Cruzei a cidade para me pôr de joelhos
Estávamos conversando pela internet havia três meses quando R anunciou que viria a Madrid a trabalho. Disse isso de passagem, quase sem dar importância, mas eu li duas vezes. E uma terceira. Depois desliguei o telefone, larguei-o sobre a mesa e fiquei olhando para o teto por cinco minutos.
Não éramos um casal. Não éramos nada que tivesse nome. Éramos duas pessoas que tinham começado a conversar num fórum de séries e que, sem que nenhum dos dois planejasse, tinham acabado compartilhando coisas que não se dizem em voz alta. Ele tinha um jeito de escrever que me desmontava. Direto, sem enfeite. Quando me perguntava o que eu queria, não perguntava o que eu queria jantar. Perguntava se eu gostava de engolir porra ou cuspir, se preferia que me comessem pela frente ou por trás, se eu me tocava a buceta enquanto contava pra ele.
E eu contava. Tudo.
Na semana antes de ele chegar, eu quase não dormi. Não exatamente por nervosismo, mas porque, toda vez que eu fechava os olhos, vinha uma imagem diferente e nenhuma era fácil de ignorar. Passei as noites enfiando dois dedos na buceta até gozar uma vez e meia, pensando no pau dele, na boca dele, em como seria o som quando eu chupasse a rola pela primeira vez.
No dia em que ele aterrissou, me mandou o nome do hotel e o número do quarto. Só isso. Eu respondi com um: “Estarei aí às nove”.
Às oito e meia eu já estava vestida.
***
Escolhi o vestido branco. O curto, aquele em que eu nunca tenho certeza se é demais para a rua ou se está exatamente no limite. Eu soube assim que o vesti: era exatamente o que eu queria usar naquela noite. Prendi o cabelo, soltei, prendi de novo e acabei deixando solto. Peguei a menor bolsa que tinha, suficiente para as chaves e o telefone, e saí para a rua às oito e cinquenta e dois.
Debaixo do vestido eu não usava nada. Nem calcinha nem sutiã. Tinha decidido isso no chuveiro, em pé diante do espelho, e não mudei de ideia. Queria chegar assim. Queria que, quando ele levantasse meu vestido, não encontrasse nenhum obstáculo.
Era uma daquelas noites do começo do outono em que o calor ainda não cedeu de todo, e eu andava pela calçada com esse calor por cima e outro mais por dentro, que não tinha nada a ver com a temperatura. Eu andava rápido. Não porque estivesse atrasada, mas porque eu não sabia andar devagar com tudo o que eu carregava por dentro. Sentia a buceta molhada a cada passo, a umidade descendo pela parte interna da coxa, e cada vez que o vestido roçava meus mamilos eles ficavam mais duros.
Pensei no que ia acontecer e não afastei a ideia. Deixei estar. Contemplei aquilo sem vergonha.
No fundo eu sabia que podia ser diferente do que tinha imaginado. Três meses de conversas constroem uma imagem, e as imagens mentem. Eu podia chegar lá e alguma coisa não encaixar, o ar entre nós ficar estranho ou forçado, o desejo que eu tinha acumulado por semanas murchar de uma vez assim que eu visse o rosto dele de perto. Isso podia acontecer.
Mas também podia não acontecer.
E eu tinha cruzado a cidade a pé para descobrir isso.
***
O hotel era daqueles quatro estrelas discretos, com carpete no saguão e um balcão de recepção iluminado como vitrine. Entrei pelas portas automáticas sem diminuir o passo e senti que as pessoas atrás do balcão me olhavam. Não virei a cabeça para conferir. Não era preciso. Eu sabia perfeitamente como eu parecia: uma mulher de vestido curto, sem sutiã, subindo sozinha para um quarto às nove da noite. E eu estava pouco me fodendo.
Fui direto para o elevador.
Quarto andar. Quarto quatrocentos e sete. Eu tinha decorado isso sem querer desde o momento em que R me mandou, às duas da tarde de uma terça-feira que pareceu interminável.
O elevador demorou mais do que o normal, ou pelo menos pareceu para mim. Olhei meu reflexo no espelho da parede: o vestido branco, o cabelo solto, os ombros tensos, os mamilos marcando sob o tecido. Disse a mim mesma que, se quisesse, podia sair no quarto andar, chamar o elevador de novo e ir embora. Ninguém me obrigava a nada.
