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Relatos Ardientes

Meu namorado me maquiou para enfrentar minha mãe

A família, em todas as suas formas, era o fio invisível que sustentava cada um de nós. Para alguns, era refúgio; para outros, a ferida mais antiga que nunca terminava de cicatrizar.

Eu tinha vinte anos e estudava longe, na cidade, então só voltava para o povoado nas férias. Minha mãe, viúva desde que eu era menino, vivia sozinha numa casa modesta, com paredes cobertas de fotos amareladas: meu pai jovem, eu criança, com o cabelo curto e o olhar apagado. Para ela, o filho que voltava todo dezembro tinha se tornado um desconhecido.

Tudo começou a dar errado quando conheci Marco. Conheci-o no aeroporto, numa escala perdida que se prolongou por uma noite inteira, e desde então não soube mais viver sem ele. Minha mãe o via de outro jeito. Para ela, Marco era um manipulador que se aproveitava da minha inocência, e sua preocupação tinha escalado até a paranoia.

O Natal se aproximava, e com ele a tensão apertava como um cinto. Naquela tarde do fim de dezembro eu estava no meu quarto, sentado na cama com o portátil aberto em chamada de vídeo. A tela iluminava meu rosto enquanto ríamos do último passeio que tínhamos dado pelo centro de Valência, onde ele morava.

—Você não sabe o quanto eu sinto sua falta — eu disse, com a voz rouca, a mão deslizando devagar sob o lençol—. Quando eu voltar, quero que você faça em mim tudo o que quiser. Devagar, até eu não aguentar mais.

Marco sorriu, safado, do outro lado.

—E eu em você. Você é a minha libertação, e eu a sua. Quero te ver tremer de novo.

De repente, a porta se abriu de supetão. Minha mãe entrou com o rosto transtornado, os olhos vermelhos de tanto chorar escondida, e avançou para o portátil como se fosse um inimigo.

—Bruno! O que você está fazendo? —gritou.

Tentei fechar a tela às pressas.

—Mãe, espera!

Mas ela já tinha visto tudo: a imagem de Marco, a intimidade evidente nos nossos olhares, as palavras que ainda pairavam no ar.

—Esse garoto está manipulando você! —exclamou, com a voz trêmula—. Olha como ele te muda, como te afasta de mim. Isso não é normal em você!

Senti um nó no estômago.

—Não é manipulação. Marco me ajuda a ser eu mesmo. Por que você não entende?

—Desde que você o conheceu, virou outra pessoa. Esse cabelo rosa, esse piercing... —ela continuou, ignorando completamente Marco na tela.

Ele ouviu cada reprovação como um soco, mas respondeu com serenidade:

—Senhora, eu amo seu filho. Não estou manipulando ele. Estou ajudando-o a ser livre.

Minha mãe fechou o portátil com um golpe seco.

—Fora da minha casa, ainda que seja por uma tela. Bruno, isso acaba aqui.

—Mãe, por favor —implorei, com as lágrimas surgindo—. Não estrague tudo.

A discussão se estendeu entre gritos e soluços até ela sair batendo a porta e me deixar sozinho com o eco das minhas próprias dúvidas.

***

Alguns dias depois, a tensão escalou para algo pior. Minha mãe estava lavando roupa quando encontrou manchas de sangue na minha cueca, o rastro de um encontro intenso que tínhamos tido antes das férias. O pânico a invadiu como uma onda fria.

Meu menino. Esse garoto está machucando ele.

Ela ligou para os pais de Marco, com a histeria transbordando pela voz.

—Venham agora mesmo! Seu filho está abusando do meu. Tem sangue na roupa dele. Isso é crime!

Rafael e Carmen, os pais de Marco, se olharam atônitos na cozinha de casa, em Valência, o aroma do café recém-passado pairando entre eles.

—Vamos —disse Rafael, com a voz grave—. É preciso esclarecer isso de uma vez.

Marco, que escutava do corredor, apareceu na porta com um nó na garganta.

—Eu vou com vocês.

No carro, sentou-se atrás, em silêncio, vendo a paisagem desfilar: árvores nuas, nuvens cinzentas, a estrada molhada refletindo as luzes. Pensava no ódio que aquela mulher sentia por ele, nas palavras que a tinha ouvido gritar. Cerrou os punhos.

Não vou desistir. Ele precisa de mim tanto quanto eu preciso dele.

