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Relatos Ardientes

Meu primeiro jogo terminou no chuveiro com meus companheiros

O grande dia havia chegado.

O amanhecer da estreia se infiltrou frio e prateado pelas frestas da persiana, tingindo de cinza o quarto do apartamento no centro. A luz pálida contrastava com o calor dos lençóis revirados, onde três corpos ainda estavam enroscados como se a noite se recusasse a acabar.

Bruno acordou primeiro, como sempre que os nervos venciam a batalha contra o sono. O corpo lhe pesava por causa da insônia intermitente, mas o abraço que o envolvia o mantinha em segurança. Ele estava encolhido entre os dois, a cabeça apoiada no peito de Hugo, ouvindo o batimento sereno que golpeava sua orelha como um tambor lento. Atrás dele, Marco o segurava com uma mão firme na cintura, pele com pele, o aroma de suor noturno e loção masculina ao redor dele como um escudo.

Um nó apertava seu estômago. Hoje era o dia. A estreia oficial na liga de desenvolvimento, no grande coliseu do centro, com câmeras, arquibancadas cheias e a pressão de justificar por que o haviam trazido do outro lado do oceano. O peso lhe oprimia o peito como uma mão invisível, a ansiedade e a determinação se chocando dentro dele como ondas contra um quebra-mar.

Sentou-se devagar, tentando não despertá-los, mas Hugo abriu os olhos na mesma hora.

—Nervoso? —murmurou com a voz rouca, puxando-o de novo contra o próprio torso. A mão desceu pelas costas de Bruno e parou na curva baixa, um carinho lento que arrepiou sua pele.

Marco apertou o abraço por trás, o hálito quente em sua nuca.

—Respira —disse—. Hoje é seu. Só seu.

Bruno fechou os olhos por mais um segundo. Sentiu os lábios de Hugo em sua testa e a boca de Marco percorrendo seu ombro sem pressa, sem pedir nada, apenas lembrando-o de que ele não estava sozinho. Quando finalmente se levantou, fez isso com as pernas ainda trêmulas, mas com o medo um pouco menor.

Desceram para a cozinha nus, como mandava o ritual privado da casa. O aroma do café recém-passado enchia o espaço amplo, misturado com o chiado dos ovos na frigideira. Tomaram café da manhã na ilha da cozinha: ovos cremosos, frutas que estalavam ao morder, torradas quentes untadas com manteiga. Os corpos relaxados contrastavam com a mente perturbada de Bruno. O ar fresco da manhã lhe roçava a pele nua, e sob a bancada as coxas se procuravam em toques casuais que lhe devolviam a calma.

—A exposição da mídia vai te comer se você deixar —disse Hugo, pousando sua mão grande e áspera sobre a de Bruno, o polegar esfregando o dorso—. Lembra: você joga por você, por nós, pelo Leo. Não por eles. Seja autêntico e o resto flui sozinho.

Marco acrescentou, a voz grave ressoando no silêncio da manhã:

—Pressão é privilégio. Hoje tem milhares que gostariam de estar no seu lugar. Não sofra com ela, use-a. Visualize o sucesso, mas, acima de tudo, aproveite. A quadra é sua.

Bruno sentiu os olhos marejarem. A gratidão o transbordava como um rio rompendo a represa: esses dois homens o tinham moldado, o tinham recolhido quando ele era apenas uma promessa assustada.

—Sem vocês eu não estaria aqui —disse, e a voz lhe falhou.

Houve um abraço dos três, beijos suaves nos lábios e nos pescoços, os corpos entrelaçados por um instante antes de começarem a se vestir, a pele ainda eriçada pelo contato.

***

Antes de sair rumo ao coliseu, Bruno ligou para Leo por videochamada. Apoiou o celular na bancada enquanto terminava de se vestir. Leo apareceu na tela com um sorriso enorme do apartamento dele, do outro lado da cidade, os olhos brilhando de amor.

—Amor! Hoje é o dia. Você vai destruí-los.

