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Relatos Ardientes

O que a curandeira fez para salvar o escravo

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As portas de ferro da Sala dos Troféus cederam com um gemido metálico quando Elena as empurrou. O cheiro a atingiu antes que seus olhos se adaptassem à penumbra: fumaça de pinho resinoso, suor ácido, o cobre familiar do sangue e, por baixo de tudo, aquele fedor doce e nauseante que a Curandeira-Mor reconhecia bem demais. Carne queimada.

Entrou com passo firme, seguida de perto por Clara, sua aprendiz de dezenove anos, que carregava duas maletas de couro preto deformadas pelo peso dos instrumentos. A moça respirava pela boca. Elena não precisou olhá-la para saber disso.

A sala se revelou diante delas em toda a sua sordidez. As tochas nas paredes produziam mais sombras do que luz, mas o bastante para ver com clareza o que era preciso ver.

No centro, sobre as lajes polidas de basalto, jazia Rosa. A ex-guarda tinha a bochecha direita transformada numa chaga fumegante: a “A” real, gravada a ferro com um ferro aquecido ao rubro, havia fundido várias camadas de pele e músculo. Seu braço esquerdo pendia naquele ângulo errado que Elena aprendera a reconhecer antes mesmo de apalpar o osso. A mulher estava consciente, mal, com os olhos fixos no teto de pedra e a respiração entrecortada.

Mais ao fundo, no canto que a rainha Astrid chamava, com evidente deleite, de Poste dos Condenados, estava Diego.

O escravo pendia de uma corrente que o prendia pelo pescoço a uma argola de ferro embutida na pedra. A corrente estava calibrada com crueldade precisa: só as pontas dos dedos descalços de Diego roçavam o chão. A coleira de castigo — aquele aro dentado de metal que se fechava automaticamente com o peso — ameaçava afundar em sua traqueia no instante em que suas pernas fraquejassem. Tinha os pulsos algemados às costas. E, pendurado em seus genitais, um bloco retangular de madeira escura que o puxava para baixo com a teimosia do chumbo. A rola, presa dentro da gaiola de aço, estava arroxeada, inchada contra as grades, e os testículos — esticados em direção ao chão pelo peso morto da madeira — tinham a cor violácea da carne estrangulada por tempo demais.

Elena fez o inventário completo em dois segundos. Depois tomou sua decisão.

—A guarda primeiro — disse, sem elevar a voz—. Clara, as maletas.

Vera, apoiada na parede do fundo com os braços cruzados, observava a cena com a expressão satisfeita de quem contempla um quadro que pintou ele mesmo. Era a nova favorita da rainha Astrid: alta, de mandíbula quadrada e olhos cor de avelã que não paravam de se mover. Não disse nada enquanto Elena se ajoelhava ao lado de Rosa.

Os quarenta minutos seguintes pertenciam à ciência.

Elena limpou a queimadura no rosto com álcool de zimbro e uma solução purificadora de calêndula que ela mesma destilava toda semana. Rosa gritou uma vez e depois se limitou a tremer. A Curandeira-Mor trabalhou sem pressa, mas sem pausa, sem crueldade desnecessária, mas também sem uma piedade que não servisse ao propósito médico: limpou as bordas necróticas do tecido queimado, aplicou uma pasta adstringente de argila e aloe sobre a ferida viva, cobriu tudo com gazes umedecidas em salmoura morna.

Depois foi cuidar do braço.

A luxação exigiu duas tentativas. A primeira não encaixou por completo; foi preciso separar de novo os tecidos e reposicionar o ângulo de entrada. A segunda produziu um estalo surdo e definitivo que fez Clara desviar o olhar para o teto. Elena fixou o osso entre talas de álamo e o enfaixou com tiras de linho encerado, apertadas com uma tensão que imobilizava sem cortar a circulação. Por fim, administrou a Rosa um sedativo: uma papa espessa de papoula, mel e casca de salgueiro-branco que a ex-guarda engoliu de forma mecânica antes de afundar numa inconsciência profunda e restauradora.

—Bem —disse Elena, erguendo-se.

Secou as mãos, olhou para o fundo da sala e encarou o que a aguardava.

