A confissão que Valeria me fez no corredor
Hesitei muito antes de escrever isto. Não é uma história como as outras, não tem aquele brilho erótico que a gente busca quando abre uma página como esta. Tem outra coisa: o desconforto de alguém que esteve lá e nem sempre soube o que fazer. Mesmo assim, conto, porque acho que pode servir para quem ler.
Valeria e eu nos conhecemos no primeiro ano da faculdade. Éramos do mesmo grupo desde o início, dessas amizades que se formam mais por acaso do que por escolha e que acabam sendo das mais reais. Ela tinha um rosto perfeito: maçãs do rosto altas, olhos verde-acinzentados que mudavam de tonalidade conforme a luz, e um sorriso que, quando aparecia de verdade, fazia tudo parecer um pouco mais gentil. Mas, naquela época, ela pesava bastante, e essa insegurança devorava sua vida por dentro.
Ela usava roupas largas para esconder o corpo. Sentava sempre no fundo da sala. Levantava a mão o mínimo possível. Quando algum garoto de outra turma a olhava tempo demais, ela baixava os olhos antes que ele tivesse tempo de decidir se gostava dela. Tinha esse hábito de antecipar a rejeição para doer menos. Eu vi isso muitas vezes e nunca soube muito bem como dizer sem que soasse como pena.
Nesse contexto apareceu Ramiro.
Ramiro tinha vinte e seis anos quando Valeria tinha dezenove. Era alto, usava roupas caras e tinha aquele jeito de falar que faz uma garota insegura sentir que estão escolhendo ela e só ela. Ele a convidava para sair, mas sem apresentá-la aos amigos. Ligava para ela à noite, mas nunca durante o dia. Dizia que ela era linda quando estavam sozinhos e se calava quando havia outras pessoas por perto. Tratava-a como um segredo que não queria dividir. Ou era isso que a fazia acreditar.
Valeria sabia disso, acho. Mas o desejo de alguém — de qualquer alguém — que faça você se sentir desejada aos dezenove anos pode pesar mais do que qualquer lógica. Eu via e me calava. Não era da minha conta, ou era isso que eu repetia toda vez que queria dizer alguma coisa.
***
Uma terça-feira de maio, Valeria não foi à faculdade. Nem na quarta. Nem na quinta. Na sexta-feira, a professora de Língua perguntou se alguém sabia de algo, e uma colega disse que ela estava gripada. Algo na forma como ela disse — preparado demais, liso demais — me fez pensar que não era tão simples assim. Mandei uma mensagem para Valeria naquela tarde. Ela respondeu com um “tô bem, já passou” e nada mais.
Na segunda-feira seguinte, Valeria apareceu.
Entrou na sala cinco minutos depois do início da aula, coisa que nunca acontecia. Caminhava devagar, com cuidado, como se o chão fosse frágil sob os pés. Foi até sua carteira e sentou-se — devagar, com uma mão apoiada no encosto da cadeira — e, no exato momento em que o corpo tocou o assento, o rosto dela empalideceu. Um segundo. Depois voltou ao normal, mas eu já tinha visto. Esse gesto involuntário, esse esforço para controlar algo que doía, não dá para disfarçar.
Joguei um bilhete dobrado por cima da fileira de carteiras. Só dizia: Você está bem? Ela me devolveu com uma única palavra: Sim.
Não era sim.
No intervalo entre as aulas, me aproximei e segurei suavemente o cotovelo dela.
— Preciso que você me diga o que aconteceu — falei, direta.
— Não aconteceu nada — murmurou, olhando para o lado.
— Val. Eu vi você sentar. Não faz isso comigo.
Silêncio. Depois, um suspiro longo, como o de quem já se cansou de carregar algo sozinha.
— Depois do almoço — disse, baixinho —. Mas não aqui.
***
Aproveitamos uma hora livre para não ir à aula seguinte. Levei-a ao salão de atos do térreo, um espaço enorme que quase ninguém usava, com cadeiras empilhadas contra as paredes e aquela luz mortiça dos lugares que esperam. Nunca passava ninguém por ali àquela hora.
Valeria se sentou na ponta da primeira fileira, com aquele cuidado exagerado que eu já conhecia, e ficou um instante olhando para o chão, com as mãos entrelaçadas no colo. Do lado de fora, ouvíamos vozes distantes e o som intermitente de uma bola batendo na parede da quadra.
— Você promete que não conta pra ninguém — disse, por fim.
— Prometo.
Respirou fundo. Olhou para a frente como se lesse algo invisível na parede. E começou a falar.
***
Naquela noite de sexta, Ramiro ligara tarde. Disse que estava com saudade, que queria que ela dormisse no apartamento dele, que passara semanas pensando nela. Valeria fez o que fazem as pessoas que não se sentem amadas o suficiente: acreditou em cada palavra. Disse aos pais que ia dormir na minha casa. Saiu para o frio da noite com o coração acelerado e a lingerie mais bonita que tinha: um conjunto preto de renda que havia comprado imaginando exatamente aquela noite.
