Quatro anos depois, ela voltou a me procurar
O sol da manhã entrava oblíquo pelas persianas do pequeno escritório que Damián havia alugado no centro da cidade. Não era luxuoso: paredes brancas com alguma mancha de umidade que ele nunca chegou a cobrir, um sofá de segunda mão resgatado de um anúncio na internet, uma mesa de madeira marcada pelo aro de mil xícaras e um diploma emoldurado que ainda lhe parecia alheio quando o olhava de soslaio.
Estava sentado em sua cadeira giratória, organizando a agenda do dia. Folheava as fichas de seus pacientes: uma mulher de quarenta que lutava contra a ansiedade depois do divórcio, um adolescente que não sabia como dizer aos pais que queria estudar arte, um homem que havia perdido o emprego e sentia que com ele tinha perdido a própria identidade. Fechou a pasta com cuidado e se levantou.
Olhou-se por um segundo no espelhinho pendurado ao lado da porta. O cabelo mais curto, uma barba aparada que já não escondia nada, uns óculos que ele havia começado a usar para ler. Continuava sendo o mesmo de sempre e, ao mesmo tempo, não era. Algo no olhar havia mudado.
Abriu a porta e saiu para o corredor compartilhado. Cumprimentou com um gesto a recepcionista do andar, uma moça jovem que sempre lhe oferecia café.
—Bom dia, Belén. Hoje não, obrigado. Minha agenda está cheia.
—Como sempre, doutor — respondeu ela com um sorriso—. Outra terapia de grupo hoje à tarde?
—Sim. Autoestima e limites. Às seis.
—Boa sorte. Sempre lota.
Ele assentiu com um sorriso pequeno, porém sincero. Quem diria, pensou.
Desceu as escadas e saiu para a rua. O ar estava fresco, com aquele cheiro de pão recém-assado que escapava da padaria da esquina. Cumprimentou o jornaleiro que lhe guardava o jornal, o carteiro que passava de bicicleta, a senhora que regava as plantas do primeiro andar. Era parte da rotina que havia construído nesses quatro anos, tijolo por tijolo, sem pressa.
Depois que Lena foi embora, Damián ficou mais quebrado do que jamais admitiu em voz alta. O apartamento cheirou a ela durante semanas; a camiseta que ela deixou esquecida em uma gaveta conservou seu perfume por muito mais tempo do que seria razoável. O bilhete que ela lhe escrevera antes de partir continuava na carteira dele, dobrado e relido tantas vezes que o papel se havia gasto nas dobras.
Algo se partiu dentro dele e, em vez de afundar, ele decidiu se reconstruir.
Retomou os estudos de psicologia que havia abandonado anos antes. Matriculou-se na universidade noturna, trabalhou de dia no que aparecia — garçom, entregador, revisor de textos — e estudou de noite até os olhos arderem. Foi duro. Muito duro. Mas toda vez que queria desistir ele pensava no que havia vivido, em como tinha tocado o fundo do poço, e jurava que não voltaria àquele buraco.
Formou-se com boas notas. Tentou a sorte no setor público: centros de saúde mental, programas sociais. Ganhou experiência. Depois começaram a chegar pacientes particulares, primeiro poucos, indicados por amigos, depois cada vez mais, até que pôde alugar este escritório e abrir suas próprias terapias de grupo. Uma vez por mês coordenava sessões sobre autoestima, limites pessoais, recuperação depois de relacionamentos que deixam marcas. A pessoa entrava tímida, partida, e saía um pouco mais inteira. Que ironia, dizia a si mesmo: o que mais havia se quebrado ensinando os outros a se refazerem.
Caminhou até a cafeteria de sempre e pediu um café para levar. A dona, uma senhora idosa que insistia em arrumar namorada para ele, o recebeu com sua pergunta de costume.
—E quando você vai me trazer uma garota? —disse enquanto lhe servia—. Um rapaz tão bonito e tão sozinho.
Damián sorriu com uma tristeza doce.
—Não tem ninguém por enquanto. A que tinha foi embora.
A senhora assentiu, compreensiva.
