A última carta que escrevi para ele depois de traí-lo
Um dia ruim / tudo virou ontem. / Seu olhar limpo, / seu riso contra o travesseiro, / sua mão toda manhã, / o sol partido no seu rosto, / o tique-taque do nosso alarme, / o café que você trazia pra cama, / seus braços se fechando em torno de mim. / As ruas sob nossos pés, / as tardes nos perseguindo, / sua mesa de sempre, / os eu te amo, os eu te quero. / O silêncio onde dormíamos, / a faísca dos planos, / nossa casa, / os filhos que eu já não vou ter. / O calor do seu corpo, / seu sabor misturado ao meu, / o roçar dos seus dedos nas minhas costas, / a dança de aniversário, / minhas lágrimas diante do altar. / O caminho dos dois: / crescer, / respirar, / envelhecer. / Tudo virou ontem.
***
Para Tomás:
Escrevo esta carta porque não encontrei outra maneira de falar com você. De fazer com que me escute. Não quero que pareça uma cobrança, nada disso. Mesmo sem querer, entendo perfeitamente a sua posição. Eu também não quero ficar comigo mesma muitos dias. Mas não tenho a opção de ir embora de mim.
Não posso negar que tem sido difícil. Saber que você está passando mal e não poder fazer nada me corrói por dentro. Mas eu mereço. Já fiz estrago suficiente para ainda por cima pedir consolo.
Eu te procurei. Acho que você percebeu. Você tem dezenas de ligações minhas e mensagens que não quer receber. Me bloqueou em todas as redes. Encontrou um jeito de nem mesmo um e-mail chegar até você. E isso está me matando, porque preciso falar com você. Então recorro a este papel, esperando que você não o guarde para um amanhã que não chega ou, pior ainda, que o queime assim que reconhecer minha letra. Tomara que você me leia. Embora agora eu tenha de me contentar em imaginar que você me escuta por estas linhas.
Eu te devo explicações, embora elas já não sirvam para nada ou você não vá acreditá-las. Para você, devo ser uma mentirosa que colocou em dúvida o último trecho do que era nosso, ou talvez a relação inteira. Mas, прежде de tudo, te peço que acredite em mim. Falo com a única verdade que consegui reunir à força de reviver o que aconteceu naquela maldita viagem. E eu juro que serei sincera, tão sincera que vou te dizer coisas que sei que você não vai querer ouvir. Porque nem eu gostaria de dizê-las, nem que fossem verdade. Mas o mínimo que te devo é falar com franqueza, por mais difícil que seja. E quero que você saiba, embora isso pareça contraditório, que eu nunca quis te ferir. Que te amei o tempo todo. Mais do que agora sou capaz de me amar.
Lembro ainda da noite em que você me perguntou por quê. Eu não tinha rosto nem consciência para lhe dar um motivo, uma única razão para eu ter me jogado no que fiz.
Hoje eu vejo um pouco mais claro. Tenho escrito um diário para a terapia que faço. Você imaginará o quão duro é. Isso me ajudou a organizar o que eu sentia, que era pura escuridão e peso. E consegui localizar o ponto em que comecei a me partir em dois, onde nasceu o monstro em que me tornei. Consegui ver como fui me esvaziando, correndo atrás de algo que achei que ia me preencher e que, ao contrário, me deixou ainda mais vazia.
Te conto isso sem qualquer vontade de me justificar, embora toda explicação de um erro soe como justificativa. Espero que você me entenda.
Posso apontar um momento-chave. A noite em que experimentei os vestidos para o jantar e cheguei em casa encharcada pela chuva, envergonhada, com um deles apertado demais colado ao corpo. Você se lembra? Ali comecei a me sentir olhada, validada. Por estranho que pareça, no meio da humilhação uma parte de mim se acendeu. A mulher atrevida que eu nunca tinha me encorajado a ser, o outro lado da tímida de sempre, veio à tona. E isso, preciso admitir, me agradou. Cheguei chorando porque, claro, me incomodou sentir-me um objeto, carne para ser olhada. Mas me ver provocante me fez acreditar que eu podia dominar tudo. E aquilo ficou cravado em algum lugar.
Fui abraçando aos poucos essa versão desafiadora de mim mesma. A viagem virou um espelho que ampliava essa imagem. Isso foi soberba. Uma arrogância tola.
