Os hormônios me transformaram na mulher de Mateo
Prometi que seria sua mulher, não importa o preço. Eu não sabia que cada dose iria me apagando, até meu corpo deixar de ser meu.
Prometi que seria sua mulher, não importa o preço. Eu não sabia que cada dose iria me apagando, até meu corpo deixar de ser meu.
Comprei umas meias pretas com o coração na garganta, sabendo que, assim que trancasse a porta de casa, viraria a mulher que vinha imaginando o dia todo.
Naquela manhã, minha irmã me emprestou seu nome, seu vestido e sua vida inteira. À tarde, um garoto me olhou como ninguém jamais olhara e, pela primeira vez, eu me reconheci.
Oito anos no exterior me transformaram na mulher que eu sempre fui. Mas, ao cruzar a porta de casa, encontrei primeiro o olhar faminto de Mauricio.
Passada a meia-noite, coloquei os saltos vermelhos, abri o portão com o controle e saí para caminhar. Só queria me sentir vista. Não esperava que alguém parasse.
Eu fumava desde os dezoito e nada tinha conseguido me fazer parar. Até minha mulher encontrar aquela doutora de saltos impossíveis e sorriso de predadora.
Saí daquela reunião com o sangue fervendo. Nessa noite eu não queria brincar de leve: queria destruir os dois meninos que me esperavam de joelhos no colchão.
Marcos me pediu que eu estivesse lindíssima quando ele voltasse para casa. Enquanto Carla arrumava meu cabelo, lembrei tudo o que fiz para ser dele e o que ainda estava disposto a entregar.
Toquei-o por um instante e a maciez da renda despertou algo adormecido. Nessa noite, sonhei que o vestia — e soube que voltaria por ele.
A primeira vez quase não doeu; desta vez montei nele e marquei o ritmo, decidida a mostrar tudo o que tinha aprendido a sentir.
Todo domingo, quando ela saía, eu abria o armário dela e me transformava em outra pessoa diante do espelho. Naquela tarde, ela esqueceu as chaves e voltou antes da hora.
Diante do espelho eu deixava de ser Sebastián. Vestia as meias, a saia, o perfume dela e me transformava na mulher que ninguém sabia que eu trazia dentro.
Dois homens entram na vitrine achando que são intocáveis. Só um sairá como entrou; o outro, o público já decidiu transformar em algo doce, obediente e para sempre diferente.
Eu disse aos meus pais que passaria o dia com uma amiga. Na verdade, ia à casa de Renata, onde me esperavam uma peruca, uma gaiola rosa e um homem que sabia o que queria de mim.
Guardei o número dele como «S.1». Dois dias para me arrepender e nem uma vez quis fazer isso: eu queria que me usassem de novo, pior que da primeira vez.
«Boa noite, princesa», minha esposa sussurrou no meu ouvido. E algo dentro de mim, algo que ela plantara semanas antes, respondeu como se esperasse por esse nome a vida toda.
Dirigia à noite transformada em outra mulher e ninguém sabia. Bastou um descuido numa parada para que ele descobrisse quem eu era de verdade.
O armário do senhorzinho guardava um uniforme preto com touca branca, e dom Aurelio lhe garantiu que, assim que o vestisse, deixaria de ser Marcial para sempre.
Eu já vinha um ano olhando aquele brinquedo na gaveta sem coragem. Nessa noite, com a camisola de renda e o cadeado fechado, soube que enfim ia me deixar abrir inteira.
Eu implorei por meses por uma sessão. Quando finalmente entrei no estúdio dela, entendi que ela não tinha me chamado para fotografá-la, mas para me ensinar a obedecer.