O amor proibido com meu aluno terminou naquela noite
Apenas havíamos dormido. O céu começava a clarear quando percebi que fazia duas horas que eu encarava o teto, contando as rachaduras como se fossem uma prova. Iker respirava ao meu lado de maneira irregular. Eu sabia que ele também não estava dormindo.
Às sete, o despertador tocou. Desliguei-o antes que terminasse a primeira nota. Iker se levantou sem dizer nada, foi ao banheiro e, quando saiu, estava com uma camisa azul que lhe caía um pouco grande. O cabelo ainda estava molhado, e os olhos, marcados pelo cansaço.
—Pronto? —perguntei, embora a pergunta fosse desnecessária.
Ele assentiu sem me olhar.
—Tenho que estar.
Saimos de casa quando a rua ainda estava vazia. Caminhamos um ao lado do outro, sem nos tocar, mas contando os passos do outro. Um carro passou em disparada. Uma mulher varria a entrada de um prédio e nos olhou sem curiosidade.
Em frente à delegacia, parei. Olhei para a porta de vidro. Senti o medo subir devagar do estômago, como uma maré.
—Se não entrarmos agora, nunca entraremos —disse Iker, e sua voz soou mais firme que a minha.
Respirei fundo e empurrei a porta.
O agente de plantão demorou alguns segundos para erguer os olhos do computador. Fui até o balcão. Apoiei as mãos na madeira fria para que não desse para notar que tremiam.
—Queremos registrar uma denúncia —disse.
—Por qual motivo?
Engoli em seco.
—Por chantagem. Por agressão sexual. Por estupro.
O agente mudou de postura. Pegou um formulário. Pediu que esperássemos numa sala anexa. Iker se sentou ao meu lado e, sem que ninguém visse, deslizou a mão até tocar a minha com a ponta dos dedos. Só isso. Mas foi suficiente para eu não me levantar e sair correndo.
Quando voltamos para casa, depois de horas de depoimentos, formulários e olhares pesados demais, compreendi que tínhamos cruzado uma linha da qual já não podíamos voltar. E, pela primeira vez em meses, o único sentimento que tive foi alívio.
***
O dia no fórum cheirava a papel velho e nervos mal disfarçados.
A sala de espera estava cheia de gente que evitava se encarar. Os advogados sussurravam com seus clientes num canto. O porteiro passava de vez em quando com uma pasta debaixo do braço. O silêncio era denso, quebrado apenas pelo som de uma porta se abrindo e pelo tic-tac monótono de um relógio de parede.
Iker estava sentado ao meu lado com as mãos apertadas sobre os joelhos. Eu já tinha dito várias vezes para ele respirar. Ele não me fazia caso, ou não conseguia. Estava com um suéter cinza largo demais e uma calça jeans folgada na cintura. Parecia mais novo do que era, e isso me doeu.
Então a porta do fundo se abriu e eu o vi entrar.
Marcos.
Não havia mudado. Andava com a mesma segurança de sempre, os ombros jogados para trás, o queixo um pouco erguido, aquela postura que, em outra época, teria me feito desviar o olhar. Mas havia algo diferente em seu rosto. A mandíbula estava tensa. As rugas ao redor dos olhos pareciam mais profundas. A máscara começava a rachar.
Ao seu lado vinha uma mulher de uns sessenta anos, com o cabelo tingido de um castanho impossível e uma bolsa apertada contra o peito como se fosse um escudo. Era a mãe de Iker. Reconheci-a pelas fotos que ele me mostrara no verão anterior. Ela caminhava olhando para frente, sem desviar o olhar do filho nem por um segundo.
Marcos nos viu. E sorriu.
Aproximou-se o suficiente para que a voz dele não chegasse mais longe que nós dois.
—Isso não vai terminar do jeito que vocês pensam —murmurou.
Senti o corpo de Iker se tensionar como uma corda. Mas ele não respondeu. Olhou para Marcos com uma calma que até a mim surpreendeu.
—Ainda dá tempo de voltar atrás —insistiu Marcos.
A mãe dele, que até aquele momento permanecera atrás como uma sombra, deu um passo à frente.