O resto foi me afundar na dinâmica adolescente do meu velho grupo de amigos — agora ex-amigos, fique sabendo —. Muitas vezes me senti bajulada. Mas entrar no jogo deles, nas regras deles, era aceitar outra forma de entender as relações, os limites de casal, o que era permitido. E eu caí, uma e outra vez, nessa lógica que combinava tão bem com a Irene atrevida. E te perdi de vista. Me perdoe por te perder de vista. Se serve de algo, eu também me perdi. Porque, por me sentir no controle, me divertindo com brincadeiras bobas, tentando me encaixar, não soube te colocar em primeiro lugar. Lamento. De verdade. Foi só no último jantar que entendi que nunca caberíamos naquele grupo como casal. Que você não podia se adaptar a eles. Nem eu por inteiro, com a inveja de umas e o morbidez de outros. Eu devia ter entendido que éramos uma equipe e que, se alguma coisa te incomodava, meu dever era evitar isso.
Não percebi que fui cruzando, um a um, os limites do aceitável. Foi um efeito bola de neve. Cada pequena decisão ia me corroendo, corroendo o que era nosso. Não parei a tempo e, quando olhei para trás, já tinha deixado um rastro de estragos.
E agora, Tomás, vem a parte que eu não quero escrever. A parte por causa da qual você está longe. Prometi ser sincera, e vou ser, mesmo que cada palavra me arranhe a garganta. Você precisa saber o que aconteceu naquela noite no hotel, em detalhes, porque sei que a sua imaginação tem te torturado e talvez a verdade, por mais crua que seja, te liberte um pouco, ao menos. Também sei que isso pode te afundar ainda mais. Não saberia dizer qual das duas coisas é pior. Mas eu te devo isso.
Tínhamos bebido. Muito. Você sabe que eu aguentei pouco, e naquela noite passei do limite. Quando subimos para a suíte do grupo, eu já estava tonta, rindo de tudo, com aquele vestido preto curto de que você não gostou. Você tinha ficado no nosso quarto, cansado, irritado com a cena do elevador. Disse para eu subir se quisesse, que não me esperava acordado. E eu subi. É aqui que tudo começou, nesse sim que eu disse ao grupo e nesse não que eu disse a você.
Ele se aproximou de mim por trás na cozinha da suíte, enquanto eu me servia de outra bebida. Pôs uma mão na minha cintura, assim, sem preâmbulo, como se tivesse direito. E, em vez de tirar, Tomás, eu não tirei. Essa é a verdade mais feia. Não tirei. Fiquei quieta, sentindo o polegar percorrer o osso da minha cintura por cima do tecido, e uma parte de mim — essa Irene atrevida, essa idiota — pensou que podia aguentar, que podia olhar na cara dele e dizer chega quando quisesse, e que até lá não acontecia nada. Esse não acontece nada acabou com a minha vida.
A mão dele subiu. Ele tocou meus seios por cima do vestido, apertando devagar, apalpando o peso, como se medisse o que lhe pertencia. Meus mamilos endureceram sob o tecido e ele riu no meu pescoço. Sussurrou que dava para ver, que ia me foder como você nunca me fodava, que vinha pensando nisso desde que me viu com aquele vestido no elevador. E eu, em vez de dar uma bofetada nele, me encostei contra ele. Senti o pau duro contra a minha bunda através da calça. E não me afastei. Me encostei mais. Me esfreguei. Deixei que ele enfiasse a mão por baixo do vestido e me tocasse por cima da calcinha. Eu estava molhada, Tomás. Eu estava molhada e ele percebeu e me disse no ouvido: olha como você está encharcada, vadia. E eu fechei os olhos.
Ele me levou para um dos quartos. Ninguém mais entrou, mas a porta não ficou totalmente fechada, e foi por aquela fresta que entrou a câmera do celular que depois o meio mundo veria. Eu só soube no dia seguinte. Naquele momento eu só pensava que a cabeça girava e que a boca dele estava mordendo meu pescoço enquanto ele me baixava a calcinha por baixo do vestido. Ele a tirou pelos tornozelos e a guardou no bolso, rindo, como um troféu.
Ele me empurrou contra a cômoda. Levantou meu vestido até a cintura e abriu minhas pernas com um empurrão leve, me obrigando a me inclinar sobre o móvel. Me vi no espelho: o cabelo desalinhado, o rímel escorrido, o vestido enrolado na cintura, a bunda de fora. Essa imagem é a que me desperta às três da manhã, Tomás. Aquela mulher no espelho com cara de estar gostando do que não deveria.
