O namorado o vestiu de coelhinho para sair à rua
A estreia de Adrián do outro lado do Atlântico não era apenas uma notícia esportiva para quem o acompanhava desde Vigo. Para Téo e Nico, era uma desculpa perfeita, o pretexto que levavam semanas esperando para voltarem a se encontrar.
A partida seria de madrugada por causa do fuso horário: começava às onze da noite na Espanha e terminava depois da uma, quando a cidade dormia e só eles continuavam acordados.
Uma hora de trem os separava. Téo morava na cidade; Nico, num povoado do interior. Convencer a mãe de Nico foi um exercício de paciência e meias verdades sussurradas ao telefone.
—Mãe, por favor, é a estreia de Adrián, a gente o conhece da viagem. Téo tem lugar na casa dele e os pais dele vão me preparar um colchão no chão. Volto amanhã cedo, juro —implorava Nico, andando pelo quarto com o celular colado à orelha.
—Não sei, filho —suspirou ela do outro lado—. Esse Téo me dá uma má impressão. É tão… estranho, com essa maneira de se vestir. Não quero que você ande com gente que não sabe o que é ser um homem como Deus manda.
As palavras picavam como farpas, disfarçadas de preocupação. Nico cerrou os dentes.
—Mãe, Téo é gente boa. Só é diferente. Ele é importante para mim.
Resmungando, ela cedeu. Me liga assim que chegar e não faça besteira. Os pais de Téo improvisaram uma cama extra, mas os dois guardavam planos muito mais doces: dormir pele contra pele e, antes disso, passar uma tarde inteira brincando com um segredo que haviam preparado desde Chicago.
Nico escondeu na mochila o conjunto de coelhinho que Téo lhe havia dado, um tecido macio como uma promessa. Téo, por sua vez, vinha passando dias vendo tutoriais de maquiagem à luz azul da tela e comprando tudo o que precisava: sombras, delineador, um batom que brilhava como um beijo úmido. Queria transformar Nico na criatura de seda com que ambos fantasiavam.
—Já está no trem? —escreveu Téo assim que recebeu o aviso.
—Saindo. Chego em uma hora.
—Você está com ele?
—Claro. E o meu também funciona.
O outro segredo eram dois brinquedos vibratórios, controláveis pelo celular: gêmeos, um preto para Téo, outro rosa para Nico. Tinham comprado em promoção no último dia de viagem, com a promessa de estreá-los justamente hoje.
***
Nessa mesma manhã, eles se conectaram por videochamada, cada um em seu banheiro, os torsos nus diante da câmera. Téo conduzia com voz rouca, segura.
—Primeiro o creme depilatório —disse, mostrando o tubo—. Espalha bem, amor: tronco, pernas, púbis. Deixa dez minutos. Arde um pouco, mas depois fica tudo lisinho.
Nico obedeceu, vermelho até as orelhas, as mãos trêmulas enquanto o cheiro adocicado do creme invadia o quarto. Quando o retirou debaixo do chuveiro, a pele ficou macia como pétala.
—Caralho, que estranho eu me sinto —murmurou—. Exposto. Mas me excita.
—Você é perfeito —respondeu Téo da tela—. Isso nos faz sentir mais perto. Agora a limpeza. Devagar, relaxa.
Seguiu cada instrução com uma desajeitada vergonha, os gemidos sutis escapando quando percebia o olhar cúmplice do outro do outro lado. Quando terminaram, ambos respiravam ofegantes, os corpos já tensos de expectativa.
—Os brinquedos a gente coloca antes de sair de casa —decidiu Téo—. Para vibrarem no caminho.
Minutos antes de irem para a estação, conectaram-se de novo. Lubrificante em abundância, respiração funda, e os dois empurraram ao mesmo tempo, sincronizados, arquejando diante da tela enquanto o corpo cedia centímetro por centímetro.
—Estou cheio —arquejou Nico—. Dói um pouco, mas é bom demais.
—Agora liga por um segundo —pediu Téo.
Um zumbido breve, uma onda de prazer percorrendo os dois ao mesmo tempo, risadas nervosas entrecortadas.
—Desliga. Deixa para depois, quando estivermos juntos.
***
Téo esperava na plataforma com o coração acelerado. Nico desceu do trem com o cabelo rosa desgrenhado pelo vento, a mochila no ombro e um sorriso que dizia tudo. Abraçaram-se forte, os corpos se apertando, um beijo roubado e discreto em que as línguas roçaram os piercings.
—Senti sua falta —sussurrou Nico contra o pescoço dele.
Na casa de Téo, com os pais ainda no trabalho, fecharam a porta do quarto. Téo maquiou Nico com devoção: base leve, olhos esfumados em tons rosados, lábios brilhantes. Depois veio o conjunto: a calcinha rosa ajustando-se, as meias subindo pelas coxas, a saia curta, o suéter plissado e uma tiara com orelhinhas.
O resultado deixou Nico sem fala diante do espelho, os olhos vidrados.
—Quero sair assim para a rua —disse de repente, com uma ousadia que o surpreendeu.
