Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

Minha manhã de pintura terminou nos braços de um estranho

A casa de Verónica sempre se esvaziava com a mesma precisão de relógio. Primeiro o barulho da cafeteira, depois as mãos de Rafael pousando por um segundo em seus ombros —uma carícia mais de costume do que de fogo— e por fim a porta da garagem batendo. Quando o silêncio se instalou na sala, não lhe pareceu um vazio, mas um convite.

Ela se olhou por um instante no espelho do hall. Aos quarenta e sete anos, ainda conservava uma beleza discreta, feita de camadas finas, como as aquarelas que pintava. Sob a roupa confortável de pintora, seu corpo magro carregava as marcas de dois partos: a leve queda dos seios, as linhas prateadas no ventre. Um corpo desejável, um mapa que, até aquela manhã, tinha um único dono e um percurso aprendido de memória.

Dirigir os vinte quilômetros até o farol de Punta Lobera foi sua forma de entrar na solidão. A luz de fevereiro sobre o mar a recebeu com uma frieza luminosa, quase de centro cirúrgico. Os chalés da encosta dormiam atrás das persianas fechadas, e o vento arrastava cheiro de sal e de algas secas.

Ela fincou o cavalete na areia firme e umedeceu o papel. Mas antes que o primeiro traço de azul tocasse a superfície, a paisagem mudou.

A uns cinquenta metros, um homem apareceu como se a própria praia o tivesse erguido da areia. Damián caminhava em direção à beira d’água com uma nudez que não parecia falta de roupa, mas um estado natural. Verónica deteve o pincel no ar. Viu-o entrar na água gelada sem hesitação, as costas largas recortadas contra o horizonte de chumbo.

Quando ele saiu do banho, o tempo se esticou. Ela, protegida pela distância e pelo papel de observadora, não conseguiu desviar os olhos. Ele não pegou a toalha de imediato; ficou de pé, deixando que o sol de inverno lambesse as gotas que desciam pelo peito. E, quando começou a andar pela margem, o que pendia entre as pernas se tornou o centro absoluto da cena.

A cada passo, aquilo balançava pesado e escuro, marcando o ritmo de sua caminhada. Verónica sentiu um frio na barriga e uma pressão surda que desceu rápido demais até o centro do corpo.

Um calor úmido, alheio à sua vontade, começou a encharcar o algodão da roupa íntima. As pedras, a espuma, a luz que ela pretendia pintar se embaralharam em sua cabeça. Só existia a presença daquele desconhecido que caminhava como se a praia inteira fosse sua.

Damián se enxugou devagar, sem esconder nada do que ela olhava hipnotizada. Então virou a cabeça e os olhos dos dois se cruzaram sobre a areia vazia. Longe de se incomodar, ele esboçou meio sorriso: sabia perfeitamente o que ela estava olhando, e gostava de ser olhado.

Terminou de se vestir sem pressa e começou a encurtar a distância. Verónica quis retomar o pincel, mas os dedos tremiam. O ar ao redor do cavalete ficou denso, carregado de uma eletricidade que cheirava a mar.

—Há uma honestidade quase brutal nesta costa no inverno —disse ele ao parar, com uma voz grave e pausada—. Em agosto, a paisagem é só um cenário para as massas. Agora o mar se mostra como é. Sem disfarces.

—É uma luz que não perdoa —respondeu ela, surpresa por sua voz tremer menos que seu pulso—. Ou você capta o matiz exato na primeira aguada, ou a aquarela fica suja. Não há volta.

—Como na vida, suponho —comentou ele, olhando o horizonte—. Às vezes passamos anos aplicando camadas e camadas de tinta opaca para encobrir o que há embaixo. E de repente chega um dia de fevereiro, uma praia vazia, e a pessoa precisa se despir de tudo.

Verónica sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a brisa. Sabia que não estavam falando apenas de arte. Ele havia se mostrado nu, ela o havia devorado com os olhos, e agora os dois negociavam os termos daquela verdade sem nomeá-la.

—Meu nome é Damián —disse ele—. Sou arquiteto. Meu mundo é o das cargas, das tensões e dos planos exatos. Mas de vez em quando preciso escapar da rigidez para buscar a liberdade de um traço como o seu. A arte é o único lugar onde a imperfeição é uma forma de verdade.

—Verónica —respondeu ela, deixando que a mão se perdesse por um instante na dele. O contato foi breve, mas a temperatura daquela pele acendeu um rastilho que ela acreditava apagado—. Eu me dedico a isso. Ou tento, toda manhã em que o céu me dá trégua.

