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Relatos Ardientes

Meu primeiro brinquedo chegou e nada nunca mais foi igual

Durante muito tempo minha vida coube inteira dentro do meu trabalho. Eu entrava cedo na galeria onde restaurava móveis antigos, me perdia entre vernizes e madeiras até anoitecer, e voltava para casa cansada demais para querer qualquer coisa além disso. Não digo isso como reclamação: eu amava o que fazia. Mas essa dedicação também me deixava pouco espaço para conhecer alguém, e as poucas brechas que eu tinha eu preenchia com aplicativos que quase sempre me deixavam com mais vontade do que respostas.

Havia noites em que eu sentia o corpo aceso e, ao mesmo tempo, não queria ninguém por perto. Queria o prazer sem negociação, sem ter que explicar quem eu era nem fingir interesse por um desconhecido. Demorei para entender que isso não me fazia estranha. Só ainda não tinha encontrado a forma certa.

A ideia foi plantada pelas minhas amigas, sem que elas nem imaginassem. Numa tarde de café, entre risadas e confidências, várias admitiram que usavam vibradores com uma naturalidade que me deixou pensando. Falavam deles como de um segredo bom, algo que pertencia só a elas.

— Sério que você nunca experimentou? — me perguntou Lucía, sinceramente surpresa.

— Nunca — admiti, e notei o calor subindo ao rosto.

— Você não sabe o que está perdendo — disse, e riu de um jeito que me deixou intrigada a semana inteira.

Até então, quando me tocava, eu fazia isso só com as mãos. Conhecia meu corpo daquela forma básica, quase apressada, de quem quer terminar logo antes de dormir. A ideia de algo diferente, de me dar tempo, ficou dentro de mim como um espinho doce.

Durante dias voltei a essa conversa sem querer. Eu me lembrava dela enquanto lixava uma mesa, enquanto esperava o ônibus, enquanto tomava banho. E toda vez que me lembrava sentia aquela mesma fisgada lá embaixo, aquela curiosidade que não terminava de se animar a dar o passo. Era pudor, suponho, mas também algo mais simples: eu nunca tinha me permitido pensar no meu próprio prazer como prioridade, como algo que merecia ser planejado com cuidado.

***

Numa noite em que o desejo me fazia rolar na cama, abri por costume um daqueles aplicativos. Deslizei rostos, mensagens vazias, conversas que não iam a lugar nenhum. E de repente me lembrei de Lucía, da risada dela, daquela frase.

Fechei o aplicativo. Desta vez vou fazer algo diferente.

Abri a primeira loja que encontrei e mergulhei num mundo que eu não conhecia. Vibradores, sugadores, dildos de todas as formas e cores. Eu lia as descrições como quem lê um cardápio com fome, sem saber o que escolher, mas desejando tudo. No fim, parei no clássico: o vibrador coelho, aquele que prometia dois prazeres ao mesmo tempo. Não pensei mais. Joguei no carrinho e confirmei a compra antes de me arrepender.

Antes de fechar a compra, hesitei por um instante com o dedo sobre a tela. Pensei no que Marina diria se encontrasse o pacote, no absurdo dos meus próprios nervos. Depois ri de mim mesma. Era meu corpo, meu dinheiro e meu desejo; eu não devia explicações a ninguém. Confirmei.

A entrega demoraria quarenta e oito horas. Eu não quis pagar o envio urgente, e essa decisão se transformou numa pequena tortura.

Aqueles dois dias eu vivi em carne viva. O tecido da roupa contra minha pele se tornou insuportavelmente presente; cada atrito da blusa contra meus mamilos os endurecia, e eu me surpreendia prendendo a respiração no meio do ateliê. Ia ao banheiro e descobria minha calcinha úmida sem motivo aparente, só pela espera. Atendia um cliente e, sem querer, meu olhar descia por um segundo a mais. Eu estava acesa o tempo todo, antecipando algo que ainda nem tinha provado.

Que chegue logo, eu pensava. Não aguento mais.

***

No terceiro dia, o pacote me esperava na entrada quando voltei. Levei-o colado ao peito como se fosse um segredo, e fiquei aliviada por Marina, minha colega de apartamento, estar de plantão noturno no hospital. A casa inteira era minha.

Tirei o vibrador da caixa com os dedos desajeitados. Quando o senti pela primeira vez na mão, um arrepio percorreu minha nuca até a base das costas. Era mais leve do que eu imaginava, morno quase de imediato contra a minha palma. Fui direto para o meu quarto.

Tenho um espelho de corpo inteiro encostado na parede, ao lado da janela. Fiquei parada diante dele e comecei a me despir devagar, sem pressa, me olhando como poucas vezes me permitia fazer. Primeiro a blusa, depois a saia, a roupa íntima caindo no chão. Observei-me na luz morna da luminária e, pela primeira vez, não procurei defeitos. Só me olhei com vontade.

