O que fizemos para atravessar o mar
A traição de Jalil chegou em dezembro, numa terça-feira, em menos de uma tarde. Desfez o que duas famílias tinham levado décadas para construir.
Samir soube do que tinha acontecido por uma ligação. A voz do outro lado era a de um vizinho velho, alguém que os queria e que falava em voz baixa como se tivesse medo das próprias palavras: Jalil tinha denunciado o próprio pai, Omar El Hafsi, inventando acusações, apresentando testemunhas compradas. Os motivos eram simples e sujos — a herança, os terrenos, o dinheiro que Omar tinha prometido repartir entre todos os filhos —. A polícia tinha prendido Omar naquela mesma tarde e agora procurava Samir, os irmãos dele e os irmãos da esposa.
Tinham uma hora, talvez menos.
Samir olhou ao redor: Leila, a esposa, já estava grávida de três meses. Tariq, o irmão mais velho, juntava em silêncio o que podia numa bolsa. Nassim, o caçula, se movia depressa, mas com os olhos brilhando. Adil e Malik, os irmãos de Leila, aguentavam a tensão com a mandíbula cerrada. E Carmen, a mãe espanhola dele, que já nem sempre se lembrava de onde estava, esperava sentada junto à janela, olhando a noite com expressão serena, alheia a tudo.
—Mãe, vamos embora — disse Nassim, ajoelhando-se ao lado dela—. Hoje à noite a gente sai. Você pode vir?
Carmen o olhou por um longo instante. Depois assentiu como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Encheram dois carros com o mínimo: documentos, dinheiro em espécie, as joias do casamento. Saíram por estradas sem iluminação, com os faróis apagados na maior parte do tempo. Leila ia com a testa encostada no vidro, em silêncio. Samir dirigia. Ainda não havia nada a dizer. As palavras não serviam para nada até estarem seguros, e estar seguro era algo que ainda não sabiam se seria possível.
***
Chegaram ao norte ao amanhecer, exaustos e com o medo grudado na roupa. Um conhecido de Adil os levou até um galpão abandonado nos arredores do porto. Cheirava a ferrugem e a sal. Lá os esperava o homem que podia tirá-los do país.
Chamava-se O Falcão.
Era magro, com o rosto marcado pelo sol e olhos que mediam tudo. Não perdeu tempo com apresentações. Olhou para os sete — Samir, Leila grávida, Tariq, Nassim, Adil, Malik e Carmen — com a expressão de quem já viu situações parecidas muitas vezes e nunca sentiu pena.
—Sei quem vocês são — disse —. O escândalo chegou até aqui. A polícia mexe as peças rápido quando tem alguém pagando para isso.
Samir deixou sobre a mesa o que tinham levado: notas, algumas joias, moedas de ouro.
O Falcão nem olhou.
—Isso não basta para sete pessoas. O risco é alto demais.
Houve um silêncio. O Falcão os estudou um por um, devagar, antes de falar de novo.
—Vocês cinco — apontou para Samir, Tariq, Nassim, Adil e Malik— podem pagar de outra forma. As mulheres não vão precisar fazer nada. Vamos acomodá-las aqui, protegidas. Mas vocês vão gravar para nós. Todo dia. Doze horas.
Ninguém perguntou o que significava gravar. Todos entenderam.
Tariq foi o primeiro a falar.
—E as mulheres vão estar seguras? Sem ninguém tocar nelas?
—Acomodação, comida e proteção. Ninguém vai se aproximar delas.
Samir olhou para os irmãos. Depois para Adil e Malik. Não precisaram consultar muito.
—Aceitamos — disse.
***
Os primeiros dias foram os mais difíceis.
O galpão tinha uma ala adaptada que não parecia o mesmo prédio: paredes brancas, quartos com câmeras fixas nos cantos, colchonetes no chão, focos de luz crua que não deixavam um único canto na sombra. O Falcão tinha clientes em toda a Europa, homens com dinheiro e gostos precisos que pagavam quantias absurdas por material filmado. O que mais vendia, explicou com calma naquela primeira manhã, era o natural: homens de verdade, sem atuar, sem poses ensaiadas. Pênis duros e cus abertos, sem maquiagem nem roteiro.
