O russo que nos submeteu aos dois
Aquela sessão foi a última que vi por completo. Depois disso, já não havia distinção entre observar e participar, e essa fronteira, uma vez cruzada, não existe forma de reconstruir.
Dimitri estava no bairro havia três anos quando minha mãe o conheceu. Tinha uma loja de roupas de couro no térreo do nosso prédio, falava espanhol com um sotaque que ninguém sabia ao certo de onde vinha, e tinha esse tipo de presença que ocupa o espaço antes mesmo de o corpo chegar a ocupá-lo. Minha mãe se chamava Sara. Quarenta e três anos, cabelo castanho-escuro, olhos cor de avelã, e um jeito de se mover pela casa que sempre transmitiu autoridade. Essa autoridade desapareceu no dia em que Dimitri entrou na vida dela.
Não soube exatamente quando tudo começou. Só notei as mudanças: ela chegava tarde, tinha olheiras, às vezes eu a pegava olhando para o vazio com uma expressão que eu não reconhecia. Até aquela tarde em que voltei do colégio antes do previsto e encontrei a porta do quarto entreaberta.
O que vi do outro lado me deixou sem respirar por um minuto inteiro.
Minha mãe estava de joelhos, nua, salvo por umas meias pretas que Dimitri deve tê-la obrigado a vestir, com a boca aberta e a rola grossa dele afundada até o fundo da garganta. As bochechas dela estavam cavadas pela sucção, a saliva escorria em fios grossos pelo queixo e pingava entre os seios. Dimitri a segurava pelos cabelos com as duas mãos e movia a cabeça dela no ritmo dele, enfiando-a até as bolas, uma e outra vez, sem lhe dar trégua. Ouviam-se os golpes úmidos, as ânsias abafadas da minha mãe e aquela voz grave dele soltando obscenidades no idioma dele misturadas com espanhol.
— Assim, puta, até o fundo. Engole tudo. Mostra ao teu filho como a mãe dele chupa.
Ele arrancou a rola dela de repente. Um fio de baba ainda unia a ponta da glande aos lábios inchados dela. Minha mãe respirava aos trancos, com os olhos marejados e o batom borrado por todo o queixo. Ele passou o pau pelo rosto dela, molhando-lhe as bochechas, e ela abriu a boca de novo como se não soubesse fazer outra coisa.
Aquela sessão foi a última que presenciei de fora.
***
Dimitri me chamou com um gesto do outro lado do quarto. Quando meu nome saiu da boca dele, minha mãe contraiu os ombros. Ela não queria me olhar. Vi isso na rigidez do pescoço dela, em como os dedos se apertaram contra a coxa.
— Olha para ele — disse Dimitri.
Não foi um pedido.
Ela demorou vários segundos. Mas ergueu o olhar. Lentamente, sem levantar o queixo, com os olhos carregados de algo que eu não soube nomear naquele momento. Vergonha, sim. Mas também algo mais escuro e mais difícil de classificar.
— Escuta bem, Pablo — começou Dimitri, sem tirar os olhos dela —. Esse garoto provou que já é homem. E homens têm necessidades. A partir de agora, quando ele te chamar, você vai atender. Entendido?
Minha mãe não respondeu de imediato.
— Entendido? — repetiu ele, com aquela voz que não admitia silêncio.
— Sim — murmurou ela.
— Mais alto.
— Sim.
— Diga inteiro. Diga o que você vai fazer com seu filho quando ele te chamar.
Ela engoliu em seco. O lábio inferior tremia.
— Quando você me chamar... eu vou te chupar. Vou te mam...ar até você gozar na minha boca. Vou fazer o que você mandar.
Eu estava paralisado no batente da porta. Sentia a rola dura contra o tecido da calça sem ter me tocado. Não sei exatamente o que senti. Era demais, contraditório demais, carregado demais de camadas que eu não conseguia separar naquele momento. Aquela mulher que me criou, que guardava minhas fotos da escola numa caixa de sapatos debaixo da cama, ajoelhada assim, com os peitos de fora, com os joelhos abertos para deixar o cuzinho molhado à vista, olhando para mim daquele jeito.
— Agora você sabe — disse Dimitri, me encarando enfim com aquela serenidade irritante que ele tinha —. Você tem alguém que serve em casa.
