O que a Sofia me pediu antes de fechar os olhos
Eu já estava sentado na cadeira havia quase meia hora quando Sofia começou a se mexer. O quarto estava em penumbra, iluminado apenas por uma lâmpada no canto e uma vela acesa sobre a mesa. O único som era o da respiração dela, lenta e regular, que já começava a mudar de ritmo.
Sofia estava pendurada no teto com os pulsos presos às duas extremidades de uma barra de metal. Os tornozelos, fixados a uma base de madeira no chão, a mantinham afastada quase um metro. Ela não estava usando roupa. Isso também tinha sido pedido por ela.
Era uma mulher daquelas que fazem ser difícil não olhar. Quadris largos que contrastavam com a cintura fina, uma cabeleira longa e escura caindo sobre o ombro esquerdo. Os peitos eram grandes e redondos e, naquela posição, pendiam com o próprio peso, se movendo levemente a cada respiração, os mamilos escuros e já semieretos, embora ninguém tivesse tocado neles ainda. Mais abaixo, os pelos escuros e aparados que mal cobriam os lábios inchados da boceta.
Piscou. Primeiro uma vez, depois duas. O corpo se tensionou assim que sentiu as amarras.
***
Nós nos conhecíamos havia dois anos. Fazíamos parte do mesmo grupo de amigos, esse tipo de grupo que se reúne às sextas-feiras porque ninguém mais se lembra direito por que o costume começou. Sofia era daquelas pessoas que ocupam os espaços sem nem tentar: falava alto demais, ria na hora certa e sempre tinha algo a dizer. Comigo, porém, esse “algo” sempre tinha um corte particular.
Começou pouco depois de eu ter proposto sair com ela. Ela disse que não, o que era completamente um direito dela, mas a maneira como fez isso deixou claro que não se tratava só de uma recusa. Desde então, cada encontro se tornava uma oportunidade. O jeito que eu me vestia, minha altura, o filme que eu tinha visto na semana anterior, o trabalho que eu tinha. Ela sempre encontrava o ângulo, e fazia isso com um sorriso que tornava difícil reclamar sem parecer o sensível do grupo.
Na noite em que me mandou a mensagem, eu já estava quase pegando no sono. Ela só dizia: “Quero falar com você. Sem os outros”. Respondi que tudo bem, deixei o celular na mesinha de cabeceira e demorei bastante para conseguir dormir.
Nos vimos três vezes antes de chegar a esse ponto. Na primeira, ela me disse que vinha pensando nisso havia tempo, que tinha lido, que tinha clareza sobre o que queria explorar. Não falou de forma suave nem vacilante, mas com a mesma segurança com que dizia tudo, só que sem o corte habitual. Na segunda, falamos de limites com uma objetividade que me surpreendeu: o que estava sobre a mesa, o que não estava, as palavras de segurança, a escala de cores, os ritmos de pausa e os tempos de descanso. Na terceira, acertamos a data e os detalhes práticos. Ela escolheu o dia. Ela escolheu a hora. Quando aquela noite chegou, trouxe uma garrafa de vinho tinto e se sentou no sofá como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Ela se deixou amarrar sem dizer nada. Só apontou para a barra no teto com um gesto e esperou eu terminar os nós. Depois ficou quieta por alguns minutos, de olhos abertos, testando as amarras com movimentos pequenos e calculados. Então fechou os olhos.
Eu me sentei para esperar.
***
—O que você fez comigo? —disse, com a voz ainda rouca. O tom era exatamente o que havíamos combinado para começar.
—O que combinamos —respondi, sem sair da cadeira.
—Me solte. Agora.
Levantei devagar e comecei a dar a volta nela sem pressa, olhando-a. Ela me acompanhou com os olhos. Ainda tinha aquela expressão que eu conhecia bem, aquela mistura de autoconfiança e outra coisa que me custou tempo para aprender a ler direito.
—Hoje vou te ensinar a ser um pouco mais gentil —disse.
—Não acredito —ela respondeu.
—Você mesma pediu.
—Isso não significa que vá ser fácil.
Fui para trás dela. Minhas mãos encontraram seus quadris e começaram a subir devagar pelas costelas. Ela baixou a cabeça de repente, como se fosse me morder, mas não chegou a me alcançar.
—Isso não estava no acordo —eu disse.
—Eu poderia ter feito uma exceção.