—É o único momento do dia em que ninguém espera nada de mim —acrescentou, sem saber por que se confessava—. Meu marido passa o dia fora, minhas filhas estão na faculdade. Minha casa é uma engrenagem que funciona sozinha. Venho aqui para lembrar que há coisas que não se podem planejar.

Damián baixou o tom um pouco, tornando-o mais íntimo.

—Eu entendo. Eu também sou casado, embora minha vida seja agora um projeto que pede para ser redesenhado. Por isso você me vê tomando banho sozinho em fevereiro. Preciso da realidade sem filtros. A mesma que você estava analisando enquanto eu saía da água.

O mar quebrava contra as rochas do farol e marcava o pulso de Verónica, que sentia a umidade entre as pernas quase insuportável.

—Não me fale como se eu fosse uma pintora —disse ele—. Fale comigo como a mulher que não conseguiu desviar o olhar enquanto eu me secava. Você encontrou no meu corpo algo que mereça ser pintado?

Verónica sentiu uma fisgada de morbidez. A franqueza dele a empurrava para um abismo que ela nunca explorara. Suas duas décadas de ordem tremeram de repente diante daquele desconhecido.

—Você tem uma anatomia imponente —respondeu quase num sussurro—. Como artista, sei reconhecer a beleza das formas. Mas, como mulher... fazia muito tempo que eu não sentia uma reação tão física diante de um homem. Essa maneira de se exibir foi quase um insulto ao meu autocontrole.

Ele deu o último passo. Agora ela podia sentir o cheiro de sal no pescoço dele.

—A beleza não serve de nada se não puder ser tocada —disse—. E eu te garanto que a realidade tem uma textura que nenhuma aquarela capta. Tenho um apartamento a dez minutos, na encosta. Lá não há vento nem olhares. Seríamos só nós e essa curiosidade que está te queimando por dentro.

Verónica olhou os chalés que subiam a montanha. Pensou na vida ordenada que tinha e voltou a olhá-lo.

—É tão real quanto parece? —perguntou com a voz quebrada.

Damián não respondeu com palavras. Pegou a mão dela, a que ainda segurava o pano manchado de azul, e a levou devagar até o tecido da calça dele, bem onde começava a se endurecer.

—Comprove você mesma. Aqui. Antes de decidirmos qualquer coisa.

Sob a palma, a pressão era assombrosa: algo vivo, quente, de uma consistência que transbordava qualquer previsão. O contraste entre o frio de fevereiro e aquele calor lhe arrancou um gemido abafado.

—Quer ver de novo? —sussurrou ele, a respiração roçando sua orelha.

Ela não respondeu, mas os olhos dilatados bastaram. Damián abriu a calça sem pressa. Quando se livrou da roupa íntima, Verónica recuou um milímetro. Estendeu os dedos, trêmula, e contornou a base; as pontas mal se tocavam.

—É... incrível —conseguiu articular.

Começou a deslizar a mão para cima, devagar. Damián jogou a cabeça para trás e ela, atiçada pelo toque, acelerou o ritmo, masturbando-o com uma curiosidade quase devota.

O desejo chegou a um ponto sem retorno. Rafael, as filhas, a exposição de primavera, tudo se dissolveu no salitre. Ela precisava prová-lo. Ajoelhou-se na areia, diante dele, sem se importar que a calça ficasse suja de sal.

Damián soltou um rosnado quando sentiu o hálito quente ao redor. Ela o tomou com uma avidez que a surpreendeu. A primeira vez foi lenta, quase tímida; depois se deixou levar, enquanto ele afundava os dedos em seu cabelo e movia os quadris sem querer.

—Assim, Verónica... que boca você tem... —ele ofegava.

As convulsões não tardaram. Ele se contraiu inteiro e se derramou com um último impulso. Ela aguentou, e, depois de alguns segundos de silêncio, se afastou e cuspiu na areia, vendo o rastro se infiltrar entre os grãos dourados.

Mas a fome não estava saciada. Aquilo tinha sido apenas o prólogo.

***

—Atrás das dunas —disse ele, rouco, ajudando-a a se levantar—. Lá o vento não pega e estaremos sozinhos.

Eles se moveram alguns metros, até uma reentrância onde a areia formava um pequeno muro coroado de moitas. Sem preâmbulos, Damián baixou a calça dela. Verónica se apoiou no barranco, as pernas abertas, oferecendo-se com uma ousadia que jamais imaginaria em si mesma.

Ele não esperou. A encontrou encharcada. Com uma mão buscou o clitóris com uma precisão quase cirúrgica; com a outra apertava um seio por baixo da camisa. Verónica arqueou as costas e cravou as unhas nos ombros dele até o primeiro orgasmo a sacudir como um raio e fazê-la gritar para o céu.