—Você enlouqueceu? —Téo o encarou, mas, ao ver o sorriso dele, cedeu—. Tá bom. Se é o que você quer, a gente faz juntos.
Para si escolheu uma maquiagem sombria —delineador preto, lábios escuros— e um visual de calça cargo justa, coturnos, camiseta sem manga e colete jeans. Saíram do apartamento com o pulso descompassado.
***
Os primeiros metros na rua foram um redemoinho. Andavam colados, as mãos entrelaçadas com força, como se temessem que o feitiço se quebrasse. O coração de Téo martelava sob a camiseta entre o orgulho de ver Nico tão radiante e uma vergonha ardente que lhe subia pelo pescoço ao notar os olhares dos transeuntes.
—Caralho, todo mundo está olhando pra gente —sussurrou Nico, entre a excitação e o pânico.
—Sim, mas olha pra você. Você está lindo. É o que sempre quisemos, não é?
Num canto do centro histórico, um grupo de homens mais velhos os viu passar da varanda de um bar. Um deles, com a voz rouca de tabaco, soltou algo audível:
—Olha isso, o que é isso, um carnaval em plena luz do dia?
Os outros riram baixinho. Nico enrijeceu de repente, a mão apertando a de Téo até doer, o rosto empalidecendo sob a maquiagem. Téo sentiu a raiva subir pelo peito, mas também o instinto de protegê-lo. Virou-se por um segundo, o olhar firme.
—Temos liberdade para ser como queremos. E vocês? Felizes em azedar a vida dos outros?
A voz saiu tranquila, mas cortante. Os homens murmuraram algo e desviaram o olhar. Téo puxou Nico para continuar andando.
—Não liga para eles, amor. Somos mais fortes do que eles —disse, beijando a têmpora dele.
—Com você eu me sinto protegido —respondeu Nico, os olhos agora brilhando com um novo orgulho.
Avançaram até uma rua lateral, sob umas arcadas sombrias que os escondiam do burburinho. Ali, enfim sozinhos, explodiram em risadas nervosas e contagiantes. Nico se dobrava com a mão na boca para não borrar o batom; Téo soltou uma gargalhada que ecoou contra a pedra.
—A gente conseguiu! —comemorou Nico em voz baixa, dando pulinhos que faziam a saia flutuar.
Perseguiram-se por alguns passos como crianças libertas até Téo agarrá-lo num abraço giratório. Vieram carícias suaves, beijos rápidos cuidando para não borrar a maquiagem, as línguas brincando com os piercings.
—Não vamos estragar o look, mas eu te comeria inteiro —riu Nico.
Quando se acalmaram, lembraram-se dos amigos. Téo pegou o celular e fizeram fotos: Nico posando como um coelhinho travesso, a saia erguida de leve sobre as meias; Téo cruzando os braços com atitude desafiadora, o delineador afilando seu olhar. Enviaram na hora.
Adrián, concentrado na prévia da partida, ainda não as viu. Mas Eric, do outro lado, abriu a mensagem e os olhos dele se iluminaram. Fez uma videochamada imediatamente.
—Caras! Vocês saíram assim pra rua? —ria, emocionado.
—No começo a gente pirou com os olhares —respondeu Téo, girando a câmera para mostrar o conjunto—. Mas agora é liberdade total. Pelo Adrián, que hoje ele vai arrebentar!
—Vocês são inspiração —disse Eric—. Adrián vai pirar quando vir. Brilhem por ele.
***
Depois de desligar, com a adrenalina da chamada, o passeio continuou sem inseguranças. E então começou o verdadeiro jogo. Na praça principal, cercados de gente conversando nas mesas das calçadas, Téo sacou o celular com um sorriso malicioso e aumentou o brinquedo de Nico para intensidade média.
O zumbido se intensificou de repente dentro dele. Nico sentiu os joelhos amolecerem contra um muro frio, o lábio preso entre os dentes.
—Aqui não, com tanta gente —sussurrou—. Mas não para.
—Por que não? Ninguém conhece o nosso segredo —respondeu Téo, rouco—. Eu adoro te ver assim, tremendo, e ser o único a saber por quê.
Nico disfarçava os gemidos com uma tosse fingida, o calor se espalhando dentro dele como fogo lento. Nas ruelas estreitas, tomou sua revanche: abriu o aplicativo e ativou de repente o brinquedo de Téo, que se apoiou numa parede para não fraquejar.
—Porra, Nico, isso foi pesado.
—Você mereceu, por causa da praça. E se eu aumentar mais?
—Você está me matando. Mas continua. Eu gosto quando você me controla.
Seguiram assim por um bom tempo, alternando padrões, perseguindo o prazer de um lugar para outro. Num bar de mesas velhas, num canto escuro, Nico apertou a coxa de Téo debaixo da mesa.
—Para ou eu explodo aqui mesmo.
—É exatamente isso que eu quero —respondeu Téo—. Te ver no limite, saber que com um toque eu te faço arfar.
À beira do rio, o vento fresco embolava o cabelo deles enquanto o brinquedo alternava vibrações intermitentes. Beijavam-se escondidos atrás das árvores, a excitação sem descarga, só uma antecipação torturante.
