A traição e o estranho que tocou à sua porta
Ramiro Andrés se virou rápido demais para olhar a visita inesperada e desfez a caminhada e meia que já havia dado em direção ao corredor. A mão esquerda apertou com força a borda da madeira e, com o braço estendido e a largura do corpo, obstruiu por completo a entrada. Sustentou com a outra mão a garrafa de aguardente, agarrando-a pelo gargalo, e estendeu o indicador para o forasteiro parado sob o umbral.
Resoluto, aproveitando uma raiva que ainda não lhe tinha passado, o confrontou.
—Duas perguntas, nada mais. O senhor quem é? E… o que quer a estas horas?
O desconhecido o observou com curiosidade, atento à resposta e a qualquer movimento brusco. Ramiro esteve prestes a lhe dar uma garrafada, mas, ao detalhar sua roupa de cima a baixo, aquele uniforme bem passado o tranquilizou um pouco.
—Ora, homem, o senhor tem toda a razão! Me desculpe. Primeiro, não nos conhecemos. E segundo, de fato já está muito tarde. Vim do restaurante, mas lá já não tinha quase ninguém. Uma mulher, ehhh… Marta? Isso, ela me disse que tudo tinha acabado e eu vim direto para cá. Meu nome é Sebastián e sou amigo da sua esposa.
—Entendi. Sim, a reunião terminou às pressas. E é preciso avisá-lo de que sua amiga não mora mais nesta casa —aclarou Ramiro, franzindo a testa como um leão ferido, confiante de que o sujeito iria embora.
—Eu sei, já estava a par de tudo. E acredite, eu entendo, deve ser doloroso para o senhor. Mas eu não vim por ela, e sim por você.
Lá dentro, a intriga lhe coçou, e também o desgosto, embora ele não demonstrasse. A última coisa de que precisava àquela hora era uma visita imprevista, e menos ainda com frases compassivas, gastas e batidas, que soavam ridiculamente estéreis. E menos ainda vindo de alguém como ele: um amigo da sua mulher que ele jamais tinha visto.
—Muito gentil da sua parte. Isso passa. Mas me diga uma coisa… como o senhor achou minha casa? Quem lhe permitiu entrar? —quase o açoitou com o gesto.
—Falei com seu filho e lhe contei a situação. Pelo visto, ele já sabia de tudo e, discretamente, me passou o endereço. Vim direto do aeroporto. Em Punta Cana houve mau tempo e vários voos atrasaram para decolar. É assim mesmo: quanto mais pressa a gente tem, mais obstáculos aparecem —sorriu com gentileza.
—Entendo. Tomás chegou a me dizer que alguém viria da parte dele. Entre, por favor. Está um frio do diabo!
—Muito obrigado. Aliás, acabei de cruzar com sua filha na entrada. Ela falou com o porteiro e me facilitou a entrada. Vim lhe entregar uma encomenda de Tomás. Não pretendo demorar.
—Camila? O senhor também a conhece? Desde quando? —O piloto passou por um lado sem roçá-lo e se aventurou pelo corredor, direto para a sala.
Depois de fechar a porta, Ramiro o analisou. Comparou a altura dos dois e não o achou tão alto; um pouco mais baixo, um pouco menos largo de costas. Não era um Adônis, mas, com aquele uniforme, a muitas mulheres ele pareceria atraente. O cabelo castanho-escuro, raspado nas laterais, as costeletas longas e retas, tudo muito bem penteado com gel, num corte moderno condizente com seu ofício de comandante de voo.
—Ha, ha, ha! Sim, homem, sim. Vejo que sou um ser insignificante para a sua família. Ninguém lhe falou de mim. Mas isso é normal, e na verdade eu prefiro assim —opinou o visitante, enquanto procurava com os olhos onde largar o corpo e as coisas que trazia nas mãos.
De rosto afilado, maçãs do rosto marcadas e mandíbula angulada, tinha a pele clara, um pouco menos pálida que a dele, e a pele muito lisa. É bem mais jovem do que eu. Com certeza usa cremes e aproveita o sol sempre que viaja para se bronzear. Pelo aroma de uma colônia muito masculina, recém-aplicada, Ramiro intuiu que o sujeito havia se barbeado antes de chegar.
—Assim… como? —instou-o a ser mais específico.
—Despercebido. Às vezes, Ramiro, é melhor não chamar muita atenção —respondeu com certo ar de importância.