—Os dentes ficam de fora. Você mesma colocou essa regra.
Silêncio breve. Depois, quase em voz baixa:
—Que inconveniente.
Voltei para a minha posição e peguei o flogger de couro que descansava sobre a mesa. Não era um chicote de cavalo, mas um de várias pontas trançadas, o mesmo que ela tinha escolhido numa loja especializada e mandado para o meu endereço com uma mensagem dizendo: “Para quando chegar a hora”. Estalei-o no ar, longe dela. Só para que ouvisse o som.
O primeiro golpe caiu sobre a bunda dela com a força exata, calibrada.
—Ah! —ela soltou o ar. Não era exatamente um grito de dor.
—Cor? —perguntei.
—Verde —respondeu, sem hesitar.
Continuei. Media cada golpe, observava a pele dela avermelhar aos poucos, deixava tempo suficiente entre um e outro para que a sensação assentasse antes do próximo impacto. Ela mantinha a cabeça baixa, o cabelo cobrindo parte do rosto, a respiração mais funda e mais lenta ao mesmo tempo, como se o corpo estivesse aprendendo a processar algo que até então só conhecia na teoria.
—Você passa dois anos me provocando na frente de todo mundo —disse, enquanto o flogger voltava a abrir sobre a pele dela.
—Era só porque você me parecia fácil de provocar —ela respondeu, com a voz um pouco menos firme do que antes.
—E agora?
Ela não respondeu.
Alternei os golpes entre a bunda e a parte de cima das coxas, respeitando os limites que tínhamos combinado. Ela se movia a cada impacto, mas sem lutar contra as amarras. O couro contra a pele fazia um som seco e definido que enchia o quarto com uma cadência quase regular.
—Cor?
—Verde —repetiu, embora agora com um tom ligeiramente diferente. Mais aberto.
Aproximei-me e passei os dedos suavemente pela pele que eu acabara de trabalhar. A bunda dela estava quente ao toque e já mostrava o resultado dos últimos vinte minutos. Desci a mão e toquei a boceta com dois dedos, apenas um roçar por cima dos lábios externos. Estavam escorregadios, molhados de um jeito que não deixava margem para discussão. Ela soltou um som que não era queixa nem prazer, mas algo exatamente no espaço entre os dois.
—Olha como você está —disse, levando os dedos úmidos até a boca dela para que fosse obrigada a sentir o próprio cheiro—. Encharcada só de uns açoites.
—Cala a boca —ela murmurou, mas sem força.
—E aí? —perguntei, perto do ouvido dela.
—Como eu esperava —admitiu, depois de uma pausa.
—Melhor ou pior?
Uma pausa maior.
—Melhor —disse, em voz muito baixa.
***
Voltei a pegar o flogger. Desta vez os golpes foram mais espaçados, mais lentos, quase ritualísticos. Já não se tratava de vencer a resistência dela, mas de mantê-la naquele estado particular, suspensa entre a antecipação e a satisfação, sem deixar que nenhum dos dois vencesse por completo.
Sofia já tinha deixado de manter a postura desafiadora das primeiras rodadas. O corpo pendia com mais peso dos pulsos, a cabeça levemente inclinada para a frente, os ombros caídos de um jeito que, em outro contexto, pareceria exaustão, mas que aqui era algo completamente diferente.
Os golpes continuavam. Entre um e outro, eu me aproximava, passava as mãos pelos quadris dela, roçava de leve o ventre, parava exatamente antes de ir mais abaixo. Cada vez que eu fazia isso, ela prendia o ar por um instante. Um movimento involuntário de quadris, pequeno e preciso, que não passava despercebido.
—Andrés —disse.
Era a primeira vez que usava meu nome desde que chegara.
—Diz.
—Por favor.
—Mais claro do que isso.
Mais um golpe. Suave. Preciso.
—Por favor, Andrés. Toca meus peitos.
Fui para ficar de frente para ela. O rosto dela me olhou diretamente, sem se esconder atrás do cabelo. Havia nos olhos algo que eu nunca tinha visto em dois anos de encontros todas as sextas. Uma abertura que lhe custava mais esforço do que qualquer outra coisa que tivesse feito naquela noite.
