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Relatos Ardientes

O círculo na praia que ninguém quis interromper

A maré havia recuado o suficiente para deixar uma faixa de areia firme, quase polida, na beira da água. Ali se formara o círculo, sem que ninguém o decidisse por completo. Começou como um grupo de desconhecidos que dividia uma sombrinha e umas cervejas mornas, e terminou sendo outra coisa, algo que nenhum deles saberia nomear em voz alta.

Mariela estava no centro. Não porque tivesse pedido, mas porque os corpos ao redor dela haviam se acomodado de maneira natural em sua direção, como se ela fosse o ponto onde convergia todo o calor da tarde. Tinha a pele da cor de mel escuro, brilhante de óleo e de suor, e se movia com uma lentidão que obrigava os outros a esperar.

Ao seu lado, sentada sobre os calcanhares, Camila observava. Era loira, de riso fácil, e tinha o costume de inclinar a cabeça sempre que algo lhe interessava. Naquela tarde, tudo lhe interessava. As duas não competiam; repartiam o espaço como quem conhece uma coreografia que nunca ensaiou.

—Devagar —disse Mariela, sem se dirigir a ninguém em particular.

E todos foram devagar.

Um dos homens, o mais alto, percorria-lhe as costas com a ponta dos dedos. Não a tocava com pressa nem com desajeito. Traçava linhas imaginárias da nuca até a curva baixa da cintura, como se tentasse ler algo escrito na pele e tivesse medo de apagá-lo. Toda vez que chegava ao fim do trajeto, recomeçava.

À sua frente, outro havia tomado suas mãos. Não as puxava. Sustentava-as, abertas, e as guiava com cuidado até o próprio peito, oferecendo-lhe o batimento como quem oferece uma confissão. Mariela sentiu aquele pulso sob as palmas e fechou os dedos apenas um pouco, o bastante para que ele entendesse que ela havia notado.

Camila, enquanto isso, brincava com outra coisa. Seu contraponto era mais travesso, menos solene. Um homem de barba curta desenhava círculos em seu ventre com a mão aberta, e ela deixava escapar uma risada baixa toda vez que os dedos desciam um centímetro a mais.

—Você é tão corajoso assim? —perguntou, mordendo o lábio.

O homem não respondeu. Desceu mais um centímetro.

Outro havia se ajoelhado junto às pernas de Camila e espalhava óleo em suas coxas. Fazia isso com uma concentração quase devota, as mãos escorregando pela pele como se percorressem um mapa rumo a um destino que ainda não conhecia. Ela abriu apenas um pouco os joelhos, não como uma convocação aberta, mas como uma pergunta.

Ninguém se apressava. Essa era a regra não escrita do círculo, a única que importava. Quem chegava com pressa ficava fora do compasso, e o compasso era tudo. O tempo parecia ter ficado espesso, denso como o ar salgado, e cada carícia durava o que tinha de durar e nem um segundo a menos.

Mariela virou a cabeça e procurou Camila com o olhar. Entenderam-se sem dizer nada. Era um pacto silencioso, feito de cumplicidade, o reconhecimento de que as duas sustentavam algo frágil entre as mãos e que bastaria um movimento brusco para quebrá-lo.

***

O sol começou a descer de verdade, e a luz se tornou alaranjada, longa, capaz de alongar as sombras de todos sobre a areia. Foi então que o círculo mudou de natureza.

Até aquele momento, os homens haviam orbitado ao redor das duas mulheres como satélites obedientes. Agora começavam a tocar-se também entre si, não de maneira deliberada no começo, mas como consequência da proximidade. Uma mão que acariciava as costas de Mariela cruzava com um braço alheio; um roçar numa cintura coincidía com outro no ombro ao lado. O círculo se movia como um único organismo, num fluxo contínuo que já não distinguia onde começava um corpo e terminava o seguinte.

Mariela percebeu essa mudança antes de vê-la. Sentiu-a na temperatura, na forma como a respiração coletiva se tornara mais lenta e mais profunda. Notou que já não era o centro de algo, mas uma parte de algo. A distinção a atravessou como um arrepio agradável.

Tomou a mão de um dos homens, o que parecia mais inseguro, o que estivera à margem sem se atrever a fazer mais do que olhar. Levou-a até o quadril e a manteve ali com firmeza, guiando-o num movimento lento, ensinando-lhe que não havia nada a temer. Ele engoliu em seco. Ela sorriu, e esse sorriso quente bastou para que o homem deixasse de prender a respiração e começasse a seguir o ritmo que ela marcava.

—Assim —murmurou Mariela—. Você não precisa fazer mais nada além de sentir.