Era um homem de olhar sereno, com olhos pequenos, mas penetrantes, intensos por pupilas redondas e escuras, sob sobrancelhas espessas e retas. Quando sorria, revelava dentes pequenos, bem cuidados. Uma pinta solitária, centralizada na bochecha esquerda, se escondia num covinha quando ele ria.
—Uhum. E dá para saber qual é o motivo? —Ramiro notou que o piloto avaliava a decoração da casa, como se percorresse o corredor pouco movimentado de algum museu, tomando o seu tempo antes de responder.
Tinha mãos asseadas, de dedos longos e nós dos dedos ossudos, unhas reluzentes. Ombros secos, costas não muito largas sob a jaqueta sem uma única mancha, pernas aparentemente finas. Uma figura esguia e, ainda assim, viril.
—A insegurança, homem! Ultimamente a criminalidade ficou mais descarada. Olhe, Ramiro, este presente é para você. É a encomenda do seu filho.
Recebeu-o com a mão livre, balançou-o no ar —o conteúdo soou como uma caixa de cereal sendo agitada— e o colocou com cuidado sobre o vidro talhado da mesa de jantar, ao lado do conjunto de esferas de vime que Bárbara Renata tinha como decoração no centro exato.
—E estes dois são os meus. Uma bobagem, espero que goste —Ramiro manteve um sorriso um pouco ensaiado e recebeu duas caixas retangulares. Ambas pesadas.
—Abra, homem, faça sem vergonha, que está em sua casa! —E, para reforçar a oferta, deu-lhe uma palmada amistosa nas costas enquanto desabotoava a jaqueta cruzada. Depois, curioso, se aproximou da lareira apagada. Algo ali lhe despertou um interesse súbito: o grande retrato de família, os quatro Restrepo Vélez radiantes. Ou algo mais?
Sobre a lareira de pedra natural persistia um relógio alongado e baixo, de mostrador preto com números brancos, idêntico ao de um terminal de aeroporto. Um velho presente para sua mulher. Ao fixar os olhos nele, Ramiro se surpreendeu por ter aquele desconhecido à sua frente, àquelas altas horas daquela noite amarga. Não imaginava que aquele mesmo mostrador marcaria, também, uma hora de saída: para os dois já começava um novo dia, tão revelador quanto pouco frequente.
Sem entusiasmo, desembrulhou em silêncio os dois presentes. Duas garrafas de destilado importado. A primeira o surpreendeu bastante. Com a segunda, um leve sorriso se desenhou em seu rosto.
—Ora, muito obrigado. Não precisava se incomodar —comentou, erguendo os dois presentes diante do rosto.
—Não é nada, homem. Estando em Punta Cana, decidi comprar esse mezcal para você, porque pensei que o seu bar, com o filho morando por lá, estaria lotado de tequila. Ou estou errado?
—Pois veja que não. Na verdade, tenho guardada outra igualzinha. Compramos na última viagem em família, um cruzeiro até Cartagena, há uns dois anos, para comemorar nossas bodas de cerâmica. A porcelana de Capodimonte que o senhor vê ali —e apontou para uma vitrine—, aquela que representa uma partida de cartas, ela comprou para a ocasião. Fez isso para me irritar, porque sabe que eu não gosto de tentar a sorte no jogo. Ela, sim, adora o solo e deixar as perdas em algum cassino com as amigas. Pode acreditar que eu ainda não abri a garrafa?
—Eu que achei que seria algo original. Mas enfim, esse vodca —e apontou com o dedo— certamente você não provou. É quase de coleção!
—Imperia? Hummm, olha só. Tem razão, eu não conhecia essa marca. Embora, para ser sincero, eu seja mais de cerveja ou aguardente. Minha mulher… Não importa, não me escute. O senhor tem tempo e toma um comigo?
—Claro, por supuesto. Mas me deixe preparar. Como o senhor mesmo disse, ainda é seu dia de aniversário! Tem gelo por acaso? —Ramiro assentiu e o guiou até a cozinha.
***
Deixou as duas garrafas sobre a bancada central e tirou do congelador um saco de gelo picado. Sobre a pedra marmorizada continuavam amarrotadas as verdades que sua esposa lhe havia escrito. Para evitar olhares indiscretos, dobrou-as rápido e as guardou no bolso de trás da calça.
—Vou buscar uma geleira.