Chegou ao apartamento de Ramiro perto da uma da manhã. Ele abriu a porta de cueca boxer e camiseta, agarrou-a pela nuca antes que ela pudesse dizer qualquer coisa e enfiou a língua na boca dela ali mesmo, contra o batente. Empurrou-a para dentro sem parar de beijá-la e apertou um seio por cima do casaco, com força, como se estivesse marcando o que era dele. Sem jantar, sem conversa, sem perguntar como ela estava.
Valeria me disse que, no começo, se sentiu bem. Contou isso com aquela honestidade que as pessoas têm quando narram algo que custou a entender. Ela adorava que ele a quisesse daquele jeito, que a tocasse como se tivesse urgência, que a despisse no corredor jogando o casaco no chão e arrancando a camiseta pela cabeça. Adorava, ou queria acreditar que adorava, sentir o pau duro dele contra sua barriga por cima do tecido da cueca.
Ele a levou para o quarto empurrando-a pelos ombros. Jogou-a na cama e tirou-lhe a calça jeans puxando pelas barras. Quando a viu de sutiã e calcinha de renda preta, riu com uma risada curta, de aprovação, e disse: “olha o que você trouxe, puta”. Valeria me contou que essa palavra, dita daquele jeito, lhe agradou. Agradou porque a fazia se sentir desejada, mesmo que depois não soubesse explicar.
Ele tirou a cueca boxer com um chute e se jogou por cima dela. Mordeu-lhe o pescoço, baixou o sutiã sem desabotoar e chupou os mamilos um por um, puxando com os dentes. Passou a língua pelo ventre, pelo vinco do quadril, e enfiou a mão dentro da calcinha. Abriu-lhe os lábios com dois dedos e viu que Valeria já estava molhada. Riu de novo. “Você está encharcada”, disse. Tirou a calcinha dela, abriu-lhe as pernas e passou a língua inteira do cu até o clitóris, devagar, sem pressa. Disse que ela era perfeita. Chupou o cu dela por um bom tempo, até Valeria já não conseguir fechar os joelhos. Depois se endireitou, limpou a boca com o dorso da mão e disse:
— Agora você.
Empurrou a cabeça dela para baixo sem brutalidade, mas sem dar espaço para outra coisa. Valeria desceu pelo corpo dele e ficou de joelhos entre as pernas, ao lado da cama. Pegou a rola com as duas mãos e a colocou na boca. Ramiro era grosso e ela não estava acostumada com aquele tamanho. A boca dela se enchia rápido demais. Ramiro agarrou seu cabelo, não com força, mas guiando, marcando o ritmo. Pedia que ela chupasse seus ovos, que olhasse nos olhos dele enquanto o tinha na boca, que mostrasse a língua. Valeria fazia tudo. Mesmo sem gostar particularmente, mesmo com a mandíbula doendo, fazia tudo.
— Quando a gente faz essas coisas e a outra pessoa gosta, você se sente importante — me disse. Disse isso sem ironia. Só como uma observação sobre si mesma que levei anos para entender por completo.
Depois ele a jogou de novo na cama e se acomodou entre as pernas dela. Pegou a rola com a mão e foi entrando aos poucos. Valeria arqueou as costas e soltou um gemido longo quando o sentiu inteiro dentro dela. Começaram a transar com ela por cima, Valeria sentada sobre ele, indo para frente e para trás, com as mãos apoiadas no peito de Ramiro. Ele apertava seus seios, beliscava seus mamilos, falava obscenidades enquanto a olhava: que ela era uma puta linda, que que buceta gostosa ela tinha, que ia fazê-lo gozar. Valeria se sentia dona de alguma coisa pela primeira vez em muito tempo.
Mas durou pouco. Ramiro a tirou de cima dele segurando-a pela cintura, virou-a e a colocou de quatro sobre o colchão. Disse que assim conseguia gozar, que de outro jeito não conseguia. Valeria não discutiu. Ramiro a segurou pelos quadris e empurrou com força. Enterrou a rola inteira de uma só vez e começou a transar com estocadas duras, secas, que faziam a bunda dela bater contra a pelve dele. Agarrou-lhe o cabelo por trás como se fosse uma rédea, enrolou-o na mão e puxou a cabeça dela para trás. Valeria gemia, aguentava e tentava acompanhar o ritmo. No começo, tudo estava dentro do que ela conhecia.
Valeria fez uma pausa longa. Olhou para o chão.
— Num momento — disse devagar —, ele tirou tudo. E entrou de novo. Mas não onde devia.
Fiquei imóvel.
— Seco. Sem nada. Com força.
— E você...? — perguntei, embora já soubesse o que vinha a seguir.
