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Relatos Ardientes

Eu o observava pelo retrovisor a caminho da escola

Aos dezenove anos eu já conhecia bastante bem o mapa secreto do meu próprio corpo. Tinha aprendido sozinha, em silêncio, com a curiosidade de quem lê um livro que não deveria ter. Mas, nas minhas fantasias mais ousadas, sempre aparecia o mesmo homem, o mesmo rosto, a mesma voz grave: o pai da minha melhor amiga.

Morávamos a poucas quadras da casa dele, então, durante anos, ele nos levou para a escola todas as manhãs. Cheirava a café e a algo difícil de nomear, a tempo vivido. Eu me sentava atrás e fingia olhar a cidade recém-desperta, mas, na verdade, o estudava no espelho retrovisor: a linha da mandíbula, a firmeza de suas mãos no volante, aquela forma tão dele de existir sem nenhum esforço.

Às vezes, à noite, quando eu me tocava, era o nome dele que eu calava, mas ao qual eu me entregava. Nunca imaginei que um dia, sem querer, ele fosse perceber.

Aquela manhã parecia igual a todas. Renata, minha amiga, conferia o celular ao meu lado, alheia à tensão que fervia dentro de mim. Eu tinha me sentado só de leve de lado, procurando o ângulo perfeito para que o espelhinho pegasse o rosto dele. Na minha cabeça, o roteiro era o de sempre: eu olhava, ele dirigia. Uma fantasia mansa, inofensiva.

Mas, justamente quando o semáforo abriu e ele soltou o freio, em vez de acelerar, os olhos dele subiram. Não procuraram o trânsito. Não procuraram a filha. Procuraram meu olhar no espelho. E não só o encontraram: o sustentaram.

Foram dois ou três segundos, nada mais, mas, naquele tempo, a realidade se dissolveu. Senti um choque elétrico que me pregou ao banco e vi um lampejo nos olhos dele — reconhecimento, curiosidade, algo mais perigoso? — antes de um sorriso minúsculo puxar o canto da boca.

O carro avançou. Eu me deixei afundar no encosto com o pulso batendo nas têmporas. O pai da minha amiga, o homem tranquilo que cheirava a café, também tinha estado me olhando.

***

Os dias seguintes foram uma agonia deliciosa. A rotina era a mesma, mas o ar dentro do carro passou de tenso a eletrizante. Eu sabia que ele me olhava, e ele sabia que eu sabia.

Uma manhã, quando criei coragem para procurá-lo no espelho e confirmar que ele estava atento à rua, descobri que não estava. O olhar dele estava preso nas minhas pernas, nas minhas coxas. Era um olhar longo, sem pressa, que percorria o contorno do meu corpo com uma minúcia que me fez sentir nua sob a saia do uniforme. O carro tinha deixado de ser um meio de transporte: era uma armadilha de vidro.

Aquele homem se tornou uma presença quase física na minha cama. Ao perfil dele dirigindo somou-se a lembrança dos olhos sobre minhas pernas, e minhas carícias noturnas viraram um feitiço mais do que uma exploração. O fato de ele estar separado da mãe da minha amiga era o tempero mais embriagante: ao me desejar, ele não traía ninguém além da amizade da filha, e essa era a única fronteira que ainda se mantinha de pé. O próximo movimento já não dependia da fantasia, mas de quem se atrevesse primeiro.

***

Na sexta à tarde eu soube que Renata iria passar o fim de semana na casa da mãe, e que ele ficaria sozinho naquela mesma casa onde eu tinha passado tardes inteiras de brincadeiras e tarefas.

No sábado ao meio-dia, me vesti com um short curto demais e uma camiseta branca sem mangas que não escondia a ausência de sutiã. Arrumei o cabelo só um pouco, deixando alguns fios caírem no rosto, a ilusão perfeita de um descuido de fim de semana. Saí e caminhei as três quadras que me separavam da porta dele, cada passo uma luta entre a adrenalina e a desculpa.

Eu sou uma idiota. O que estou fazendo? É o pai da minha amiga.

Não. É um homem separado. Eu sou uma mulher adulta. E ele me deseja.

O plano era simples e cínico: eu fingiria que tinha me esquecido por completo de que Renata não estava ali. Toquei a campainha uma única vez, com a firmeza de quem cumpre uma rotina e não comete uma loucura. O coração me golpeava tão forte que temi que se ouvisse através da madeira. Escutei passos lentos e a porta se abriu.