—Não precisa dessas coisas, homem, com dois copos altos já estamos bem servidos —e Sebastián, com total autonomia, abriu e fechou os armários de cima até encontrar a cristaleria.
—Eu não o vi antes, ou estou errado? Nada em você me parece familiar —Ramiro se surpreendeu com aquele gesto descarado, mas deixou que ele continuasse e esperou a resposta com curiosidade.
—De jeito nenhum, é verdade. Embora, agora que o senhor menciona, sinto que já o vi em algum lugar. Mmmm… uma revista? Talvez. Minha ex-mulher era viciada em celebridades.
—É provável. Devo ter concedido alguma entrevista, mas a última foi há mais de dois anos. Estranho a Renata não ter me mencionado. Ela tem muitos companheiros de voo, mas… vocês trabalham para a mesma companhia aérea?
O sorriso de Sebastián se apagou e das mãos lhe escaparam alguns pedaços de gelo, que rolaram pela bancada e caíram na cuba menor da pia, com um estrondo seco.
—Que barulho desagradável. Estão úmidos e mais frios do que esta noitezinha. Meus dedos ficaram dormentes —comentou com tranquilidade, e se apressou em servir os copos.
Ramiro se afastou da cozinha, mas não das suas dúvidas, e procurou o controle para acender a lareira a gás. As faixas de tecido cor marfim das persianas não conseguiam clarear o panorama escuro, frio e lúgubre da varanda.
Justo quando ia fechá-las, Sebastián se aproximou por trás com os dois copos servidos, esbranquiçados de tão gelado que estava o líquido. Ramiro deixou as persianas pela metade para receber sua bebida e em seguida dar um gole longo, sem brindar com o estranho.
—Que beleza! Deve ter uma vista linda para a savana —apontou. Ramiro entortou a boca, apertou os lábios e o encarou.
—É verdade, o senhor devia ver de madrugada. Serena e fria neste mês; amena e quente nas manhãs de dezembro e janeiro. Mas estou pensando em vender. Tem interesse?
—Ha, ha, ha! Não, homem. Já aguentei muito frio quando morava no campo com a que foi minha mulher, na fazenda dos meus sogros, por aí em Sopó. Agora moro num aparta-estúdio alugado, perto do aeroporto. Mas me diga: o que o senhor acha desse vodca?
—Pois está bom. Sim, sim! Tem um gosto bom e queima por dentro como um cabrão. Eu não tinha provado antes. É mesmo russo? —e se acomodou, despreocupado, em seu macio sofá.
—Bastante. Vem das profundezas dos Urais. Pelo menos foi essa a história que me contaram, depois de pousar em Dubai com escala técnica em Istambul para comprá-las. Um dos meus chefes me deu três garrafas iguais a esta, depois de beberem, entre os três e as mulheres pagas deles, quase uma caixa e meia —e Sebastián se sentou na almofada central do sofá, o lugar favorito de Bárbara Renata para conversar.
—Mmmm… Terminaram bem bêbados! —observou o aniversariante.
—Eles nem tanto, aguentam bastante. As mulheres, por outro lado, sem um único cabelo de cossacas, capotaram logo —respondeu, e Ramiro sorriu de verdade pela primeira vez, sem deixar passar a maneira delicada como o outro cruzava a perna direita e a apoiava apenas sobre o joelho esquerdo.
—Tome devagar, saboreie. Não se apresse, ainda é cedo —indicou Sebastián, erguendo o copo como sinal de brinde.
—Prefiro terminar em três goles, para começo de conversa. E não é cedo, meu dia ainda não acabou. Ainda me resta um tempo para festejar meu aniversário. Depois verei se paro de beber ou de viver. Não se preocupe comigo: sei apreciar uma boa bebida e uma boa conversa. E saiba outra coisa… estou em minha casa, este é meu território! Então me conte… desde quando conhece a Renata?
Sebastián se remexeu, incomodado com a pergunta intempestiva, porém lógica, principalmente porque pegara Ramiro olhando-o de cima a baixo mais de uma vez.
***
De repente, atrás das cortinas, surgiu uma gata angorá turca que miou como um lamento. Pelagem branca de mechas longas, olhos verdes, narizinho rosa e cauda fofa; só a ponta das quatro patas tinha um cinza chumbo, como pequenas luvas. Bárbara Renata a havia batizado de Esmirna e apareceu com ela, de um mês e meio, dentro da bolsa de academia numa tarde. Para Camila era simplesmente Esmi; para Ramiro, simplesmente Zarina. Respondia a qualquer um desses nomes, ou a nenhum deles, conforme lhe desse na telha.