***

Diego levava mais de uma hora pendurado nas pontas dos pés.

A mecânica do suplício era simples em sua brutalidade: manter o equilíbrio sobre as pontas dos pés exigia uma contração muscular sustentada e impossível. O ácido lático se acumulara em suas panturrilhas a ponto de os espasmos já não serem esporádicos. As panturrilhas se contraíam em sacudidas rítmicas e involuntárias que abalavam toda a sua estrutura, e cada tremor era uma armadilha: o corpo tentava redistribuir o peso para os calcanhares, a corrente se tensionava, a coleira de castigo se fechava, e o pânico de sufocamento o obrigava a se erguer de novo pela pura força de vontade.

A isso se somava o bloco de madeira pendurado em seus genitais. A pressão sobre os testículos era constante e surda, do tipo que não gera uma dor aguda, mas uma ameaça biológica que o corpo interpreta como existencial. E, no interior da uretra, o cateter metálico. Já frio, mas suas estrias continuavam trabalhando: a cada micro-movimento da pelve, a cada suspiro desesperado em busca de ar, as ranhuras do ferro raspavam as paredes do canal.

Diego chorava sem fazer barulho. As lágrimas lhe marcavam sulcos nas bochechas manchadas de poeira e fuligem, caindo sobre as lajes sem que ele pudesse fazer nada a respeito.

Elena atravessou a sala na direção dele. Não chegou a um metro de distância quando Vera se interpôs.

O movimento foi rápido e limpo. A guarda se colocou entre a Curandeira-Mor e o Poste dos Condenados, e sua mão desceu à empunhadura da adaga com a naturalidade de quem cumprimenta um conhecido.

—A corrente não se toca —disse Vera—. Ordem direta da rainha.

—Eu sei —respondeu Elena.

—Então dá meia-volta e recolhe tuas tralhas.

Elena encarou os olhos de Vera por um segundo. Depois olhou Diego. O escravo tinha os lábios cianóticos: aquele tom azulado que aparece quando o tecido já está tempo demais recebendo menos oxigênio do que precisa. Suas pernas vibravam com uma violência cada vez mais difícil de controlar.

—Se este homem morrer sufocado nos próximos vinte minutos —disse Elena, com a mesma calma com que se falaria do tempo— ou se esses testículos necrosarem e tiverem de ser amputados amanhã de manhã, será você quem terá de explicar à rainha Astrid por que o brinquedo novo dela amanheceu inutilizável. Sem rola, sem bolas e sem cu aproveitável, porque, quando entrar em choque séptico, o esfíncter também vai embora. Um boneco quebrado. É isso que você vai entregar ao amanhecer.

Vera apertou a empunhadura, mas não desembainhou.

—A ordem diz que ele fique pendurado nas pontas dos pés —repetiu, teimosa—. É exatamente isso que diz.

—E é exatamente isso que ele vai ficar —respondeu Elena—. Mas a ordem não diz nada sobre a distância entre os pés dele e o chão.

Vera piscou. Elena não esperou mais.

—Clara, vai até o estrado real. Traga todas as almofadas, as mantas de lã e as peles que encontrar. Tudo o que estiver empilhado lá.

A aprendiz saiu correndo para o outro extremo da sala.

***

Clara voltou carregando uma montanha instável de veludo bordado e lã pesada: almofadas do estrado real, mantas de caça, uma pele de cervo que cheirava a naftalina e pó de arquivo. Elena indicou que ela as empilhasse diretamente sob os pés descalços de Diego.

Construíram a plataforma em camadas. Primeiro as mantas dobradas em quatro, depois as almofadas mais firmes no centro, depois as mais macias por cima. A superfície foi se elevando milímetro a milímetro.

Os pés de Diego encontraram a resistência do tecido. Sentiu o contato e reagiu de forma instintiva, como faria qualquer corpo no limite: lançou o peso para os calcanhares.

No mesmo instante, a corrente se tensionou e a coleira de castigo se fechou com uma brusquidão que fez Clara dar um passo atrás. Diego começou a se sufocar de verdade, os olhos saltando das órbitas, os pulsos puxando inutilmente as algemas.

—As correias —disse Elena.