—Não aguento mais, isso é uma tortura gostosa —arquejou Nico.
—É perfeito —Téo sussurrou no ouvido dele, abraçando-o por trás—. Aguenta até esta noite. Vai ser explosivo.
***
No caminho de casa compraram hambúrgueres e batatas para jantar diante da partida. Antes, tomaram banho juntos para retirar os brinquedos: uma retirada um tanto incômoda, risadas, e depois as mãos se ensaboando mutuamente pelos corpos lisos e escorregadios, as bocas se alternando sobre o outro até terminarem com gemidos abafados contra os azulejos. Deixaram o resto para a celebração depois.
Meio saciados, devoraram os hambúrgueres enquanto Adrián estreava de forma brilhante e levava seu time à vitória. Quando soou o apito final, se olharam e souberam que a noite mal tinha começado.
Na cama, compensaram todas as semanas separados. Beijos vorazes com gosto de hambúrguer e desejo, os piercings roçando, as mãos percorrendo cada centímetro conhecido com urgência. Téo o penetrou devagar no começo, olhando nos olhos dele —senti tanto sua falta—, e depois mais forte, os dois arqueando-se, as palmas deixando marcas vermelhas na pele. Revezaram-se, mudaram de posição, recomeçaram entre pausas ternas e investidas intensas, até caírem rendidos ao amanhecer, os corpos entrelaçados, as respirações enfim ritmadas.
***
No meio da manhã, a mãe de Téo entrou no quarto sem avisar. Ergueu a persiana com estrondo e abriu a janela para arejar, enquanto recolhia a roupa jogada pelo chão —o conjunto rosa, o colete jeans— sem esconder certo espanto ao ver os brinquedos esquecidos sobre o tapete.
—Quando se lavarem, venham para a cozinha —disse, serena—. Precisamos conversar.
Tomaram banho juntos em silêncio, desta vez sem sexo, apenas cumplicidade nervosa. Nico estava apavorado.
—Com certeza ouviram tudo.
Téo conhecia os pais, gente aberta que sempre lhe falara de respeito, mas até aquela manhã nunca os havia confrontado com sua homossexualidade de forma tão evidente. Entraram na cozinha constrangidos, o olhar no chão. Quatro xícaras de café fumegavam sobre a mesa de madeira. Carlos, o pai, estava sentado na cabeceira; Marta, em pé, apoiada na bancada.
—A primeira coisa —começou Carlos, medindo cada palavra—: não estamos com raiva. Marta e eu conversamos e queremos que isto seja uma conversa aberta, sem julgamentos. Vocês são jovens, muito jovens. Na idade de vocês é natural explorar, descobrir o que faz vocês se sentirem vivos. Não há nada de errado nisso, desde que haja respeito e consentimento.
Téo sentiu um alívio percorrer o peito, embora o nó na garganta continuasse ali. Olhou de relance para Nico, que mantinha a cabeça baixa, o rubor subindo pelo pescoço.
—Mas, para apoiá-los, precisamos entendê-los um pouco melhor —continuou Carlos—. Desde quando vocês se conhecem? Como tudo começou?
—Nos conhecemos no aeroporto, antes da viagem —respondeu Téo, a voz entrecortada—. Foi como um estalo, pai. Desde o primeiro momento. E, desde então, só estivemos um com o outro. O que aconteceu ontem à noite foi para recuperar o tempo separados, só isso.
Nico não conseguia articular palavra; apenas assentia com movimentos tímidos, os olhos vidrados de emoção contida.
—Obrigado pela honestidade —disse Carlos, soltando o ar—. Nesta casa vocês serão aceitos como são. Parem de fingir diante de nós. Não há nada de errado em se amarem. Somos seus aliados.
Marta, que permanecera calada, aproximou-se e pousou a mão no ombro de Nico, a voz tremendo.
—Mas há um lado escuro, filhos. Há algumas semanas agrediram um rapaz da idade de vocês só por andar de mãos dadas com o parceiro. Existe gente intolerante, e doenças, e perigos. Isso me apavora como mãe. Não posso protegê-los sempre, só pedir bom senso. Cuidem-se.
Algo se partiu dentro de Nico. As palavras de Marta, carregadas de um carinho que ele nunca recebera em sua própria casa, derrubaram a última barreira. As lágrimas lhe rolaram em silêncio.
—É que em casa eu nunca vou ter isso —conseguiu dizer, com a voz quebrada—. Minha mãe não entenderia. Choro porque aqui me sinto seguro. Querido.
Carlos segurou a mão dele por cima da mesa, o polegar esfregando o dorso.
—Se em casa você não pode ser livre, esta porta estará sempre aberta para você. Você faz parte da família.
Marta o abraçou com força, envolvendo-o como um filho próprio. Téo sentiu seu próprio nó se desfazer e se juntou ao abraço, beijando a bochecha de Nico, que retribuiu nos lábios. O café esfriava nas xícaras, mas a cozinha se enchia de uma paz nova: o medo convertido em esperança, a vergonha em liberdade.





