a última aula obrigatória e o fechamento da biblioteca — tinham se transformado na minha jornada. As amigas mais próximas dela, Luciana e Marcos, funcionavam como filtro: recebiam os interessados, esclareciam as condições, mantinham a ordem. A tarifa era simbólica, o equivalente a um café e umas medialunas no bar da esquina. Não se tratava de dinheiro. Tratava-se de outra coisa: até onde ia minha obediência, e de quantas pessoas estavam dispostas a pagar para comprovar isso.
Naquela terça, o sol caía oblíquo e frio, sem força para aquecer nada. Eu usava a saia curta, sem roupa íntima, exatamente como Rebeca havia indicado na noite anterior por mensagem. O vibrador não estava comigo; ela tinha me dito que era uma distração desnecessária para o trabalho. Caminhei em direção ao fundo do campus com o coração batendo com uma calma que teria me assustado meses antes. Já não era o pânico das primeiras vezes. Era algo mais parecido com a expectativa de um intérprete antes de entrar em cena.
Meus dois primeiros clientes daquela tarde eram rapazes de períodos mais avançados, rostos conhecidos. A rotina era simples e direta: eu me ajoelhava no chão entre as folhas úmidas, eles ficavam de pé diante de mim, abriam o zíper e tiravam a rola. O primeiro já estava meio duro antes de baixar a calça; começou a se masturbar a dez centímetros do meu rosto, com a mão fechada firme na base, e eu mantive as mãos sobre as coxas e o olhar baixo, exatamente como Rebeca tinha me ensinado. Eu ouvia o som úmido da pele deslizando sobre a glande, o ofego cada vez mais rouco, e não me mexi. Quando gozou, apontou para a minha boca aberta e para a minha bochecha; senti os jatos quentes caindo sobre minha língua, um atrás do outro, espessos, e mais um escorrendo pelo meu queixo até o pescoço. Engoli sem fazer barulho. O sêmen tinha aquele sabor salgado e levemente amargo ao qual eu tinha me acostumado nas últimas semanas.
O segundo foi mais rápido. Ele tirou a pica já dura, grossa, com uma veia marcada no dorso, e me pediu sem palavras que eu chupasse só a ponta. Abri a boca e ele foi introduzindo a glande até passar a linha dos meus lábios, sem mais. Eu não chupava: deixava que ele usasse minha boca como se fosse um vazio morno e quieto. Ele segurava a base e se movia com o restante contra meus lábios, enquanto a cabeça inchada roçava minha língua. Em dois minutos ele rosnou e descarregou dentro da minha boca. Encheu meu paladar, jorro após jorro, até transbordar pelas comissuras. Fechou os olhos, se contorceu, sacudiu as últimas gotas sobre meu lábio inferior e guardou tudo com a respiração entrecortada. Nem obrigado nem nada. Subiu a calça e foi embora.
Fiquei um instante de joelhos, sentindo o sêmen dos dois se misturar na minha língua e descer pela garganta. Não conversávamos. Era uma transação sem adornos, eficiente como um procedimento burocrático.
Quando eles foram embora, Marcos se aproximou com aquela expressão de quem está prestes a complicar as coisas.
— Tem uma nova — disse. — Menina. Quer o mesmo que os outros, mas diz que quer participar. Diz que é amiga da Daniela, da festa do mês passado. A Valentina disse que está tudo bem. Cobra o dobro.
Assenti. Algo se moveu no meu peito, uma mistura de nervosismo e curiosidade. Uma cliente. E uma que queria participar de verdade.
Esperei alguns minutos. Ouvi os passos dela antes de vê-la.
Era baixinha, com o cabelo tingido de um preto azulado que chegava aos ombros, um piercing no nariz e outro no lábio inferior. Usava o moletom da faculdade aberto sobre uma camiseta, com as mãos nos bolsos. Me olhou de cima a baixo com uma expressão que ainda não era luxúria, mas algo anterior a isso: avaliação.
— Então é você — disse. A voz era macia, mais do que eu esperava. — A que obedece.
Fiquei parada, sem saber onde colocar as mãos. Com os rapazes havia um protocolo claro. Com ela eu estava em terreno sem mapa.
— Ajoelhe-se — ela disse, e o tom não deixava margem para dúvida.