—Na verdade, não faz muito tempo. Não a conheço tão bem. Só sei que ela parece uma boa mulher. Ela é? —Sebastián balançou a bebida e depois igualou o anfitrião, só que mais devagar.
Ronronando, com andar elegante, a gata se aproximou dos pés do visitante, cheirou os mocassins dele e, num salto, aterrissou no colo dele. Sebastián deu um pulo e jogou as costas para trás, como se fosse outro felino a quem não interessava compartilhar seu espaço.
—Desculpa ela, essa maldita gata tem o hábito de subir nas visitas. Sai daí, Zarina! Deixa o senhor em paz, que ele parece não gostar de animais.
—Não, homem! Eu adoro cães e gatos. Só que sofro de alergias e começo a espirrar. Começa a coçar minha garganta, meu nariz. Mas fique tranquilo, deixe-a aqui se quiser —defendeu-se, acariciando até o dorso de Esmirna.
—Sério? Porque, se lhe causa incômodo, melhor eu levá-la para a área de serviço. Se a sua amiga abandonou a gata, até deve ter esquecido de deixar água e comida para ela. Não demoro.
Ramiro se levantou, pegou o animal com delicadeza —que miou sua queixa— e, contornando a ilha da cozinha, retomou a ideia interrompida sem deixar de observar o visitante.
—Eu achei que sim. Supus que, como vocês são colegas… —mas o gesto de confusão no rosto de Sebastián foi evidente, então insistiu—. Vocês não trabalham para a mesma companhia aérea?
—Ohhh, não. Não, homem. Nunca trabalhei para companhias aéreas comerciais. Sou piloto particular —Ramiro desfez o cruzar das pernas, firmou os pés no tapete e se inclinou para o estranho, muito interessado.
—No começo, eu voava para uma petrolífera estatal, em helicópteros, levando carga e operários. Foi lá que conheci quem agora são meus chefes. Anos depois me ofereceram pilotar o jato particular deles. Bom salário e viagens longas. Exatamente o que eu precisava para me afastar das birras da Lorena, minha ex.
—Então está separado?
—Digamos que, entre as viagens longas e meus gostos particulares, eles me obrigaram a aceitar o pedido de divórcio dela.
—E sua família? Como recebeu isso?
—Tivemos um único filho, que estuda fora do país; eu assumo as despesas dele. Meus pais já morreram. O restante da família dela apoiou a decisão: eu nunca fui santo de devoção deles.
Ramiro se endireitou, bebeu todo o conteúdo do copo no terceiro gole, como tinha prometido, e pegou a garrafa de vodca da bancada para levá-la até a mesa de centro.
—Não foi por causa da fama de piloto, de forma alguma —respondeu Sebastián, servindo-lhe outra dose—. Na verdade, o pai de Lorena, esse sim piloto comercial com muitas horas de voo e gerente da empresa onde comecei, desfez essas suposições para mim. Foi lá que nos conhecemos. Não posso culpá-la de nada: é uma excelente mulher.
—Então somos colegas. A minha, sua amiga, acaba de me despachar da vida dela. E todos que conhecem a Renata diriam o mesmo que você diz da sua: uma mulher excepcional! A diferença é que a sua lhe disse isso em privado, e a minha anunciou aos quatro ventos diante de todo mundo. Maldita covarde!
—Veja bem, Ramiro, o senhor vai me perdoar, mas eu gostaria de lhe dar um conselho, se me permite —o anfitrião olhava para o nada, os arabescos geométricos do tapete, mas levantou a mão e o copo em sinal de assentimento.
—Nesta vida, é preciso deixar ir quem assim o manifesta. Amor não é sinônimo de obrigação. Pense que sua mulher pode ter se sentido insatisfeita com algo que o senhor fez ou, pior ainda, com o que deixou de fazer.
—Deixar de fazer? Nisso o senhor tem muita razão. Exatamente nisso tenho pensado nos poucos minutos que tive a sós para tentar compreender a decisão egoísta dela.
—Eu entendo, de verdade. Mas, homem, com certeza o senhor poderá esquecer esse mau momento.
—O senhor realmente acha que alguém esquece tão facilmente? —refutou, indignado.