Leila e Carmen viviam em um apartamento contíguo. Na primeira vez que Samir foi vê-la antes de uma sessão, ela não disse nada. Pegou o rosto dele entre as mãos e o olhou por um longo instante.
—A gente volta junto — disse —. É a única coisa que importa agora.
Samir assentiu. Não sabia o que mais fazer.
As sessões começaram naquele mesmo dia. Os cinco foram despidos na sala grande, sem cerimônia, e indicados com gestos secos para onde deveriam ficar. Samir sentiu o ar frio na pele e o olhar vermelho das câmeras cravado na nuca. Tariq, à sua frente, respirava fundo. Nassim já estava com o pau meio duro, mais por nervosismo do que por outra coisa. Malik e Adil se olharam por um momento, e esse único cruzar de olhos bastou para saberem que fariam o que fosse preciso.
—Comecem — disse a voz de um dos técnicos, atrás das lâmpadas.
Samir se ajoelhou diante de Tariq e levou o pênis dele à boca. Era a primeira vez. Sentiu-o grosso, quente, com um pulso próprio na ponta. Chupou devagar primeiro, aprendendo, sentindo Tariq tremer com a mandíbula cerrada tentando não fazer barulho. Depois mais rápido, mais fundo, até o pênis roçar o fundo da garganta e fazê-lo lacrimejar. Tariq agarrou sua nuca com as duas mãos e começou a foder sua boca no ritmo de que precisava. Samir parou de resistir. Abriu, se entregou, engoliu saliva misturada com líquido pré-ejaculatório e respirou pelo nariz sempre que podia.
Ao lado, Nassim já estava de quatro sobre o colchonete. Malik cuspiu no cu dele, passou o pênis por cima, untando-o na saliva, e depois o enfiou de uma só vez, devagar e constante. Nassim gemeu de boca aberta e testa colada ao chão. Malik começou a fodê-lo com estocadas curtas primeiro, segurando-lhe os quadris, e depois com golpes cada vez mais fortes que faziam o corpo inteiro dele quicar. Ouviam-se o choque de pele contra pele, o rangido do colchonete, a respiração quebrada de Nassim, que já não tentava disfarçar nada.
Adil se aproximou de Nassim pela frente e pôs o pênis nos lábios dele. Nassim o abriu sem protestar e começou a chupar enquanto Malik continuava entrando por trás. Adil segurou o rosto dele com as duas mãos e o enfiou até a garganta, buscando a profundidade que queria, sem pressa. Nassim engasgava um pouco a cada vez, cuspia, tossia e voltava a abrir a boca. Os olhos dele lacrimejavam. Adil acariciou o cabelo dele com uma ternura que não combinava com a cena.
Tariq gozou primeiro. Tirou o pênis da boca de Samir no último segundo e despejou o gozo no rosto, na língua, no peito dele. Jorros grossos e espessos que Samir recebeu com os olhos fechados, sentindo-os quentes na pele. Quando Tariq terminou, se abaixou e o beijou na boca cheia de sêmen, sem nojo, como se aquilo tivesse sido feito a vida toda.
Malik gozou dentro de Nassim com um rosnado curto e, assim que saiu, empurrou Adil para ocupar o lugar dele. Adil se encaixou atrás de Nassim com o pênis brilhando de saliva e o penetrou sem lhe dar um segundo. Nassim reclamou rouco, gemeu mais agudo quando Adil começou a se mover e continuou chupando Malik, que agora se apresentava na frente com o pênis ainda duro e manchado, exigindo que ele o limpasse com a língua.
Samir sentiu mãos nos quadris por trás. Não sabia quem era. Um dos homens do Falcão, um sujeito grande, sem rosto, que tinha entrado na sala sem que ninguém anunciasse. Abriu as nádegas dele com os polegares, cuspiu duas vezes no cu dele e enfiou o pênis inteiro de uma vez, sem prepará-lo. Samir soltou um grito abafado e se agarrou ao colchonete com as duas mãos. A dor subiu pela coluna até a nuca. O homem não esperou ele se acostumar. Começou a fodê-lo com força, segurando-o pelo cabelo, obrigando-o a arquear o corpo. Samir mordeu o colchonete. Procurou a bolha que ia construir durante meses, aquela bolha pequena onde o corpo trabalhava sozinho e ele se apagava por um tempo.
