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Relatos Ardientes

O clube de maridos que compartilhavam suas esposas

Já fazia um tempo que eu circulava por esse universo paralelo das traições, um ecossistema com suas próprias regras. Eu o percorria não a partir do lugar do traído, mas do cúmplice, do catalisador. Tinha me tornado uma espécie de observador de cornos, e minha grande descoberta foi que nem todos eram iguais.

Eu os havia classificado quase como um biólogo classifica insetos. Havia o intermitente, que um dia abria a porta do quarto e no seguinte a trancava com um ferrolho de paranoia. Havia o voyeur puro, que se sentava num canto e bebia com os olhos a própria mulher com outro. Havia o submisso, obediente nato, escravo consentido do desejo alheio. E o mais extremo, aquele que encontrava seu êxtase no ato mais servil de todos.

Havia um padrão curioso: com quase todos os maridos cujas esposas eu conheci intimamente, acabava forjando uma amizade estranha e forte. Meu papel de “o outro” quebrava as barreiras e abria uma camaradagem nascida do tabu compartilhado.

Foi no meu grupo de teatro e esporte que dois homens começaram a chamar minha atenção. Gonzalo era uma figura conhecida, carismático, sempre no centro de alguma coisa. Um dia apareceu com Rubén, e a química entre os dois era a de quem se conhece a vida inteira. Eu os tratei ao mesmo tempo, e embora a dinâmica deles tivesse um ar ensaiado, arquivei aquilo como uma estranheza sem importância.

Logo essa estranheza virou padrão. Os dois passaram a me procurar de forma deliberada. O trato saiu de cordial e foi ficando íntimo, cheio de confidências e toques. Não era imaginação minha; outros do grupo notaram, embora ninguém tenha dado maior peso. Eu, ao contrário, começava a juntar as peças.

Gonzalo era funcionário público, braços fortes e cabeça raspada, uma calma de homem seguro. Sua grande paixão, compartilhada com a esposa Bianca, era o teatro: ele dirigia e escrevia. Bianca era advogada, cabelo castanho ondulado, um corpo potente que ela criticava por “alguns quilos a mais”. O que chamava atenção nela era o olhar: uma expressão permanentemente insinuante, um brilho maroto que prometia pecados sem dizer uma palavra. Comigo, porém, mantinha uma distância cortês que não tinha com ninguém mais.

Rubén trabalhava em banco, robusto, o cabelo escuro salpicado de grisalho. Era o braço direito de Gonzalo nas montagens. Sua esposa, Renata, era o oposto de Bianca: magra, atlética, cabelo liso caindo pelos ombros e um bumbum perfeito que se adivinhava sob qualquer roupa. Renata, sim, me dava abertura, com uma simpatia franca e brincalhona.

O gatilho explodiu numa tarde. Alguém tinha contado os detalhes de um encontro meu, e minha reputação como amante se espalhara como pólvora. Filtrada pelos maridos, a história chegou aos ouvidos dos dois amigos.

—Mateo, em confiança —me disse Gonzalo, baixando a voz como se compartilhasse um segredo de Estado—. Vou te dizer o pecado, mas não o pecador. Dizem que você transou com duas casadas do grupo. Estou te contando para você ficar esperto.

Tentei escapar com um sorriso, mas os detalhes que eles tinham sobre minhas “façanhas” eram precisos demais. Eram verdade. Ao me ver resistir, Rubén apertou.

—Vamos, Mateo, ao menos diga alguma coisa. Com o que contamos a você...

Endureci o rosto. Eu não costumava ficar sério com eles, mas daquela vez fiquei.

—Com quem eu durmo é problema meu. E uma coisa que nunca faço é dar nomes nem detalhes. Estou dizendo isso porque é a primeira e a última vez que deixo esse assunto ser comentado na minha frente. Assunto encerrado.

A reação me desconcertou. Eles não ficaram com raiva. Não houve tensão. Pelo contrário, pareciam satisfeitos, quase alegres. Pensei que era impressão minha.

—Mateo, tenho uma peça nova, é o melhor que já escrevi —disse Gonzalo, os olhos brilhando—. E estávamos nos perguntando se você gostaria de ser o protagonista. Um rapaz jovem que volta para casa e acaba enredado com a mulher madura do melhor amigo dos pais. Você tem a idade perfeita para o papel.

Dei de ombros. Teatro não era minha praia, e eu disse isso a ele.

—O papel da mulher seria da Bianca —acrescentou ele, e de repente a proposta ficou tentadora.

Rubén, que observava como um árbitro silencioso, interveio com um sorriso sarcástico.

—É normal que você duvide. Você é jovem, vê as relações de um jeito mais moderno, menos primitivo... não é?

Devolvi o sorriso, mas com afio.

—A vida é curta. Cada um que transe com quem quiser, sem pensar em obrigações. A moral sexual é uma jaula inventada pelos chatos para estragar a festa do resto. Eu prefiro viver fora dela.