—Muitas vezes, sim. Os esquecimentos são rápidos se as más lembranças são pequenas e carecem de relevância para o coração. Mas, sinceramente, não se deve generalizar quando o que se quer perdoar causou uma dor imensa —concedeu Sebastián.
—E será que o esquecimento é como a gente imagina? Apagar da memória? Riscar do coração? Nah! Isso é impossível —sentenciou o aniversariante ferido.
—Hoje penso que o esquecimento é um novelo que se forma com a mistura das lembranças, quando elas já deixam de doer. Deixamos de cometer os mesmos erros justamente por não esquecer totalmente. O famoso “eu perdoo, mas não esqueço” sempre foi visto pelo lado do ressentimento; acho que poderíamos ressignificá-lo.
—Algo como “eu perdoo, mas não esqueço, porque agradeço, desde o amor, o que aprendi através da dor”? Ha, ha, ha. Que estupidez! Como se a pessoa fosse uma santa para desfilar orgulhosa das próprias feridas.
—É a isso que me refiro, Ramiro. É quando o esquecimento passa a ser visto como uma lembrança agradável, encarada do outro lado. Do lado do “isso já não me importa”. Porque se continua vivendo apesar de tudo, se é isso que a pessoa quer fazer ressurgir.
Os dois homens beberam outro gole e ficaram pensando, olhando-se com curiosidade. Para o visitante, a separação não afetava em nada; sua dor era passado. Para o anfitrião, ao contrário, sua pena estava apenas começando.
***
Ramiro apressou outro gole longo e, sem querer, a memória lhe armou uma emboscada. Os arabescos do tapete se desfizeram; a voz pausada de Sebastián virou um rumor distante atrás da parede. O que apareceu foi Bárbara Renata como ele a viu da última vez que a teve de verdade —seis, sete meses antes, talvez mais—, entrando por aquela mesma porta às três da manhã, recém-descida do táxi, com o uniforme ainda vestido e os saltos pendurados em dois dedos.
Aquela madrugada ele a esperava no sofá, com a boca amarga pelo uísque e por quase um mês de negativas. Renata deixou a mala ao lado do móvel do bar e o encarou com aquela mistura de irritação e culpa que lhe tinha virado hábito. A saia do uniforme estava colada aos quadris pelo suor do voo, as meias arrastadas um dedo pela coxa, e a blusa branca desabotoada em dois botões pelo calor do táxi. Contra a luz, nele se marcou o rendado escuro do sutiã através do tecido fino.
—Você está acordado —disse ela, com a voz áspera do cansaço.
—Eu estava te esperando.
—Não precisava.
—Precisava. Faz semanas que você não me deixa tocar em você.
—Não comece, Ramiro. Estou exausta.
—Exausta do quê, Renata. Exausta do quê.
Ela deixou os sapatos caírem com um baque seco contra a madeira e se plantou diante dele. Quando pôs as mãos na cintura, a blusa se esticou sobre os seios e ele pôde ver como os mamilos duros se marcavam contra o rendado.
—Sabe de uma coisa? Você tem razão —disse, e começou a desabotoar os botões que ainda restavam, um por um, sem tirar os olhos dele—. Eu estou exausta. E estou excitada. E estou de saco cheio de você me olhar como um cachorro com fome e não se atrever a fazer nada. Se tanto a quer, aí está. Tire você mesmo.
Ela se jogou sobre ele de cavalinho no sofá, com a saia subida até a cintura, e segurou o rosto dele com as duas mãos. Falou com a boca colada à boca, sem beijá-lo ainda, respirando sobre ele.
—Vai, velho. Me prove do que porra você é capaz quando colocam a coisa na sua frente. Ou você se cala para sempre.
Ramiro arrancou a blusa dela —dois botões saltaram e rolaram para baixo da mesa— e apalpou os seios por cima do rendado, apertando com mais raiva do que vontade. Ela riu pela garganta, um riso rouco que ele não ouvia havia meses, e baixou o zíper da calça dele. A mão se enfiou pela abertura da cueca boxer e tirou o pau já duro, envolvendo-o com a palma gelada de ter viajado a noite toda com o ar-condicionado do avião colado à pele.
—Ora, ainda funciona —disse ela em seu ouvido, apertando-o da base até a glande com lentidão calculada—. Eu pensei que isso aí embaixo já tinha morrido, velho.
—Chupa —ele rosnou, com a mandíbula tensa—. Chupa como você sabe fazer. Sem conversa.