Levantei as mãos e envolvi os seios com as palmas abertas, apertando a carne quente com cuidado, pesando-os antes de começar a trabalhá-los. A pele ardia e os mamilos estavam completamente duros, duas pontas escuras que se cravavam no centro da minha mão. Ela fechou os olhos.
Comecei a me mover devagar, beliscando os mamilos entre o polegar e o indicador, puxando-os levemente para fora e para baixo, aumentando a pressão aos poucos até ela soltar um som longo que durou vários segundos e que ela não tentou disfarçar. Inclinei-me e abocanhei um deles, sugando com força, deixando a língua girar ao redor do mamilo antes de mordiscá-lo com cuidado. Sofia arqueou o quanto as amarras permitiam, empurrando o peito contra a minha boca.
—Isso —murmurou—. Isso, porra.
Troquei para o outro. Chupei o mamilo até senti-la tremer, enquanto com a mão livre beliscava o que eu acabara de largar. Os quadris dela começaram a procurar algo que ainda não estava ali, um movimento pequeno e rítmico contra o ar.
—Cor?
—Verde —murmurou—. Verde.
Desci uma mão pelo ventre dela, bem devagar, e toquei a boceta outra vez. Estava mais molhada do que antes. Deslizei um dedo entre os lábios, sem chegar a introduzi-lo, apenas traçando a linha encharcada de cima a baixo, evitando o clitóris de propósito. Ela empurrou os quadris para a frente, buscando pressão, e eu retirei a mão.
—Ainda não —disse.
—Filho da puta —ela disse, quase rindo—. Verde. Muito verde.
***
Me afastei e peguei o flogger de novo.
—Ainda não terminamos —disse.
Ela abriu os olhos e me olhou. Na expressão dela já não havia nada do desafio do início. Só restava antecipação, e algo que se parecia bastante com impaciência.
Os golpes seguintes vieram espaçados e intercalados com aproximações em que eu passava as mãos pelos quadris dela, roçava o ventre, parava exatamente antes do limite. A cada dois ou três impactos, eu me ajoelhava atrás dela e passava a língua pela parte interna das coxas, subindo até roçar apenas os lábios da boceta antes de me afastar. Eu a sentia tremer toda vez, um espasmo pequeno que corria pela espinha inteira.
Na quarta vez que fiz isso, não me afastei. Abri os lábios dela com dois dedos e passei a língua inteira de baixo para cima, devagar, saboreando-a. Ela gemeu sem filtro, um som gutural que eu nunca tinha ouvido antes. Fiz de novo. Outra vez. Enterrei a língua dentro dela e a movi em círculos, chupando tudo o que ela soltava, enquanto com o polegar eu desenhava círculos ao redor do clitóris sem tocá-lo de verdade.
—Andrés, por favor —disse, com a voz quebrada—. Por favor.
Afastei-me. Dei outro golpe de flogger nas nádegas vermelhas dela, mais suave que os anteriores.
—Por favor o quê.
Silêncio longo. Outro golpe.
—Por favor, Andrés. Quero que você me foda. Quero que meta a porra da sua rola em mim e me foda forte. É isso que eu quero desde que cheguei.
Ela se inclinou para a frente o máximo que as amarras permitiam, afastando mais as pernas, oferecendo a bunda para trás num ângulo que não deixava espaço para nenhuma interpretação.
Fui até a mesa, peguei o lubrificante e desabotoei a calça. Tirei meu pau e o segurei com a mão, já duro como pedra havia um bom tempo, a ponta brilhando. Por trás, me posicionei contra ela e deslizei dois dedos primeiro, até o fundo, com cuidado. Ela estava completamente encharcada, tanto que os dedos entraram sem nenhuma resistência e saíram cobertos até os nós. Mostrei para ela por cima do ombro.
—Olha como você está.
—Enfia logo —ela ofegou—. Agora.
—Cor —eu disse.
—Verde —respondeu. E desta vez disse como se estivesse esperando havia horas para dizer isso.
Apoiei a ponta da rola na entrada da boceta e empurrei. A penetração foi lenta, milímetro por milímetro, sentindo como ela se abria para me receber, apertando-me por todos os lados. Ela emitiu um som longo que começou como algo parecido com uma queixa e terminou sendo completamente outra coisa quando a tive toda dentro, encostado nas nádegas vermelhas dela.
Fiquei imóvel por alguns segundos, só para senti-la apertar. Depois me retirei quase até a ponta e voltei a afundar inteiro num só movimento. Sofia gritou.