—As boas sempre voltam... ou pelo menos deixam marca.
Ele pagou, pegou o copo e olhou para o céu por um instante. Era um dia claro, daqueles que fazem a cidade parecer menos pesada. Tirou a carteira, abriu o compartimento onde guardava o bilhete de Lena e o leu em silêncio, como fazia de tempos em tempos. Depois dobrou-o de novo, suspirou e continuou andando em direção ao escritório. A vida seguia, e ele, enfim, aprendia a vivê-la sem esperar que outra pessoa a definisse por ele.
***
Era uma dessas quartas-feiras tranquilas, com buracos na agenda e permissão para respirar antes da próxima sessão. Damián estava numa mesa junto à janela da cafeteria, com um café americano meio tomado e o celular na mão. O sol aquecia seu braço esquerdo enquanto ele deslizava o dedo pela tela.
Fazia rolagem lenta, quase automática: fotos de antigos colegas que agora tinham filhos, memes de conhecidos, algum vídeo viral que não lhe interessava. Até que uma publicação o fez parar em seco.
Era uma selfie. Iván e Tomás posavam sorridentes numa praia do norte: areia clara, mar turquesa, palmeiras ao fundo. Iván usava o cabelo mais comprido, uma barba curta bem cuidada e uma camiseta larga que lhe dava um ar relaxado que Damián nunca tinha conhecido. Tomás, ao lado dele, passava o braço pelos seus ombros e apoiava o queixo em seu pescoço. Os dois encaravam a câmera com uma paz que parecia verdadeira. Abaixo, Iván havia escrito só uma frase:
“Finalmente em casa.”
Damián sorriu sem conseguir evitar. Um sorriso nostálgico, mas limpo.
Pensou em tudo o que veio depois daquela tarde no escritório. Iván havia contado a verdade à família, sozinho, sem que ninguém o empurrasse. A reação foi exatamente a que ele temia: gritos, silêncio gélido, acusações, ameaças de deserdá-lo, de apagá-lo do sobrenome. Expulsaram-no da empresa da família naquela mesma semana. O golpe foi brutal, mas não tanto quanto Iván imaginava; na verdade, parecia que ele já o esperava havia anos. No dia seguinte ao término, mudou-se com Tomás para um apartamento pequeno na periferia. Deixou para trás o sobrenome, o dinheiro, as expectativas. E, pela primeira vez, começou a viver.
Damián sentiu uma inveja saudável, que não tinha nada de amargura. Era admiração. Iván havia escolhido a verdade, mesmo que isso lhe custasse tudo, e agora, naquela praia, parecia em paz. Livre para ser feliz.
Deslizou um pouco mais e a foto desapareceu. Continuou descendo por um tempo, mas sua mente já estava em outro lugar.
Pensou em Lena.
Durante os primeiros meses, ele a procurou. Não de forma obsessiva, mas constante. Revia as redes que ela já havia apagado, perguntava com discrição a conhecidos em comum, chegou até a passar algumas vezes em frente ao antigo aluguel dela. Nada. Lena tinha se mudado sem deixar rastros. Nem perfis públicos, nem fotos marcadas, nem uma única publicação. Sumiu como se nunca tivesse existido.
No começo, doeu. Muito. E doeu também no corpo, naquela parte animal que não se organiza pela razão. Ele lembrava com uma nitidez incômoda do calor do corpo dela nas noites de inverno, quando ela dormia nua apesar do frio e ele entrava na cama gelado, procurando a pele dela para se aquecer. Lembrava de como Lena se virava, meio adormecida, e lhe abria os braços sem dizer nada, e ele se enfiava atrás dela, com a rola já dura contra as nádegas dela antes de perceber o que estava fazendo. Lembrava de como enfiava a mão entre as coxas dela, de como abria os lábios da boceta com dois dedos e a encontrava já molhada, sempre molhada, como se ela o tivesse esperado até nos sonhos. “Me fode”, ela lhe sussurrava com a voz rouca, sem abrir os olhos, empurrando a bunda contra o pau dele. E ele a penetrava assim, de lado, primeiro devagar, afundando milímetro por milímetro até ela morder o próprio ombro para não gritar; depois investindo mais forte, mais fundo, com a mão livre apertando um seio, torcendo o mamilo entre os dedos até arrancar dela um gemido abafado que lhe cravava na virilha.
