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Relatos Ardientes

O preço que ela pagou pela liberdade do marido

A madeira guarda memória. Conserva o cheiro das árvores que foram, o toque das mãos que a cortaram, o eco dos golpes que lhe deram forma. A oficina cheirava a pinho úmido e a serragem velha, a verniz e ao suor de homens que passavam as horas arrancando a alma de tábuas mortas.

O Corvo a tinha escolhido por isso. Porque a madeira não fala. Porque aquelas paredes de troncos mal aplainados tinham presenciado tantos acertos em voz baixa, tantos ajustes de contas envoltos no ruído das serras, que uma mulher nua sobre um banco de trabalho era apenas mais uma anedota.

Mas esta mulher não era uma anedota. Ele soube no instante exato em que ela cruzou a soleira.

Mariela entrou com o vestido que se abotoava nas costas e o casaco comprido que agora jazia no chão, pisoteado pelas botas dele. A lâmpada pendia do teto como um único olho, e, em sua luz trêmula, as ferramentas na parede pareciam instrumentos de tortura. Não eram. Não precisavam ser.

— Ajoelhe-se — disse ele.

Não era um pedido. Era um fato, tão inevitável quanto a gravidade. Mariela sentiu os joelhos dobrarem antes que a mente pudesse decidir, o cimento frio mordendo sua pele através do tecido fino. Ergueu o olhar e o viu ali, enorme, ocupando o espaço com a própria presença. As cicatrizes cruzavam seus antebraços como mapas de territórios conquistados, e as tatuagens subiam pelo pescoço até se perderem sob a camiseta suja.

Ele não sorriu. Homens como ele não sorriem quando caçam. Apenas observam, medem, esperam o momento em que a presa entende que não há saída.

Mas Mariela já não era presa. Era uma oferente. E essa diferença, sutil como uma mudança na inclinação da luz, era o que o impedia de desviar os olhos.

— Abra a boca.

Ela obedeceu. O som da própria respiração enchia-lhe os ouvidos, uma onda densa e assustada. Ele abriu o zíper da calça com movimentos lentos, quase cerimoniais, e se libertou, já endurecido, a pele mais escura que o resto do corpo e as veias marcadas como raízes. Cheirava a sabonete e a algo cruamente humano.

— Chupe.

Mariela fechou os olhos e o tomou na boca. O sabor veio primeiro: salgado, levemente amargo, um gosto de pele que a fez vacilar por um instante. Mas ele já lhe pousara uma mão na nuca, não para forçar — força não era necessária —, e sim para afirmar. Para lembrá-la de que aquilo não era um ato, mas uma posse.

Ela chupou. No começo com desajeito, os lábios buscando um ritmo que não conhecia. Ele não a corrigiu. Não pronunciou palavra. Mas quando ela encontrou o compasso — profundo, lento, a pressão exata para arrancar-lhe um gemido involuntário — sua mão na nuca apertou de leve, uma concessão mínima, uma migalha de aprovação que ela guardou em algum canto escuro da consciência.

O fim chegou sem aviso, morno e espesso, escapando pelos cantos da boca. Mariela engoliu pela metade, sentiu o líquido escorrer pelo queixo e cair sobre o decote. Ele não a deixou se limpar.

— Ainda não acabou — disse.

***

Ele a ergueu do chão como quem levanta um móvel, sem esforço aparente, e a virou de costas. As mãos ásperas percorreram seu corpo sem pressa, despindo-a do vestido com puxões precisos que não rasgavam o tecido, mas anunciavam que poderiam rasgá-lo. Quando ficou nua, dobrada sobre uma pilha de tábuas sem aplainar, a madeira cravando-se em suas palmas abertas, ele se permitiu um momento.

Não para admirá-la. Para reivindicá-la.

— Nunca — disse ele, a voz um rumor áspero junto ao ouvido dela —. Nunca me aconteceu isso.

Ela não perguntou o quê. Não precisava saber. Mas ele lhe disse mesmo assim.

— Nunca uma mulher veio até mim sabendo que ia ser minha. Não descobrindo depois, não aceitando a contragosto. Vindo. Escolhendo. Isso nunca me aconteceu.

Ela não respondeu. Não havia resposta possível.

Ele procurou algo entre as ferramentas: uma lata de óleo, dessas usadas para lubrificar as guias das plainas mecânicas. O líquido era espesso, amarelado, cheirava a metal e a fábrica. Derramou-o sobre os dedos sem medida, generoso, quase obsceno em sua abundância, e depois o espalhou sobre ela. O frio do óleo a fez estremecer, mas ainda mais frio foi o toque dos dedos explorando, abrindo, preparando o caminho para algo que não seria uma cópula simples.