Obedeci de imediato.
Ela se aproximou devagar, agachou-se à minha frente e ergueu meu queixo com os dedos. As unhas eram curtas, pintadas de preto.
— Me disseram que você é obediente de verdade — sussurrou. Seu hálito cheirava a menta. — Não pela metade. Vamos ver. Quero que você lamba meus pés. Se fizer direito, tem gorjeta.
Não era uma pergunta nem uma sugestão. Era um teste com formato de ordem.
Ela se sentou no tronco caído que servia de banco naquele canto, desamarrou os cadarços dos tênis de lona com movimentos lentos e deliberados e os tirou. Os pés eram pequenos, as unhas também pintadas de preto. Ela os estendeu sem dizer mais nada.
Olhei para Marcos, que assentiu brevemente. Voltei os olhos para ela. Ela sustentou meu olhar sem piscar.
Inclinei-me e comecei a lamber o peito do pé dela.
A pele estava fria, tinha gosto de tecido e de ar livre. Passei a língua pelo arco do pé, devagar, sem pressa. Depois pelos dedos, um por um, sentindo o pequeno metal do anel no dedo mindinho. Levei-os à boca um de cada vez, sugando-os como se fossem outra coisa, e ela entreabriu os lábios apenas um pouco, a primeira reação que vi. Não fez mais nenhum som. Só observava, com os cotovelos apoiados nos joelhos e uma expressão de concentração quase científica.
— Bem — disse depois de um momento. — Agora os tênis.
Ela os estendeu para mim. Eram de lona, gastos, com o interior escurecido por meses de uso. O cheiro veio antes de eu aproximá-los: forte, denso, uma mistura de suor, dela e de dias de caminhada.
Hesitei. Uma fração de segundo, nada mais.
— Tem algum problema? — perguntou. Sua voz tinha ganhado um novo corte, sem elevar o volume.
— Não, senhora — respondi. A palavra saiu sozinha, sem que eu decidisse.
Aproximei o tênis da boca. O tecido áspero raspou minha língua. O gosto era intenso, avassalador, impossível de ignorar. Senti o calor subindo às bochechas. A humilhação era física, tinha peso e textura. E ao mesmo tempo, sem que eu procurasse, senti a umidade crescendo entre minhas pernas, um fio espesso começando a escorrer pela parte interna da coxa. A vergonha estava se transformando em outra coisa. Minha xana pulsava, encharcada, com aquela contração boba e solitária que procurava algo para preencher.
— O outro — disse ela.
Repeti o ato com o segundo tênis. Quando terminei, ela permaneceu em silêncio por um longo momento. Só me olhava. Ajoelhada no chão, com os tênis dela nas mãos, a saia levantada sobre os quadris e os joelhos manchados de terra.
— De pé — disse por fim.
Levantei-me. As pernas tremiam só um pouco, o bastante para ela notar.
Ela se aproximou, enfiou a mão sob minha saia sem aviso, e seus dedos encontraram a umidade de imediato. Passou-os pelos lábios da minha xana de cima a baixo, abrindo-os, e senti os dedos afundarem em mim sem resistência, dois dedos até os nós, com um som úmido que se ouviu claramente no silêncio do bosque. Ela sorriu. Era um sorriso genuíno, sem malícia calculada, quase satisfeita por estar certa.
— Interessante — murmurou, curvando os dedos dentro de mim e pressionando aquele ponto da frente que me fez abrir a boca sem fazer barulho. — Você não mente. Está escorrendo, puta.
Ela os moveu devagar, tirando-os e enfiando-os de novo, enquanto o polegar buscava o clitóris e o apertava em círculos curtos. Eu mordia o lábio para não gemer, com as mãos ainda fechadas ao lado do corpo. Em menos de um minuto senti o orgasmo subir pela barriga, impossível de disfarçar. Ela percebeu e acelerou os dedos, empurrando-os mais fundo. Gozei em pé, em silêncio, apertando o pulso dela com as coxas, com as paredes da minha xana se contraindo ao redor dos dedos dela em espasmos longos. Senti um jorro de fluidos escorrendo do meu corpo pela mão dela até o cotovelo. Ela aguentou aquilo ali, parada, até que eu parasse de tremer.