Depois da primeira hora, trocaram as posições. Depois da segunda, de novo. Os técnicos gritavam instruções de trás das câmeras: agora você ali, agora os dois em cima dele, agora a dupla. Samir sentiu pela primeira vez dois pênis no cu ao mesmo tempo, o de Tariq e o de um desconhecido, apertados até o fundo, e achou que não ia aguentar. Aguentou. Gozou sem se tocar, com o pênis batendo no estômago a cada estocada, e continuou com a mandíbula frouxa enquanto os outros terminavam dentro dele.
Samir aprendeu a se dissociar de uma parte de si durante aquelas horas. Concentrava-se no calor do corpo de Tariq, na respiração familiar de Nassim, no cheiro conhecido de Adil. Construiu uma bolha pequena dentro de tudo aquilo e entrava nela todas as manhãs às dez em ponto.
À noite tomava banho, jantava com Leila e dormia colado nela. Às vezes ela perguntava como ele estava. Ele sempre dizia a mesma coisa: bem. Cansado, mas bem. E era meia verdade, que é a única verdade que alguém pode dar quando a situação inteira é grande demais para caber numa frase.
Semanas passaram. Depois meses.
***
O Falcão não era como Samir tinha esperado.
Não era brutal. Era calculista, sim, e não tinha escrúpulos, mas também cumpria a palavra com uma precisão que parecia quase estranha naquele mundo. Pagava em dia. Dava comida decente e roupa limpa. Quando Carmen teve uma crise certa noite e não reconheceu ninguém, O Falcão conseguiu um médico em menos de duas horas. Quando Leila teve contrações falsas no quarto mês, foi ele quem organizou a transferência para a clínica e quem esperou no corredor até os médicos dizerem que estava tudo bem.
Começaram a conversar. Primeiro sobre logística. Depois sobre outras coisas.
Samir descobriu que O Falcão — Rayan, esse era o nome real dele, embora nunca o usasse no trabalho — tinha nascido em Tetuão, no mesmo ano que ele. Que tinha atravessado o Estreito aos dezoito anos com o que carregava nos bolsos e construído uma rede de contatos ao longo de anos de trabalho silencioso. Que falava quatro idiomas. Que, em outra vida, teria gostado de estudar arquitetura.
—Por que você me conta isso? — perguntou Samir certa tarde, depois que os outros já tinham ido dormir.
Rayan o olhou por um momento antes de responder.
—Porque eu quero — disse. E foi embora.
Mas continuou contando coisas. E Samir continuou ouvindo.
***
A notícia chegou numa manhã de maio, quando já levavam mais de quatro meses no galpão.
Rayan entrou na sala onde os cinco descansavam nus sobre os colchonetes, entre uma sessão e outra. A expressão dele era diferente das anteriores. Mais calma, quase solene.
—Esta noite vocês vão embora — disse sem mais preâmbulos.
Samir sentiu algo afrouxar no peito, algo que esteve tenso durante meses como um músculo sem descanso.
Arrumaram tudo em poucas horas. Rayan tinha preparado roupa nova para todos, documentos em ordem e dinheiro: um envelope por família, o suficiente para começar. Explicou que teriam trabalho nos cais de Almeria durante os primeiros meses, trabalho real e pago, enquanto seus documentos fossem regularizados.
—Vocês vão viajar em um cargueiro — disse —. Três cabines privativas. Nada de embarcação usada.
Antes de embarcarem, quando os outros já estavam a bordo, Rayan pediu para falar a sós com Samir num corredor do porto. O vento cheirava a mar e óleo de motor. As luzes do cais lançavam aos dois uma sombra alongada sobre o concreto.
—Sei que não é a mesma coisa para você e para mim — disse Rayan em voz baixa—. Mas quero que saiba: o que eu senti todo esse tempo foi real.