***
As semanas que se seguiram foram as mais estranhas da minha vida.
Quando eu voltava do colégio, eu a chamava. E ela vinha. Sem protestos visíveis, sem me olhar nos olhos mais do que o necessário. Só vinha. Entrava no quarto, fechava a porta atrás de si e se ajoelhava no tapete antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Ela abaixava minha calça e minha cueca com as duas mãos, tirava minha rola já dura e a enfiava inteira na boca sem preâmbulos. Com essa submissão que Dimitri tinha instalado nela como se instala um hábito: aos poucos, e depois de uma vez só.
A primeira vez que eu a fodi foi numa tarde de outubro. Eu a tinha chamado e dito, sem olhar para ela, que tirasse a roupa e ficasse de quatro na cama. Ela obedeceu em silêncio. Vi como as costas dela se retesaram quando separei as nádegas e passei dois dedos no seu cu. Estava molhada. Eu nem sequer tinha tocado nela antes e ela já escorria. Esse detalhe me fez perder o pouco controle que ainda me restava.
Enfiei de uma estocada só. Ela soltou um gemido sufocado, meio protesto e meio outra coisa, e eu a agarrei pelas ancas e comecei a fodê-la sem pensar. O som era de água, carne batendo contra carne, minha respiração entrecortada contra a nuca dela. Puxei o cabelo dela como tinha visto Dimitri fazer, e ela gemeu mais alto, jogando a cabeça para trás.
— Diz que gosta — pedi, com a voz quebrada.
Ela demorou a responder. Afundei a rola até o fundo, deixei-a ali por um segundo inteiro, e repeti a pergunta bem no ouvido dela.
— Gosto — sussurrou ela —. Gosto, filho. Me fode mais forte.
Gozei dentro dela um minuto depois. Foi uma gozada longa, espessa, que encheu o cu dela até começar a escorrer pelas coxas quando tirei o pau. Ela ficou de quatro, ofegante, sem virar o rosto para me olhar. Eu permaneci sentado na beira da cama, vendo o sêmen escorrer entre as pernas dela, sem saber se queria vomitar ou começar de novo.
Houve tardes em que eu me detive antes de chamá-la. Ficava sentado na beira da cama, olhando a porta fechada, me perguntando em que momento eu tinha me tornado aquilo. Mas a pergunta sempre chegava tarde demais, quando o desejo já tinha vencido a discussão.
Houve outras tardes em que eu a levava para o quarto e passava longos períodos explorando o corpo dela com uma minúcia que tinha algo de vingança e algo de desespero. Eu abria as pernas dela e comia seu cuzinho até ela gozar contra a minha boca, agarrando meus cabelos, mordendo o dorso da mão para não gritar. Chupava os mamilos dela até ficarem inchados e vermelhos. A colocava montada em mim e mandava que ela se movesse sozinha, que se comesse com a minha rola enquanto eu via os peitos dela saltarem. Ela enlouquecia. Fechava os olhos, jogava a cabeça para trás e gozava em cima de mim com espasmos que apertavam meu pau por dentro até me fazer gozar também. E, nesses momentos, ela já não me olhava como uma mãe olha para o filho. Olhava para mim como uma mulher que cruzou uma linha e já não se lembra exatamente por que essa linha existia.
Isso me perturbava mais do que qualquer outra coisa.
Era uma época turva. Muito turva. E eu vivia dentro dela como se fosse normal, porque quando algo acontece todos os dias deixa de parecer extraordinário.
***
Valeria existia em um mundo completamente diferente.
Eu a tinha conhecido meses antes na biblioteca do bairro, onde os dois íamos estudar às terças-feiras à tarde. Ela estudava Direito. Tinha o cabelo comprido e preto, uma risada ampla e direta, e o hábito de sublinhar os apontamentos com três cores diferentes conforme a importância do parágrafo. Achei esse hábito engraçado. Depois achei encantador. Depois percebi que pensava nela quando não estava com ela.
Durante semanas, fomos só duas pessoas que se cruzavam sempre na mesma mesa. Depois começamos a conversar. Depois marcamos de tomar alguma coisa. Os cinemas, algum show, tardes longas nos parques que o pessoal do bairro já tinha deixado de frequentar.
