A vizinha do andar de baixo me esperava acordada
O ar do oitavo andar dava para cortar com uma faca. Daniel observava Sandra caminhar de um lado para o outro da sala, como um animal que mede as grades da sua jaula. Três anos de casamento e a realidade tinha desabado sobre eles: conta atrás de conta, visita atrás de visita dos sogros, reproche atrás de reproche.
—É que você não entende nada, Daniel — gritou ela, com os olhos em chamas—. Você vive nesta casa como se fosse um hotel. Dá tanto trabalho assim arrumar a cozinha?
Ele suspirou e fechou os olhos. Sua paciência era um poço que começava a chegar ao fundo.
—Sandra, eu acabei de voltar de dez horas de trabalho. Podemos falar com calma.
—Calma? O seu problema é desleixo, um desleixo que está me matando. —Ela se aproximou até invadir o espaço dele, com aquele olhar errático que surgia quando perdia o rumo—. Você me ignora, me anula. Você é mais um móvel!
A discussão escalou de zero a cem em um piscar de olhos, saltando dos pratos sujos para um rancor guardado desde dois verões atrás. Daniel sentiu o peito prestes a explodir. Sem dizer uma palavra, pegou as chaves e saiu para o hall. O frio do corredor lhe atingiu o rosto, mas ele não parou: desceu pela escada, precisando do esforço físico para não começar a gritar também.
O encontro um andar abaixo não foi uma colisão, foi um pouso de emergência. Ele freou de repente diante do elevador justamente quando Elvira saía da porta carregando uma sacola de papel de onde despontava um pão. Ela tinha sessenta e um anos e emanava aquela serenidade atemporal que só a maturidade dá. O contraste foi imediato: ele com o rosto congestionado, ela com a calma intacta.
—Daniel, meu Deus… você veio correndo ou está fugindo? —brincou ela com um sorriso, mas os olhos cinzentos, de uma lucidez quase analítica, perceberam de imediato o tremor nas mãos dele.
Ele não conseguiu responder de imediato. Apoiou-se no batente da porta, tentando fazer o ar frio parar de queimar seus pulmões. Olhou para ela e, por um instante, o lembrança de três anos de encontros fortuitos passou pela sua cabeça. Sempre havia algo. No cubículo fechado do elevador, o perfume de Elvira — sabonete clássico e um toque adocicado — costumava envolvê-lo, e ele sentia uma fisgada de curiosidade pelo que aquelas saias de tubo escondiam. Ela, por sua vez, o observava com a complacência de quem admira uma obra ainda jovem, notando como a tensão do casamento lhe apagava o brilho dos olhos.
—É a Sandra, não é? —insinuou ela, baixando a voz, transformando o hall num confessionário—. Escutava daqui de baixo, meu filho. Não sou do tipo que fica ouvindo atrás das portas, mas as paredes têm memória.
—É insuportável, Elvira. Não é só a discussão… é a forma como ela me olha, como se eu tivesse a culpa de o mundo não ser perfeito. —Confessou ele, sentindo que a presença da vizinha era a única âncora que lhe restava—. Saí com a roupa do corpo. Sem casaco, sem rumo.
Elvira deixou a sacola no chão e pousou uma mão no peito dele. Foi um contato breve, mas Daniel sentiu o calor da palma através da camisa fina.
—Você não vai a lugar nenhum assim. Entre. Minha casa está quente e tenho uma garrafa de vinho aberta. Não deixe a raiva esfriar seu sangue, porque depois ela vira rancor.
***
Ao cruzar o limiar, Daniel sentiu que entrava em outra dimensão. A casa de Elvira era um santuário de móveis de mogno e um silêncio reparador que parecia absorver as tristezas. Ela o sentou num sofá de veludo verde.
—Fique aqui. Vou pegar os copos — disse, movendo-se com uma parsimonia que a ele pareceu hipnótica.
Enquanto esperava, observou os porta-retratos: o marido falecido, os netos. Depois a viu voltar. Elvira tinha tirado o casaquinho de tricô e usava uma blusa de cetim cor champanhe que ressaltava o volume dos seios. Tantas vezes ele imaginara aquele corpo, buscando refúgio dos gritos de Sandra, que senti-lo a um metro de distância acelerou seu pulso. Sempre se sentira culpado por desejar uma mulher que poderia ser sua mãe, mas ali, sob a luz âmbar, a diferença de idade parecia uma vantagem e não um obstáculo.
—No que você está pensando? —perguntou ela, lhe estendendo a taça. Os dedos se roçaram ao passar o cristal e o toque prolongou o silêncio.
—Em como é irônico eu ter de vir à casa de uma vizinha para alguém me tratar como um ser humano —murmurou ele com uma careta—. Se Sandra me visse aqui, não me pediria o divórcio, me pediria a certidão de óbito.