Abriu a maleta secundária e tirou os arreios de contenção: couro de búfalo curtido, largos como a palma de uma mão, os mesmos que usava na ala médica para imobilizar pacientes em crise dissociativa. Elena e Clara os passaram por baixo das axilas de Diego, cruzaram as correias pelas costas e as fixaram com fivelas de ferro à argola superior do Poste dos Condenados, a mesma de que pendia a corrente do pescoço.

Puxaram. As fivelas se encaixaram com um estalo metálico.

O peso do torso de Diego deixou de recair sobre sua laringe.

O escravo exalou. Um som longo e quebrado, que era várias coisas ao mesmo tempo: alívio, exaustão total, algo parecido com incredulidade. A cabeça dele tombou para a frente e o queixo se apoiou no próprio peito, vencido pelo peso do tempo que vinha resistindo.

—Continua pendurado —disse Elena, olhando diretamente nos olhos de Vera—. A corrente do pescoço está exatamente onde a rainha a deixou. Os pés dele não tocam o chão limpo. A ordem está cumprida à risca.

Vera não respondeu de imediato. Olhou o arreio, olhou as mantas bordadas com os emblemas da coroa, olhou o corpo suspenso do escravo. A expressão satisfeita de antes desaparecera, substituída por algo que não chegava a ser raiva, mas se parecia bastante com ela.

—Não gostei —disse por fim.

—Também não gosto de muita coisa que vejo aqui —respondeu Elena—, e faço mesmo assim.

***

Elena se ajoelhou diante de Diego e começou a trabalhar.

A primeira tarefa foi retirar o bloco de madeira que comprimira seus testículos. Os ganchos que prendiam a madeira ao saco escrotal estavam cravados na pele até as orelhas de metal; Elena os soltou um a um, com a ponta de uma pinça curva, enquanto o sangue coagulado se fendia sob o instrumento. Quando as peças se separaram e a pressão desapareceu, o retorno do fluxo sanguíneo produziu o efeito previsível: milhares de terminações nervosas que haviam estado em silêncio forçado voltaram a se ativar de uma vez. Diego se retorceu no arreio com um gemido grave e sustentado, os músculos do abdômen se contraindo em arcos sucessivos, os testículos balançando soltos entre as coxas como duas frutas machucadas. Era a dor da circulação restaurada, às vezes tão intensa quanto a da privação original. Mas a alternativa era a necrose, e a necrose era irreversível.

Elena apalpou os testículos com dois dedos, um após o outro, comprimindo-os com a firmeza exata para verificar se a elasticidade retornava e se não havia pontos duros de tecido morto. Diego arquejou quando a curandeira pressionou o esquerdo, e uma gota de sêmen velho, aguado e tingido de sangue apareceu no meato ferido pelo cateter. Elena a observou sem nenhuma emoção particular, limpou-a com uma gaze e continuou trabalhando.

Clara aproximou uma taça de cerâmica com o preparado que Elena havia feito antes de sair da ala médica: raiz de valeriana, casca de olmo e uma pequena quantidade de extrato de papoula em infusão dupla. Elena segurou o queixo de Diego com a mão esquerda, ergueu sua cabeça com firmeza profissional e despejou o líquido amargo em sua garganta. O escravo engoliu duas vezes, tossiu, engoliu o resto com a obediência mecânica de quem deixou de resistir ao mundo.

Em cinco ou dez minutos o sedativo começaria a fazer efeito. Elena dispunha desse tempo para a última tarefa. A mais necessária e a mais brutal.

Examinou o dispositivo de castidade que envolvia o membro de Diego. O aço estava manchado de sangue seco de um marrom escuro. Do meato urinário, ao redor do cateter metálico que sobressaía do aparelho, exsudava um líquido rosado e turvo.

—O instrumento foi introduzido sem esterilização e sem lubrificação —explicou Elena em voz baixa, dirigindo-se a Clara—. As estrias abriram o canal urinário em vários pontos. Isso aí que você vê é plasma misturado com infecção incipiente. Se não intervirmos neste momento, as bactérias alcançam a bexiga em quarenta e oito horas. Os rins em setenta e duas. A sepse o mata sem que ninguém precise voltar a tocá-lo.