Ele usava uma calça cinza surrada e uma camiseta preta ajustada aos ombros, estava descalço, o cabelo desalinhado como se tivesse acabado de acordar de um cochilo. Cheirava a café, como sempre. A forma como seus olhos percorreram meu corpo, demorando na barra do short, não era o olhar de um homem que vê a amiga da filha. Era o olhar que eu vinha invocando nas minhas noites.

— Oi — eu disse, com toda a doçura que consegui fingir. Levei a mão à testa, simulando um lapso — Ai, desculpa. Esqueci completamente que a Renata ia viajar esse fim de semana. Ela está?

— Não, Camila. Você sabe que ela foi com a mãe — respondeu com aquela voz grave, sem reprovação, apenas constatando o óbvio. E sorriu. Aquele sorriso era uma confirmação: ele entendia o meu jogo, sabia que eu estava ali de propósito.

— Claro, desculpa — eu disse, dando um passo para trás, como se fosse embora —. Acho que me confundi. Melhor eu ir…

— Espera — o tom dele baixou —. Já que você está aqui… quer entrar e tomar um copo d’água? Está um calor danado.

Olhei nos olhos dele e soube que, se cruzasse aquele limiar, não haveria volta para os silêncios do carro.

— Sim, por favor — respondi, e um arrepio me percorreu ao dizer isso.

***

Entrei na casa que cheirava a ele, à sua solidão, ao café, e senti os olhos dele seguirem minhas costas. Ele me indicou um sofá de couro cor caramelo, fundo e largo, e voltou um minuto depois com um copo de água suando gelo. Ao me entregar, os dedos dele roçaram os meus outra vez, uma eletricidade tão fugaz quanto inevitável. Em vez de se sentar no extremo oposto, sentou-se bem ao meu lado, muito mais perto do que a cortesia permitia, e se virou para mim até eu precisar jogar a cabeça para trás para olhá-lo.

— A que você veio, de verdade? — perguntou, a voz despida de qualquer pretexto.

— Vim porque... porque eu esqueci, de verdade — balbuciei, com a mentira saindo pela metade.

— Não estou falando de você ter esquecido da minha filha — ele me corrigiu, com uma paciência adulta que, naquele momento, pareceu incrivelmente atraente. Os olhos dele não saíam dos meus —. Você veio porque me olhava no espelho.

O ar ficou pesado. O reconhecimento era mútuo e devastador. Deixei o copo sobre a mesa com um toque seco.

— E você me olhava também — devolvi, a voz um sussurro desafiador, a última defesa da minha inocência.

Ele levantou a mão devagar e a apoiou no encosto, bem atrás da minha cabeça, um gesto possessivo e protetor ao mesmo tempo. Naquele instante entendi que ele já não era o pai da minha amiga: era só um homem, sozinho em sua casa, e eu era uma mulher que o desejava.

— Preciso saber uma coisa, Camila — disse ele, e abaixou a voz —. Você ficou com outros garotos? Se entregou a alguém... assim?

A crueza da pergunta me desmontou. Eu tinha me preparado para o flerte, não para a verdade tão direta. Engoli em seco.

— Não. Nunca. Nunca fiquei com ninguém.

Uma pequena ruga lhe cruzou a testa, e ele enfim se permitiu me tocar. Os dedos se apoiaram na minha face, o contraste da pele áspera dele com a minha. O polegar dele roçou a borda do meu lábio inferior e fechei os olhos diante da carícia.

— Você é virgem — disse ele, mais para si mesmo do que como pergunta.

— Sim.

— E quer que seja eu — acrescentou. Não era uma pergunta. Era uma certeza.

— Sim — respondi, e minha voz já era um fio firme, sem dúvida.

***

Sem uma única palavra, ele puxou de leve meu braço e girou o corpo, abrindo o espaço entre as pernas. Com a mesma calma com que trocava de marcha no carro, mas com uma intenção infinitamente mais perigosa, indicou onde queria que eu ficasse. Ele não me pedia permissão: me pedia que eu me sentasse sobre ele.

Minha mente, treinada no cálculo e na fantasia, se rendeu. Mudei para o colo dele com a desajeitada coragem de uma garota e a decisão de uma mulher. O tecido do meu short bateu contra a calça cinza dele, senti a firmeza das coxas por baixo, e a vertigem foi imediata: eu estava sentada sobre o homem que havia acendido meu corpo anos atrás.

O braço dele me contornou, a mão larga apoiada na base das minhas costas, e me puxou contra ele até apagar o último espaço. Nossos rostos ficaram a centímetros. Não havia mais sorriso, só uma seriedade de predador que encurralou a presa.