Do outro lado do círculo, Camila atraía para si um homem de ombros largos. Ofereceu-lhe o pescoço inclinando a cabeça, abrindo o espaço entre a mandíbula e a clavícula, e pediu em voz baixíssima que ele a percorresse só com a ponta dos dedos. Ele obedeceu. A linha que traçou da orelha ao ombro a fez fechar os olhos.

O ar estava carregado de algo que não era só o calor da tarde. Havia uma corrente entre todos os presentes, uma espécie de eletricidade que não precisava de palavras para ser entendida. Os desconhecidos haviam deixado de ser desconhecidos. Não pelas carícias, mas pela confiança que essas carícias pressupunham.

***

Mariela deixou que as sensações a envolvessem. Por um momento fechou os olhos e permitiu-se não pensar, não conduzir, não observar. Sentiu mãos nas costas, nos quadris, na nuca. Cada toque era diferente, como uma voz distinta dentro de um mesmo coro. Uma era cuidadosa, outra mais insistente, outra apenas um roçar que prometia sem cumprir.

Não era apenas um jogo físico, e foi isso que a surpreendeu. Havia uma intimidade inesperada em compartilhar o desejo com tanta gente ao mesmo tempo, em confiar o corpo a mãos que mal conhecia. Cada gesto parecia contar uma pequena história. Cada olhar trocado era um acordo tácito, uma maneira de dizer continue, estou com você, não pare.

Quando voltou a abrir os olhos, a primeira pessoa que encontrou foi Camila. A loira a observava do outro extremo do círculo, com os lábios entreabertos e o cabelo colado à testa, e entre as duas aconteceu algo que não foi palavra nem gesto, apenas reconhecimento. As duas sorriram ao mesmo tempo, sabendo que tinham conseguido algo difícil de explicar.

Elas tinham transformado um grupo de estranhos em uma coisa só. Haviam dissolvido a distância que separa as pessoas que não se conhecem, e o tinham feito sem urgência, sem vulgaridade, quase com ternura. A praia inteira parecia conspirar com elas: o murmúrio da água marcava o compasso, a brisa morna percorria as peles, a luz declinante envolvia a cena num dourado que logo se apagaria.

Camila se inclinou para a frente e, sem quebrar o contato visual com Mariela, pousou uma mão sobre o joelho do homem ajoelhado à sua frente. Afastou-lhe os dedos da coxa com suavidade e os levou um pouco mais acima, medindo cada movimento, conferindo com o olhar se ele entendia o ritmo. Entendia. Todos entendiam a essa altura.

Mariela respondeu ao gesto com outro. Atraiu para o próprio colo o homem inseguro, aquele que precisara ser ensinado, e deixou que ele apoiasse o rosto em seu pescoço. Sentiu a respiração entrecortada dele contra a pele e soube que já não havia ninguém de fora. O círculo se fechara por completo.

***

O sol tocou o horizonte e se desfez na água. A faixa de areia firme começou a se tingir de azul, e a temperatura caiu um grau, depois outro, sem que nenhum deles parecesse notar. O calor que importava já não vinha do céu.

Ninguém falava. As palavras teriam sido demais, teriam quebrado o feitiço. Só se ouviam respirações, algum suspiro, o roçar contínuo da pele contra a pele e o rumor incansável do mar lambendo a arrebentação. Era uma sinfonia sem instrumentos, feita de corpos, de pausas, de mãos que haviam aprendido a se mover em uníssono.

Mariela pensou, em algum canto lúcido de sua mente, que jamais conseguiria contar aquilo. Que não existiam palavras para descrever como um grupo de desconhecidos numa praia, numa tarde qualquer, havia construído entre todos uma intimidade que muitos casais não alcançam em anos. Pensou isso e logo deixou passar, porque pensar demais também seria uma forma de sair do círculo.

Procurou Camila outra vez. Encontrou-a com os olhos fechados, a cabeça jogada para trás, um sorriso quieto nos lábios. Estava entregue e, ao mesmo tempo, continuava sendo, de algum modo, a que mandava. As duas eram. Tinham conduzido aquela dança sem jamais levantar a voz, apenas com olhares, com pausas, com a certeza compartilhada de que certas coisas se quebram se forem apressadas.

A última luz se apagou sobre a areia. O círculo continuou se movendo na penumbra, lento, sincronizado, sem pressa de chegar a lugar nenhum, porque já estava exatamente onde queria estar. E nenhum dos que faziam parte dele, nem Mariela, nem Camila, nem os homens que haviam deixado de ser estranhos, quis ser o primeiro a interrompê-lo.

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