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Relatos Ardientes

O círculo na areia em que me atrevi a entrar

O sol descia devagar sobre a Cala del Sauce, afundando no horizonte como uma brasa que se apaga sem pressa. Daniela seguia no centro do círculo, sustentada no ar por várias mãos firmes, e ao seu lado, igualmente suspensa, a loira que minutos antes era uma desconhecida. Já não era. Seus corpos brilhavam com uma mistura de óleo, suor e luz dourada, e cada gota que escorria por sua pele contava uma parte do que tinha acontecido naquela tarde.

Ela não tinha chegado ali buscando isso. Tinha chegado à enseada porque lhe disseram que, no fim do verão, quando os turistas iam embora, sobrava um grupo de habitués que entendia a praia de outro jeito. Curiosidade, só isso. Ou era o que ela repetia para si enquanto largava a roupa sobre uma toalha alheia.

O círculo se formara sozinho, como as coisas se formam quando ninguém as dirige. Primeiro vieram os olhares. Depois, uma mão que pedia permissão com a ponta dos dedos antes de avançar. Daniela tinha dito sim com o corpo muito antes de dizer com a voz.

Ela se lembrava com clareza do primeiro toque. Uns dedos desconhecidos tinham afastado seu cabelo do pescoço, devagar, deixando a nuca exposta ao ar morno. Ela não se virou para ver quem era. Esse era o pacto silencioso do lugar: não importava o nome nem o rosto, importava o que cada um estava disposto a dar. E ela, naquela tarde, estava disposta a dar tudo.

O calor do dia ainda subia da areia quando começaram a erguê-la. Mãos nas coxas, nas costas, sob os ombros, sustentando-a com uma firmeza que a fez se sentir estranhamente segura, como se flutuar entre estranhos fosse a coisa mais natural do mundo. Fechou os olhos. Ouviu a respiração dos outros, o rumor distante das ondas, e se entregou àquele novo vertigem de não tocar o chão.

***

A loira se chamava Ingrid, soube mais tarde, e tinha vindo com o marido. Ele ficou à beira do círculo por um bom tempo, olhando, com as mãos quietas e a respiração cada vez mais curta. Daniela percebeu porque era a ela que ele observava, embora sua mulher estivesse a um passo dele, aberta às mãos dos outros.

— Quer chegar mais perto? — Daniela lhe perguntou, olhando por cima do ombro de Ingrid.

O homem, Marco, engoliu em seco e deu um passo. Só um. Mas esse passo o colocou dentro.

Começou tímido, como se temesse quebrar alguma coisa. Sua mão pousou no quadril da esposa e, dali, devagar, deslizou até encontrar a coxa de Daniela. Ela sentiu a dúvida naqueles dedos e a entendeu: não era desajeito, era respeito. Gostou. Cobriu a mão de Marco com a sua e a guiou, marcou o ritmo, ensinou onde a pele pedia mais pressão e onde bastava um leve roçar.

— Assim — sussurrou —. Não tenha medo do que ela quer.

Ingrid, ao seu lado, soltou um som grave quando as duas mãos — a própria e a do marido — a percorreram ao mesmo tempo. Daniela virou a cabeça e encontrou a boca dela. Foi um beijo sem pressa, daqueles que se dão quando já não há mais nada a provar, só coisas a sentir.

***

O círculo respirava como um único corpo. Os homens que as sustentavam no ar moviam os braços com uma coordenação que ninguém havia ensaiado, erguendo-as e baixando-as alguns centímetros, embalando-as, enquanto outras mãos buscavam entre as dobras, entre as coxas abertas, na curva das costas. Daniela já havia perdido a conta de quantos eram. Deixara de importar.

O que ela sentia não era uma única coisa. Era uma boca se fechando sobre seu peito enquanto outra percorria seu ventre. Eram os dedos de Ingrid encontrando-a exatamente onde precisava, com a precisão exata de quem conhece o próprio corpo e o projeta no de outra mulher. Era o hálito de Marco em sua nuca, cada vez mais entrecortado, enquanto ele entrava e saía da troca entre as duas sem saber muito bem a qual das duas pertencia em cada instante.

— Olha pra mim — pediu Ingrid em algum momento, com a voz rouca.

Daniela olhou. E enquanto a olhava, enquanto os dedos da loira se enterravam nela e as mãos alheias a sustentavam no ar, algo se partiu dentro dela da melhor maneira possível. Não foi um grito. Foi um tremor longo que subiu por suas pernas e a deixou sem forças, pendurada nos braços de gente que nem sequer sabia nomear, com o rosto afundado no pescoço de uma mulher que conhecia havia uma hora.

***

Quando o prazer começou a ceder, o círculo percebeu. Percebeu sem palavras, como havia feito com todo o resto. Os homens, com movimentos pausados, começaram a baixá-las. Primeiro Daniela, que tocou a areia com os pés e sentiu o chão voltar a ser chão. Depois Ingrid, depositada com um cuidado que contrastava com a intensidade dos minutos anteriores.