Bruno riu, nervoso, e se virou para mostrar o conjunto escolhido para a ocasião: uma camiseta branca de manga comprida sob o macacão azul-cobalto, o das grandes datas. O tecido macio lhe roçava o torso como um carinho familiar, as alças cruzando seu peito definido, marcando os mamilos que endureciam com a emoção. Tênis pretos firmes no chão, boné combinando jogado para trás com um desleixo calculado.

—E então? Azul da sorte —disse, girando para que ele o visse inteiro.

Leo semicerrou os olhos, a voz de repente rouca.

—Você está incrível. Esse macacão… me lembra nossas primeiras vezes. Como ele moldava seu corpo, como destacava cada músculo. Você vai brilhar. Eu te amo, embora sorte você nem precise.

Despediram-se com um beijo jogado para a câmera e a promessa de comemorar naquela mesma noite. O eco da voz de Leo ficou flutuando no ar mesmo depois que a ligação terminou.

***

O vestiário do coliseu era pura eletricidade. Cheirava fortemente a linimento aquecendo músculos, misturado com desodorante e o suor da antecipação. Uma música grave pulsava de uma caixa de som portátil, os graves vibrando no peito de todos. Alguns companheiros alongavam em silêncio, concentrados; outros conversavam em voz baixa para espantar os nervos. O chão de borracha rangia sob os tênis.

O treinador, um homem de meia-idade com voz de trovão e olhos que pareciam ler a alma, reuniu o time num círculo apertado, as mãos sobre os ombros formando um bloco de pele suada.

—Escutem bem —disse, e o murmúrio foi cortado na hora—. Hoje jogamos em casa, diante da nossa gente, e nossa gente quer ver fome. O adversário é físico, é rápido, mas nós somos mais inteligentes e estamos mais unidos. Defesa agressiva no perímetro, fechamos as linhas. Ataque fluido, bloqueio e corta-luz com Reece dominando o garrafão. Bruno, você entra no segundo quarto para dar descanso a Damon. Leia o jogo, controle o ritmo, abra espaços com sua visão. Não se precipitem. Somos família e saímos para ganhar.

Todos assentiram ao mesmo tempo, os olhos brilhando com uma mistura de medo e fogo. As respirações se sincronizaram. Revisaram o plano diante do quadro, diagramas e atribuições marcados com canetão berrante. O pulso de Bruno acelerou e um suor frio lhe perlou a testa. A hora da verdade. Brilhar ou fracassar.

Mãos entrelaçadas no centro, as palmas se pressionando.

—Um, dois, três… vitória!

***

O momento mais tenso veio ao sair correndo pelo túnel. O coliseu estava lotado até a última cadeira, as arquibancadas rugiam como ondas quebrando contra as rochas, as luzes dançavam em flashes cegantes, os celulares brilhavam como um céu de estrelas explodindo. Cheirava a pipoca e cerveja. A pressão caiu sobre Bruno como uma onda gigante: as pernas amoleceram, sua visão se estreitou num túnel, a respiração ficou curta. Não consigo. É demais. Sai daqui.

O rugido o envolveu como uma maré e as dúvidas o invadiram. Mas o aquecimento foi ancorando-o aos poucos: a bola quicando ritmada contra o parquet vibrante, o arremesso suave entrando limpo na cesta, os tapinhas dos companheiros nas costas. Basquete. Seja você mesmo. Aproveite. O pânico foi se dissipando passo a passo e, no lugar dele, surgiu uma determinação feroz, como o sol depois da tempestade.

O jogo não começou bem. O adversário, físico e veloz, destruía cada jogada desde o salto inicial: defesas sufocantes, contra-ataques relâmpago, roubadas que deixavam a bola solta rolando pelo parquet. Primeiro quarto, doze a vinte atrás. Só os arremessos forçados de Damon e os rebotes na raça de Reece mantinham o time de pé, mas o jogo coletivo estava quebrado e o treinador murmurava ajustes no banco.

Faltando três minutos para o fim do primeiro quarto, antes do previsto, o treinador mudou o plano.

—Bruno, entra! Comanda, acalma o ritmo!

Não era o momento planejado. O pulso disparou. Ele saltou para a quadra e se precipitou nas primeiras ações: um passe interceptado pelos nervos, uma defesa vacilante que abriu espaço para a bola de três do rival, um bloqueio mal lido.