— Dói — sussurrou ela quando a primeira pressão avançou.

— Eu sei — respondeu ele, e não parou.

A entrada foi lenta, deliberada. Ele não era um homem impaciente; sua dureza era metódica, quase cirúrgica. Mariela sentiu o corpo ceder milímetro por milímetro, a resistência natural dobrada pela insistência inexorável. O óleo ajudava, mas não bastava. Nada bastava para aquela primeira vez, para aquele primeiro território que ele abria não com a urgência de quem arrebata, mas com a paciência de quem coloniza.

Quando esteve dentro por completo, parou. Permaneceu imóvel, enterrado até o fundo, deixando que ela sentisse cada centímetro de sua invasão. As mãos, antes firmes sobre os quadris, subiram devagar pelas costas até alcançar de novo a nuca, onde apertaram com a pressão exata para mantê-la quieta.

— Respire — disse —. Vai precisar de ar.

Ela obedeceu. Inspirou fundo, o cheiro de madeira e óleo enchendo-lhe os pulmões. E então ele começou a se mover.

Não foi o ritmo frenético dos encontros rápidos, das brigas em cantos escuros. Foi uma investida lenta, profunda, quase ritual. Cada impulso a deslocava sobre as tábuas; cada retirada a deixava vazia e faminta. A dor pouco a pouco se transformou, não em prazer — isso viria depois —, mas em aceitação total, uma rendição de cada fibra do seu ser.

— Olhe para mim — ordenou ele.

Ela virou o rosto o quanto pôde, encaixada entre a madeira e o corpo dele. Viu-o suando, os músculos do pescoço tensos, as cicatrizes brilhando sob a lâmpada. Os olhos dele não eram os de um homem possuindo uma mulher. Eram os de alguém que, pela primeira vez, não sabia se estava tomando ou sendo tomado.

— Como você se chama? — perguntou ele, a voz quebrada pelo esforço.

— Mariela — respondeu ela.

— Não — rosnou ele, aumentando o ritmo —. Como você se chama para mim.

Ela compreendeu. E no instante exato em que o orgasmo a atingiu — um espasmo profundo, visceral, que lhe arqueou as costas e arrancou um gemido que era meio dor e meio libertação — respondeu:

— Sua.

Ele terminou dentro dela com um grunhido que parecia vir de muito fundo, daquele lugar onde guardava todas as coisas que nunca soubera nomear. Permaneceu dentro dela por um longo tempo, sentindo os espasmos se apagarem, sentindo o corpo dela relaxar sob o seu.

Quando enfim se retirou, o óleo e todo o resto escorreram pelas coxas dela, ensopando a madeira. Mariela não se moveu. Não conseguia. Ele pegou o casaco do chão e o colocou sobre os ombros dela com uma brusquidão que queria ser indiferença e não conseguia.

— Daniel — disse, e era a primeira vez que pronunciava aquele nome —. Seu marido. Não vai acontecer nada com ele.

Ela assentiu, a face colada à madeira fria.

— Enquanto eu vier — completou ela.

Ele não respondeu. Não era preciso.

***

Mas o Corvo não era um homem que se contentava com uma única vitória. A posse, para alguém como ele, não era um estado, mas um processo contínuo, uma expansão perpétua do território conquistado. E Mariela era, ele entendeu naquela noite enquanto a via se vestir com dedos trêmulos, o butim mais valioso que jamais havia pisado em seu reino.

— Venha aqui — disse, quando ela já tinha colocado o casaco.

Ela obedeceu. Sempre obedeceria. Essa era a natureza do trato.

Ele a segurou pelo queixo e virou o rosto dela para a luz. Os dedos, ainda úmidos, percorreram a curva do pescoço, a pele branca e vulnerável onde pulsava a artéria. Ali, bem ali, ele enterrou a boca.

Ela gemeu, não de dor — embora doesse —, mas de surpresa. A sucção foi profunda, insistente, quase devoradora. Sentiu a pele se avermelhar, a marca se formando como um selo de cera quente. Quando ele se afastou, a mancha era violácea, perfeitamente redonda, impossível de ocultar por completo até mesmo sob a gola mais alta.

— Minha — disse ele, e o dedo dele contornou a marca como quem assina uma escritura.

Não parou aí. Desceu até a clavícula, mordendo com cuidado, apenas cravando os dentes o suficiente para deixar a marca da mandíbula. Depois ao ombro, onde a pele é mais fina. Depois à parte interna da coxa, onde os hematomas demorariam semanas para desaparecer e onde cada passo lhe lembraria o tecido roçando a marca da sua posse.