Ele lembrava as tardes de sábado, quando Lena aparecia no apartamento dele com a desculpa boba de trazer um livro e ele já sabia a que ela vinha de verdade. Ela fechava a porta por dentro, se aproximava sem dizer nada e lhe desfivelava o cinto ali mesmo, na entrada, com aquela urgência de quem tem o tempo contado. Baixava as calças dele até os tornozelos e se ajoelhava no hall, olhando para cima enquanto tirava o pau de dentro da cueca boxer e o enfiava inteiro na boca de uma só vez, até o fundo, até as lágrimas lhe brotarem nos olhos e ele ter de se apoiar na parede para não cair. Ela chupava com uma ansiedade quase raivosa, apertando os lábios no tronco, brincando com a língua sob a glande, cuspindo na ponta para chupá-lo com ainda mais barulho. Quando percebia que ele estava prestes a gozar, tirava-o da boca e sussurrava, com o queixo brilhando de saliva e baba: “Ainda não, lá dentro. Quero sentir você dentro.” E ele a carregava até o sofá, arrancava a calcinha dela, abria as pernas e a penetrava com a roupa pela metade, com o relógio marcando a hora no pulso deles, com aquela pressa quente de amantes que não deveriam estar juntos.
Ele lembrava o modo como a pele dela se arrepiava quando ele lhe percorria as costas com a ponta dos dedos depois de gozar dentro dela, quando o sêmen ainda escorria entre suas coxas e ela lhe pedia, com aquela vergonha estranha que às vezes lhe vinha, que ele a limpasse com a língua. E ele fazia. Enfiava-se entre as pernas dela e lambia a boceta cheia da própria porra, engolindo tudo, enquanto Lena arqueava as costas e lhe puxava o cabelo sussurrando “safado, que safado você é”, mas sem afastá-lo, empurrando a cabeça dele contra o sexo, buscando outro orgasmo, sempre mais um. Ele lembrava os gemidos contidos que ela abafava contra o ombro dele para não acordar os vizinhos, a maneira como cravava as unhas nas costas dele quando gozava, as coxas tremendo dos lados do quadril dele, a voz quebrada pedindo no ouvido que ele a enchesse, que gozasse dentro, que não parasse nunca.
Lembrava também da última vez, a noite antes de ela desaparecer, quando Lena se pôs de joelhos na beira da cama com a bunda empinada e lhe pediu, entre risos e ofegos, que ele a comesse assim, olhando para a parede, sem se olharem. Ele se posicionou atrás, agarrou as nádegas dela com as duas mãos, abriu bem e entrou de uma só investida até o fundo, arrancando-lhe um grito sufocado. Meteu nela até a cama ranger e a cabeceira bater na parede, até Lena gemer “mais forte, mais forte, me dá mais forte”, com o rosto enterrado no travesseiro e uma mão descendo para esfregar o clitóris no ritmo dos quadris dele. Damián segurou o cabelo dela, puxou de leve para erguer sua cabeça e continuou investindo mais rápido, ouvindo o som molhado da boceta dela ao recebê-lo, ouvindo seu próprio ofegar animal escapar pela boca aberta. Ele gozou dentro dela com um rugido baixo, mordendo a nuca dela, esvaziando-se em espasmos longos que lhe fizeram tremer as pernas, e ela gozou ao mesmo tempo, apertando o pau dele com os espasmos da boceta, encharcando os lençóis por baixo. Depois ficaram abraçados, suados, cheirando a sexo, sem dizer nada. E ele não sabia — como é que poderia saber? — que era a última vez que teria aquele corpo entre as mãos.
E, sobretudo, lembrava o peso do engano que havia começado tudo: a mentira que os uniu como amantes antes de destruí-los aos dois. Com o tempo ele entendeu que Lena precisava justamente disso: desaparecer de tudo o que a havia definido. Dele. De Iván. De Andrés. Da mentira.
