O que a herdeira buscou naquele oficina perdida
O zumbido do ar-condicionado em seu escritório no vigésimo sexto andar sobre a Reforma era a trilha sonora de uma vida perfeitamente esterilizada. Bruna Aguirre o percebia do mesmo jeito que percebia o peso do olhar de seu pai, mesmo através de um oceano e da tela fria de uma videochamada.
—Bruna, os números do último trimestre são um disparate. Sua projeção para o turismo de luxo foi, sendo generosos, ingênua.
A voz de don Octavio Aguirre rangia como lixa do outro lado do mundo.
—Pai, as variáveis do mercado encareceram os combustíveis…
—Desculpas são o refúgio dos incompetentes. Seu avô não ergueu este sobrenome com variáveis. Ergueu com coragem. Às vezes duvido que você tenha a que isso exige.
A ligação caiu como uma porta batida. Ingênua. Incompetente. As palavras ficaram girando no vazio ultradesejado do escritório, ricocheteando nos vidros blindados que emolduravam um horizonte de torres e asfalto.
Ela se levantou. Seu terno de linho branco, impecável como tudo em sua vida, era mais uma armadura. Sem dizer nada à assistente, pegou as chaves da Maserati e desceu para o estacionamento.
Não foi para o apartamento. Saiu da cidade em direção ao sul, às montanhas, sem destino claro. Precisava escapar da cápsula de ar frio e reprovações. Uma placa anunciava Malinalco. “Pueblo mágico”. O rótulo lhe soou como marketing barato, mas ela pegou o desvio mesmo assim.
A estrada serpenteava entre encostas de um verde espesso, quase violento. O ar que entrava pela ventilação já não cheirava a fumaça, e sim a terra molhada. O povoado foi um estouro de cor depois do cinza ordenado da cidade: ruas de pedra, bancas de artesanato, cheiro de carne na brasa misturado com copal.
Ela caminhava observando. Famílias rindo, casais de mãos dadas. Ninguém a olhava como a olhavam nas reuniões do conselho. Ali ela era invisível, e a invisibilidade, depois de uma vida inteira sob a lupa, revelou-se uma droga estranhamente viciante.
Mas o sufoco voltou disfarçado de vida alheia demais, alegria demais que não lhe pertencia. Decidiu ir embora. Na descida, o céu explodia em laranjas e roxos. Pisou no acelerador. Pegou um desvio mais estreito, uma estrada secundária que prometia atalho e só levava ao nada.
Foi então. Um golpe seco, um chacoalhão surdo que sacudiu o chassi. Um pneu estourado.
Conseguiu encostar o carro diante de uma placa enferrujada: “Llantera La Última Curva”.
Porra. Isso é no fim do mundo, mesmo.
Não era um posto de gasolina. Era um barracão de zinco ao lado de uma casa de telhas, duas bombas velhas e uma lâmpada nua iluminando a boca de uma garagem aberta. E o cheiro: graxa queimada, pneu velho e uma banda norteña saindo no último volume de um rádio.
Ficou ao volante por um instante. La Última Curva. A ironia era tão amarga que quase riu. Respirou fundo, ajeitou o vestido por reflexo, abriu a porta. O calor úmido da noite a envolveu como uma mortalha. Seus saltos afundaram na poeira.
Da penumbra da garagem, três silhuetas se viraram para olhá-la.
***
—Boa noite —disse Bruna, forçando um tom profissional que soou ridículo até para os próprios ouvidos.
O mais alto, com uma camiseta branca encardida, se aproximou. Rubén. O olhar dele não era dos que pedem licença: percorreu seu corpo inteiro, sem pudor, demorando-se no decote do vestido, na linha das meias.
—Estourou o pneu, sinhozinha —disse, com uma voz grave que arrastava os erres. Não era uma pergunta.
—Parece que sim. Podem trocar?
—Dá pra fazer. —O sorriso dele era tranquilo, quase um desafio.
Os outros dois se aproximaram: um mais jovem e musculoso, Memo, e outro calado, de olhos atentos, Chuy. Formaram um semicírculo ao redor dela. Bruna se sentiu acuada, como um animal exótico em exposição.
Enquanto Rubén e Chuy cuidavam da roda, Memo não tirava os olhos dela.
—De onde a senhora é? —perguntou, com um sorriso de dentes muito brancos.
—De Barcelona.
—Uau, da Espanha! —exclamou, como se fosse a informação mais fascinante do planeta—. E o que faz por estas bandas?
—Turismo —mentiu ela, seca.
—Bom, não parece muito divertido.
Bruna cerrou a mandíbula. Que sujeito mais popularucho.
