O círculo na areia em que me atrevi a entrar
Nunca havia cruzado o limiar de um círculo assim, mas naquela tarde, com a pele coberta de óleo e sal, Daniela entendeu que certos desejos só existem quando são compartilhados.
Nunca havia cruzado o limiar de um círculo assim, mas naquela tarde, com a pele coberta de óleo e sal, Daniela entendeu que certos desejos só existem quando são compartilhados.
Reservei dois ingressos para uma sala quase vazia e dei um deles a uma desconhecida que me lia. Eu não sabia se ela viria, até vê-la procurar o assento na penumbra.
O espelho do camarim devolvia uma mulher que ela não reconhecia. Em minutos, dezenas de desconhecidos a veriam nua. E, mesmo assim, ela decidiu atravessar a cortina.
Sei que não deveria, mas toda vez que caminho sozinha de madrugada procuro por ele com o olhar: aquele desconhecido que me encoste na parede e não me peça permissão.
Subi ao palco sem pensar, diante de uma sala cheia de desconhecidos e de um homem que já não me olhava. Naquela noite, deixei de implorar e comecei a sentir.
Mal larguei as amarras, soube que aquela tarde não terminaria com um simples passeio: ela já me olhava diferente, com aquele meio sorriso que prometia muito mais.
Há meses eu repito a mesma cena na cabeça durante a volta para casa. Hoje, quando o assento ao lado foi ocupado, quase perdi o fôlego.
Saí de bicicleta sem calcinha, com o celular vibrando de mensagens que eu não devia ter aberto. O caminho estava vazio, mas eu me sentia observada por todos.
Fechei os olhos por um segundo e, quando os abri, uma sombra enorme tapava o sol. O que aconteceu depois só existia na minha imaginação… até aquela tarde.
Você olhava para um lado e para o outro, certa de que estava sozinha, quando ergueu o vestido no meio da garagem. Não viu que, duas vagas adiante, alguém já a observava havia algum tempo.
Há um banheiro que ninguém usa no fundo do estacionamento. Há dias imagino você ali, contra o espelho, enquanto sussurro tudo o que penso fazer com você.
Sentei entre um homem mais velho e um rapaz que era de comer. Então o trem freou de repente, as luzes se apagaram e uma mão procurou a minha.
Ela não buscava amor nem companhia. Buscava ser olhada, desejada, imaginada nua sob o vestido. Naquela noite, decidiu ser puro fogo.
Havia semanas que eu imaginava uma noite assim, sem nomes nem promessas. O que não imaginei foi que ele me observasse do balcão como se já soubesse de tudo.
Dei dois beijos na frente da mãe dele e, sem que ninguém notasse, decidi entrar no jogo até onde nenhum de nós dois imaginava chegar naquela manhã.
Mal eu chegava à altura do cotovelo quando ele me pegou pela mão. Em seis minutos, descobri que meu corpo não entendia as regras que eu mesma tinha imposto.
Ela chega às dez e meia, se encosta no abrigo e cruza as pernas. Ela não sabe, mas na minha cabeça já fizemos tudo o que jamais teríamos coragem de fazer.
Passei horas buscando uma faísca em olhares alheios e não encontrei nada. Até decidir cruzar o salão e colocar o jogo inteiro em suas mãos.
Antes eu escondia tudo. Naquela noite entrei na sala sem calcinha, com a saia curta e a certeza de que alguém olaria. E eu queria que olhasse.
Quando o trem foi embora sem mim, achei que a noite estava perdida. Então o vi do outro lado da plataforma, imóvel, me olhando como se me esperasse desde sempre.