Samir o olhou. Durante meses tinha observado aquele homem de perto, em situações que não deixavam espaço para mentiras. Tinha visto decisões frias e também pequenos gestos inesperados de humanidade. Não era uma pessoa fácil de amar. Mas também não era fácil de ignorar.
Ele se aproximou e o beijou. Não foi um gesto de gratidão nem de dívida. Foi algo mais honesto do que isso.
Rayan devolveu o beijo com uma intensidade que Samir não esperava. Passou uma mão pela nuca dele e o segurou devagar, sem força, como se não quisesse que acabasse.
Quando se separaram, Rayan tirou do bolso um papel dobrado e o colocou na mão dele.
—Quando chegar, liga.
***
A travessia durou três dias. O mar estava calmo.
Os sete dormiram, comeram e, pela primeira vez em meses, falaram sem vigilância, sem câmeras, sem o peso constante do que vinha depois. Nassim e Leila passaram horas olhando a água do convés. Carmen se sentou ao sol numa manhã e cantou baixinho uma canção que nenhum deles conhecia. Tariq disse que era uma cantiga de ninar de quando eram pequenos. Que ela sempre cantava quando ficava nervosa e precisava se acalmar.
Adil e Malik estavam mais calados que os outros. Pensavam no pai. Não diziam, mas aquilo estava ali, flutuando entre eles como algo que ninguém queria nomear ainda.
Chegaram a Almeria ao amanhecer do terceiro dia, com a cidade brilhando sobre o mar como algo prometido.
Um homem da organização os esperava no cais. Chamava-se O Farol: marroquino de pouco mais de trinta anos, de aparência tranquila e gestos precisos, que os levou a um apartamento no centro sem fazer perguntas. O apartamento era pequeno, mas limpo, com três quartos e uma cozinha ensolarada que dava para uma rua estreita com roupa estendida nas varandas.
Naquela noite jantaram juntos pela primeira vez em muitos meses: pão, queijo, azeitonas, uma garrafa de vinho barato. Ninguém falou do que tinha acontecido. Só estavam ali, juntos, com o barulho da rua entrando pela janela e a sensação ainda estranha de não ter de fazer nada no dia seguinte.
***
Três semanas depois de chegarem, Rayan apareceu certa noite sem avisar.
As mulheres estavam fora com Sofía, uma mulher de Cádiz que tinha começado a ajudar com Carmen e que rapidamente se tornara amiga de Leila. Os cinco homens receberam Rayan na sala. Ele trazia uma expressão que Samir nunca tinha visto antes: séria, quase desconfortável.
—Tentei chegar até o pai de vocês — disse a Adil e Malik em voz baixa—. Queria tirá-lo de lá antes que fosse tarde demais. Mas quando o encontrei, já tinha morrido.
Não disse como. Só disse.
Adil abaixou a cabeça. Malik se levantou e foi para a cozinha sem dizer nada. Os demais ficaram em silêncio por um longo momento.
Depois Rayan fez um sinal para os homens dele, que esperavam do lado de fora.
Trazeram alguém amarrado e com a cabeça coberta por um saco preto. Sentaram-no numa cadeira no centro da sala. Quando tiraram o saco, todos viram o mesmo rosto.
Jalil.
Adil avançou antes que alguém pudesse reagir. Os homens de Rayan o seguraram. Malik voltou da cozinha com os olhos injetados de raiva. Jalil não disse nada. Só tremia.
Samir foi o primeiro a se acalmar.
Ficou olhando para Jalil por um instante. Depois olhou para os irmãos e para os irmãos de Leila.
—Matar ele é fácil — disse—. E rápido demais.
Todos o olharam.
—Quero que ele viva. Que pague todos os dias. Sem pancada, sem sangue. Humilhação. Que saiba, toda manhã quando abrir os olhos, o preço que essa família pagou pelo que ele fez.
Houve discussão. Adil queria outra coisa. Malik também. Mas Samir argumentou com calma e, no fim, os outros cederam, um a um.