Tirou os dedos devagar. Ergueu-os à altura do meu rosto, brilhantes, e os enfiou na minha boca sem dizer nada. Chupei até a última gota do meu próprio gosto, com o olhar baixo, e ela assentiu uma única vez, satisfeita.
Ela se virou para Valentina, que tinha aparecido em silêncio ao lado da árvore maior.
— Ela é boa — disse, entregando a nota. — Vale o que cobra.
— Eu sei — respondeu Valentina, guardando-a no bolso do casaco sem olhar.
A garota calçou os tênis, amarrou os cadarços com calma e saiu pela trilha de terra entre as árvores sem olhar para trás.
***
Valentina ficou. Esperou os passos da garota se perderem entre o ruído do campus antes de falar.
— Como você está? — perguntou, e quando perguntava assim, em voz baixa, sem o tom de comando, era uma pergunta de verdade.
— Bem — respondi. E era verdade, embora eu não soubesse explicar por quê.
Ela assentiu, passou o polegar pela minha bochecha uma vez, rápido, como um gesto de confirmação, e foi embora em direção à faculdade.
Fiquei sozinha entre as árvores com o gosto dela ainda na boca, com o sêmen dos dois anteriores ainda na língua, com a xana pulsando e as coxas pegajosas, e a humilhação ainda ardendo, mas já transformada em outra coisa. Em algo que não tinha um nome exato, mas que eu reconhecia havia meses.
Eu tinha começado a entender algo sobre mim mesma naquele canto. Não era só que eu obedecia. Era que a obediência me dava alguma coisa. Uma clareza estranha, uma sensação de me encaixar num lugar preciso, como uma peça que encontra seu espaço depois de muito tempo solta na caixa.
Não era passividade. Era escolha. Cada vez mais, era escolha.
***
Naquela noite, Valentina me escreveu tarde, depois da meia-noite.
A garota quer voltar na quinta. Eu disse que sim. Você concorda?
Olhei a mensagem por um instante. Pensei nos pés frios, no tecido áspero, nos dedos dela afundados em mim, no olhar que não perguntava, mas afirmava.
Escrevi: Sim.
Valentina respondeu com um único emoji: uma estrela. Era a maneira dela de dizer que eu tinha feito certo.
Apaguei a tela e fiquei olhando o teto, com a mão entre as pernas quase sem perceber, os dedos deslizando sobre um clitóris ainda inchado. Me acariciei devagar, pensando em como seria a quinta, em se ela me faria engolir os dedos de novo, em se dessa vez me faria abrir as pernas contra o tronco e me foder com o que quer que tivesse trazido. Gozei em silêncio, sozinha, com os dedos afundados na minha xana encharcada, mordendo o travesseiro. Lá fora, o campus estava em silêncio. Dentro de mim também havia um silêncio diferente do da angústia: era o silêncio de alguém que tomou uma decisão e a reconheceu como sua.
A quinta-feira chegou pontual, como chegam as coisas que a gente espera sem admitir. O canto das árvores estava igual: as folhas úmidas, a luz oblíqua, o tronco caído. Mas eu cheguei diferente. Sem o tremor das primeiras vezes, sem a urgência de provar nada. Só com a certeza tranquila de quem já sabe onde está parado.
A garota chegou com três minutos de atraso. Trouxe o mesmo moletom, mas o piercing do lábio tinha mudado: agora era um aro menor, quase discreto. Olhou para mim do mesmo jeito que na outra vez, com aquela avaliação séria que começava a me parecer familiar.
— Fico feliz que você tenha voltado — eu disse, e me surpreendi com meu próprio tom: sereno, sem ansiedade.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Eu sou quem avalia aqui — respondeu, mas havia algo no canto da boca dela que não era exatamente desaprovação.
— Eu sei — disse. — Por isso falei isso.
Um breve silêncio. Depois ela apontou para o chão diante do tronco.
Ajoelhei-me sem que ela precisasse repetir.
E enquanto me ajoelhava, pensei que era exatamente isso o que eu queria fazer. Não porque mandassem. Mas porque eu tinha aprendido, naquelas semanas entre as árvores do campus, que algumas formas de liberdade têm a forma exata de um joelho tocando o chão.