Mas os olhares dos três se desviavam com frequência para ela, devorando cada centímetro. Permanecia de pé junto ao carro, consciente do efeito que causava seu corpo esguio sob o conjunto executivo justo. A saia parava vários dedos acima dos joelhos, mostrando o comprimento impecável de suas pernas envoltas em meias finas. Os saltos lhe davam altura à sua já considerável estatura.
Cruzou os braços sobre o peito, um gesto defensivo que, sem querer, empurrou para cima seus seios firmes contra a seda branca da blusa. Rubén, ao se erguer para pegar uma ferramenta, deixou que o olhar subisse devagar desde os saltos, pelas panturrilhas e coxas, até se perder na sombra sob a saia.
Ela desviou os olhos para as montanhas, fingindo interesse, mas cada poro de sua pele registrava a eletricidade crua que enchia o ar quente.
Foi então que chegou a garota. Não muito mais jovem que Bruna, mas de outro mundo: mochila no ombro, jeans rasgados, camiseta justa. A pele morena brilhava sob a lâmpada.
—E aí, Rubén? —disse, com voz rouca e despreocupada.
—Nayeli, o que te traz por aqui?
—O ônibus me deixou na mão. —Ela se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha sem nenhum pudor. Depois olhou para Bruna com curiosidade—. Oi.
Bruna assentiu com frieza. Nayeli riu, aumentou o volume do rádio e começou a mexer os quadris no ritmo da música, um movimento ancestral e sem pudor. Memo acompanhou, dançando em volta.
E então aconteceu. Nayeli, rindo, se largou contra Rubén, que a recebeu com um braço. Ele sussurrou algo em seu ouvido e ela jogou a cabeça para trás, rindo mais alto. Memo se aproximou por trás e a envolveu. Bruna viu a mão de Rubén descer pelas costas da garota e entrar sob a camiseta, enquanto a outra acariciava seu ventre. Nayeli não se abalou. Pelo contrário: arqueou-se para eles, uma deusa aceitando seu tributo. Chuy entrou na brincadeira e lhe acariciou uma coxa com naturalidade espantosa.
Isso é uma pouca vergonha, pensou Bruna, escandalizada. E, ainda assim, não conseguia desviar o olhar.
A cena era vulgar, primitiva... e terrivelmente viva. Um calor agudo começou a crescer em seu baixo-ventre. Uma inveja feroz e vergonhosa. Aquela garota era livre de um jeito que ela nunca tinha sido: livre de julgamentos, de rótulos, de um pai que a chamava de incompetente.
Subiu no carro sentindo-se suja e excitada ao mesmo tempo. Durante o caminho de volta, com o vidro abaixado e o vento lhe açoitando o rosto, a imagem de Nayeli arqueando-se entre aquelas mãos rudes não a abandonou. Naquela noite, na cama do apartamento de luxo, tocou-se pensando nisso, e o orgasmo foi tão violento que quase gritou.
***
Os dias seguintes foram um inferno de lembranças ardentes. Sua vida organizada tinha gosto de plástico. Em uma reunião do conselho, enquanto um sócio de seu pai falava de margens de lucro, ela só conseguia pensar no cheiro de graxa e no sorriso de Rubén.
A obsessão cresceu até se tornar insuportável. Compreendeu, enfim, o que a atormentava: eles não queriam uma garota normal. Queriam derrubar a princesa. E ela queria ser derrubada.
Tentou primeiro um disfarce. Vestiu-se de turista desligada, com jeans baratos e uma camiseta larga, o cabelo preso num rabo de cavalo simples, e voltou à borracharia em um carro alugado discreto. Rubén a reconheceu na hora. Ergueu uma sobrancelha.
—De novo por aqui, princesa? Outro furo?
—Não. Só estava passando —mentiu, sentindo o calor subir-lhe pelo pescoço.
Memo saiu da garagem e soltou uma gargalhada.
—Ô, caralho! E essa mudança de visual? Roubou a roupa da empregada?
A humilhação foi instantânea. Ela se ofereceu para pagar umas cervejas. Rubén negou com a cabeça.
—Aqui não se paga com dinheiro, princesa.
—Então, com o quê? —perguntou, e sua voz saiu quebrada.
—Com outras coisas.
Foi embora dez minutos depois, sentindo o disfarce barato colado ao corpo como uma segunda pele de mentira. Tinha fracassado. Naquela noite não dormiu. Bebeu vinho diante da janela da cobertura, olhando luzes que já não significavam nada. O vestido branco, o do primeiro dia, pendia impecável em seu armário. Sua armadura. Sua identidade. E também sua prisão.
***
Na manhã seguinte, bem cedo, estacionou diante da “La Última Curva”. Vestia o vestido branco. Impecável, embora ela não: olheiras, o cabelo levemente despenteado, os olhos brilhando com uma determinação nova.