Primeiro ele enfiou os dedos em mim. Dois, de uma vez, sem cuidado. E eu gemi. Gemi, Tomás, não posso mentir. Ele me fodia com os dedos enquanto com a outra mão puxava meu cabelo para me obrigar a olhar no espelho, para que eu visse o que estava deixando ele fazer. Ele dizia coisas no meu ouvido: você é uma puta, sempre foi, olha como você se molha para mim, seu namorado não te toca assim, toca?, diz, diz. E eu negava com a cabeça, mas apertava o cuzinho contra os dedos dele. Essa é a merda que eu sou. Essa é a verdade.
Ele baixou as calças. Ouvi o cinto, o barulho da embalagem do preservativo — ao menos isso, ao menos esse restinho de lucidez me sobrou, fazê-lo colocar um —. E ele me penetrou por trás, de uma só investida. O pau dele abriu caminho no meu sexo e eu tampei a boca com a mão para não gritar, porque no fundo, num canto de mim que ainda respirava, eu sabia que estava fazendo a pior coisa que já fiz na vida. Mas não disse para ele parar. Ele me empurrava contra a cômoda a cada investida, a madeira batia nas minhas ancas, e ele me fodia com uma raiva que eu não sei se era desejo ou vingança contra você, contra os anos em que não pôde me ter.
Ele me fodia forte. Muito forte. Com as duas mãos na minha cintura, puxando-me para trás para cravá-lo até o fundo, até me machucar, e eu deixava. O som da pele contra a pele enchia o quarto, e seus rosnados, e meus ofegos que eu não soube controlar. Ele me obrigou a dizer coisas. Me obrigou a dizer que eu era a puta dele naquela noite, e eu disse. Me obrigou a pedir que me fodesse mais forte, e eu pedi. Me obrigou a dizer seu nome e dizer que a sua era menor, e aí, graças a Deus, alguma coisa se quebrou em mim e eu me recusei. Foi a única linha que eu não cruzei. E, mesmo assim, cruzei todas as outras.
Ele me virou. Me sentou na cômoda e abriu minhas pernas, e voltou a me meter aquilo de frente, me segurando por baixo das coxas, olhando nos meus olhos. Ele me beijou na boca e eu retribuí o beijo, Tomás. Retribuí o beijo com língua enquanto o pau dele entrava e saía da minha buceta. Ele mordeu meus lábios, arrancou meu vestido com um puxão por cima para me deixar com os seios à mostra e chupou eles, mordiscou meus mamilos, enquanto continuava me investindo. Eu tinha as pernas cruzadas nas costas dele, empurrando-o para mim. Empurrando-o para mim, entende. Eu estava ajudando ele a me foder.
Ele me fez descer da cômoda e me ajoelhar. Tirou o preservativo. Agarrou meu cabelo com as duas mãos e enfiou o pau na minha boca. Eu chupei. Eu chupei, Tomás. Abri a boca e deixei ele me enfiar até o fundo, até as lágrimas saltarem e o rímel escorrer ainda mais e eu encher a rola dele de saliva. Ele me fodia a boca como tinha fodido o meu sexo, sem piedade, e eu o olhava de baixo com os olhos cheios d’água e ele sorria. Sorria como um vencedor. Eu o chupei com vontade. Não há outra forma de dizer isso. Com a língua contornei a cabeça, chupe-o por baixo, lambi os testículos quando ele pediu. Fiz tudo o que ele mandou.
Ele gozou no meu rosto. Segurou minha cabeça com uma mão e com a outra sacudiu o pau contra minhas bochechas, minha boca, meu queixo. O sêmen escorreu pelo meu queixo até o peito, quente, espesso, e eu coloquei a língua para fora porque ele ordenou. Ele mandou eu abrir a boca e mostrar. Mostrei. Ele riu. E essa risada, Tomás, essa risada satisfeita por ter me reduzido àquilo, é o que a câmera do corredor gravou. Essa risada, e eu ajoelhada, com a porra dele escorrendo do meu queixo, com o vestido rasgado pendurado na cintura, olhando para ele como se ele tivesse me feito um favor. Esse é o vídeo. Esse é o vídeo que você viu.
E ainda tem mais, e eu preciso te contar mesmo que você me despreze em dobro. Porque eu não me levantei e fui embora. Fiquei. Ele me levou para a cama, me deitou de barriga para cima, abriu minhas pernas e, com o sêmen ainda no rosto, me comeu a boceta. Ele me comeu até eu gozar, até eu gritar contra o travesseiro, até eu puxar seu cabelo e cravar os calcanhares nas costas dele. Gozei na boca dele, Tomás. Gozei com a boca de outro homem entre minhas pernas enquanto você dormia dois andares abaixo, me esperando. Essa culpa não se lava com carta nenhuma. Eu sei.