Clara assentiu, pálida, com o frasco de iodo escuro já preparado na mão.

Antes da irrigação, Elena precisava retirar o cateter estriado. Segurou a extremidade saliente entre o polegar e o indicador e puxou com uma tração firme e contínua. O ferro saiu centímetro a centímetro, cada estria raspando pela última vez as paredes já em carne viva da uretra. Diego, ainda parcialmente consciente, soltou um rosnado baixo que se transformou em soluço quando a ponta do cateter, alargada como uma pequena azeitona metálica, forçou a saída do meato e arrastou consigo um fio de coágulos e tecido desprendido. O instrumento caiu sobre as lajes com um tinido agudo. A rola de Diego, agora livre no interior da gaiola, soltou um jato lento de urina rosada que gotejou através das grades até as mantas reais, encharcando o veludo bordado com um cheiro amoniacal e ferroso.

Elena abriu o estojo cilíndrico de metal e extraiu a seringa de irrigação: cilindro de vidro grosso e resistente, êmbolo de aço, cânula romba e longa, projetada não para perfurar tecido, mas para penetrar e lavar cavidades profundas. Encheu o cilindro com a solução de iodo concentrado —aquele marrom-avermelhado intenso que manchava o vidro como se fosse tinta— e o sustentou à altura dos olhos para verificar se não havia bolhas de ar presas.

—Segure as coxas dele contra o poste —ordenou a Vera—. Se ele se mexer durante o procedimento, o dano será pior.

Vera hesitou um segundo. Depois se aproximou sem dizer nada e rodeou as coxas de Diego com os braços, imobilizando sua pelve contra a pedra com a eficiência mecânica de quem sabe exatamente como segurar um corpo. Sua bochecha ficou a poucos centímetros dos testículos nus do escravo, e Elena viu as narinas da guarda se abrirem um pouco ao captar o cheiro: suor da virilha, sangue coagulado, sêmen velho, urina e medo. Vera não afastou o rosto. Pelo contrário, apoiou a testa com certa firmeza contra o baixo-ventre de Diego para reforçar a contenção, e um sorriso mínimo lhe curvou o lábio superior.

Elena aproximou a ponta da cânula do meato ensanguentado. Com a precisão de quem realizara aquele procedimento em condições muito mais precárias, introduziu o aço frio pelo estreito canal aberto em carne viva, empurrando com delicadeza milimétrica até a cânula ficar alojada vários centímetros dentro da uretra. Diego, sob os primeiros efeitos da valeriana, mal reagiu à intrusão, além de um tremor surdo nas coxas.

—O iodo vai arder mais do que o ferro em brasa —murmurou Elena, quase para si mesma—. É o que precisa ser feito.

Apertou o êmbolo.

Um jato forte e frio de iodo concentrado entrou sob pressão na uretra. O líquido escuro inundou o canal ferido, escorrendo pelos sulcos que as estrias do cateter haviam deixado abertos, encharcando cada milímetro de tecido em carne viva, procurando os pequenos rasgos como água numa fenda. Reagiu com o sangue acumulado e a flora bacteriana incipiente numa combustão química silenciosa e implacável. O iodo subiu pelo canal até a próstata e, dali, parte começou a transbordar para trás pelo mesmo meato, misturando-se ao sangue fresco e gotejando pelas grades da gaiola sobre as almofadas bordadas com os emblemas da coroa.

O efeito demorou dois segundos para chegar.

O grito de Diego não foi como os anteriores. Os sons das últimas horas estiveram dentro de um intervalo humano reconhecível: gemidos, soluços, o estertor de quem não consegue respirar direito. Este foi diferente em natureza. Foi o som de um sistema nervoso que atingiu o limite absoluto de sua capacidade de processamento, uma nota sustentada e animal que as paredes de pedra devolveram amplificada, multiplicada, até parecer preencher cada canto da sala.