Rayan aceitou sem condições. Só impôs um limite: sem dano físico permanente.
—Conheço maneiras — disse—. Maneiras que duram anos.
Quando os homens de Rayan levaram Jalil embora, a sala ficou em silêncio.
***
Nessa noite, depois que todos foram dormir, Samir bateu à porta do quarto onde Rayan tinha se instalado.
Rayan abriu. Estava sem camisa, com a calça desabotoada e o cabelo desgrenhado de quem tinha estado deitado. Olhou para ele por um momento sem dizer nada e depois se afastou para deixá-lo entrar.
Não falaram muito. Samir se aproximou e o beijou, mais devagar que no porto, sem a urgência da despedida. Rayan pôs as mãos no rosto dele e devolveu o beijo com a mesma calma. Foi um beijo longo, com a língua entrando devagar na boca do outro, aprendendo o gosto sem pressa. Rayan mordeu o lábio inferior dele e o chupou, e Samir sentiu o pau endurecer de repente dentro da calça.
Se despiram sem pressa. Rayan tirou a camisa dele pela cabeça e passou as mãos pelo peito, pela barriga, pela cintura. Desabotoou a calça e a desceu junto com a roupa de baixo. O pau de Samir saltou para fora, duro, com a ponta já molhada. Rayan o agarrou com a mão direita e começou a acariciá-lo, devagar, olhando nos olhos dele.
—Meses te vendo foder — murmurou—. Todo dia. E não podia tocar em você.
Samir engoliu em seco. Desabotoou a calça de Rayan e a baixou. O pênis de Rayan estava duro, grosso, mais escuro que o resto da pele, com pelos bem aparados na base. Samir se ajoelhou e o levou à boca, devagar, sentindo Rayan tensionar os músculos das coxas e depois soltar o ar de repente. Chupou-o inteiro, até o fundo, brincando com a língua ao redor da glande, parando no freio até Rayan gemer baixo. Segurou os testículos com a outra mão, pesando-os, apertando-os de leve enquanto continuava subindo e descendo a boca pelo pênis.
Rayan passou a mão pelo cabelo dele sem apertar. Só segurando. Deixou que ele marcasse o ritmo. Samir enfiou o pênis até a garganta e ficou ali, com o nariz colado ao púbis, respirando pelo nariz, sentindo a ponta pulsar contra o céu da boca. Depois se retirou devagar, deixando um fio de saliva entre a boca e a glande, e voltou a descer. Rayan gemeu mais forte dessa vez. Agarrou a mandíbula dele com o polegar e o fez abrir mais a boca.
—Assim — disse—. Agora quieto.
E começou a foder a boca dele, com movimentos curtos e precisos, sem brutalidade, buscando o fundo a cada três ou quatro investidas. Samir se deixou fazer. Sentiu as lágrimas subirem aos olhos pelo reflexo da garganta, e sentiu também o estômago se contrair de desejo, sentiu o próprio pau pingando no chão entre os joelhos.
Rayan o fez parar antes de gozar. Levantou-o do chão pelos ombros e o beijou de novo, provando-se na boca de Samir. Empurrou-o devagar até a cama e o deitou de costas.
—Vira — disse.
Samir ficou de quatro sobre o colchão. Rayan se ajoelhou atrás dele e abriu suas nádegas com as duas mãos. Depois baixou o rosto e pôs a língua no cu dele, direto, sem aviso. Samir gemeu e arqueou as costas. Rayan o lambeu devagar, com a língua inteira, alargando-o, pressionando o músculo, entrando e saindo. Mordeu uma nádega e voltou a enterrar o rosto. Enfiou um dedo molhado e continuou lambendo em volta, em círculos, até Samir começar a mover os quadris contra a boca dele sem conseguir evitar.
—Rayan — murmurou—. Por favor.
—Ainda não.
Enfiou um segundo dedo. Movimentou-os devagar, girando, buscando o ângulo. Quando encontrou o ponto que fez Samir soltar um gemido mais agudo, sorriu contra a pele das costas dele e continuou pressionando ali. Um terceiro dedo. Um quarto. Samir estava tão aberto e tão úmido de saliva e desejo que sentia o ar fresco cada vez que Rayan tirava a mão.