Elvira soltou uma risada suave, uma vibração que pareceu percorrer o sofá até chegar às coxas dele.
—Ela não precisa saber —disse sentando-se ao seu lado—. No elevador você sempre olhava meu pescoço, Daniel. Não pense que eu não percebia. As mulheres da minha idade desenvolvem um sexto sentido para saber quando um homem jovem nos deseja com respeito.
—Às vezes a fantasia era o único que me mantinha são lá em cima —confessou ele, com a voz mais grave—. Pensar na paz da sua casa.
—A gentileza se esgota, Daniel. Às vezes a gente também quer ser outra coisa —sussurrou ela.
Elvira deixou a taça sobre a mesa de centro e, com uma lentidão calculada, virou-se para ele. Não houve pressa. Ficaram se encarando pelo que pareceu uma eternidade, medindo a química que vinham ignorando havia anos. O ar entre os dois ficou denso, elétrico. Ela ergueu a mão e lhe acariciou a bochecha, descendo o polegar até o lábio inferior.
—Sua mulher é jovem e linda, mas não sabe o que tem. Está ocupada demais com a própria tempestade. Eu, ao contrário, tenho todo o tempo do mundo para me dedicar a você.
Não estava certo fazer isso. E ainda assim Daniel fechou os olhos e se entregou ao toque. As lembranças das brigas com Sandra se tornaram ecos distantes, gritos mudos que já não podiam alcançá-lo. A pele de Elvira, o calor do lar dela e a promessa de um desejo maduro e sem julgamentos eram a única coisa real.
—Elvira… —murmurou, procurando a boca dela.
—Shhh. Não fale. Só sinta.
O primeiro beijo foi um reconhecimento. Não teve a urgência desajeitada dos primeiros, mas a cadência profunda de duas pessoas que sabiam exatamente o que estavam rompendo. Daniel pôs as mãos na cintura dela enquanto ela colava o corpo ao dele e deixava que seus seios pressionassem os dele, acendendo um incêndio que as escadas não tinham conseguido apagar.
Ele começou a desabotoar os botões da blusa, um a um. Quando o tecido caiu, surgiu um sutiã de renda branca que lutava para conter dois seios fartos. A pele de Elvira era de um branco lunar, salpicada de sardas quase invisíveis, e cheirava a creme hidratante e feminilidade serena.
—Me toque, Daniel —sussurrou contra seus lábios, com o hálito de vinho tinto—. Não tenha medo da minha idade. Este corpo esperou tempo demais para que alguém o despertasse.
Ao abrir o fecho da frente, os seios ficaram livres, quentes e pesados, com os mamilos já endurecidos. Daniel enterrou o rosto entre eles e os percorreu com a língua enquanto ela lhe acariciava a nuca e deixava escapar alguns gemidos baixos, contidos durante anos de viuvez.
—Sua mulher é como um cristal —murmurou Elvira enquanto ele descia as mãos até a saia dela—. Eu sou como a terra. Você pode se afundar em mim sem medo de me quebrar.
A saia deslizou pelos quadris largos e revelou uma calcinha de cintura alta, daquelas que Sandra teria desprezado por antigas, mas que a Daniel pareceram a embalagem mais erótica do mundo. Ao retirá-la, descobriu uma vulva que já brilhava de umidade. Ele se despiu com uma pressa atropelada.
—Há tanto tempo eu não via algo tão cheio de vida —disse ela, envolvendo-o com a mão.
O toque dela era seguro, sabia exatamente quanta pressão exercer. Depois se ajoelhou diante dele e o levou à boca. O mundo exterior desapareceu: não havia dívidas, nem pratos sujos, nem gritos. Só o calor da garganta dela e aqueles olhos cinzentos que de vez em quando se erguiam para encará-lo. Sandra nunca fazia aquilo assim; para ela, o sexo oral era um procedimento rápido. Para Elvira era um banquete.
Daniel a deitou no tapete e separou as pernas dela com algo parecido com veneração. O aroma era intenso, de mulher madura, de desejo fermentado pelo tempo. Procurou com a língua o pequeno botão do prazer enquanto ela movia os quadris em círculos para acompanhá-lo.
—Aí… exatamente aí —gemeu Elvira, perdendo a compostura pela primeira vez.
O prazer a fez tremer. Agarrou-se aos ombros dele, cravou as unhas, e o clímax a atingiu como um raio, arqueando suas costas contra o tapete. Daniel não se afastou. Saboreou aquela vitória como se fosse o remédio exato de que precisava para sobreviver à própria vida.
Ela ficou estendida, com o peito subindo e descendo violentamente. O contraste era uma declaração de intenções: a pele tensa do homem de trinta e um anos frente à geografia mais macia, marcada pelo tempo, da mulher de sessenta e um. Havia uma honestidade naquele corpo que o deixava viciado.