Merda. Se acalma.

O sinal da falta soou e o adversário foi para a linha de lance livre. Bruno se curvou, as mãos nos músculos da coxa, recuperando o fôlego. As pontas dos dedos roçaram a malha de corpo inteiro que ele usava justa sob o uniforme, o tecido colado às coxas suadas. E então um calafrio o percorreu como eletricidade viva.

De repente ele estava de novo na quadra de terra do seu povoado. Sentia o cheiro da grama fresca, ouvia as risadas dos amigos de infância e, acima de tudo, a voz serena de Hugo: Seja você mesmo, o resto flui. A mente clareou como cristal. O corpo ficou fluido, preciso. O suor frio evaporou.

A partir daquele instante, Bruno não saiu mais da quadra. Conduziu com visão de mestre: bloqueio e corta-luz com Malik, um passe picado perfeito que terminou em enterrada e reduziu a diferença.

—Espaço! Movimenta a bola! —ordenava com voz firme.

Ajustou a defesa, fechou as linhas, roubou bolas para correr no contra-ataque. Quando lhe negaram o passe, cravou uma bola de três do canto; quando lhe fecharam o caminho, penetrou e pontuou com falta incluída. O time começou a fluir como um rio descontrolado e o adversário, que minutos antes parecia invencível, se viu sobrepujado. Segundo quarto, parcial de vinte e oito a quinze. Terceiro quarto, doze a zero na saída que explodiu as arquibancadas. Quarto final, suas próprias bolas de três selando a noite.

Cento e dois a oitenta e cinco. Vitória esmagadora. Dezoito pontos, sete assistências, cinco roubos. Melhor jogador da partida sem precisar que ninguém proclamasse isso.

***

A comemoração no vestiário foi uma explosão de risadas e cantos que ecoavam pelas paredes de azulejo. Abraços suados, tapinhas nas costas, o cheiro doce da vitória. Bruno tinha tirado o uniforme oficial, mas ainda estava com a malha de corpo inteiro colada à pele, o tecido ressaltando cada contorno atlético, o suor aderindo a ela até torná-la quase um brilho sobre o corpo.

Damon piscou para ele, a voz rouca e maliciosa.

—Essa malha te deixa invencível, novato. E, porra, você está um espetáculo nela.

Antes que pudesse responder, várias mãos o empurraram em direção aos chuveiros entre gritos.

—O novato na água!

O jato frio desceu em cascata e encharcou o tecido, que ficou transparente na hora. Sob a água se revelaram as formas definidas: o peitoral marcado, o abdômen tenso brilhando, o contorno evidente do seu sexo desenhando-se contra a malha molhada. As brincadeiras subiram de tom, os olhares de Malik e Reece se demoraram mais do que deviam, prolongados, acesos, com um tesão brincalhão pairando no vapor.

O grandalhão do Reece soltou uma risada grave.

—Cuidado, rapazes, ou o do macacão conquista todo mundo com esse visual.

Bruno riu, livre, deixando a água fria levar embora as dúvidas e o suor de todo o dia. Os olhares continuavam sobre ele, e pela primeira vez isso não pesou: ele os sustentou, um a um, sem baixar os olhos. Sabia o que provocavam aqueles corpos masculinos se roçando entre o vapor, o que diziam sem dizer naquele salão de azulejos molhados e risadas guturais. E gostou de saber.

O vapor subia misturado com o aroma do sabonete. Do novato inseguro que havia entrado de manhã no coliseu, assustado e trêmulo, saía naquela noite um líder. A voz que guiava na quadra e no vestiário. A visão que arrastava os demais. A autenticidade que unia veteranos e estreantes em um respeito novo.

O macacão azul, pendurado num gancho enquanto ele tomava banho, já não era apenas uma peça de sorte. Era a bandeira de um modo de estar no mundo, em que se mostrar como se é não era fraqueza, mas a força mais poderosa de todas. Bruno fechou a torneira, afastou o cabelo molhado da testa e pensou em Hugo, em Marco, em Leo esperando do outro lado da cidade para comemorar.

Ele tinha cruzado o limiar. Do medo à certeza. E já não pensava em voltar atrás.

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