E depois ele me comeu de novo. Outra vez. De papai-e-mamãe, olhando nos meus olhos, sem camisinha desta vez porque eu já não disse nada. Ele gozou dentro de mim. Senti o jorro quente me preencher e fechei os olhos e pensei — tão quebrada eu estava — que fazia anos que você não gozava dentro sem cuidado, e essa comparação idiota me atravessou como uma lâmina no dia seguinte, quando acordei com a calcinha de outro no bolso e a boceta inchada e o cheiro dele em toda a minha pele.
Saí daquele quarto ao amanhecer, nua por baixo do vestido rasgado que segurei com as mãos, tentando chegar ao elevador sem que ninguém me visse. E no saguão estava uma das garotas do grupo — você sabe qual — com o celular na mão, gravando também, rindo. Esse é o segundo vídeo. O do saguão. A cara com que eu cheguei. Todo mundo entendeu, ao ver, o que tinha acontecido lá em cima. Todo mundo, menos eu, que ainda repetia para mim mesma que não era para tanto, que eu podia voltar para o nosso quarto e tomar banho e apagar aquilo, que você não precisava saber. Que ingenuidade. Que ingenuidade nojenta.
Pronto. Já escrevi. Você não sabe quantas vezes larguei a caneta antes de terminar esse parágrafo. Mas você precisava saber em palavras, não com as imagens cortadas de um vídeo mal enquadrado. Você precisava saber que não foi um beijo roubado, que não foi um instante, que não foi um impulso de um minuto. Foi uma noite inteira. Foi tudo. E fui eu, com todo o meu corpo, que disse sim a cada passo, embora eu minta para mim mesma dizendo que estava bêbada, que ele insistiu, que a Irene atrevida engoliu a Irene que era sua. Tudo isso são desculpas. A única verdade é que eu estive lá, inteira, e não fui embora.
Não percebi que fui cruzando, um a um, os limites do aceitável, e agora vejo isso com uma nitidez que me dá náusea. Foi uma cegueira arrogante. Ofuscada pelo mar de sensações novas — ou velhas revividas —, parei de enxergar. Na minha ânsia de não me sentir vazia, de não ficar sem aprovação, ironicamente fui ficando mais vazia. Aquilo que eu deveria proteger — você, o que era nosso, e no fim a mim mesma, os meus valores — foi sendo minado sozinho. Não soube cuidar do nosso amor. Cheguei a pensar que havia algo errado comigo. É exatamente isso que estou trabalhando na terapia, eu te prometo.
Nunca passou pela minha cabeça que alguém pudesse entrar entre nós. Minha confiança no mundo estava mal colocada e me deixou ingênua. Acreditei que podia ter qualquer um por perto sem que isso significasse nada. Repeti muitas vezes para mim mesma que eu só estava me divertindo, que era um espaço seguro... enquanto apagava de propósito a possibilidade de perigo.
Esse vazio de que falo foi se enchendo de elogios, de aprovação, de pequenos desafios. Mas não preenchia nada. Só me esvaziava mais. Quando tudo explodiu, quando me vi refletida nos seus olhos, essa versão que eu julgava poderosa, ousada, inteligente, revelou não ter sustentação alguma. Eu tinha erguido virtudes sobre o nada, sobre um chão de mentiras que eu mesma contei para mim. Eu não queria ser um pedaço de carne. Nunca quis. E, ainda assim, caminhei direto para isso. Ajoelhei para isso. Abri as pernas para isso.
Me arrependo de tudo. Eu juro. Você sabe que é verdade. Lamento ter arruinado o que era nosso. Se te conto tudo isso é para que você veja que ao menos estou tentando dar respostas, embora talvez eu nunca venha a entender completamente. Porque, quando as pessoas fazem as coisas, muitos fios se misturam: nossa história, as circunstâncias, os outros, decisões que parecem mínimas e te empurram para um ponto sem volta. Mas você queria saber por quê. E eu sei que você queria saber se eu brinquei com você, se tudo foi uma gozação premeditada, se houve alguma intenção por trás. Não houve. Eu jamais imaginei que aquela viagem terminaria assim. Nunca teria querido isso para você, para mim, para nós. Eu te amei de verdade. Eu te amei. E me dói carregar esta dor: a de ter te ferido desse jeito.