Rubén, Memo e Chuy pararam de trabalhar. O silêncio foi absoluto.
—Tá com fome, princesa? —perguntou Rubén—. Aqui não servimos café da manhã.
—Não vim tomar café —disse Bruna, e sua voz soou clara e firme, como cristal—. Ontem eu me enganei no figurino. Hoje trouxe o certo.
Olhou para o interior da garagem, para os cartazes vulgares colados na parede: mulheres de curvas impossíveis promovendo óleo e cerveja. Aquela pornografia barata que antes a teria ofendido agora lhe parecia o mapa de um território que ela ansiava conquistar.
Voltou a olhar para Rubén, e um sorriso leve, carregado de promessa, se desenhou em seus lábios.
—Vocês têm suas preferências decorativas —disse—. Vim para que tirem este vestido de mim e me transformem em uma delas.
Rubén a encarou fixamente. Pela primeira vez não havia deboche em seus olhos, e sim respeito. Um respeito animal e perigoso. Estendeu-lhe a mão, suja de graxa. Bruna, sem hesitar, a tomou.
***
Ele a conduziu para dentro. Chuy baixou a cortina metálica e o mundo lá fora desapareceu. Só restaram o cheiro de gasolina, o zumbido de uma geladeira velha e a respiração dos três.
A mão áspera e quente de Rubén pousou em sua cintura. Não era um afago: era uma tomada de posse.
—Tem certeza, princesa? —perguntou, o hálito no ouvido dela.
—Não me chame de princesa —ofegou.
—Como quiser... putinha.
A palavra, crua e vulgar, atravessou-a como uma descarga. Ela gemeu, e foi o som de sua última resistência se partindo.
O que se seguiu foi um turbilhão. Mãos ásperas explorando cada centímetro de sua pele, beliscando, marcando. Bocas quentes no pescoço, nos seios, no ventre. Ela já não pensava. Só sentia. Cada insulto sussurrado, em vez de humilhá-la, a elevava a um estado de êxtase. Era a linguagem do desejo puro, sem freios, e seu corpo a entendia melhor do que qualquer elogio educado.
—Fica de joelhos... como uma boa puta.
Lentamente, com a respiração agitada, ela obedeceu. Os três abriram as calças. Passou os dedos pelos membros deles, pelos lábios, até começar a colocá-los na boca com desespero. Logo aprendeu a cuidar de um enquanto se ocupava dos outros com as mãos.
—Que boa puta —murmurou Memo.
Chuy foi o primeiro a gozar nela, sujando-lhe o rosto e o decote. Ela recolheu com um dedo e provou, olhando nos olhos dele, sorrindo como uma verdadeira sem-vergonha. Mas a noite estava longe de acabar.
Ergueram-na oferecendo as mãos, quase com cortesia.
—Tira —ordenou Rubén, apontando para o vestido.
Com os dedos trêmulos, Bruna desabotoou os botões. O tecido fino e caro caiu no chão sujo, uma poça de brancura sobre o cimento manchado. Ficou de pé apenas com as meias, o liguero e os saltos. Sentia o ar frio na pele, mas um fogo interno a consumia.
Inclinaram-na contra o capô frio de um carro. A bochecha contra o metal lhe devolveu uma sensação brutal de realidade: ela notou as imperfeições da pintura, um pequeno amassado que lhe cravou no rosto, o cheiro de óleo de motor que ficaria gravado a fogo junto da lembrança daquela noite.
A penetração de Rubén foi direta, e um gemido gutural escapou de sua garganta. Não era dor: era a sensação de ser aberta, possuída de verdade. Enquanto ele a tomava por trás, com investidas que faziam a lataria ranger, Memo ficou diante dela e encheu sua boca. O sabor salgado, a leve asfixia, tudo se tornou o auge de uma humilhação libertadora. Fechou os olhos e se abandonou ao prazer, ao nada glorioso.
Ela já não distinguia seus homens, nem importava qual deles ela atendia com cada canto do corpo.
Em uma pausa, ofegantes, Rubén pegou uma garrafa d'água numa prateleira cheia de ferramentas. Bebeu um gole longo e, sem dizer nada, a estendeu. Os dedos dela, ainda trêmulos, roçaram os dele ao pegá-la. A água escorreu pelo queixo, misturando-se ao suor. Por um instante, só se ouviu o pingar de uma torneira na pia e as duas respirações se sincronizando. Nem sorrisos, nem olhares. Só aquele silêncio carregado, mais íntimo que qualquer palavra obscena.