Renata riu outra vez e se deixou cair de joelhos no tapete, entre as pernas abertas dele. Puxou a calça até os joelhos num golpe só, agarrou o pau com a mão direita e com a esquerda apertou os ovos, pesando-os como quem confirma que tudo continua no lugar. Depois pôs a língua para fora e lambeu da base até a ponta, devagar, parando sob a glande, e daí o enfiou inteiro na boca até ele sentir o fundo quente e pulsante da garganta.
—Isso, porra, isso —gemeu Ramiro, com a nuca apoiada no encosto do sofá—. Chupa, chupa forte, não faça pose.
Ela o chupava com fome real, não com aquela cortesia apressada dos últimos anos. Subia e descia com a boca inteira, fazendo bochechas, deixando a saliva escorrer pelo queixo e cair sobre os ovos, que massageava com a mão e depois lambia também, um por um, enquanto com a outra continuava punhetando o pau no ritmo exato. De vez em quando erguiam-se os olhos, aqueles olhos verdes maquiados às pressas para não chegar desbotada em casa, e ela sustentava o olhar enquanto o engolia inteiro. A Ramiro os dedos se crispavam no braço do sofá toda vez que ela fazia isso.
—Vou gozar —ele a advertiu depois de um tempo, rouco—. Vou gozar na sua boca, Renata, saia se não quiser.
—Ainda não —disse ela, e o tirou da boca com um estalo úmido, deixando um fio de saliva pendurado no lábio. Levantou-se, subiu a saia até a cintura e desceu a calcinha de renda preta até a metade da perna, segurando-a ali de propósito, como uma trava que ele teria de quebrar se quisesse. Virou-se e se dobrou sobre o encosto do sofá ao lado, com os seios pendendo livres do sutiã aberto e as costas arqueadas—. Agora me fode. Me fode como se fosse a primeira vez, ou como se fosse a última. Tanto faz. Mas me fode de verdade, Ramiro, não me faça perder tempo.
Ele se levantou, tirou a calça com um chute e se posicionou atrás dela. Abriu-lhe as nádegas com as duas mãos e encontrou a buceta encharcada, escorrendo por dentro, a carne rosada e aberta pedindo. Enfiou-se de uma vez só, até o fundo, sem dar tempo para ela se acomodar. Renata gritou —um grito que não foi de dor, mas de surpresa e prazer misturados— e se agarrou ao encosto com os nós dos dedos brancos. O pau afundou sem nenhuma resistência, escorregando em uma poça morna que lhe molhou os ovos.
—Era assim que você gostava, não era? —disse ele, investindo devagar, mas até o fundo, sacando-a quase inteira e voltando a entrar de uma só vez—. Era assim que você me pedia, anos atrás. Forte. Sem cerimônia.
—Sim, assim, assim —gemeu ela, jogando a bunda para trás para recebê-lo—. Mais forte, Ramiro, não seja frouxo. Mais forte, seu filho da puta.
Ele foi com mais força. As coxas dele batiam nas nádegas dela com um tamborilar seco e úmido, e o sofá ia se deslocando aos poucos sobre o tapete pela força das investidas. Agarrou-lhe o cabelo, aquele cabelo que ela sempre prendia num coque perfeito para voar e que agora se soltava em mechas suadas, e puxou-o até obrigá-la a arquear ainda mais as costas. Com a outra mão apalpou-lhe os seios por baixo, apertando os mamilos duros entre os dedos até arrancar dela um gemido, e ela soltou uma série de palavrões em voz baixa que acenderam algo nele na boca do estômago.
—Vadia —disse ele ao seu ouvido, sem parar de enfiar—. Vadia, vadia, vadia. Me diz para quem mais você dá desse jeito.
—Para ninguém —gemeu ela—. Para ninguém, velho, para ninguém.
—Mentira. Me diz a verdade e eu deixo você gozar.
—Para ninguém, estou te dizendo. Cala a boca e me fode logo, porra.
Ele a agarrou pela cintura, a ergueu do encosto e a sentou de novo a cavalo sobre ele no sofá, desta vez ela de costas, com as pernas abertas e de frente para o espelho alto da sala de jantar. Ela se deixou cair com todo o peso sobre o pau e começou a cavalgar, subindo e descendo, vendo a si mesma no espelho, vendo-o por cima do ombro. Apalpou os seios sozinha, beliscou os mamilos, enfiou dois dedos na boca e baixou a mão até o sexo para acariciar o clitóris enquanto o montava, roçando os nós dos dedos na base do pau dele a cada descida.