— Assim — murmurou ele, enquanto chupava a pele logo abaixo do quadril —. Assim todo mundo vai saber. Assim você vai saber. Cada vez que se olhar no espelho, cada vez que tomar banho, cada vez que se sentar e se roçar na roupa, vai lembrar que é minha.

Ela não chorou. Mas quando ele terminou, e o corpo dela estava semeado de marcas frescas, Mariela entendeu que aquilo era mais profundo que qualquer penetração. Ele estava reescrevendo a pele dela, camada por camada, apagando a mulher que ela tinha sido para inscrever a mulher que agora era.

— Daniel não pode ver — disse ela, numa última tentativa de impor um limite.

— Daniel não vê nada — respondeu ele —. Daniel come, dorme, reza pela liberdade. Não olha para você como eu olho. Não sabe o que você é.

E ela não pôde contradizê-lo.

***

Lá fora, no corredor mal iluminado, o guarda de olhar vazio mantinha a postura diante da porta. Mas os olhos dele não estavam vazios naquela noite. Brilhavam com uma intensidade nova, uma fome que havia sido alimentada o suficiente apenas para crescer de forma desmedida.

O Corvo tinha notado, claro. O Corvo notava tudo. E quando saiu da oficina, com o gosto de Mariela ainda nos lábios, parou diante do guarda e o encarou longamente.

— Quer vê-la? — perguntou.

O guarda engoliu em seco. Assentiu.

— Só ver?

Uma pausa. Depois, um sussurro:

— Não sei.

O Corvo sorriu. Era um sorriso lento, perigoso, o de um homem que descobre um novo território a conquistar.

— Esta noite você só vai ver — disse —. Mas fale com os outros. Com os que são como você, os que a olharam no pátio e sonharam em tê-la. Diga que o Corvo compartilha o que é seu. Mas só com os fiéis. Só com os que sabem guardar silêncio.

O guarda assentiu de novo, e desta vez seus olhos já não estavam vazios. Estavam cheios de algo parecido com gratidão, e de algo mais escuro que ainda não tinha nome.

***

Três noites depois, Mariela recebeu outro bilhete na caixa de correio no fim da estrada. Papel barato, caligrafia firme e angular. Uma única linha: «Sexta, nove da noite. Oficina de marcenaria. Venha preparada para receber.»

Não especificava o que ela ia receber. Não era preciso.

Ela dirigiu de volta com as mãos firmes no volante e o vestido que se abotoava nas costas sob o casaco. As marcas do encontro anterior ainda estavam visíveis — roxas virando amarelo no pescoço, mordidas já cicatrizadas no ombro — e ela as tinha disfarçado com cuidado antes de sair. Mas sabia que ele as arrancaria à vista. Sabia que ele queria ver sua obra intacta.

A oficina cheirava igual. Madeira, óleo, silêncio. Mas algo era diferente. O Corvo não estava sozinho.

Atrás dele, colados às sombras como se fossem extensões da vontade dele, havia três homens. Mariela não os conhecia, mas reconheceu o tipo: presos com privilégios, braços executores, homens que tinham feito coisas piores por muito menos do que uma mulher bonita. Os olhares deles a despiram antes mesmo que ela pudesse tirar o casaco.

O Corvo observou a cena do seu lugar junto ao banco de trabalho. Não disse nada. Não precisava. A prova estava servida, e Mariela entendeu, com uma clareza que a atravessou como uma faca gelada, que aquilo fazia parte do trato. Não apenas entregar-se a ele. Entregar-se à sua matilha.

— Você escolhe — disse o Corvo, rompendo o silêncio —. Eles podem olhar. Ou podem fazer mais do que olhar. Depende de você.

Ela sentiu o peso daquelas palavras. A ilusão de controle, o miragem da escolha. Sabia que, se pedisse para apenas olharem, ele aceitaria. E sabia também que essa aceitação seria uma derrota, uma prova de que sua entrega tinha limites, de que ainda guardava algo para si mesma.

E ela tinha prometido não guardar nada.

O casaco caiu no chão. Seus dedos, já experientes, encontraram os botões das costas e começaram a desabotoar. Um a um, devagar, enquanto os olhares dos três homens se cravavam em cada centímetro de pele que surgia do tecido. Quando o vestido deslizou pelos ombros e caiu aos pés dela, ela não se cobriu. Permaneceu imóvel, oferecendo-se à inspeção como uma escultura viva.