Quando depois tentou se lembrar, só lhe vinham lampejos. No chão, recebendo um enquanto outro lhe mordia os seios e o terceiro enfiava o sexo em sua garganta. Montada, saltando sobre um enquanto atendia a outro com a boca e ao terceiro com as mãos. De quatro, como uma cadela, recebendo investidas e palmadas, sentindo a textura áspera da lona sob os joelhos, cada pedrinha cravando-se em suas palmas, um fio de saliva misturado ao seu batom caríssimo escorrendo-lhe pelo queixo.
Num respiro de seus amantes, tomou ar e, depois de um suspiro, ordenou:
—Rasguem meu cu... ali.
Apontou para a mesa de trabalho. Rubén a ergueu no colo como se ela não pesasse nada e a pressionou contra a superfície suja até deixar seus seios e seu rosto contra ela. Amassou suas nádegas e as pernas emolduradas pelos ligas brancos. Deixou-a se lubrificar com os próprios dedos molhados de saliva e foi penetrando aos poucos. Bruna ofegava com força, desfrutando cada centímetro. Quando enfim entrou por completo, deixou-a imóvel por um momento para que o sentisse pulsando, e então começou a se mover devagar.
—Tá pronta, princesa putinha?
—Sim...
Cravou os dedos em seus quadris e a invadiu com violência, bufando como um animal, banhado em suor.
—Órale. O próximo.
Chuy quase saltou para ocupar o lugar. Percorreu todo o corpo ao seu alcance sem se importar em sujá-lo de graxa, apertou-lhe os seios enquanto entrava nela.
—Grita, puta... grita alto... que a estrada toda te ouça.
Bruna obedeceu. Gritava liberta. O cabelo e a bochecha também ficaram manchados de graxa. Havia muito uma das meias já tinha rasgado, mas isso não importava. Só importavam o prazer e seus próprios gritos.
Quando chegou a vez de Memo, ela não conseguiu se controlar. Ele abaixou a meia solta e aproveitou o contraste de uma perna nua e a outra ainda vestida. Segurou seu cabelo louro enquanto a penetrava.
—É assim que você gosta, né, putinha? Engole tudo. Você é nossa.
Quando fizeram uma pausa, Bruna falou:
—Vocês precisam me tornar totalmente de vocês. Sabem o que falta.
Ninguém disse nada. Não era preciso. Todos sabiam a que ela se referia.
Ela se acomodou sobre Rubén, recebendo-o em seu sexo, enquanto Chuy se apoiava na outra entrada e Memo se aproximava do seu rosto. Com uma paciência inacreditável, eles a ajudaram a se posicionar, até que ela sussurrou:
—Estou pronta...
Rubén e Chuy começaram a se mover nas duas entradas ao mesmo tempo. Ela gemia, gritava de prazer, de dor, de humilhação, até que Memo encheu sua boca e ela já não pôde dizer nada.
Perdeu a conta de quantas vezes terminaram sobre ela ou dentro dela. Perdeu a conta de seus próprios orgasmos e de cada degrau que havia descido em sua entrega. Houve apenas algumas pausas para beber água ou cerveja, para rir, para satisfazê-los e pedir mais.
Quando os três caíram exaustos, foram se limpar com sua roupa íntima e suas meias. Bruna, quase desmaiada, ainda conseguiu dizer:
—Não se limpem com isso... para isso vocês me têm aqui.
Avançou engatinhando até ficar de joelhos diante deles.
***
O amanhecer filtrava raios tênues pelas frestas da cortina metálica. Bruna jazia sobre a lona, coberta de suor e do rastro seco de tudo o que acontecera. Os três homens, exaustos, se vestiam em silêncio.
Ela se ergueu. Seu corpo estava machucado, dolorido, vivo. Pegou o vestido do chão: manchado de graxa e poeira, irrecuperável. Não sentiu pena. Amarrrou-o na cintura, cobrindo o suficiente, e calçou os saltos. Caminhou em direção à saída sem uma palavra de despedida.
Rubén a observava, apoiado numa ferramenta. Nem sorriso, nem deboche, nem promessa. Apenas o olhar calmo de quem foi testemunha de algo que sabia que ia acontecer.
Bruna empurrou a cortina e saiu para a luz ofuscante da manhã. Entrou na Maserati. O contraste entre o luxo do interior e seu estado era obsceno. Ligou o carro e dirigiu.
De volta à cobertura, tomou banho por meia hora, esfregando a pele até avermelhar. A água levou o cheiro de gasolina e sexo, mas não a memória.
Ao recolher o vestido destruído para jogá-lo fora, algo caiu de um bolso: o cartão engordurado da borracharia. “La Última Curva”. Ela o segurou sobre a boca da lixeira. Um sorriso triste e sábio se desenhou em seus lábios. Ela não precisava dele. O caminho já havia sido percorrido, e o preço, pago.
Deixou-o cair. A viagem tinha terminado. Ou talvez estivesse apenas começando.