Isso me importou exatamente o mesmo que me importa quando eu sei perfeitamente o que quero.
As portas se abriram.
***
O corredor tinha cheiro de ar-condicionado e carpete limpo. As luzes eram daquelas quentes e baixas que fazem tudo parecer mais calmo do que realmente é. Fui andando contando as portas. Quatrocentos e um, quatrocentos e três, quatrocentos e cinco.
O quatrocentos e sete estava entreaberto.
Apenas um centímetro, talvez dois. O suficiente para se ver uma faixa de luz amarela no interior. O suficiente para eu saber que ele me esperava acordado e que não tinha trancado a porta.
Empurrei a porta devagar.
Ele estava na cama, em cima dos lençóis, exatamente como havíamos combinado na nossa última conversa, quatro dias antes, quando os dois tínhamos parado de fingir que falávamos de outra coisa. Nu. Com o pau já duro, apoiado contra o ventre, grosso e cheio de veias, brilhando na ponta com uma gota de pré-gozo que refletia a luz do criado-mudo. O quarto estava com as persianas fechadas e a única luz vinha da mesa de cabeceira, âmbar e baixa. Dei a ele dois segundos para me ver entrar antes de dizer ou fazer qualquer coisa.
Era ele. Era o rosto dele, os ombros dele, as mãos dele que eu conhecia só por fotos. Era real e sólido e estava ali, com a rola ereta me esperando.
E eu queria o que tinha ido buscar.
***
Deixei a bolsa cair ao lado da porta. Fechei-a atrás de mim com o calcanhar, sem virar as costas para R. Levei as mãos à barra do vestido e o puxei pela cabeça de uma vez, sem cerimônia, jogando-o na poltrona. Fiquei nua no meio do quarto. Vi o pau dele se mexer contra o ventre só de me ver, um espasmo involuntário que arrancou dele um suspiro forte.
Fui até a cama sem pressa, porque a pressa já não fazia falta, eu já estava dentro, já era real, e a calma estranha que me tomou naquele momento era totalmente minha.
Subi na cama de quatro e me ajeitei entre as pernas dele.
Afasto o cabelo do rosto com um movimento do pulso, procurei o elástico que eu trazia no braço e prendi o cabelo alto, longe da cara. Eu queria ver. Queria que ele me visse. Queria que ele não perdesse um segundo sequer do que eu ia fazer com o pau dele.
Ele não disse nada. Eu também não. Já tínhamos falado o suficiente durante três meses.
Segurei-o pela base com uma mão e o mantive ali por um instante, olhando. Grosso, duro, quente, pulsando contra a minha palma. Real de uma maneira que nenhuma conversa consegue antecipar por completo. Apertei de leve e vi a gota na ponta inchar e escorrer, deslizando pelo glande. Levei-o devagar até os meus lábios sem ainda tocá-lo, só sentindo o calor que vinha dele a milímetros da minha boca aberta. Soprei sobre ele. Ele contraiu os quadris.
Enfiei a língua e recolhi a gota de pré-gozo direto do glande, espalhei-a por toda a cabeça, provei. Salgada, densa, dele. Depois percorri de baixo para cima por um lado, devagar, seguindo a veia central, chegando até a ponta. Ele soltou o ar pelo nariz. Só isso. Foi o bastante para eu saber que estava indo bem.
Fiz de novo. E de novo. Sem pressa, com a língua plana, cobrindo terreno, deixando o pau inteiro molhado de saliva até ele brilhar por completo. Depois envolvi a ponta com os lábios e chupei de leve, só o suficiente para sentir o gosto limpo e quente, para deixar que ele sentisse, pela primeira vez, o calor úmido da minha boca. Mantive ali, apertando o glande com os lábios, movendo a língua por baixo, encontrando aquele ponto exato em que a pele é mais fina e mais sensível.
— Porra — disse ele, a primeira palavra da noite.
R tinha as coxas tensas dos dois lados do meu rosto. Eu conseguia sentir essa tensão sem tocá-las; era algo que irradiava, uma força contida da qual gostei mais do que eu tinha previsto.