— Gritei. Disse que não, que ali não, que ele me tirasse. Tentei me arrastar para a frente, mas ele me segurava pelos quadris e não me soltou. Empurrou de novo, mais fundo. A dor era como se estivessem me abrindo com uma barra de ferro. Senti algo se rasgar e umidade morna descendo pela parte de trás das pernas. Tentei me afastar, mas ele já estava dentro. Comecei a chorar encolhida e não conseguia parar. Ele se mexeu mais duas ou três vezes e gozou dentro de mim, apertando forte, gemendo como se nada tivesse acontecido.
Não perguntei se tinha sido um acidente. Não era hora para essa pergunta. E acho que, no fundo, eu já sabia a resposta.
***
Ramiro pediu desculpas por um bom tempo. Abraçou-a por trás, disse que tinha sido sem querer, que a amava, que o perdoasse. Acendeu a luz e viram que havia sangue nos lençóis. Não pouco. Uma mancha escura que crescia ao lado do joelho de Valeria. Ela entrou em desespero. Implorou que ele a levasse a uma emergência médica. Ele disse que não podia tirar o carro sem acordar os vizinhos, que já era tarde demais, que certamente era só um arranhão. Levou-a ao banheiro, sentou-a no bidê, ajudou-a a se lavar, fez um chá. Valeria se acalmou um pouco. Ou se convenceu de que estava calma, o que não é a mesma coisa.
Voltou para casa na manhã seguinte. Disse aos pais que estava com dor de estômago e foi para a cama. Mas, quando foi ao banheiro, a dor foi tão intensa que quase não conseguia respirar. Saiu mais um pouco de sangue. Aí sim ela ficou realmente assustada.
Quando os pais saíram para trabalhar, foi sozinha à emergência do hospital municipal mais próximo. Por sorte, foi atendida por uma médica. Ela perguntou, com muito tato, se havia sofrido algum tipo de agressão sexual. Valeria disse que não, que o namorado havia se enganado, que tinha sido um acidente. A médica a examinou com um colega e disseram que ela tinha uma fissura anal. Deram-lhe um creme para aplicar duas vezes por dia e repouso.
Valeria me contou tudo isso com a mesma voz plana com que alguém narra algo que aconteceu com outra pessoa. Como se, colocando distância na história, os fatos doessem menos.
Não disse nada naquele momento. Só coloquei a mão sobre a dela — que estava fria apesar do calor do salão — e ficamos assim por um tempo, em silêncio. Do lado de fora, o ruído do corredor continuava, alheio a tudo.
***
Ela levou quase um mês para se recuperar por completo. Nesse período, continuou falando com Ramiro, continuou acreditando nas desculpas dele, continuou pensando que o que havia acontecido tinha sido uma trapalhada, um mau momento. Eu não discuti na época. Era cedo demais e ela não estava pronta para ouvir. Há coisas que só se entendem por dentro, e o que a gente pode fazer de fora é ficar por perto.
O que posso dizer é que, durante essa recuperação, Valeria esteve mais sozinha do que nunca. Os pais dela não sabiam de nada. As outras amigas também não. Só eu. E carreguei esse segredo por muito tempo com o desconforto de quem sabe que algo está muito errado e não sabe como nomeá-lo em voz alta.
Ela continuou com Ramiro muito depois desse episódio. Não tentaram nada daquele tipo de novo, mas o relacionamento continuou sendo o que sempre fora: ele a escolhendo pela metade, ela agradecendo por, pelo menos, ser escolhida.
***
Hoje Valeria não está mais com Ramiro. Já faz vários anos que não está com ele. Saiu dessa relação aos poucos, como se sai das coisas que foram te esvaziando sem que você percebesse, e levou um tempo para entender com clareza o que tolerou e o que nunca deveria ter tolerado.
Ela me contou isso numa ligação longa, numa noite de inverno, anos depois da faculdade.
— Agora eu entendo — me disse —. Não foi um acidente, Camila. Essas coisas não acontecem por acidente.
Não disse nada. Eu já sabia disso havia tempo.
— Mas estou bem — acrescentou.
E dessa vez realmente soava verdadeiro. Não aquela versão frágil do “estou bem” do bilhete dobrado na sala, mas algo mais firme, construído.
— Aprendi o que quero e o que não quero. Aprendi que o desejo pode ser algo bonito quando a outra pessoa realmente se importa com você e você se importa com ela. Aprendi que transar com alguém que te respeita não tem nada a ver com o que eu achava que era transar.
Ela deixou por isso mesmo. Eu também deixo por aqui.
Conto isso porque a história de Valeria não é única nem excepcional. É a história de muitas pessoas que, em algum momento, confundiram ser desejadas com ser respeitadas, e que levaram tempo para entender que são coisas diferentes. Às vezes acontecem coisas que não deveriam acontecer, e quem as vive nem sempre tem para onde ir nem sabe que pode dizer não.
Valeria hoje está bem. Isso é o que importa.