—Isso é uma loucura —disse em voz baixa, olhando para mim—. Vocês estão destruindo uma família inteira por causa de uma história contada pela metade.
As palavras me atravessaram. Não soube se o que senti foi raiva ou nojo. Encobridora. Era essa a palavra exata. Eu sempre soubera, mas ouvi-la dizer isso assim, em voz alta, tornou tudo definitivo.
Iker não desviou os olhos dela.
—Você sabia —disse, sem erguer a voz—. E não fez nada.
A mulher abriu a boca, mas não encontrou resposta.
A porta do fundo voltou a se abrir e uma voz chamou o nome de Iker. O momento havia chegado. Levantamo-nos ao mesmo tempo. Não olhei para trás.
***
Quando saímos do prédio, o sol batia forte no rosto. Havia um instante de irrealidade naquela luz tão branca depois de tantas horas presos ali dentro.
E então a vi.
Carla.
Ela estava encostada num poste de luz, de braços cruzados, olhando para a entrada principal. Usava um vestido azul-escuro, sem maquiagem, o cabelo preso num rabo de cavalo baixo. Não parecia surpresa em nos ver. Parecia estar nos esperando.
Parei a uns dois metros dela.
—Oi —disse.
—Oi —respondi.
Nos olhamos sem saber o que fazer com as mãos. Passaram-se alguns segundos longos, densos demais.
—Já sei de tudo —acrescentou, por fim.
Senti o ar me abandonar o peito.
—Na cidade inteira não se fala de outra coisa —continuou—. O que aquele homem fez. O que fez com você. O que fez com ele.
Ela olhou para Iker. Iker abaixou os olhos.
—Sinto muito —disse Carla.
Aquela palavra me desorientou tanto que precisei pigarrear antes de falar.
—Você?
—Achei que o problema fosse você —respondeu—. Achei que você tinha mentido para mim todos esses anos por capricho. Por crueldade. E, na verdade, eu não entendia nada.
Balancei a cabeça devagar.
—Não menti por capricho.
—Eu sei.
Ela baixou os olhos por um instante. Quando os ergueu de novo, as pestanas estavam úmidas, mas ela não chorava. Carla nunca chorava na rua.
—Me doeu muito o que aconteceu. Mais do que eu conseguiria te explicar. Mas entendo que você não podia continuar vivendo uma mentira só para me manter em paz.
Engoli em seco.
—Acho que nunca te conheci por inteiro —acrescentou.
—Nem eu me conhecia de verdade —respondi.
Carla deu um passo à frente. Por um segundo pensei que fosse me abraçar. Não o fez. Apenas pousou a mão no meu ombro, devagar, como quem confere se algo é real.
—Não quero continuar te odiando —disse—. É exaustivo.
Ri sem querer, uma risada quebrada.
—Entendo.
—Prefiro entender —acrescentou—. Ainda que leve meses.
Ela assentiu para Iker. Não foi um sorriso, mas também não foi um gesto de rejeição. Algo intermediário. Algo mais generoso do que eu merecia.
—Cuida dele —disse apenas.
E foi embora.
***
A casa estava em silêncio quando entramos.
Não o silêncio pesado dos dias anteriores, mas outro diferente, mais suave, quase líquido. Fechei a porta devagar. Iker ficou parado no meio da sala, olhando ao redor como se não reconhecesse totalmente o lugar.
—Estamos aqui —murmurei, e não soube muito bem por que disse aquilo.
Ele se virou. Olhou para mim sem máscaras. Havia algo novo em seu rosto: uma calma frágil, como se ainda não conseguisse acreditar que o pior estava começando a ficar para trás.
Cheguei perto devagar. Ergui a mão e rocei sua bochecha com a ponta dos dedos. Senti a pele dele morna, levemente úmida de suor do dia. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquele contato fosse tudo de que o corpo dele precisava para relaxar.
Apoiou a testa na minha. A respiração dele se misturou à minha, quente, ainda irregular. O contato era leve, mas carregava algo diferente das outras vezes. Não urgência, não medo, não clandestinidade. Outra coisa.