Liguei o brinquedo no nível mais baixo e comecei a percorrer meu corpo com ele, sem pressa. Passei pelo pescoço, desci pela clavícula, desenhei um caminho entre os seios. Quando toquei um mamilo com a ponta vibrando, segurei um gemido e vi no espelho como ele se arrepiava na hora. Quis começar pelo básico, então escolhi o programa mais suave: o corpo do vibrador girando devagar e as orelhinhas do coelho zumbindo de leve.

Cada centímetro de pele que ele tocava respondia com um tremor que eu não controlava. Desci devagar pelo ventre até chegar entre as pernas, e assim que senti a vibração ali meu coração disparou. Não o enfiei de imediato. Passeei por cima, roçando a vulva, deixando o calor se acumular, separando de leve os lábios com a ponta enquanto escapavam de mim gemidos curtos. Eu queria sentir tudo, sem pular nenhuma etapa.

***

Arrumei alguns travesseiros no chão, bem em frente ao espelho, e me sentei sobre eles. Abri as pernas o máximo que pude, me oferecendo ao meu próprio reflexo, me vendo molhada e entregue de um jeito que nunca tinha me permitido. Por curiosidade, levei o vibrador à boca e provei o sabor da minha própria umidade misturado àquela vibração estranha contra os lábios. Foi uma descoberta dentro de outra.

Voltei a baixá-lo e procurei meu clitóris com as orelhinhas do coelho, aquelas duas pontas que pareciam feitas para encontrá-lo sozinhas. Quando acertaram exatamente onde deviam, meu corpo inteiro se sacudiu. Minha respiração ficou rápida, entrecortada. Comecei a introduzi-lo aos poucos, sem deixar de pressionar em cima, e senti meu corpo ceder, senti que ele me recebia.

Aumentei a intensidade quase sem pensar, e a diferença me cortou o fôlego. A vibração deixou de ser uma carícia e virou uma corrente que subia pelo ventre até o peito. Precisei apoiar a mão livre no chão para não perder o equilíbrio. Então era disso que elas falavam, consegui pensar antes de a ideia se desfazer em puro instinto.

Meu pulso foi encontrando um ritmo próprio, cada vez mais firme, cada vez mais rápido. Os gemidos deixaram de ser leves e começaram a encher o quarto. Por um momento agradeci por não haver ninguém em casa, porque eu não estava me contendo em absoluto. E o que mais me excitava era me ver: cada investida mais funda se refletia no espelho e me devolvia a imagem de uma mulher que eu não reconhecia por inteiro e que, ainda assim, era completamente eu.

Com a mão livre, acariciei meus seios. Apertei-os, passei de um ao outro, segurei os mamilos entre os dedos e os estiquei, belisquei até que prazer e dor se confundissem. Se eu tivesse podido alcançá-los com a boca, teria feito isso. Todo o meu corpo havia se tornado um único ponto de desejo.

Sempre gostei de me olhar quando gozo sozinha, mas naquela noite era diferente. Naquela noite eu estava me conhecendo de verdade, descobrindo do que eu gostava, até onde eu podia ir sozinha, sem esperar que alguém viesse me dar isso.

***

Bastaram poucos minutos para que meu corpo inteiro se tensionasse. Minhas pernas se fecharam de repente, aprisionando o vibrador ainda ligado dentro de mim, e da garganta me saiu um gemido longo, fundo, que eu nem sabia que tinha. O prazer me arrasou por completo naquele exato instante. Um segundo depois veio outra onda, as orelhinhas pressionando meu clitóris me deixando louca, e me deixei cair para trás, tremendo.

Os travesseiros debaixo de mim tinham ficado encharcados, cada gota da minha umidade caindo sobre eles sem que eu me importasse. Desliguei o brinquedo e fiquei um tempo assim, sem me mover, recuperando o fôlego, olhando no espelho meu corpo relaxado e satisfeito. Passei as pontas dos dedos pela pele, devagar, me reconhecendo. Eu tinha certeza de uma coisa: aquele tinha sido, até então, o orgasmo de que eu mais tinha gostado na vida.

Fiquei a semana inteira explorando meus próprios limites graças àquele pequeno brinquedo. Todas as noites eu experimentava um programa novo, uma posição diferente, uma intensidade que no dia anterior me parecera forte demais. Descobri que meu corpo tinha muito mais a me dar do que eu suspeitava, e que o prazer mais completo nem sempre precisava de outra pessoa.

Aprendi a me ler com uma paciência nova. Algumas noites eu buscava o orgasmo rápido, quase urgente; outras eu me demorava por uma hora, freando bem antes do fim só para começar de novo, até não aguentar mais a espera. Passei a saber o que eu gostava com uma clareza que nenhum amante jamais me deu, porque pela primeira vez eu tinha todo o tempo do mundo para me perguntar isso e todas as respostas eram só minhas.

Aprendi naquela semana algo que nenhum aplicativo me ensinara: antes de procurar que outro me desejasse, valia a pena aprender a me desejar. O resto, pensei apagando a luminária com um sorriso, viria no seu tempo.

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