Eu sei que não mereço seu perdão, que talvez você nunca possa me perdoar. Mas eu preciso me perdoar, Tomás. Preciso seguir com a minha vida de algum modo. Parar de sentir que o ar me sufoca, que cada manhã só anuncia mais um dia de merda. Preciso encontrar um jeito de voltar a viver. Isso: viver. E, para isso, preciso me perdoar e, confesso, não quero fazer isso. Porque também não acho que mereça.
Mas devo.
Estes dias, estas semanas, tenho passado muito mal. Quando voltei ao nosso apartamento e não te encontrei, me senti completamente vazia. De repente perdi todo o rumo. Eu estava sozinha. Quebrada. Sem poder falar com ninguém sem morrer de vergonha. Te procurei de mil maneiras. Queria saber, acima de tudo, como você estava. Eu não suportava a ideia de que algo te acontecesse. Uma nuvem negra me cobriu inteira.
Já não consigo dormir direito. Acordo de madrugada lembrando da noite em que você me confrontou. Seu olhar triste, cheio de lágrimas, me persegue nos sonhos. Às vezes nem sei se sonho dormindo ou acordada; a fronteira fica difusa. Queria que tudo isso fosse um pesadelo do qual eu pudesse acordar para seguir com a nossa vida. É tão difícil aceitar uma realidade que a gente se recusa a aceitar. Tive que tomar remédios para dormir. Eles servem por algumas horas, mas me deixam anestesiada durante o dia.
E às vezes — te digo porque prometi não calar mais nada — o meu sono fica sujo. Sonho com a gente. Sonho com você entrando pela porta, me jogando na cama, rasgando minha roupa com raiva, me fodendo como castigo, me marcando de novo como sua. Sonho com o seu pau, Tomás, com a sua boca no meu pescoço, com a forma exata como você abria minhas pernas nas manhãs de domingo e me amava sem pressa. Acordo ensopada e chorando, com a mão entre as pernas, me odiando por continuar te querendo assim, por continuar querendo que você me toque depois de tudo. É outra forma de castigo: te desejar e saber que nunca mais.
No trabalho me perguntam sobre as minhas férias. Todo mundo faz isso. A família. Os conhecidos. Tive que mentir com um sorriso falso; eles não sabem que cada pergunta me abre por dentro. Suponho que eu mereça, mas mesmo assim acabo escondida no banheiro para chorar. É uma tortura ter que reviver isso. Às vezes eu só queria descansar disso. Sentir, por um minuto, que não aconteceu.
Outro dia passei pelo nosso restaurante de sempre e pedi aquela sobremesa de frutas de que a gente gostava tanto, para comer em casa. Você se lembra? Não consegui dar nem uma mordida. Não sei por quê, mas as coisas prazerosas perderam o sabor, o cheiro. Ou talvez eu esteja me castigando e não me permito aproveitá-las. Passei algumas tardes tentando criar coragem para provar. Não consegui. Acabei jogando fora... apodreceu em cima da mesa.
Coisas demais neste quarto me lembram você. Principalmente o seu travesseiro, que já está perdendo seu cheiro, ou talvez já o tenha perdido e eu não queira aceitar. Há alguns dias enfiei o rosto nele e me senti ridícula e decepcionada ao descobrir que seu cheiro também tinha me abandonado. Quis me agarrar a você de mil maneiras: com a escova que você deixou, sua caneca de café, as fotos, seu lado do sofá, sua música favorita. São coisas demais ancoradas na sua memória. Fico fantasiando que um dia você vai entrar pela porta e esse inferno vai acabar. Acho que ainda me resta o direito de sonhar.
Quis me agarrar apesar de minha terapeuta insistir que eu tenho que aprender a soltar, a viver o luto. Ela me diz que me apegar às suas coisas é me apegar à dor, que não vou sarar se não aceitar que você foi embora. Mas me custa tanto me desfazer de você. Toda a sua memória repousa nestas paredes.
Uma parte de mim sabe que precisa te soltar, a racional. A que entende que isso não tem volta, ainda que você quisesse — e não quer, eu sei —. Mas há outra parte que resiste com todas as forças das noites em claro, da dor que me invade assim que digo seu nome. Essa parte se agarra a estas paredes como se elas fossem a nossa vida juntos. Como se deixar o apartamento fosse, de algum modo, deixar de esperar que um dia você abra a porta.