Então deixou de procurá-la. Guardou o bilhete na carteira e decidiu respeitar o silêncio dela. Se um dia ela quisesse reaparecer, apareceria. E, se não, ele seguiria em frente.
Tomou um gole do café já morno e olhou pela janela. A cidade seguia seu curso, indiferente às suas lembranças. Suspendeu um suspiro, guardou o celular e se levantou. Tinha uma sessão em meia hora. E, quem diria, agora era ele quem ajudava os outros a se encontrarem. Sorriu para si mesmo, deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu para a rua. O dia continuava. E ele também.
***
Damián tentava seguir com a vida. Os dias haviam se tornado uma rotina confortável, quase reconfortante: o escritório, as sessões individuais, as terapias de grupo em que falava de autoestima e limites com uma honestidade que às vezes surpreendia a ele mesmo. Não havia fechado a porta para o amor. Teve encontros, três ou quatro nesses anos. Mulheres interessantes, divertidas, com vidas próprias e vontade de algo sério. Mas nenhuma vingou. Sempre havia um motivo: horários que não batiam, uma química que não chegava a acender ou, simplesmente, ele. Porque, embora negasse em voz alta, seu coração continuava guardando alguém.
Isso não lhe tirava o sono. Ou pelo menos era o que repetia para si mesmo. Mas, nas noites silenciosas demais, tirava o bilhete de Lena da gaveta e relia. Não por nostalgia barata, e sim porque era a única coisa que lhe confirmava que um dia havia sentido algo real. E isso o frustrava um pouco. Quanto mais eu preciso para esquecê-la? Quantos anos um coração leva para soltar algo que nunca teve por inteiro?
Assim passavam os dias, tentando pensar no trabalho. Nos pacientes. Nas histórias que escutava e nas que ajudava a reescrever.
Até que chegou aquela quinta-feira de manhã.
Ele entrou no prédio como sempre, cumprimentando o porteiro com um gesto e subindo as escadas com o café na mão. Ao chegar à recepção do andar, Belén ergueu os olhos do computador e lhe deu um sorriso enorme, daqueles que prometem uma boa fofoca.
—Bom dia, doutor — disse, com os olhos brilhando.
—Bom dia, Belén — respondeu Damián, deixando a xícara no balcão—. Tudo bem?
Ela se inclinou para a frente, contendo o riso.
—O senhor estava escondendo muito bem.
Damián franziu a testa, confuso. Pegou sua agenda e a abriu.
—Do que você está falando?
Belén mordeu o lábio para não rir mais alto.
—Não se faça de desentendido. Nunca me disse que tinha namorada. E que namorada, por favor. Lindoa.
Ele piscou. A agenda ficou pendurada em sua mão.
—Namorada? Belén, de verdade, eu não faço ideia do que você está falando.
Ela soltou uma risadinha baixa e se aproximou um pouco mais, sussurrando como se revelasse um segredo de Estado.
—Não brinque. Ela me disse que vinha ver o namorado dela, o doutor Damián Ríos. Eu expliquei que o senhor ainda não estava, que tinha uma sessão fora. E ela, toda inocente, me pergunta: “Ele está em alguma cirurgia?”. O senhor imagina? Achou que você era cirurgião. Quando eu expliquei que não era esse tipo de doutor, ela ficou vermelha como um tomate. O senhor nunca disse a ela com o que trabalha?
Damián sentiu o coração dar um salto tão forte que quase deixou a agenda cair. A boca se abriu sozinha. O café ficou esquecido sobre o balcão. Reconheceu cada palavra. A ingenuidade. A confusão adorável. O rubor. Até o rastro tênue de um perfume que ainda pairava no ar da recepção e que ele reconheceria entre mil. Era ela. Tinha que ser ela. Sorriu como um idiota. Como o idiota dela.
Belén o olhou, estranhando sua expressão, e acrescentou, baixando a voz:
—Ela está no seu escritório. Esperando o senhor.