—Elvira… não sei se vou saber parar —avisou ele, com a voz quebrada.
—Não pare. Use-me para esquecer. Use-me para voltar a ser você mesmo —respondeu ela, abrindo as pernas.
Daniel se colocou entre as coxas dela e entrou com uma lentidão torturante. Diferente de Sandra, cuja tensão emocional muitas vezes dificultava o ritmo, Elvira estava completamente relaxada, entregue, deixando que ele chegasse ao fundo num único avanço de quadril.
—Há tanto… tanto tempo —gemeu ela.
Ele começou a meter com uma cadência pesada e, pela primeira vez em anos, a mente lhe ficou em branco: nem hipoteca, nem gritos de meia hora atrás, nem a instabilidade da esposa. Só o vai-e-vem e o peso dos seios de Elvira a cada investida. Percebeu que fazia aquilo com uma liberdade que jamais se atrevera a mostrar à mulher, sempre com medo de desencadear uma crise.
—Você é tão jovem… —gemia ela em seu ouvido, mordendo-lhe o lóbulo—. Me dê tudo o que ela despreza.
Aquela frase foi o gatilho. Naquele momento, o celular de Daniel, esquecido no bolso da calça largada no chão, começou a vibrar. O nome “Sandra” piscava na escuridão. Ele viu. Elvira também. Ele não parou: acelerou, transformando cada investida numa porta batendo na cara da sua realidade matrimonial. Ignorou a chamada, ignorou o mundo inteiro.
O orgasmo subiu desde as solas dos pés. Foi longo, explosivo, e o deixou trêmulo enquanto se esvaziava dentro dela, gritando o nome dela como um mantra de salvação. Desabaram um ao lado do outro sobre o tapete, com o único som das respirações ofegantes.
—Obrigada —sussurrou Elvira, traçando círculos no peito dele—. Você me devolveu algo que eu achava morto.
Daniel não soube o que responder. A culpa começava a levantar a cabeça, mas o calor da vizinha ainda a mantinha à distância. Ficou ali, no chão, sabendo que em alguns minutos teria de subir um andar e encarar de novo o furacão, mas com o segredo de saber que, catorze degraus abaixo, existia um refúgio onde ele não precisava ser perfeito.
***
A semana seguinte foi um exercício de equilíbrio em um cabo de alta tensão. Sandra, em sua fase de remissão, mostrava-se excessivamente carinhosa, quase sufocante. Na quinta-feira, voltando das compras, as portas do elevador se abriram no térreo e lá estava Elvira, com um casaco de lã impecável. Ao vê-los, não demonstrou um pingo de nervosismo, só aquele sorriso cordial de sempre.
—Boa tarde. Que frio, não é? Ainda bem que o aquecimento central mantém a casa quentinha.
A frase foi puramente de vizinha, mas para Daniel soou como uma descarga elétrica. Enquanto Sandra assentia com um murmúrio distraído, a mente dele voou até a sala onde, dias antes, o calor se misturara ao suor dos corpos deles. Elvira olhava para frente com discrição absoluta, sem buscar seu olhar. Daniel entendeu que ela sabia esperar melhor do que ninguém.
***
Nessa mesma noite, Sandra saiu para jantar com duas amigas, e Daniel não precisou de mais desculpa. Desceu os catorze degraus e tocou a campainha do sétimo. Elvira o recebeu com um robe de seda e uma taça já servida.
—Tire o suéter, você está encharcado de tensão —disse, deixando a taça sobre uma consola de mármore.
As mãos dela, experientes e tranquilas, ajudaram-no a tirar a peça. Não houve pressa. Ela levou seu tempo para deslizar as palmas pelos ombros dele, medindo a rigidez dos músculos. Ele deixou a cabeça cair para trás, entregando-se ao aroma de limpeza e maturidade que ela exalava.
—Ela não sabe o que faz —sussurrou ele, com a voz embargada—. Acredita que o mundo acaba em cada grão de poeira.
—Ela vive uma guerra que só existe na cabeça dela —respondeu Elvira, colando o corpo ao dele—. Mas você não precisa ser o campo de batalha dela.
Ela o guiou até o sofá e pediu que se sentasse no chão, entre suas pernas. Ele obedeceu como um náufrago que finalmente toca terra firme. Ela massageou as têmporas enquanto os seios, livres sob o robe, roçavam sua nuca.
—Hoje vamos mais devagar —murmurou ela, empurrando-o suavemente até deixá-lo recostado no tapete—. Quero que você sinta cada canto do que tanto imaginou no elevador.