Sem lhe dar trégua, ele se posicionou e a penetrou de um só impulso, fundo, certeiro. Ela soltou um berro. Sentia-o ocupar cada milímetro, alongando-a, reivindicando-a. Cruzou as pernas atrás das costas dele para puxá-lo mais para si.

—Mais, Damián, não para! —implorava, fora de si.

Ele a obrigou a ficar de quatro, os joelhos afundados na areia fria, e a tomou por trás com as mãos cravadas em seus quadris. Em meio ao frenesi, Verónica virou a cabeça. A uns vinte metros, um homem que passeava com um cachorro tinha parado. Não se escondia. Estava imóvel, olhando. Soltou a guia e, devagar, levou a mão à própria braguilha.

Ela arregalou os olhos. Quis protestar, quis sentir vergonha, mas os golpes de Damián eram tão potentes que o pudor se transformou num morbo abrasador. Saber que a observavam enquanto um desconhecido a possuía percorreu sua coluna como uma descarga.

Ela via o homem do cachorro se masturbando no compasso das investidas. O prazer à frente e a imagem proibida ao longe formaram um coquetel que a fez perder a cabeça.

O clímax chegou com uma violência inaudita. Verónica gritou entre gemidos roucos, sentindo-se se contrair ao redor dele em espasmos infinitos, enquanto Damián, exausto e triunfante, se esvaziava dentro dela pela segunda vez.

O desconhecido acelerou no ritmo dos gritos dela até soltar um espasmo final, a mão se movendo com violência. Depois, sem dizer nada, subiu a braguilha, assobiou para o cachorro e foi embora pela beira d’água, desaparecendo atrás das pedras como se nunca tivesse estado ali.

O silêncio voltou ao farol, quebrado apenas pela respiração ofegante dos dois e pelas ondas.

***

Vestiram-se em silêncio, ainda tremendo. Mas, antes de se separarem, Verónica soube que não iria simplesmente voltar para casa. O rastro dele em sua pele, seu cheiro, a sensação de plenitude, tudo era um ancoradouro forte demais.

—Meu marido volta tarde —disse ela, recuperando a segurança, mas com um novo matiz, mais escuro—. E a luz de fevereiro dura pouco. Se você realmente quer que eu entenda essa “estrutura” de que falava, dez minutos não é uma distância tão longa assim para dirigir.

Damián sorriu, o sorriso lento de quem venceu uma partida que nem sabia que estava jogando. Deu-lhe um beijo quase casto na testa antes de baixar os lábios ao ouvido dela.

—Tenho um vinho da terra e a melhor vista da baía. Lá não precisaremos que ninguém nos olhe para saber que isso é real.

Ela assentiu, fechando os olhos por um instante.

—Vai na frente. Preciso de alguns minutos para aceitar que hoje não vou ser a mulher que Rafael espera para o jantar.

***

O apartamento se abria para o Mediterrâneo através de janelas imensas, mas nenhum dos dois olhou a paisagem. Assim que a porta se fechou, o ar pareceu se consumir. Damián a encurralou contra a parede do hall. Não houve palavras: só bocas se encontrando com uma urgência violenta. Verónica arrancou a camisa dele, precisando sentir outra vez aquele peito contra o seu.

—Quero ver você inteira —rosnou ele—, com luz de verdade.

Ele a levou ao quarto, a uma cama grande de lençóis brancos. Despiu-a com uma mistura de eficiência e reverência. Parou por um segundo nas linhas prateadas do ventre dela, aquelas que ela sempre tentava esconder, e as beijou uma a uma.

—Você é uma obra-prima —sussurrou, antes de subir para devorar-lhe os mamilos, que se eriçavam sob a língua.

Verónica o empurrou sobre o colchão e assumiu o comando. Montou nele e deixou-se cair devagar. O gemido foi um só. Começou a cavalgar com uma fúria rítmica, sentindo-o chegar até o último canto.

—Meu Deus, você é enorme —gritava, jogando a cabeça para trás.

Não era só sexo: era o choque de duas pessoas que haviam vivido tempo demais sob o domínio da razão. Ele a virou de costas e ergueu suas pernas nos ombros, cravando o olhar onde os corpos se fundiam. Cada investida era mais funda que a anterior, um impacto que fazia a cama vibrar.

—Faça-me sua de verdade! —implorava ela, as unhas afundadas nos lençóis.