Ao chegar à casa no povoado, Rafael e Carmen entraram primeiro e minha mãe os recebeu entre lágrimas e acusações. Marco ficou em segundo plano, na entrada da sala, observando. Eu apareci no corredor e, assim que o vi, senti o chão parar de tremer.

Sem que os adultos percebessem —absortos na discussão, os pais de Marco tentando convencer minha mãe de que o que vivíamos era mútuo e consentido, de que dois rapazes podiam se amar sem que isso fosse uma doença—, fiz um sinal para ele.

—Vem.

Marco me seguiu até o meu quarto e fechou a porta. Falei baixo, mas com determinação.

—Quero que você me maquie. Quero que minha mãe me veja de verdade, como eu sou.

Ele hesitou.

—Tem certeza? Isso é forte.

—Sim. Eu não estou me fantasiando. Estou me vestindo como me sinto. Quero que ela veja.

Marco assentiu, com o coração batendo forte.

—Vou te deixar lindo.

Com as mãos trêmulas, mas firmes, ele foi me maquiando: base suave, pálpebras em tons rosados, lábios brilhantes. Depois me ajudou a vestir o conjunto de que eu tanto gostava, as meias subindo pelas coxas com um atrito que me arrepiava a pele, a saia leve, o suéter, uma tiara com orelhinhas. Olhei-me no espelho com os olhos vidrados.

—Esse sou eu —murmurei—. Obrigado.

Marco beijou minha têmpora.

—Você é perfeito.

Quando voltamos à sala, os adultos ainda conversavam, agora mais calmos. Minha mãe chorava com as mãos no rosto enquanto Rafael e Carmen a encorajavam a me aceitar como eu era, sem tabus. O primeiro a reparar em nós, parado na entrada, foi Rafael. Era a primeira vez que ele me via assim. O silêncio caiu sobre o ambiente como um cobertor.

Nós cinco nos sentamos para conversar, desta vez com calma. No sofá, os pais de Marco de um lado, minha mãe abalada do outro. Em frente, Marco e eu de mãos dadas. Tomei a palavra com a voz firme, ainda que suave.

—Mãe, esse sou eu. Sempre fui assim por dentro. O cabelo rosa eu usava antes de conhecer Marco. Era meu jeito de avisar que alguma coisa queria sair, de não me esconder por completo.

Ela ergueu os olhos marejados.

—Sempre?

—Sim. Marco não me mudou. Ele me ajudou a não ter medo do que eu já sentia. Nós nos descobrimos juntos. Não quero continuar escondendo isso.

Marco apertou minha mão.

—Senhora, eu amo seu filho. Não o manipulo. Nós nos libertamos juntos.

Minha mãe engoliu em seco.

—E você vai se vestir assim sempre? Já pensou nas consequências?

—Não, mãe. Vou continuar como até agora. Mas, em ocasiões especiais, preciso trazer essa parte de mim para fora para me sentir completo.

As lágrimas caíram sem pudor.

—Eu só quero te proteger. Que você seja feliz.

Rafael e Carmen, comovidos, ofereceram uma saída.

—Bruno, se precisarem de espaço, venha para Valência neste Natal. Mãe e filho precisam de tempo para refletir.

Minha mãe assentiu entre soluços.

—Sim. Um pouco de tempo vai me fazer bem.

Marco e eu fomos para o meu quarto fazer as malas, felizes pela primeira vez em semanas. Ele me olhou de lado.

—Você não vai trocar de roupa para a viagem?

Neguei com a cabeça, sorrindo.

—Não. Quero ir assim.

—Eu imaginava —disse, emocionado—. Então me maquia você. Vamos os dois com nossos personagens de dentro.

Eu desenhei o delineado preto, os lábios escuros, aquele ar de guerreiro que ele sempre quis ter. No carro, fomos de mãos dadas, vendo os campos nevados e o sol se pondo. Do banco da frente, Rafael olhou para o filho maquiado pela primeira vez e sorriu, orgulhoso ao nos ver felizes.

Carmen acariciou a mão dele, lendo seu pensamento.

—Estamos fazendo um bom trabalho.

***

Entrelaçada com a nossa crise, a de Diego e Pablo era um contraste silencioso, mas igualmente profundo. A loja de roupas deles prosperava como nunca: as vendas da campanha Peto Total tinham disparado graças à fama repentina de Mateo, as prateleiras abarrotadas de peças coloridas que esgotavam em horas, o local cheio de clientes atraídos pelo burburinho da mídia. Mas a relação deles rangia por baixo da superfície, como uma corda esticada até o limite por duas formas opostas de entender o amor.