—Olha para mim —exigiu ela, com a voz cortada pelo arfar, procurando os olhos dele no reflexo—. Olha para a minha cara quando eu gozar, Ramiro. Olha direito. Não feche os olhos, seu filho da puta.
E gozou. Gozou com um tremor longo que lhe subiu das pernas até a nuca, apertando o pau dentro com espasmos que ele sentiu um por um, espremendo-o, e com a boca aberta num O mudo que ele não via nela desde o primeiro ano de casados. Ramiro lhe agarrou os seios por trás, sustentou-a contra o peito enquanto ela terminava de pulsar ao redor dele, e mordeu-lhe o ombro sem sair de dentro, sentindo o sal da pele.
—Agora você —disse ela, virando-se e descendo dele com as pernas ainda bambas—. No rosto. Quero no rosto. Como antes.
Ela se ajoelhou de novo entre as pernas dele, abriu a boca, pôs a língua para fora e sacudiu o pau com as duas mãos, apontando para o queixo dela. Ramiro aguentou mais dois, três puxões e gozou num jato longo; o primeiro caiu na bochecha de Renata, o segundo no lábio superior, o terceiro na língua esticada, e o último escorreu pelo queixo até o vão entre os seios. Ela deixou escorrer por uns segundos, recolheu com dois dedos e meteu na boca, engoliu com os olhos fechados fazendo um ruído de garganta que ele nunca tinha ouvido. Depois passou a língua pela ponta do pau mais duas vezes, até a última gota, e o deixou ali, pulsando, ainda duro.
—Viu —disse, com a voz rouca e o sêmen brilhando na maçã do rosto—. Quando você quer, você sabe. O problema é que quase nunca quer.
Levantou-se, limpou o rosto com a blusa amarrotada do uniforme, e foi para o banheiro nua da cintura para baixo, com as meias caídas até os tornozelos. Antes de dobrar a esquina, voltou a olhá-lo por cima do ombro, e naquele olhar havia algo que Ramiro não soube ler na época e que agora, meses depois, com o copo de vodca tremendo em sua mão, reconhecia perfeitamente: era uma despedida. Ela não tinha dito “para ninguém” como verdade. Tinha dito como quem assina um papel pela última vez, sabendo que aquele sim era o último e que do outro lado já havia uma vida esperando.
Ele, imbecil, em vez de persegui-la e ir para o chuveiro com ela e arrancar uma confissão com a boca, tinha ficado ali sentado, respirando forte, sentindo-se enfim homem depois de meses, pensando que aquilo era um recomeço. Não era. Tinha sido uma caridade. A última.
Ramiro piscou, e a sala voltou a ser a sala. O copo gelado na mão, a vodca pela metade, a lareira sussurrando a gás, e aquele piloto desconhecido olhando-o com paciência do sofá, a perna cruzada, o copo no ar, esperando sabe-se lá qual resposta para uma pergunta que ele já não se lembrava de ter ouvido.
***
—Curioso eu não saber nada sobre o senhor —disparou Ramiro, de supetão—. Agora me pergunto se, sendo amigo da minha esposa… Ela tem muitos companheiros de voo. De muitos não fala, mas vários ela descreve: “aquele gordo, aquele alto, aquele bonitão quebra-corações, aquela intensa…”. Talvez o senhor os conheça. O senhor também convive com eles? —examinou-o com tom mais sério.
—Pode ser, com um ou outro. Mas não é comum eu esbarrar neles. Vou daqui para lá com pressa, como todo mundo. Com sua esposa eu mal troquei algum cumprimento à distância, um café de vez em quando. Já a vi em algum corredor com comandantes e auxiliares, todos muito ocupados. Não vi nada estranho. Não sou de puxar conversa com muitas aeromoças, evito fofoca. Por que a pergunta? —respondeu sem perder a compostura.
—Talvez o senhor a tenha visto com alguém, em atitudes um tanto…
—Comprometedoras? Não, homem, de forma alguma. Como lhe disse, não a conheço o suficiente para ter essa intimidade —Ramiro deu um pequeno sobressalto e um choque lhe percorreu as costas, vértebra por vértebra.
