Carta ao homem que se rende toda vez que me lê
Eu sei exatamente o que você faz com uma mão enquanto segura o telefone com a outra. Por isso esta carta é só para você, e você vai obedecer a cada linha.
Eu sei exatamente o que você faz com uma mão enquanto segura o telefone com a outra. Por isso esta carta é só para você, e você vai obedecer a cada linha.
Quando o técnico consertou meu computador, pensei que tudo tinha acabado. Não sabia que ele já conhecia Marina, meu segredo mais bem guardado, e pretendia usar isso contra mim.
Todas as tardes, ao voltar da faculdade, guardava as roupas masculinas na gaveta de baixo, como quem esconde provas de um crime. E descia a escada de saltos.
Aos dez anos minha mãe entendeu antes de mim quem eu era. Vinte anos depois, olho meu corpo no espelho e enfim reconheço a mulher que sempre fui.
Quando abri minha mala na cabana, não havia nada meu: só calcinhas de renda, saias curtas e maquiagem. Carla me olhou com calma e disse que essa era minha única chance.
Quando o apartamento ficava vazio, eu abria a gaveta da minha mãe e me transformava em outra pessoa. Naquela tarde, uma sombra na janela mudou tudo.
Eu fazia a mesma brincadeira com minha mulher na cama havia anos. O que eu não sabia é que ela tinha anotado cada palavra e que aquela viagem à costa tinha um plano.
Eu a vi comandar a mudança com aquela voz rouca e soube que não conseguiria tirá-la da cabeça. O que eu não imaginava era tudo o que ela escondia sob o corset.
Ela cruzou as pernas na minha frente e algo não encaixava. A voz era doce, mas as mãos grandes demais. Levei dias para entender o que tinha me roubado o sono.
Aceitei ajudá-las com o concurso da faculdade. Não imaginei que, diante daquele espelho, maquiado e com aquele vestido justo, deixaria de me reconhecer.
A primeira vez que entrei no consultório dele, fui de cabeça baixa e com um vestido emprestado; saí de lá me sentindo, enfim, eu mesma.
Ia para o escritório com o plug no lugar e as meias sob a roupa, sonhando com o que minha mulher faria comigo quando voltasse. Nessa noite, no palco, tudo mudou.
Toda noite, antes de dormir, Carla me sussurrava «boa noite, princesa». Levei meses para entender que essa palavra não era uma brincadeira, mas uma ordem.
Coloquei a saia por baixo da calça, entrei no carro e deixei que ele escolhesse meu nome. Naquela noite, parei de fingir o que não era.
Era uma brincadeira: colocar em mim a gargantilha rosa em troca de uma pizza. Mas apertei o botão e deixei de ser eu. Outra pessoa passou a mover meu corpo por dentro.
Ele bebeu o líquido violeta só uma vez, por vingança. Mas o novo corpo aprendeu naquela noite algo que sua mente de homem jamais poderia esquecer.
Ela deixou os baús sobre a cama e me mandou provar cada peça. Naquela noite, entendi que a viagem não era um destino, mas a prova de quanto eu lhe pertencia.
Avancei ao lado da minha patrocinadora, não atrás dela como os outros casos. Eu era o mais bem avaliado, e naquela noite todas queriam me comprar.
Nunca tinha descido mais de três degraus vestido de Lía. Naquela tarde, com a renda branca roçando minhas coxas, decidi que chegaria até a rua.
Eu me barbeava, colocava a peruca e os saltos, e falava com a câmera como se alguém fosse aparecer de verdade. Numa noite, alguém apareceu.