Desci até os testículos e os beijei, levei-os um por um à boca, segurei-os com a língua, chupei devagar. Ele se moveu só um pouco, um tremor mínimo que percorreu os quadris. Eu percebi e guardei. Era informação. Era o que eu precisava para saber como continuar. Eles estavam cheios, apertados contra o corpo, e eu tomei meu tempo com eles, chupando com a boca aberta enquanto com a mão continuava masturbando o pau dele devagar, para cima e para baixo, espalhando saliva por todo o comprimento.
Passei a língua pelo períneo. Ele se estremeceu inteiro. Ali também, anotei mentalmente.
***
Voltei para a ponta. Dessa vez, levei a sério.
Abri a boca e o coloquei dentro devagar, deixando minha língua envolvê-lo enquanto eu avançava centímetro por centímetro, até onde conseguia sem forçar. Depois o tirei quase por completo com um estalo molhado. Depois voltei a entrar. Encontrei o ritmo de que eu gostava, que ainda não era o mais rápido nem o mais fundo, mas o que me permitia senti-lo direito, o que fazia com que ele se tensionasse de um jeito controlado e lento.
Sempre preferi isso a ser guiada. Eu não queria uma mão empurrando minha cabeça, não precisava disso. Gostava de fazer do meu jeito, no meu ritmo, com minhas próprias decisões sobre quando apertar, quando aliviar, quando aprofundar e quando não. O controle de baixo é o controle que eu mais gostei em toda a minha vida. Chupar um pau do seu jeito, sabendo que o homem que o carrega está completamente à sua mercê, é uma das coisas mais poderosas que existem.
Fui aprofundando aos poucos. Senti-o na garganta, aquela pressão característica que não é exatamente confortável, mas que também eu não quero que seja. Respirei pelo nariz e continuei. Tirei. Voltei a entrar. Mais fundo dessa vez. Mantive o ritmo até sentir meu nariz roçar a pele da pelve dele e segurei ali por um segundo antes de sair, com a garganta apertada ao redor da rola inteira.
Tossi de leve. Um fio de saliva pendia do meu lábio até o glande. Limpei o canto da boca com o dorso da mão.
Fiz de novo.
E de novo.
Cada vez eu enfiava o pau até o fundo e o mantinha ali um instante a mais, sentindo meu pescoço se abrir para recebê-lo, sentindo a ponta pressionar meu palato mole. A saliva escorria pelo meu queixo, pingava nos seios, nos testículos dele. Eu não me importava. Estava fazendo exatamente o que tinha vindo fazer.
R tinha os punhos cerrados sobre os lençóis. Vi isso pelo canto do olho e aquilo me deu ainda mais vontade. Me deu vontade de que ele apertasse mais forte. Desci uma mão entre as minhas próprias pernas sem parar de chupar e encontrei a buceta encharcada, escorrendo, com a umidade descendo pelas coxas. Enfiei dois dedos e gemi com o pau na boca. A vibração fez os quadris dele darem um solavanco para cima e me levou até o fundo da garganta sem avisar.
Segurei. Engoli ao redor dele. Subi de novo.
O ritmo acelerou sozinho, não como decisão, mas como consequência de ouvir a respiração dele ficar mais curta, de notar como ele ia ficando mais rígido a cada passada. Em algum momento dessas coisas, você para de pensar no que está fazendo e simplesmente faz, e esse momento chegou cedo e eu fiquei dentro dele, completamente concentrada.
Os sons que eu fazia não eram delicados. Sucções úmidas, abafadas, a garganta contra o glande, a saliva batendo contra a base cada vez que eu apertava os ovos com a mão livre. Também não me importava que fossem. Quanto mais obsceno soava, mais eu gostava, mais o pau dele se tensionava dentro da minha boca.
Eu lubrificava tudo com saliva, tinha os olhos úmidos pelo reflexo do fundo da garganta, a máscara de rímel escorrendo pelas minhas bochechas, seguia sem parar, com uma mão agarrada à base e a outra apoiada na coxa dele para manter o equilíbrio, e de vez em quando descia de novo à minha buceta para enfiar os dedos outra vez, para esfregar o clitóris com a palma. Em algum momento me surpreendi ao perceber que poderia continuar assim por muito mais tempo. Era exaustivo no melhor sentido possível, e eu não queria parar.