Ela era o oposto de tudo o que havia na minha casa.
Numa terça-feira de outubro, no parque velho atrás da biblioteca, ela pegou minha mão sem aviso prévio. Olhou para mim com aquela franqueza que a caracterizava e disse:
— Sei que você gosta de mim. Percebo faz tempo. E eu também gosto de você. Mas você é um desastre tomando iniciativa, então vou ser eu a dar o primeiro passo.
— Você vai dar o primeiro passo? — perguntei, embora já soubesse aonde aquilo ia dar.
— Pablo, você quer ser meu namorado?
Fiquei em silêncio por um segundo que pareceu eterno. Senti, ao mesmo tempo, que era o homem mais afortunado do mundo e o mais miserável.
— O gato comeu sua língua, ou você não quer? — perguntou ela, sorrindo.
— Não! Não... quer dizer que sim. Claro que quero.
— Hahaha.
A gargalhada dela era ampla e limpa, e me partiu o coração da melhor maneira possível. Eu soube que aquela garota era o que eu precisava. O que me faltava. O impulso que poderia me tornar alguém diferente daquilo em que eu estava me tornando em casa.
***
O que aconteceu depois não deveria ter me surpreendido, embora tenha me surpreendido.
Com Valeria, toda a minha suposta experiência desaparecia. A primeira vez que ficamos juntos foi no quarto dela, numa tarde em que os pais dela não estavam. Tiramo-nos a roupa devagar, entre beijos, e quando a tive deitada sob mim, com as pernas abertas e o grelinho rosado e depilado à mostra, com aqueles seios pequenos e firmes subindo e descendo pela respiração agitada, percebi que minhas mãos tremiam. Encostei a ponta da rola na entrada e empurrei só uns dois centímetros. Ela soltou um suspiro contra meu pescoço.
Gozei ali mesmo. Sem nem ter começado. Senti a gozada escapando em jatos contra a barriga dela e contra o lençol, sem conseguir deter, e fiquei sobre ela com o rosto enterrado no travesseiro, querendo desaparecer.
Eu morria de vergonha. Ela me olhou com um sorriso tranquilo, como se soubesse que aquilo não era realmente eu, me limpou com uma toalha que tinha no criado-mudo e me disse para não ficar nervoso.
Houve outras vezes. Em todas aconteceu a mesma coisa. Quatro estocadas e eu esvaziava dentro dela. Às vezes, duas. Às vezes, só de vê-la se despir. Ela me chupava tentando me acalmar e eu gozava na boca dela em menos de um minuto, com uma vergonha que me queimava o rosto.
Cheguei a pensar que, se antes de vê-la eu passasse um tempo com minha mãe, talvez chegasse mais vazio e durasse mais. Tentei. Fodia minha mãe no sofá uma hora antes, esvaziava dentro dela duas vezes seguidas, saía de casa ainda cheirando a sexo e, mesmo assim, com Valeria meu corpo me traía em poucos segundos. Não funcionou de jeito nenhum. Era entrar em Valeria e o corpo me trair em questão de segundos, como se com ela tudo fosse real demais, importante demais, carregado demais de algo que eu não soube administrar.
Eu sentia que Valeria começava a ficar menos paciente. Ela não dizia isso. Mas havia algo no jeito de me olhar depois que antes não existia.
E eu, sabendo que a decepcionava, ficava ainda mais nervoso. E quanto mais nervoso, pior. Era um ciclo sem saída visível.
***
Eu tinha tudo compartimentado. Valeria no mundo dela. Minha mãe e Dimitri em outro. Os dois mundos jamais deveriam se tocar. Essa era a única regra que me importava manter.
Mas quinta-feira costuma ser o dia em que tudo se quebra.
Nessa quinta, fiquei estudando em casa mais tempo do que devia. Esqueci de olhar o celular. Quando olhei, já tinham passado quarenta minutos desde que eu havia combinado com Valeria na esquina da rua, onde sempre nos encontrávamos porque eu nunca tinha dado o meu endereço exato a ela. Aquele apartamento era uma zona proibida. Valeria era algo que eu precisava manter completamente a salvo de tudo o que tinha relação com a minha família.
Saí correndo em direção à porta.