Foi ele quem diminuiu a distância primeiro. Os lábios dele roçaram os meus com uma suavidade contida, como se temesse quebrar algo delicado. Respondi do mesmo modo, devagar, deixando o calor começar a se espalhar pelo peito. O beijo foi ficando mais profundo aos poucos, sem brusquidão, com uma naturalidade que parecia inevitável.
As mãos dele buscaram minha cintura. As minhas, suas costas. Senti, sob o tecido da camisa azul, o leve tremor das escápulas, o esforço para não se precipitar, para não transformar aquele momento numa repetição da ansiedade de outras noites. Desabotoei o primeiro botão com os dedos um pouco desajeitados, depois o segundo, e o tecido se abriu o bastante para revelar a pele pálida do peito, o movimento rápido da respiração, a clavícula marcada. Ele fez o mesmo comigo, enfiando as mãos por baixo da minha camiseta, levantando-a devagar até passá-la por cima da minha cabeça. O ar da sala roçou minha pele de repente e eu me arrepiei.
Ficamos um instante nos olhando em pé, meio nus, como se o corpo um do outro fosse um território recém-descoberto. Iker acariciou meu flanco com a palma aberta, percorrendo a curva das costelas até o quadril. Eu enfiei uma mão sob o cós da calça dele, senti o calor acumulado ali, a firmeza crescente do pau já se endurecendo contra o tecido. Engoli em seco. Ele fechou os olhos e soltou um som baixo, quase um gemido, quando deslizei a mão um pouco mais para apertá-lo por cima da cueca.
—Não para —murmurou, com a voz quebrada pela respiração.
Não parei.
Deixamo-nos cair na cama sem nos desgrudarmos de todo. O colchão cedeu devagar, e por um segundo ficamos enroscados, pernas e braços, boca e pescoço, pele com pele. Tirei a calça dele com as duas mãos, puxando o tecido devagar até ficar na altura das coxas, e depois a removi por completo junto com a cueca. O pau dele saiu para o ar, duro, quente, apontando para o ventre. Não desviei o olhar. Estava bem marcado, a pele lisa, a cabeça escura e úmida. Iker me olhou nos olhos enquanto eu o envolvia com a mão e começava a me mover lentamente, da base à ponta, extraindo cada pulsação da ereção dele.
Ele soltou um arquejo e ergueu o quadril por instinto.
—Porra... assim —disse—. Assim, não para.
Inclinei-me sobre ele e chupei seu pau primeiro pela ponta, devagar, lambendo a glande com a língua para provar o gosto salgado da pele dele e a gota de líquido pré-gozo que já aparecia. Depois o levei inteiro à boca até onde consegui, sentindo o peso firme contra a língua, o calor que me enchia a boca e a pressão das mãos dele segurando minha cabeça sem apertar, como se não quisesse perder nem um segundo do que estava acontecendo. Movi a boca para cima e para baixo, sugando com força contida, alternando com a mão na base para que ele não escapasse de mim. Iker começou a respirar mais rápido, a barriga tensa, as coxas abertas, os dedos afundados nos lençóis.
—Olha como você chupa meu pau —murmurou, a voz reduzida a um fio—. Assim, sim. Como você me faz bem.
Cuspi um pouco sobre a glande e voltei a descer, engolindo-o outra vez até notar como os abdominais dele se contraíam a cada investida curta do quadril. O som úmido da minha boca, o atrito da saliva, o gemido baixo que ele tentava conter e não conseguia, encheram o quarto de uma tensão espessa, viva. Quando percebi que ele estava prestes a gozar, afastei-me apenas o suficiente para ele respirar, para não deixar o corpo dele ir de vez. Ele soltou um protesto frustrado, agarrou-me pela nuca e me beijou com a boca ainda encharcada dele, feroz, faminto.
—Agora você —disse, ofegante contra meus lábios—. Quero ver você escancarado para mim, porra.
Ele me deitou de costas e tirou o resto da roupa com uma urgência controlada, como se já não conseguisse continuar fingindo paciência. Senti o ar na pele nua, o colchão sob as costas, o roçar das mãos dele me separando as pernas. Ele beijou a parte interna da minha coxa, depois a virilha, e foi descendo com a boca até encontrar meu pau duro, pulsando entre o calor da sua respiração. Lambuzou-o de cima a baixo, contornando-o com a língua, chupando a ponta, e depois o levou mais para dentro, até me fazer tremer de puro excesso de sensação.