Seu corpo se arqueou para a frente com uma força que fez as correias de couro de búfalo rangerem. Os testículos se contraíram para cima em um espasmo reflexo, buscando refúgio na virilha. A rola, dentro da gaiola, tentou inchar contra as grades numa ereção de puro pânico neurológico, e os espinhos internos do dispositivo lhe cravaram na carne dilatada. Seus pés escorregaram sobre as almofadas de veludo. Vera teve de fincar os calcanhares no chão e jogar todo o peso sobre as coxas do escravo para manter a pelve imóvel; sua bochecha se apertou com força contra o púbis de Diego, e ela sentiu na pele as vibrações do grito que atravessava o corpo do homem dos pés à garganta. As algemas de aço se cravaram na pele de seus pulsos.

O iodo trabalhou sem trégua durante quatro segundos que pareceram consideravelmente mais longos.

Então o grito se quebrou. As cordas vocais cederam primeiro. Depois os olhos se reviraram, e o corpo de Diego desabou nas correias com o peso específico de quem já não está presente no mundo que o cerca.

Elena retirou a seringa vazia e, com ela, a cânula. Um líquido amarronzado e espumoso, mistura de iodo concentrado, sangue, plasma e esperma velho, começou a gotejar lentamente da abertura do dispositivo de castidade, caindo sobre as mantas reais em pequenas manchas escuras e irregulares que se espalhavam pelo veludo como flores mortas.

***

A Curandeira-Mor se ergueu devagar. Limpou as mãos numa tira de linho limpo e observou o resultado de seu trabalho.

Diego pendia inerte no arreio de couro, com o queixo cravado no peito e a respiração superficial, mas regular. A coleira de castigo rodeava seu pescoço sem tensão ativa; já não ameaçava porque já não havia corpo para resistir. Seus pés descalços repousavam frouxamente sobre a plataforma de almofadas e mantas de caça que até aquela tarde haviam enfeitado o estrado da rainha. Dentro do dispositivo de castidade, o iodo continuaria queimando por horas, mesmo através da inconsciência: esse era o preço de esterilizar tecido vivo, e era um preço que valia a pena pagar. Os testículos, agora livres do bloco de madeira, pendiam inchados e escuros entre as coxas abertas do escravo, já sem a coloração violácea da asfixia, mas ainda marcados pelas linhas vermelhas onde os ganchos haviam mordido a pele.

—Ele sobreviverá à noite —disse Elena—. E conservará tudo o que a rainha Astrid quiser que ele conserve quando decidir usá-lo de novo. A rola vai funcionar. Os testículos produzirão sêmen. O cu vai aguentar o que enfiem nele. Tudo estará em ordem.

Vera soltou as coxas do escravo inconsciente e se afastou um passo. Passou o dorso da mão pela bochecha, como quem limpa uma gota de suor, e baixou os olhos por um instante para o volume mole e castigado que pendia entre as pernas de Diego. Olhou o arreio de couro, olhou as mantas manchadas de iodo e sêmen aguado, olhou o corpo suspenso entre a corrente e as correias. Sua expressão era difícil de decifrar.

—Você jogou com as regras —disse.

—Eu as apliquei —respondeu Elena, fechando as maletas com gestos precisos—. Há diferença.

A guarda bufou. Mas, enquanto ouvia o gotejar lento e rítmico do líquido iodado caindo sobre a pedra fria, algo mudou em seu rosto. Um sorriso pequeno e privado, torto para um lado, que não era dirigido a ninguém em particular.

Vera sabia o que o amanhecer traria. A rainha Astrid viria inspecionar suas posses, como fazia todas as manhãs. Abriria a gaiola, pesaria os testículos recém-curados na palma da mão e verificaria com a ponta da língua se a uretra recém-cauterizada ainda era capaz de expelir sêmen sob pressão. E quando encontrasse o escravo curado, funcional e pronto para ser fodido de novo, o foderia com a inventividade particular que a tornara famosa em três reinos: montaria na rola dele até esvaziar seus testículos, enfiaria o cu dele com os arreios de correia dupla, forçaria sua garganta com a vara de couro e voltaria a introduzir na uretra um cateter novo, mais grosso, com estrias mais profundas. Não havia arreio de couro, nem beberagem de valeriana, nem astúcia médica que aliviasse o que viria depois daquele amanhecer.

Isso, pensou Vera enquanto apagava a última tocha com os dedos, era consolo suficiente para aguentar a noite.

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