Mas minha mãe me ganhou no tempo. Chegou ao hall antes de mim, abriu a porta e deu de cara com Valeria do outro lado. Valeria vestia uma saia curta verde, uma regata e botas pretas até o tornozelo. Estava linda. E naquele momento, no pior momento possível, estava parada no batente da minha casa, olhando para minha mãe com curiosidade.
— Entra — disse minha mãe.
As duas palavras mais caras que já ouvi na vida.
Entrei na sala justamente quando elas terminavam de se apresentar. E então a voz de Dimitri surgiu da cozinha.
Ele chegou devagar à sala. Sempre devagar, como quem sabe que tem todo o tempo do mundo porque ninguém vai se mexer até que ele permita. Aproximou-se de Valeria como se a conhecesse há anos, deu dois beijos nela, trazendo o corpo mais perto do que o necessário, e sustentou o olhar com aquela fixidez que eu já tinha visto antes. Passou a mão pela cintura dela como se não quisesse nada, deslizando por um instante sobre o tecido da saia, e ela não se afastou.
Eu já tinha visto esse processo antes. Tinha visto com a minha mãe.
Valeria não desviou os olhos dele.
— Não sabia que o nosso Pablo tinha amizades tão interessantes — disse Dimitri, com aquele sorriso que não era exatamente um sorriso.
— Bem, ele é muito reservado com a vida dele — respondeu Valeria. E a voz dela soou diferente. Mais suave do que o habitual.
— Tenho uma loja bem aqui embaixo. Roupas de couro, bolsas, coisas bonitas. Apareça quando quiser. Vou guardar algo especial para você.
— Claro — disse ela —. Vou aparecer.
Consegui tirar Valeria dali. Descemos os três andares no elevador em silêncio. Quando saímos para a rua, peguei as mãos dela e a olhei diretamente nos olhos.
— Valeria. O que vou te dizer vai parecer estranho. Mas preciso que você me escute sem eu explicar os motivos agora.
— O que foi? — perguntou, franzindo a testa.
— Aquele homem. O que estava em casa. Não volte aqui, e não vá à loja dele. Não se aproxime dele.
Ela processou minhas palavras por um longo momento.
— Por quê?
— Confia em mim.
Ela assentiu. Devagar, com aquela expressão que tinha quando algo não se encaixava completamente, mas ela decidia não insistir. E eu acreditei que bastava. Precisava acreditar que bastava.
***
Se passaram dez dias. Onze. Doze. As águas pareciam voltar ao leito. Valeria não perguntou mais nada sobre Dimitri. Eu comecei a respirar um pouco melhor.
Nessa segunda-feira, acordei com febre baixa. Avisei o colégio e fiquei em casa até o meio-dia. Quando melhorei o suficiente, saí para dar uma caminhada curta, para espairecer.
Passei em frente à loja de Dimitri sem pensar, porque ficava na minha rua e era impossível evitá-la.
A porta de ferro estava pela metade.
E, naquele momento, do interior escuro da loja, saiu Valeria.
Ela estava ajeitando a saia curta com as duas mãos, puxando-a para baixo. Tinha o cabelo despenteado, os lábios inchados e sem brilho, e uma marca vermelha no pescoço que dava para ver até da calçada da frente. Estava sorrindo. Ele estava atrás dela, no batente, terminando de fechar o cinto com aquele sorriso que eu conhecia bem demais. Deu uma palmada seca na bunda dela antes que ela fosse embora, e ela riu baixinho, sem protestar. Os dois se olharam uma última vez antes de ela se virar na direção do colégio.
Ela não me viu.
Fiquei imóvel na calçada até os dois desaparecerem. Senti algo físico, não só emocional: um peso no centro do peito que tornava difícil respirar, como se algo tivesse se apertado ali sem intenção de soltar.
Naquele momento, soube que tinha perdido tudo.
Valeria, que era a única coisa limpa que eu tinha.
Minha mãe, em um sentido diferente, mas igualmente definitivo, porque o que havia entre nós não era nada que merecesse esse nome.
E em algum lugar entre essas duas perdas, eu também tinha me perdido.
A única coisa que ainda ardia com clareza, a única emoção sem camadas nem contradições, era o ódio que eu sentia por aquele homem.
Dimitri tinha de desaparecer da nossa vida.