—De novo —disse—. Assim.
Envolvi a cintura dela com as mãos e comecei a me mover de verdade, saindo quase todo e entrando inteiro, com investidas longas e calibradas que faziam o corpo dela bater contra as amarras. O som dos nossos corpos, pele batendo em pele molhada, encheu o quarto. Ela se movia comigo, no limite do que as amarras permitiam, ajustando os quadris para encontrar cada investida. Os seios dela balançavam no ritmo, e eu podia vê-los por trás, aquele movimento pesado que acrescentava algo ao conjunto impossível de articular com precisão.
—Mais forte —ela ofegou—. Me fode mais forte.
Segurei o cabelo dela, sem muita força, e puxei para trás para fazê-la arquear o pescoço. Mudei o ângulo, investindo para cima, buscando o ponto que a faria perder o controle. Encontrei em poucos golpes: ela soltou um grito abafado e começou a me apertar por dentro com espasmos rítmicos.
—Aí, aí, aí —ela repetiu—. Não para.
Passei uma mão pela frente e desci os dedos até o clitóris. Comecei a esfregá-lo em círculos rápidos enquanto continuava a penetrá-la por trás, mantendo o mesmo ângulo. Em poucos segundos senti o corpo inteiro dela se tensionar, todos os músculos apertando ao mesmo tempo, e depois explodir. Ela gozou com um grito longo que saiu do fundo, contraindo-se no meu pau em ondas que quase me fizeram gozar ali mesmo.
Me obriguei a parar. Deixei o orgasmo dela acontecer, esperando imóvel dentro dela, sentindo-a tremer.
—Ainda não acabei —eu disse no ouvido dela—. Você vai aguentar mais um.
—Deus —ela murmurou—. Sim.
Voltei a me mover, mais devagar no começo, deixando-a recuperar o ritmo. Depois acelerei de novo, com investidas duras e profundas, segurando-a pelos quadris com as duas mãos. Mordi o ombro dela sem deixar marca. Belisquei os mamilos por trás, um com cada mão, puxando-os no ritmo das investidas.
Demorei mais do que esperava. Havia algo nos quarenta minutos anteriores de tensão controlada que tinha calibrado meu corpo de um jeito que eu não reconhecia totalmente. Quando a senti se tensionar pela segunda vez e começar a me apertar de novo com espasmos, me soltei. Enterrei-me fundo, até o fim, e gozei dentro dela com as mãos cerradas nos quadris e a testa apoiada entre as escápulas dela, respirando contra a pele quente enquanto o gozo saia em jatos longos que eu sentia se derramarem dentro dela.
Fiquei assim, enterrado até o fim, até os dois pararmos de tremer. Quando finalmente me retirei, um fio espesso de sêmen escorreu pela parte interna da coxa dela. Passei o dedo por cima, recolhendo-o, e levei até a boca dela. Ela chupou sem abrir os olhos.
***
O silêncio que veio depois era diferente do de antes. Mais quieto. Mais honesto.
Desamarrei primeiro os pulsos, depois os tornozelos. Sofia não falou durante alguns minutos. Ficou de pé, se movendo devagar para recuperar a circulação, enquanto eu ia buscar uma manta no quarto e a deixava ao alcance dela.
Ajudei-a a se sentar no sofá. Levei água para ela e me sentei ao lado sem dizer nada. Ela bebeu metade do copo, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.
—Como você está? —perguntei.
—Bem —disse. E depois, após uma pausa: — Melhor do que bem.
Ficamos em silêncio por um tempo. Lá fora, a cidade seguia com seus ruídos habituais, completamente alheia ao que tinha acontecido ali dentro.
—Passei dois anos te tratando assim na frente de todo mundo —disse Sofia, sem abrir os olhos— porque eu morria de medo de você dizer que sim.
—A quê?
—A isso.
Não respondi. Não era preciso.
—Da próxima vez, posso escolher o flogger? —ela perguntou, com um tom que era quase o de sempre, mas não totalmente.
—Você já tem um —eu disse—. Foi você quem escolheu.
Sofia sorriu. Era a primeira vez que eu a via sorrir assim, sem segunda intenção, sem a distância que ela sempre colocava entre si e o resto do mundo. Como se finalmente tivesse largado um peso maior do que parecia.
—É verdade —disse.