—Olha o que eu faço com você —sussurrou, sem parar de lamber—. Vou te deixar doido.
Enterrei os dedos no cabelo dele, respirando em soluços. Queria aguentar o ritmo dele, mas eu estava sensível demais, cheio demais daquele nervo delicioso que começa nos ovos e sobe pela coluna. Quando senti que ia gozar na boca dele, me afastei com um gemido e o puxei para ficar sobre mim.
Nos acomodamos de forma desajeitada, ajustando os quadris, as pernas, a respiração. Iker se pôs de joelhos entre minhas coxas e me olhou por um segundo como se precisasse de confirmação. Assenti. Então ele se masturbou algumas vezes para se umedecer mais, guiando a ponta do pau contra minha entrada enquanto eu me abria para ele, já tremendo de expectativa. A primeira investida doeu apenas um pouco, uma ardência curta que logo se transformou em pressão, em preenchimento, naquela sensação brutal de ser invadido e tomado com uma precisão que me fez soltar o ar de uma vez. Iker ficou parado dentro de mim por um segundo, os olhos cravados nos meus, como se estivesse me dando tempo para me acostumar.
—Me diz se quiser que eu pare —murmurou.
—Não para —respondi, com a voz em pedaços.
Então ele começou a se mover. Primeiro devagar, puxando quase todo o pau para fora e voltando a entrar com um empurrão medido, aprofundando aos poucos até roçar por dentro num ponto que me arrancou um gemido involuntário. Cada investida fazia a pelve dele bater na minha com um som surdo, úmido, e o colchão rangia sob nosso peso. Ele me agarrou pelos quadris para sustentar o ritmo, e eu o envolvi com as pernas, me abrindo mais, querendo senti-lo ainda mais fundo. Ele respondeu se enterrando com mais decisão, cravando o pau até o fundo, chocando-se contra mim com uma intensidade que me deixou a garganta aberta.
—Assim, porra —disse entre os dentes—. É assim que você tem que me receber.
Vi o pescoço dele manchado de suor, a mandíbula tensa, o peito subindo e descendo com violência. Eu também estava encharcado, agarrado a ele como se minha vida dependesse disso, sentindo como cada entrada e saída me fazia tremer do ventre até a ponta dos pés. Ele acariciou minha bunda com uma mão, apertando e abrindo a carne com impaciência, e depois me virou um pouco para encontrar um ângulo melhor. Mudou de posição sem perder o contato, me fazendo ficar de lado e depois de costas outra vez, de novo e de novo, até descobrirmos o ritmo exato em que os dois gemíamos ao mesmo tempo. Em uma dessas investidas, ele meteu dois dedos rápidos entre minhas nádegas, úmidos de saliva, e me abriu mais, fazendo o atrito ficar selvagem, quase insuportável, enquanto o pau continuava entrando e saindo com uma precisão suja que me fez arquear as costas.
—Você é incrível —murmurou, com a voz quebrada—. Você me deixa louco.
Eu não conseguia responder. Só o empurrava contra mim, só o recebia, só deixava o prazer se acumular na base do ventre como uma descarga cada vez mais difícil de suportar. O ruído dos nossos corpos, o arquejo desigual, o som úmido da pele, o roçar dos ovos dele contra minha bunda, tudo se misturava numa mesma onda. Senti-o tremer por fim quando começou a me foder mais rápido, menos contido, mais cru. Vi os lábios dele entreabertos, o olhar fixo, quase desesperado. Quis gozar antes dele, mas não tive tempo: ele agarrou meu pau com a mão e começou a me masturbar no mesmo compasso em que se movia dentro de mim, apertando forte logo abaixo da glande, esfregando com a palma cheia de saliva e umidade até que o prazer me partiu em dois.