Depois ele a pôs de quatro na beira da cama, procurando o ângulo que na praia a havia levado ao delírio. Penetrou-a com veemência, uma mão rodeando seu pescoço com suavidade, a outra marcando um compasso frenético. O orgasmo chegou como uma explosão; Verónica gritou o nome dele uma e outra vez enquanto ele soltava um rugido e se esvaziava com uma força que a fez cambalear.

Desabaram entrelaçados, suados. O silêncio que se seguiu não era incômodo, mas de plenitude.

***

Deitados pele com pele, deixaram a brisa da janela esfriar o suor. Damián se ergueu apoiado num cotovelo.

—Passamos a vida projetando estruturas seguras, vidas que não tremam —disse, traçando uma linha invisível sobre a clavícula dela—. Mas a verdadeira arquitetura de alguém só se revela quando se deixa tudo desmoronar. O de hoje é uma demolição necessária.

—Minha vida com Rafael é um projeto perfeito no papel —suspirou ela—. Mas não tem volume. Nós nos amamos, embora seja um carinho de baixa intensidade. Hoje percebi que fazia anos que eu não habitava o meu próprio corpo.

O roçar das peles foi gerando uma nova corrente. Damián desceu pela cama e Verónica sentiu sua respiração entre as coxas antes que a língua começasse a percorrê-la, lenta, sem pressa do fim. Ela arqueou as costas até que o prazer voltasse a se instalar em seu ventre como uma brasa.

Quando estava prestes a explodir, ela o deteve. Precisava retribuir aquilo. Ajoelhou-se sobre ele e o levou à boca, explorando cada relevo, com uma entrega que buscava compensar anos de contenção.

Depois ele a deitou de costas, mas desta vez o ângulo era diferente. Verónica sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas. Rafael nunca havia explorado aquele terreno; seu casamento sempre se movia no convencional.

—Confie em mim —sussurrou Damián, metade ordem, metade carícia.

Ela sentiu a pressão contra o esfíncter. Uma pontada aguda a fez contrair-se e soltar um gemido de alerta. Mas ele não forçou nada. Ficou imóvel, dando-lhe tempo, dilatando-a com paciência infinita, com os dedos e a língua, até que o anel de carne cedeu. Então, com um impulso lento e decidido, ele a invadiu.

A sensação de rasgo foi um engano que logo se transformou numa plenitude insuportavelmente intensa. Ele a ocupava por um caminho proibido, despertando fibras que nunca haviam sido tocadas, um prazer escuro e profundo.

—Oh, Deus, Damián! —gritou, não de dor, mas de um espanto quase místico.

Cada investida a afastava mais da realidade, enquanto seus próprios dedos buscavam o clímax na frente. O ritmo se tornou frenético. Damián a segurou pela cintura e se enterrou até a raiz. Em uma explosão simultânea, ambos colapsaram, ele se esvaziando dentro enquanto os gritos se uniam num clímax que pareceu deter o tempo.

Ficaram fundidos, exaustos, na fronteira de um mundo novo.

***

Verónica sentia o corpo como um mapa recém-descoberto: o leve ardor, a sensação de ter sido levada além dos próprios limites, tudo a fazia se sentir estranhamente viva.

—Tenho que ir —sussurrou, embora os braços se apertassem um pouco mais contra ele.

—Eu sei —respondeu Damián, beijando-lhe a nuca—. A realidade tem esse mau hábito de cobrar o que é seu.

Vestiram-se em um silêncio cúmplice. Diante do espelho do banheiro, ela ajeitou o cabelo. Não era a mesma mulher que tinha saído de casa naquela manhã; seus olhos tinham um novo segredo atrás das pupilas. Na porta, ele tomou sua mão. Já não havia vestígio do desconhecido da praia, só o homem sereno que a escutara.

—O farol de Punta Lobera vai continuar ali —disse ele—. E meu apartamento também. Ainda não terminamos de pintar este quadro.

—Eu sei —respondeu ela—. Da próxima vez não vou trazer as aquarelas. Vou trazer o óleo. Preciso de algo que demore mais a secar.

Desceu a montanha em direção à estrada. O sol de fevereiro se punha sobre o brejo, tingindo o céu de laranja. Enquanto dirigia os vinte quilômetros de volta, pensou em Rafael, nas filhas, no jantar que teria de preparar. Mas, sob a roupa, sentia o rastro de Damián e o calor de um desejo que, enfim, havia deixado de ser uma fantasia alheia.

Entrou na garagem, desligou o motor e ficou um momento na penumbra. Cheirou o pulso: ainda restava um rastro de sal e dele. Fechou os olhos, soltou um suspiro de vitória e saiu do carro para voltar a ser, só por fora, a mulher que o mundo esperava.

Ver todos os contos de Infiéis

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.