Pablo, com seu espírito inquieto e curioso, sentia um vazio que o empurrava a explorar. Numa noite, na cama do apartamento sobre a loja, com a luz da rua entrando pelas cortinas, rompeu o silêncio com a voz carregada de vulnerabilidade.

—Diego, amor, preciso falar. O que temos é lindo, mas eu quero mais. Um relacionamento aberto, sempre compartilhando com você. Jogos de papéis, brinquedos, até dominação. Não para nos separar, mas para crescermos juntos. Me assusta a ideia de a gente ficar estagnado, de o amor virar hábito e meu desejo se apagar até eu te perder.

Diego, recostado na cabeceira, sentiu uma fisgada no peito, uma mistura de medo e confusão que apertava seu estômago como uma mão fria.

—Pablo, eu te amo tanto que dói pensar nisso. Mas eu sonho com estabilidade. Com um lar que seja o nosso refúgio, com nos dedicarmos à loja, à família que poderíamos formar. Eu até pensei em adotar um dia. Eu quero raízes, não aventuras que me façam duvidar se sou suficiente para você.

Pablo se aproximou mais, a mão sobre o peito de Diego, sentindo seu coração acelerado.

—Nunca duvide de si. Você é tudo para mim. Mas eu preciso disso para me sentir inteiro, para não me reprimir como fazia antes. O medo me corrói por dentro: pensar que, se não explorarmos, vou sufocar e te perder do mesmo jeito.

Diego envolveu a mão de Pablo com a sua, a voz partida.

—E eu morro de medo do contrário. De que, nessas explorações, você encontre algo melhor. De que eu, só eu, deixe de ser suficiente para você.

A tensão explodiu na tarde seguinte, no estoque, com as venezianas abaixadas filtrando uma luz pálida e o cheiro de tecido novo pairando entre eles.

—Tenho pavor de te perder em aventuras —confessou Diego, com a voz rouca, as mãos tremendo ao tocar seu braço—. E se você não voltar sendo o mesmo?

Pablo respondeu com uma ternura desarmante.

—Eu não te perco. Eu te incluo em tudo. Mas preciso disso para respirar, para te amar sem correntes por dentro.

Eles conversaram muito naquela noite, e nas seguintes. Horas de conversas na cama ou caminhando pelo povoado sob um céu de estrelas frias, com os sentimentos vindo à tona um a um. Pablo confessando seu temor da monotonia que vira consumir outros casais. Diego revelando sua ânsia pela segurança que nunca tivera quando jovem, seu medo de que um jogo novo diluísse o que era só deles dois.

O dilema era claro e, ao mesmo tempo, insolúvel de imediato. Pablo via o amor como uma aventura compartilhada que mantinha a faísca viva. Diego o entendia como um ninho estável onde construir o futuro. Mas ambos perseguiam a mesma coisa e estavam dispostos a lutar com unhas e dentes pelo que tinham.

Buscaram o equilíbrio com paciência, os abraços se alternando com as lágrimas, os corpos se pressionando na cama em promessas mudas. Não resolveram nada naquela semana. Mas nenhum dos dois soltou a mão do outro, e às vezes, no meio de uma crise, isso era exatamente o que significava ficar.

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Comentários(8)

Fernanda

que historia linda, fiquei com o coracao cheio no final

RomanticoIncuravel

Nossa, o Marco é o tipo de pessoa que a gente precisa na vida. Conto muito bonito, me emocionei mais do que imaginava.

MagiaDaNoite

amei demais!! manda mais assim!!

Deh_BA

Me identifico tanto com essa historia... passei por algo parecido com a minha familia e sei o quanto pesa. Muito obrigada por colocar isso em palavras de um jeito tao bonito.

LeitorVoraz

Por favor tem continuação?? Quero saber como foi a conversa com a mae depois disso tudo

FrioNaBarriga

frio na barriga do começo ao fim, que escrita

ViciadoEmHistorias

Sinceramente um dos melhores que li aqui ultimamente. Li de uma vez so, nao consegui parar no meio.

ContosNaMadruga

caraca que titulo, mal vi o resumo ja tinha que abrir kkkk nao me arrependi nao

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