—Agora — disse Rayan.
Posicionou-se atrás dele e apoiou a ponta do pênis no cu dele. Empurrou devagar, com o peso de tudo o que ainda não tinham dito, deixando-o sentir cada centímetro. Samir baixou a cabeça e soltou um gemido longo, quebrado. Rayan afundou até o fundo e ficou ali um momento, imóvel, respirando contra a nuca dele.
—Você está quente por dentro — sussurrou—. Porra, como você está quente.
Começou a se mover. No começo devagar, com investidas longas e profundas que arrancavam um gemido de Samir a cada vez que chegava ao fundo. Depois mais rápido, segurando-lhe os quadris, mudando o ângulo para que o pau raspasse o ponto exato por dentro. Samir sentiu algo que fazia meses não sentia: que estava presente. Não dissociado, não aguentando. Ali. Sentindo cada centímetro do pênis de Rayan entrando e saindo, sentindo as mãos de Rayan nos quadris, sentindo o suor escorrer pelas costas.
Rayan o fez se virar no meio da foda. Pôs as pernas dele sobre os ombros e entrou de novo, agora olhando nos olhos dele. Samir se agarrou aos braços de Rayan. O pênis entrava mais fundo nessa posição, tocava dentro dele um lugar que lhe tirava o fôlego. Rayan abaixou o rosto e o beijou enquanto o fodia, com a língua entrando na boca no ritmo das investidas.
—Se toca — disse contra os lábios dele.
Samir agarrou o próprio pau. Estava encharcado, pingando líquido pré-ejaculatório pela barriga. Começou a se masturbar no ritmo das estocadas. Rayan olhou para baixo, viu como ele se masturbava e acelerou. Empurrou os joelhos dele contra o peito para fodê-lo mais fundo. Samir gemeu mais alto, sem controle, mordendo o lábio para não acordar ninguém.
—Goza — ordenou Rayan—. Goza comigo dentro.
Samir gozou. O gozo jorrou no ventre, no peito, primeiro um jato longo e depois vários mais curtos. Sujou até o queixo. O corpo inteiro se contraiu, o cu apertou em torno do pênis de Rayan, e ele sentiu as contrações por dentro.
Rayan aguentou mais três ou quatro investidas e gozou dentro dele. Samir sentiu: o pulso quente no fundo, o gemido rouco perto da orelha, o peso do corpo de Rayan desabando sobre o dele. Rayan ficou dentro por um bom tempo, imóvel, com o rosto enterrado no vão do pescoço de Samir, respirando forte.
Depois saiu devagar. Samir sentiu o gozo escorrer pela coxa. Rayan passou dois dedos pelo cu dele, recolheu um pouco do próprio sêmen e levou à boca. Lamber os dedos sem tirar os olhos dele.
Ficaram deitados um pouco, sem falar, com a respiração dos dois enchendo o quarto e o ruído do trânsito lá fora.
—O que acontece agora? — perguntou Samir em voz baixa.
—Depende do que você quer que aconteça — respondeu Rayan.
Samir não respondeu de imediato. Pensou em Leila, no bebê que viria em poucos meses, nos irmãos, em Carmen. Pensou em tudo o que ainda restava construir.
—Não sei se tenho nome para o que sinto — disse por fim—. Mas é real.
Rayan assentiu.
—Isso me basta.
Se vestiram sem tomar banho. Antes de sair, Rayan segurou o braço dele por um instante.
—Tem um lugar para você no que eu faço, se um dia quiser. Não agora. Quando vocês estiverem instalados. Quando tudo isso tiver assentado um pouco. Pense nisso.
Samir não prometeu nada. Mas também não disse não.
Saiu para o corredor. A casa estava em silêncio. Do quarto do fundo chegava-lhe a respiração tranquila de Leila.
Entrou na cama ao lado dela. Ela se mexeu levemente e procurou sua mão sem acordar de todo. Samir a segurou.
Pela primeira vez em muitos meses, adormeceu antes do amanhecer.