A seda se abriu e revelou de novo aquele corpo volumoso. Elvira se deslizou sobre ele, descendo com a língua pelo abdômen até o membro, já duro. Não se apressou: lambia com uma lentidão exasperante, alternando sucções profundas com roçadas quase imperceptíveis, levando-o à beira outra vez e outra vez.
—Sandra me grita porque não sabe quem eu sou —gemeu ele, enterrando os dedos no cabelo grisalho dela—. Você me faz sentir o único homem sobre a Terra.
—Para mim você é —respondeu ela antes de voltar a engoli-lo inteiro.
Mas Daniel não queria terminar assim. Ele a deitou, abriu os quadris largos e trabalhou o sexo dela com a língua até arrancar-lhe um orgasmo longo que a deixou ofegante. Depois apoiou as pernas dela nos ombros e se enterrou de uma só vez. O ângulo permitia uma penetração muito mais profunda.
—Mais, Daniel, mais —suplicava ela com os seios se agitando.
O segundo orgasmo dela veio logo, entre gritos eufóricos, mas ele se manteve firme. Virou-a e a pôs de quatro sobre o tapete. Aquele traseiro generoso, pálido e macio, o enlouquecia. Umedeceu o próprio membro com a umidade dela e, com uma lentidão que beirava o sadismo, começou a pressionar contra a abertura mais estreita. Elvira soltou um grito em que a dor inicial se transmutou de imediato em prazer proibido.
—Faça de mim o que quiser. Sou sua —gemeu, enterrando o rosto no tapete.
Ele a penetrou devagar até o fundo, sentindo um abraço sufocante que Sandra jamais lhe oferecera, e começou a se mover com uma cadência selvagem. Ela empurrava para trás, reivindicando cada centímetro, enquanto se buscava o clitóris com a mão. Ali não havia protocolos nem o medo constante de desencadear uma crise: só o atrito honesto de dois corpos que se reconheciam na transgressão.
—Me dê tudo —pediu ela, virando-se no último instante, diante dele.
A descarga foi violenta. Daniel se deixou ir enquanto ela recebia o jato com uma avidez quase sagrada. Quando terminou, exausto, ela fez algo que selou o pacto: com uma parsimonia ritual, percorreu cada centímetro dele com a língua, limpando qualquer vestígio, deixando-o imaculado, como se nada tivesse acontecido na última hora.
Se encararam em silêncio. O segredo estava selado, e a limpeza era absoluta.
—Agora você pode subir —disse ela com um sorriso enigmático, limpando a bochecha com um dedo—. Suba e seja o marido que ela quer.
***
O retorno ao oitavo andar foi uma travessia entre duas realidades irreconciliáveis. O rastro de Elvira —sândalo, suor e o gosto salino da transgressão— parecia sair de seus poros, uma marca invisível que ele temia que Sandra pudesse decifrar só de olhá-lo.
Ao abrir a porta, o silêncio já não parecia uma ameaça. Sandra estava no sofá, com o olhar perdido na televisão desligada e os olhos avermelhados. A fúria havia escorrido, deixando aquela fragilidade infantil que sempre vinha depois das crises. Ao vê-lo entrar, ela se levantou de repente, e no rosto não havia rastro de suspeita, apenas o alívio de quem recupera sua âncora.
—Achei que você não voltaria —sussurrou, envolvendo sua cintura com os braços.
Daniel se deixou abraçar, assumindo com uma facilidade espantosa o papel de marido paciente. Acariciou-lhe o cabelo com uma suavidade mecânica. Ela não sentiu o cheiro de sândalo, nem a pele madura, nem o rastro de Elvira. Só sentiu o frio da rua impregnado na roupa, validando a mentira de uma longa caminhada noturna.
—Me perdoa, de verdade. Não sei o que acontece comigo às vezes. Prometo que amanhã vai ser diferente —soluçou, procurando os lábios dele num beijo que ele correspondeu com uma docilidade ensaiada.
Enquanto Sandra o conduzia ao quarto, falando de planos para o fim de semana, a mente de Daniel vagava muito longe. Sob a carícia da esposa, ele ainda sentia a pressão das coxas de Elvira sobre os ombros, e a imagem da vizinha limpando com devoção cada vestígio da pele dele se projetava na memória como um santuário de ordem diante do caos.
Deitaram-se e Sandra adormeceu cedo, agarrada ao braço dele. Daniel ficou olhando as sombras no teto. Compreendeu com uma lucidez gelada que já não podia continuar habitando eternamente aquelas oscilações. A reconciliação era apenas um intervalo, um remendo sobre uma ferida que não parava de supurar. Mas ele já não sentia a angústia do náufrago: agora sabia que, sempre que o ar lá de cima se tornasse irrespirável, bastava descer catorze degraus para encontrar o silêncio, a maturidade e aquele fogo secreto que o mantinha vivo.