Tirei-o por completo e o apertei com força, movendo-o devagar enquanto recuperava o fôlego, e depois bati de leve com ele no meu lábio inferior, uma e outra vez, olhando para ele. Passei o glande pelos meus mamilos. Deslizei-o pela minha bochecha, deixando um rastro brilhante. Ele me olhava também. Foi o único momento daquela noite em que nos encaramos diretamente, e durou exatamente o tempo que tinha que durar.
— Continua — murmurou ele.
— Eu ia fazer isso — respondi, com a voz rouca de tê-lo na garganta.
Voltei a colocá-lo na boca sem desviar o olhar. Desta vez sem freio. A cabeça indo de cima a baixo, a mão acompanhando o movimento na base, a língua trabalhando o frênulo toda vez que subia. Fechei os olhos e me concentrei só no ritmo, no peso do pau contra a língua, no gosto cada vez mais intenso que ele soltava à medida que se aproximava.
***
Eu senti antes de acontecer. Existem sinais que o corpo de um homem emite quando está perto e que, quando você presta atenção por tempo suficiente, aprende a reconhecer. A forma como a tensão das coxas muda. O jeito como a respiração deixa de ser regular e fica curta e contida. Os testículos que sobem, apertando-se contra o corpo. O instante anterior, que sempre parece durar mais do que dura.
— Vou gozar — avisou, com os dentes cerrados.
Não me afastei.
Mantive o ritmo, o mantive dentro e, quando chegou, recebi tudo. O primeiro jato bateu no fundo da garganta, quente, denso, tanto que quase engasguei. O segundo encheu minha boca. O terceiro escapou pelo canto. Uma onda quente e espessa que me encheu a garganta e me fez engolir duas vezes e tossir uma, e ainda assim eu não soltei. Fiquei ali até ele terminar por completo, até sentir a tensão dos quadris ceder e a respiração voltar a ser humana, sentindo o pau pulsar dentro da minha boca a cada batida.
Só então eu o soltei.
Abri a boca para mostrar o que ainda estava dentro, a porra branca sobre a língua, e depois engoli olhando para ele. Limpei a boca com o dorso da mão. Lambi o que restava na pele dele, na base, nos testículos, tudo. Não por nenhum motivo em particular, mas porque era o que eu queria fazer e isso já era motivo suficiente. Chupei o glande uma última vez, bem suave, e ele deu um sobressalto por causa da sensibilidade.
Sorri com a boca ainda brilhando.
***
Fiquei apoiada na perna dele por um tempo, sem falar. Ele também não falou. O quarto soava só com nossas respirações se recuperando e o murmúrio quase inaudível do ar-condicionado. Lá fora, em algum ponto do andar, alguém fechou uma porta.
— Você vem pensando nisso há tempo — disse ele por fim. Não era uma pergunta.
— Há bastante tempo — respondi.
Ele riu. Eu também.
Foi a primeira vez que rimos juntos pessoalmente, e foi exatamente como eu tinha imaginado: fácil, sem esforço, como se fizéssemos isso desde sempre.
Levantei, fui ao banheiro, abri a torneira de água fria e molhei o rosto. Olhei-me no espelho. Tinha o cabelo meio desfeito do coque, os lábios inchados e vermelhos, um fio de saliva e porra ainda no queixo que limpei com uma toalha, os olhos com a maquiagem borrada e ainda um pouco úmidos. Eu parecia exatamente como me sentia.
Bem. Completamente bem. Chupada e querendo mais.
Quando voltei ao quarto, R tinha me deixado espaço na cama. Deitei ao lado dele sem pensar demais se era uma boa ideia ou não. Às vezes as coisas acontecem sozinhas e não precisam ser justificadas com nada.
Ficamos em silêncio por um tempo. A mão dele estava perto da minha sobre os lençóis, sem tocar de verdade, a um centímetro de distância. Eu percebi. Deixei estar.
— Você fica um pouco? — ele perguntou.
— Um pouco — eu disse.
E fiquei muito mais do que um pouco. E isso também era exatamente o que eu queria.