Nem todos os dias são ruins. Há dias em que consigo ficar uma hora sem pensar em você. E outros, a maioria, você é o nome com o qual eu acordo. Está mais presente do que nunca. Justo agora que você foi embora! Suponho que a ausência faça sua presença bater mais forte. Começo a acreditar que muitos dos nossos processos guardam essa ambivalência. Porque, quando eu te tinha ao meu lado, não soube te ver, e agora que não posso te ver você não se afasta de mim.
Às vezes sonho acordada. É mais um desejo bobo, ou muito profundo. Que daqui a não sei, cinco anos, dez, a gente se cruze em algum parque por capricho do acaso e que não reste mais rancor, que você seja feliz, que eu te veja sorrir e que eu finalmente saiba que isso acabou. Que você já me perdoou.
E há anseios ainda mais profundos. Como os de nunca sair do quarto e ir com você, e eu estar planejando o casamento, escolhendo o vestido, o salão, as flores, a música, tudo isso que me fazia tanta ilusão. Por um segundo, Tomás, eu esqueço tudo. Não lembro da viagem, nem do hotel, nem da gravação, nem do saguão. Só lembro que eu te amava e que ia me casar com você. Foi um instante de paz. Que chegou e foi embora assim que a memória dissipou a névoa em que eu vivo.
Mas esse segundo existiu. Eu pude sentir essa paz fugaz. E ela existe agora, enquanto te escrevo. Fecho os olhos e você está ali, antes de tudo isso. Você está colocando o casaco antes de sair para o trabalho, desligando o alarme para não me acordar — eu sempre percebia quando você o desligava —; estão ali as tardes de filmes, o vinho barato de comemoração que me fez saber que você realmente me amava. Deixa eu me deter nessa noite, por favor, quando fiquei te olhando fixo esperando o sermão de orgulho e você, em vez disso, inundou o quarto com seus olhos apaixonados e com três palavras que me preencheram de um jeito que eu não conhecia. Esse Tomás continua vivo em algum lugar dentro de mim, e eu não quero apagá-lo. Não posso. É a única coisa boa que me resta.
E me deixe também me deter mais uma vez no jeito como você me tocava. Porque essa lembrança também é minha e ninguém vai tirá-la de mim, nem eu mesma. Como você me despia devagar, botão por botão, beijando cada centímetro de pele que ia descobrindo. Como você abria minhas pernas com as duas mãos e olhava minha boceta como se fosse um altar, não um pedaço de carne. Como você me amava com a testa colada à minha, sussurrando que me amava enquanto se movia dentro de mim. Como você gozava comigo, sempre comigo, nunca antes. Ninguém nunca me fodeu como você me amava. Ninguém. E quero que você saiba isso também, embora doa, embora não sirva. Que esse pau que dormia ao meu lado era o único que meu corpo reconhecia como seu. O resto foi ruído e humilhação. O seu era casa.
Sei que você não vai voltar. Sei que não devo te pedir isso. Mas preciso que você saiba que, em outra vida, em outra versão desta história, eu não teria saído do nosso quarto. Ou teria ido embora antes. Ou teria pedido ajuda para você no corredor. E você teria me salvo. E hoje estaríamos discutindo o nome dos nossos filhos.
Me desculpe se eu pareço piegas. Mas isso me faz bem.
Quando escrevo seu nome, por um instante posso viver nessa realidade diferente. E tudo bem, ali eu não machuco ninguém. Ali eu posso continuar te amando sem te ferir mais.
Não quero terminar esta carta. É que eu sinto você aqui enquanto escrevo, no tremor dos meus dedos, no calor da minha mão. E sei que terminar isso é outra forma de terminar nossa história, aquela que um dia ruim virou ontem. Mas me deixa mais um pouquinho. Me deixa te sentir mais uma vez. Cada letra que vai até você leva um pouco do amor que eu senti por você, e tomara que você receba assim. Porque eu senti, por um momento, que também aqui repousa o amor que tivemos, o que você teve por mim.
Pronto. Tenho que terminar. Não quero.
Com amor:
sua Irene
P.S. As contas me passaram. Já não consigo pagar o apartamento. Também não consigo continuar nesta cidade. É muito duro saber que só a minha presença te faz mal, que até o ar me dói. Pedi minha transferência no trabalho. Vou guardar o resto das suas coisas e, se você não quiser vir buscá-las, não se preocupe: deixarei com Daniel.
***
Tomás terminou de ler a carta entre lágrimas. Ele sabia onde encontrá-la.