As marcas do Corvo decoravam seu corpo como joias violentas. Os três homens as viram, e em seus olhos acendeu-se algo que não era apenas desejo. Era reverência. Ela era a mulher marcada pelo rei, e isso a tornava sagrada e proibida ao mesmo tempo.

— Aproxime-se — disse o Corvo.

Ela obedeceu. Quando ficou diante dele, ele a segurou pelo queixo e virou o rosto dela para os três homens.

— Olhem bem para ela — disse —. Esta é Mariela. Ela é minha. Mas eu compartilho o que é meu com meus irmãos. Ela vai estar aqui toda sexta-feira, e toda sexta-feira vocês vão poder vê-la, tocá-la. Entenderam?

Eles assentiram, mudos.

— Mas há regras. Nada que deixe marcas visíveis fora destas paredes. Nada que interfira na outra vida dela. E nada — a voz dele virou aço — sem a minha permissão.

Então se voltou para Mariela, e o tom mudou. Não amoleceu — o Corvo não conhecia a suavidade —, mas ganhou uma qualidade distinta, quase íntima.

— E você vai recebê-los como me recebe. Sem resistência. Sem vergonha. Porque você é minha, e o que é meu é compartilhado. Aceita?

Ela sustentou o olhar dele. Viu o rei, o carcereiro, o homem que tinha a vida de Daniel nas mãos tatuadas. Viu também, no fundo dos olhos dele, a pergunta genuína, a necessidade de saber que essa entrega era voluntária, que ela não era apenas uma vítima, mas uma mulher presidindo o próprio rito.

— Aceito — disse.

E a voz dela não tremeu.

O primeiro foi o mais jovem, de olhos assustados e mãos desajeitadas. Aproximou-se dela como quem se aproxima de um altar, inseguro dos rituais, temeroso de profanar. Mariela o guiou. Tomou-lhe as mãos e as colocou sobre o corpo dela, ensinando a pressão exata, o movimento que arrancava gemidos. Quando ele a tomou, foi breve e desajeitado, um ato quase compassivo que ela recebeu com paciência.

O segundo era mais velho, com cicatrizes no abdômen e hálito azedo. Não tinha a desajeitação do primeiro. Sabia exatamente o que queria e como tomar. Dobra-a sobre o banco de trabalho e a investiu com uma crueza que lhe arrancou um grito. Mariela sentiu a dor como uma confirmação, uma prova de que o corpo dela podia suportar tudo.

O terceiro não quis tomá-la. Ao menos não no começo. Ajoelhou-se diante dela, afastou-lhe as coxas com uma reverência quase religiosa e enterrou o rosto entre as pernas dela. A língua era hábil, insistente, e quando ela atingiu o orgasmo — inesperado, violento, contra toda lógica — fez isso com um gemido que ecoou no silêncio da oficina.

O Corvo observou tudo sem intervir. Estava excitado sob a calça, mas não se tocou. Não entrou na roda. Aquela noite não era para ele. Aquela noite era para demonstrar, a ela e aos homens dele, que a posse absoluta não exclui a generosidade. Que um rei reparte o butim com seus guerreiros, e que esse reparto não diminui seu poder, mas o multiplica.

Quando os três terminaram e se recolheram às sombras, saciados e silenciosos, o Corvo se aproximou de Mariela. Ela jazia sobre o banco, ofegante, o corpo brilhando de suor, as marcas antigas se confundindo com as novas.

— Dói? — perguntou ele.

— Sim — respondeu ela.

— Você se arrepende?

Ela demorou a responder. O olhar percorreu a oficina, as ferramentas nas paredes, os três homens que ainda a observavam da escuridão. Depois voltou ao Corvo, aos olhos dele que já não eram os de um conquistador, mas de algo mais complexo, mais humano.

— Não — disse —. Não me arrependo.

Ele assentiu. Depois se inclinou e, com uma ternura que nenhum dos presentes jamais tinha visto nele, beijou a marca mais fresca do pescoço dela.

— Daniel — disse —. Amanhã ele vai receber um cobertor novo. E uma porção extra. E ninguém vai olhar torto para ele no pátio.

Ela fechou os olhos.

— Obrigada — sussurrou.

Mas não soube dizer se falava com ele ou consigo mesma.

Quando Mariela tomou o caminho de volta para casa, o amanhecer tingia o horizonte de um rosa pálido e doentio. Dirigia com as mãos firmes, o corpo dolorido, a mente estranhamente calma. É isso que custa, pensou, e eu vou pagar quantas vezes forem necessárias.

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