Ele subiu a mão até o meu cabelo, afastando devagar os fios que eu tinha deixado cair de propósito. O polegar traçou a curva da minha sobrancelha, desceu pela bochecha e parou no meu lábio com uma pressão mínima que me fez abrir a boca em uma respiração involuntária. E então o espaço se dissolveu: os lábios dele encontraram os meus. Não foi um beijo apressado de adolescente, mas o contato profundo e maduro que eu tinha imaginado mil vezes. Minhas mãos se ergueram sozinhas e se agarraram à camiseta preta dele, amarrotando o tecido sobre os ombros.

Ele se endireitou só um pouco, apenas para me ver o rosto, e a mão livre desceu pelo meu pescoço até se apoiar na camiseta branca. Sem sutiã por baixo, o contato foi direto, abrasador. Com uma lentidão calculada, o polegar dele encontrou a borda do tecido e começou a levantá-lo, descobrindo meu ventre. Eu não me movia, fascinada pela calma com que ele me despia. Quando a camiseta chegou à altura dos meus seios, ele a puxou e a tirou por cima da minha cabeça num único movimento.

Fiquei com o tronco nu sobre o colo dele, e o olhar dele desceu para meus seios com uma avidez que me fez tremer.

***

A mão que me sustentava a nuca voltou para as minhas costas e me empurrou contra ele; a outra cobriu um dos meus seios. O contato foi um choque de prazer tão intenso que um gemido me escapou, e esse som me alertou: já não era fantasia, era uma realidade compartilhada e barulhenta.

O toque dele era metódico, sem pressa. Quando prendeu o mamilo entre o polegar e o indicador e depois o tomou com a boca, puxando de leve com os dentes — mordidinhas pequenas que não doíam, mas mandavam uma fisgada direta para o ventre —, um grito abafado escapou da minha garganta e minhas coxas se apertaram sozinhas contra o colo dele. Ele se afastou por um segundo, a boca úmida, me olhou com aquele sorriso pequeno e perigoso que eu já conhecia e passou para o outro seio.

***

Mais tarde ele me guiou para que eu ficasse de pé. Levantei com as pernas trêmulas e fiquei em frente a ele, que continuava sentado como um rei no trono. Os dedos dele encontraram o zíper do meu short, e a cremalheira soou como um disparo no silêncio da sala. Ele puxou o tecido para baixo e o short deslizou pelas minhas ancas, roçou a parte interna das minhas coxas — aquela região que eu já tinha estudado no retrovisor — e caiu no chão.

Fiquei de calcinha de algodão branca, o último vestígio da minha inocência. Sem me dar tempo de sentir vergonha, os dedos dele se enfiaram sob o elástico e, com a mesma deliberação de antes, a baixaram devagar até cair em torno dos meus tornozelos. Agora eu estava completamente nua diante dele.

Ele ergueu uma mão e apontou para o espaço entre as pernas. A ordem era muda. Sem hesitar, dei um passo e voltei a me sentar sobre ele, desta vez pele contra o tecido da calça dele. As mãos dele abriram minhas coxas devagar, com uma pressão suave, mas inexorável, e acomodou as pernas dele sob as minhas para me ancorar. Minhas costas ficaram apoiadas no peito dele, sentindo a batida tranquila do coração dele, tão diferente do meu pulso frenético. Eu estava envolvida, segura e à mercê dele ao mesmo tempo.

O queixo dele se apoiou no meu ombro e a voz, quase um murmúrio, roçou meu ouvido.

— Assim eu te queria, Camila. Exatamente assim.

A mão que estava no meu ventre desceu seguindo a linha da minha cintura até o centro. Ele não procurou me penetrar: com a ponta do dedo médio encontrou o ponto exato da minha sensibilidade e começou a se mover, usando a minha própria umidade para deslizar com uma fluidez sedosa. O mundo se reduziu à pressão do dedo dele, a uma fisgada elétrica que ia direto ao meu ventre, e minhas coxas se mexiam sozinhas, buscando atrito.

— Assim, devagar... — murmurou contra minha orelha —. Deixa acontecer.

Senti meus músculos se tensionarem e a respiração me faltar. Minhas unhas se cravaram nos braços dele e minhas costas se arqueavam contra o peito enquanto o orgasmo me atingia com uma força brutal, uma explosão que me deixou tremendo sobre o colo dele. Ele não parou a mão até o último espasmo ceder, me sustentando enquanto eu recuperava o fôlego.

***

Ele me deu um beijo suave no topo da cabeça, um gesto que era o oposto do perigo que representava, e depois me ergueu no colo como se eu não pesasse nada. Me carregou pela casa e me depositou com cuidado sobre uma cama ampla, os lençóis brancos, frescos sob a minha pele quente.