—Não faça essa cara, não se assuste. O que quero dizer é que, no pouco tempo de convívio, sua mulher se comportou à altura. Me parece muito inteligente, de conversa fascinante e risada fácil, segura de si. Uma boa pessoa. Jamais imaginei que chegasse ao extremo de terminar com o senhor assim, tão… inesperadamente!
—Pois calcule o meu espanto. Além de deixar minha reputação em xeque, confessou diante de todos que vinha me traindo havia meses. Quem sabe desde quando, na verdade. E eu, como um idiota, sem perceber nada —e de novo o abatimento o tomou.
—A verdade é que, para algumas mulheres chegarem à infidelidade, elas levam tempo. Costuma haver por trás o sentimento de serem substituídas, deslocadas por outros interesses. Talvez tenha sido seu amor excessivo pelo trabalho. Considere o ambiente em que o senhor circula: muita beleza desfilando, pele demais. Isso pode ter sido o gatilho.
—Minha verdade? Minha verdade, senhor, se baseia no raciocínio que faço de cada opinião. E a dela eu jamais escutei. Nunca a compartilhou comigo. Planejou tudo, fez de propósito. Isso não se faz com a pessoa que, durante anos, você disse amar profundamente.
—Às vezes, Ramiro, é preciso fazer na vida o que se considera mais importante e deixar de demonstrar interesse por quem não quer contar com a nossa presença. Sei que seu instinto vai empurrá-lo a fazer de tudo para conseguir respostas, mas é um impulso que lhe consumirá tempo, energia e saúde. Quando alguém batalha por um amor gasto, deixa de lado o melhor que teve nas mãos.
***
O celular do visitante tocou de repente. E, quase ao mesmo tempo, uma notificação iluminou o de Ramiro. Os dois se olharam e o clima descontraído se carregou de um manto de curiosidade. O aniversariante olhou a tela; o desconhecido demorou a atender a chamada, afastando-se alguns passos.
—Alô? —respondeu com voz firme.
Enquanto lia sua mensagem, Ramiro chegou a ouvir uma voz fininha e doce, mas não distinguiu o tom nem a saudação. Sebastián franziu a testa e caminhou um pouco mais, então a conversa se tornou quase imperceptível.
Camila, autora da mensagem, só queria saber por escrito como estava o pai. Informou que já estavam as três, sãs e salvas, na boate, e perguntou se o “sujeito” já tinha ido embora.
—Por que você me liga a esta hora? Pensei que isso estivesse claro… Não, não posso falar disso agora. Estou ocupado, falando com… Sim, está tudo bem… Eu tinha que fazer isso, era inevitável —Sebastián respondia devagar e com a voz mais baixa.
Ramiro respondeu à filha que estava tudo bem, que o estranho ainda permanecia em casa porque, além do presente de Tomás, lhe trouxera dois outros e que ele não iria enxotá-lo para a rua sem lhe oferecer uma bebida. Conferiu outras notificações: amizades, sogros, irmãos, a cunhada, todos perguntando a mesma coisa. Não respondeu a ninguém. Para quê? No dia seguinte teriam a resposta.
Disfarçadamente, manteve o interesse na conversa do visitante, mas a mão direita de Sebastián deslizou o trinco das portas-janelas que davam para a varanda escura e, depois de abri-las, saiu para o exterior. A conversa continuou, mas o aniversariante já não pôde mais bisbilhotar.
—Tudo bem, amor, depois falamos. Agasalhe-se e fique tranquila, falta pouco para eu sair daqui —disse, olhando o nível do copo—. Mas me escute: você se precipitou!… Sim, amor, é o que eu penso. Não, não insista… Depois falamos das suas ideias, mas não daqui. Ok… Sim, igualmente. Um beijo!
Assim que desligou, voltou devagar para o interior quente. Encontrou o anfitrião curvado sobre a mesa de centro, ocupado com um cachimbo de madeira, carregando-o de tabaco e apertando-o com o dedo mínimo, ainda sentado no sofá, com a expressão de quem está prestes a se atirar de um precipício. O olhar vazio e apagado denunciava que ele estava prestes a fazer uma de duas coisas: desfalecer e despencar, ou compartilhar com um estranho —sem ter planejado— suas mais de mil histórias com a mulher que o abandonou.
—Tudo bem? —Ramiro fingiu indiferença.
—Sim, homem, sim. Só assuntos… familiares! O senhor sabe, às vezes reaparecem certas pessoas quando menos se espera —respondeu Sebastián, com um sorriso vencedor e um ar despreocupado.
Continua...