O jogo que meu facilitador me propôs naquela noite
Ele me colocou as algemas de veludo nos pulsos e a venda nos olhos. Disse que eu confiasse, que eu ia gostar. Eu não sabia como dizer que sim.
Ele me colocou as algemas de veludo nos pulsos e a venda nos olhos. Disse que eu confiasse, que eu ia gostar. Eu não sabia como dizer que sim.
Eu fingia havia anos. Quando ela propôs passar o fim de semana numa praia de nudismo com os amigos, não imaginei que fosse a armadilha perfeita para me tirar do armário sem aviso.
Quando saí do banho depilado e tonto de rum, vi-o sentado na cama com uma coleira rosa e uma peruca. Entendi que aquela ilha não era refúgio: era uma armadilha.
Até aquela noite, eu tinha sido completamente hetero. Bastou um filme mal escolhido, um travesseiro improvisado e a respiração de um desconhecido na minha nuca.
Ela abriu a porta quase nua, com aquele sorriso que já não era o de uma cliente educada, e eu entendi desde o primeiro minuto que aquele chamado não terminaria na junta do ralo.
Voltávamos da praia para o camping quando uma garota pediu carona no meio do caminho. Eu não sabia que naquela noite descobriria outra coisa.
Fechei a porta do hotel, olhei para as mãos trêmulas dele e soube que aquele desconhecido estava tão assustado quanto eu. E nenhum dos dois pensava em ir embora.
Naquela tarde, eu não buscava amor nem explicações; buscava dois corpos diferentes no mesmo quarto de motel e a certeza de que ninguém jamais saberia o que aconteceu ali.
Quando o vi entrar no dark room atrás de mim, soube que a noite não terminaria na minha cama. Ele tinha o corpo que só se vê em revista.
Pensei que a chuva me deixaria sem nada. A vinte metros vi o rapaz moreno ao lado do banco, ensopado, e entendi que a noite só estava começando.
Passei anos imaginando isso vendo vídeos às escondidas. Numa tarde, uma mensagem em uma página de encontros, e um desconhecido entrou no meu carro pronto para mudar tudo.
Ela ergueu a taça do canto como se brindasse comigo. Ele se aproximou e me disse ao ouvido que queriam me levar ao apartamento em Pichincha. Eu não sabia o que viria depois.
Uma noite, depois de cervejas demais, eu disse sim. O que veio depois me obrigou a repensar tudo o que eu achava saber sobre mim.
Subi para o segundo andar do ônibus achando que dormiria as sete horas seguidas. Trinta minutos depois, um rosto surgiu entre os assentos e me perguntou para onde eu ia.
Andrés sabia exatamente o que fazia com as mãos. Cheguei com dor nas costas e saí com algo sem nome, em que ainda penso quando adormeço.
Eu já fazia tempo que queria fazer isso: escolher um homem em um lugar público e levá-lo para a cama. Naquela tarde no café, enfim tomei coragem.
Naquela tarde na praia, soube que os quatro estavam nos olhando. O que eu não sabia era que, naquela noite, tudo o que Roberto e eu tínhamos imaginado iria acontecer.
Disseram-me que o cliente era especial. Não disseram que era o homem mais temido da cidade — nem que, assim que o amarrei, ele começaria a se quebrar de verdade.
As cordas me marcaram a pele de vermelho. A culpa me marcou a alma de preto. E aquele homem continuava procurando a fenda por onde me quebrar de vez.
A TV ligada, as luzes apagadas, uma manta cobrindo nós três. Ninguém disse nada. Foi meu amigo quem moveu a mão primeiro, devagar, como se já esperasse aquele momento.