Gozei com um gemido brutal, o corpo sacudido por uma contração que me deixou sem fôlego, e no instante seguinte senti-o se tensionar dentro de mim. Iker soltou um rosnado abafado, enterrou o rosto no meu pescoço e ficou imóvel, empurrando mais uma vez até o fundo enquanto gozava com força, enchendo-me de sêmen quente em pulsos espessos que me fizeram estremecer de cima a baixo. Senti-o transbordar dentro de mim, o calor da porra se espalhando pelo meu interior, e ele continuou tremendo sobre mim, respirando em golfadas, até finalmente relaxar os braços e cair ao meu lado.
Ficamos em silêncio por muito tempo depois disso.
O quarto estava em penumbra, iluminado apenas pela faixa de luz que entrava pela persiana. Eu acariciava suas costas com movimentos lentos, quase automáticos, tentando gravar na memória cada segundo, cada ângulo, cada respiração.
Sabia que tinha que falar. Mas não encontrava a forma.
—Iker —murmurei por fim.
Senti o corpo dele se tensionar um pouco.
—Sim?
Minha mão parou sobre a coluna dele.
—A gente precisa conversar.
Ele não se afastou. Ergueu-se devagar até ficar de frente para mim, sentado sobre os calcanhares. Os olhos dele estavam tranquilos, mas já pressentiam o que vinha.
—Meus tios falaram comigo —disse antes que eu pudesse continuar—. Vou morar com eles por alguns meses. Talvez um ano.
Olhei para ele sem entender totalmente.
—Você vai embora?
Ele assentiu.
—Preciso me afastar de tudo isso. Da cidade. Da minha mãe. Dos olhares. Das pessoas que, quando me veem na rua, se calam. Preciso recomeçar em algum lugar onde ninguém me conheça.
Senti uma mistura estranha de alívio e dor no mesmo suspiro.
—Acho que é o melhor —acrescentou, quase para si mesmo.
Olhei para ele em silêncio por alguns segundos.
—Iker, o que existe entre nós não pode continuar —disse.
Vi sua expressão se partir um pouco. Uma rachadura finíssima, controlada.
—Eu sei —respondeu em voz baixa.
Aquela resposta doeu mais do que eu esperava.
—Eu te quero demais —continuei— para estragar sua vida.
Ele baixou os olhos.
—Você tem dezenove anos. Está começando tudo. Descobrindo quem é, do que gosta, do que não gosta, onde quer morar, o que quer estudar. Você precisa se apaixonar e se desapaixonar muitas vezes. Precisa errar sem que ninguém diga se o que faz é certo ou errado.
Fiz uma breve pausa.
—Eu tenho trinta e seis. Estou em outro momento. Em outra fase. Não quero ser quem vai te prender a uma história que não deixe você viver as que ainda tem pela frente.
Iker ergueu os olhos. Estavam brilhantes, mas ele não chorava.
—Você não está me rejeitando —disse.
Balancei a cabeça devagar.
—Nunca.
Cheguei um pouco mais perto.
—Estou tentando cuidar de você. Pela primeira vez na vida, tentando cuidar de alguém sem pedir nada em troca.
Os lábios dele tremularam um pouco.
—Eu também te quero —murmurou.
Senti o nó apertar a garganta.
—Eu sei.
Iker pegou minha mão. Apertou com força, como se quisesse deixar marca.
—Isso não foi um erro —disse.
Balancei a cabeça com firmeza.
—Nunca. Nada disso foi um erro.
Nos olhamos durante longos segundos, tentando memorizar o rosto um do outro como quem revisa uma foto antes que ela apague.
—Você acha que vamos nos ver de novo? —perguntou.
—Sim —respondi—. Um dia.
Fiz uma pausa.
—Quando tudo isso for só uma lembrança. Quando pudermos falar disso sem que doa.
Ele assentiu devagar.
—E então... o que vamos ser?
Olhei fixamente para ele.
—Duas pessoas que se quiseram de verdade. E que tiveram coragem de saber quando se soltar.
Iker se inclinou para mim e apoiou a testa na minha, igual havia feito horas antes na sala. Permanecemos assim por muito tempo, respirando juntos, sem precisar acrescentar nada.
Foi uma despedida feita de cuidado. De respeito. Do amor que só se atreve a ir embora quando entende que ficar é pior.
Algumas histórias não foram feitas para durar para sempre. Só para serem lembradas a vida inteira.