Ele não se deitou ao meu lado. Ficou de pé junto à beira, me olhando, e começou a se despir com a mesma lentidão que havia marcado toda a tarde: primeiro a camiseta preta, revelando um torso sólido e maduro, depois a calça cinza. Quando ele a empurrou pelas ancas, abri os olhos de vez: a realidade superava qualquer silhueta que eu tivesse imaginado sob o tecido. Ele caminhou até mim, lento, como quem vai atrás da presa saboreando a captura inevitável, e com os joelhos abriu minhas coxas até me deixar exposta.

Inclinou o torso e, sem preâmbulos nem carícias, baixou a boca. O primeiro toque da língua dele foi uma descarga úmida e quente, tão nova que minhas costas se arquearam sozinhas sobre o colchão. Ele não ficou na superfície: explorou com uma curiosidade metódica, como uma investigação íntima do território que havia acendido com o olhar no espelho. Minhas mãos se enredaram no cabelo dele, empurrando-o contra mim, implorando para que continuasse.

Senti o prazer subir outra vez pela mesma espiral de minutos antes. Mas, justamente quando estava prestes a explodir, ele parou, levantou a cabeça e me olhou com uma promessa: o verdadeiro fim ainda estava por vir.

***

Ele se ajoelhou entre minhas pernas, a ereção alinhada com meu centro. A ponta quente procurou minha entrada, roçando de leve, brincando com a minha umidade, um prelúdio que me fez suspirar. Depois ele se inclinou mais perto e começou a entrar.

Foi aos poucos. Primeiro a ponta se pressionou com firmeza contra minha entrada e senti a tensão da minha virgindade. Soltei um som de dor misturado com prazer antecipado, e ele parou. Os olhos dele me perguntaram em silêncio se eu podia continuar; assenti. Ele puxou ar e avançou.

O empurrão foi deliberado. A sensação do corpo dele me esticando se transformou quase de imediato numa plenitude que eu não conhecia, e um gemido de surpresa escapou dos meus lábios.

— Tô aqui, Camila — sussurrou ele, a voz rouca.

Quando sentiu meu corpo relaxar, terminou de entrar com um movimento lento e poderoso. Senti uma dor aguda e fugaz, depois uma plenitude total. Era a primeira vez que um homem estava dentro de mim. Ele ficou imóvel, a testa perlada de suor, e no olhar dele vi uma mistura de conquista e uma ternura profunda.

Depois começou a se mover, bem devagar, iniciando o ritmo da minha primeira vez. Minhas mãos deslizaram para as costas dele, puxando-o mais fundo a cada investida. E, de repente, a avalanche emocional me atingiu: meus olhos se encheram de lágrimas. Não era um choro rasgado, mas um transbordamento silencioso, o eco da dor misturada ao prazer e ao triunfo de ter atravessado aquela fronteira justamente com ele.

Ele percebeu as lágrimas. Não parou: diminuiu o ritmo e aproximou a boca do meu ouvido.

— Shh — sussurrou —. Deixa sair.

E continuou, fundo e lento, recolhendo minhas lágrimas com os dedos. O prazer e a emoção se tornaram indistinguíveis, até que o gemido que me escapou foi de puro gozo, eclipsando o choro.

O ritmo acelerou aos poucos, minhas coxas se erguendo para encontrá-lo. Justo quando senti que os dois estávamos à beira, ele investiu uma última vez com uma urgência que já não conseguia conter. O clímax me atingiu com uma força incrível, uma convulsão que me sacudiu inteira, e ele me seguiu um instante depois com um gemido profundo. Ficamos os dois arfando, unidos pelo ato que havia rompido todos os limites.

***

Ele se retirou devagar e caiu rendido ao meu lado, mas logo procurou minha cintura e, com uma ternura inesperada, me trouxe para cima dele, minha cabeça sobre o peito dele. Desta vez não havia urgência nem dominação: era só para me abraçar. Uma das mãos dele começou a acariciar minhas costas com um movimento rítmico, o bálsamo perfeito depois da tempestade. Senti-me completamente segura, protegida pelo mesmo homem que havia sido o proibido durante anos, aquele que cheirava a café e a tempo vivido e agora era meu refúgio.

A voz grave dele, já um murmúrio sonolento, chegou ao meu ouvido.

— Dorme, Camila.

E a firmeza dessas duas palavras me deu permissão para soltar o último resto de tensão. O mundo se reduziu ao som do coração dele e ao vai-e-vem suave da mão nas minhas costas. Nesse calor, nua sobre ele, acabei adormecendo.

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