Marco foi o último a soltá-las. Suas mãos ficaram um instante a mais sobre a cintura das duas mulheres, como se esse contato final selasse algo que ele também não saberia explicar depois. Quando finalmente as soltou, fez isso devagar, olhando para ambas com uma mistura de gratidão e assombro.

Daniela, ainda ofegante, estendeu a mão e tocou o ombro do homem que estava mais perto. Um gesto silencioso de agradecimento, sem promessas nem nomes. Dedicou um sorriso a Marco, que tinha sido o elo entre Ingrid e ela, a ponte pela qual as duas acabaram se encontrando.

Ingrid se virou e buscou seus olhos. Não havia palavras entre elas, mas também não eram necessárias. Tinham compartilhado algo que não cabia em nenhuma etiqueta — nem traição, nem jogo, nem simples desejo — e agora o levavam gravado na pele, naquele cheiro de sal e óleo que levaria dias para ir embora de todo.

***

Os homens não se retiraram de imediato. Alguns se sentaram na areia, outros ficaram de pé, observando-as com uma calma estranha, quase reverente. Ninguém falava. O ar estava carregado de um silêncio que não pedia para ser quebrado. Até mesmo os que nunca tinham se atrevido a cruzar o limiar do círculo, os que tinham olhado de suas toalhas, pareciam sentir o peso do que acabara de acontecer.

Daniela se inclinou para Ingrid e, com um sorriso ao mesmo tempo brincalhão e solene, tomou-lhe a mão.

— Vem — disse.

Juntas, deram um passo em direção à água, deixando para trás as marcas de seus corpos na areia. As ondas acariciaram seus pés, frescas depois de tanto calor de pele contra pele. Daniela fechou os olhos por um instante. Sentia o corpo pesado e leve ao mesmo tempo, esvaziado e cheio, como depois de algo que nunca se pode repetir exatamente da mesma forma.

O mar lhes chegou aos joelhos. A água levou os restos físicos do momento — o óleo, o suor, o cansaço —, mas deixou intacto o resto, aquilo que não tinha nome e que as duas sabiam que iam se lembrar.

***

Atrás delas, os homens começaram a se mover. Alguns voltavam para suas toalhas, outros olhavam o horizonte como se tentassem organizar o que tinham vivido. Nenhum saía do círculo igual a como tinha entrado. Os rostos que antes mostravam desejo ou incerteza agora refletiam algo mais sereno, como se aquela tarde tivesse tocado em cada um um lugar que costumavam manter adormecido.

Marco caminhava diferente. Mais tranquilo, mais inteiro. Procurou a mulher com o olhar e, quando Ingrid se virou da água e sorriu para ele, Daniela entendeu que entre os dois nada havia sido quebrado. Pelo contrário. O que tinham feito os aproximara, lhes abrira uma porta que já não poderiam fechar completamente.

— Você está bem? — perguntou Daniela à loira, em voz baixa.

— Melhor do que bem — respondeu Ingrid, apertando-lhe a mão —. E você?

— Vim sem saber o que procurava. Acho que encontrei.

Ingrid riu, uma risada franca que se misturou ao som das ondas.

— Ninguém sabe o que procura quando entra. Essa é a graça.

***

As duas mulheres, de pé na água até os joelhos, se viraram para olhar o círculo uma última vez. Em seus rostos não havia arrogância nem triunfo. Só uma calma plena, a de quem cumpriu um propósito que mal entende. Daniela ergueu uma mão, num gesto quase imperceptível, despedindo-se daqueles que tinham compartilhado a tarde com elas.

O sol terminou de afundar no horizonte e a praia ficou banhada por sombras suaves. As ondas seguiram sua dança de sempre, indiferentes e eternas, e a areia — marcada pelo peso dos corpos — começou a apagar as pegadas. As pegadas, não a memória.

Aquela tarde na Cala del Sauce ficaria gravada em cada um dos que estiveram ali. Não como uma história que se conta, porque certas coisas perdem tudo quando ditas em voz alta. Mas como uma lembrança que volta sozinha, no meio da noite, quando o corpo se lembra do que a cabeça prefere calar.

Daniela soltou a mão de Ingrid e caminhou até sua toalha. Recolheu a roupa devagar, sem pressa de se cobrir. Antes de se vestir, ficou um momento olhando o mar escuro, com o sal secando na pele, e pensou que voltaria. Não pelo sexo, ou não só por isso. Voltaria por aquela sensação estranha de pertencer a algo durante uma hora, sem que ninguém lhe pedisse para ser ninguém em particular.

À sua espalda, o círculo se desfazia como havia se formado: em silêncio, sem despedidas, deixando apenas a marca morna do que foi compartilhado e a promessa muda de que, quando o verão tornasse a cair, alguém reacenderia de novo a faísca na areia.

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