O silêncio que se seguiu foi denso. Eles se olharam, e por um segundo vi um lampejo de triunfo em seus olhos. Era como se eu tivesse acabado de passar num teste que nem sabia que estava fazendo.

—Nossa, ficou tarde —disse Gonzalo de repente—. Mateo, você pode nos levar para casa?

Deixei-os na porta de suas casas com um simples “até amanhã”. Mal cheguei ao meu apartamento, o celular vibrou. Era Gonzalo.

—Mateo, porra, deixei o laptop no seu carro. Não posso perder aquilo, tem trabalho importante ali.

Desci até o estacionamento. Encontrei-o caído entre o banco e a alavanca de câmbio, dentro da capa preta. Tirei uma foto e mandei para ele. A resposta veio na hora, como se já estivesse escrita esperando o momento.

—POR FAVOR... NÃO VEJA O CONTEÚDO. CONFIO EM VOCÊ.

Li a mensagem três vezes. O maiúsculo, o “por favor”, o “confio em você”. Aquilo não era um aviso. Era um convite. Um desafio. Minha cabeça traduziu sozinha: veja, é isso que queremos.

Subi com o laptop. Abri. Não tinha senha. Estava me esperando. Na área de trabalho havia uma pasta com um nome tão óbvio quanto insultante: “MATEO”. Cliquei.

Um torrente de imagens se abriu diante de mim. Bianca e Renata, nuas, em poses explícitas, cada uma com o próprio marido. Bianca montada em Gonzalo, a expressão de êxtase refletida no espelho. Renata de quatro, Rubén a pegando por trás de um ângulo que glorificava aquele bumbum perfeito.

E havia mais: uma pasta chamada “CONTATOS”, com dezenas de subpastas em nome de outros homens, outras casadas em atos parecidos. Mas nessas, os rostos estavam sempre borrados. Só nas de Bianca e Renata as faces eram nítidas, perfeitas. Eram um produto de luxo para um cliente seleto: eu.

Eles eram um clube. Uma confraria de maridos que compartilhavam suas esposas como troféus. E eu era o novo convidado, o prato principal que vinham preparando havia meses.

***

Decidi virar o jogo contra eles. No dia seguinte, fui eu até o território deles. Apareci no trabalho de Gonzalo com o laptop na mão, e o rosto dele se desenhou entre o pânico e a surpresa. Insistiu em tomar uma cerveja no bar da esquina. Aceitei.

—Porra, Mateo, não sei como ele caiu. Estou com a cabeça em outro lugar —começou sua atuação.

Olhei para ele sem piscar.

—Vamos lá, Gonzalo. Não me toma por idiota. O laptop não foi esquecido. Você o deixou ali de propósito, sem senha, para eu ver exatamente o que vocês queriam que eu visse.

O sorriso dele congelou. Abriu a boca, mas nada saiu.

—E agora me conta o que vocês querem. E não me diga que o Rubén não está metido nisso, porque sei que isso é dos dois.

Ele se recostou na cadeira, derrotado. O ar de chefe seguro desapareceu.

—Você tem razão. Perdoa a gente —disse—. É complicado de explicar. Há alguns anos, propus à Bianca incluir um terceiro. Ela ficou uma fera, achou que eu estava traindo. Levei dias para esclarecer que o terceiro tinha que ser um homem, que o que eu queria era vê-la gozar, ser desejada por outro.

Ele tomou um gole, o olhar perdido na espuma.

—Ela não entendeu. Para ela, aquilo era humilhação. Até que um dia tive a ideia de apresentar isso como um exercício de atuação. Disse que ela era uma atriz fantástica presa em papéis de boa esposa, que se atrevesse a algo cru. Montamos uma cena de um encontro furtivo, com um ator contratado. Eu a dirigia: “mais paixão, deixe-o te desejar”. E vi como a barreira entre a atriz e a personagem ia se apagando, como o rubor na pele dela já não era encenação.

Ele se inclinou para mim.

—Naquela noite, na cama, ela me perguntou: “te excitou me ver com ele?”. Confessei que sim, que vê-la desejada me deixava louco. E ela finalmente aceitou. O teatro foi nosso atalho para cruzar a linha. Com Rubén e Renata foi mais direto: ele é voyeur desde sempre, ela é exibicionista nata. Não precisaram de desculpa.

—E por que eu? —perguntei, sabendo a resposta.

—Porque você é diferente. Você não circula por esses meios, é do nosso mundo. E sabemos que você é bom. Uma delas foi bem explícita: disse que com você não era só sexo, era uma experiência. Queremos que Bianca e Renata vivam algo inesquecível, e queremos dirigir isso. Você seria nossa estrela.

Baixou a voz ainda mais.

—Bianca é uma bomba. Insaciável. Mas continua se negando a dar o passo real, fora do palco. É sua última fronteira. Aterrorizada de sentir que está me traindo. Sempre a vi “carente”, como se lhe faltasse algo, como se o desejo dela fosse maior do que eu consigo dar.

Aí vi meu momento. A porta que ele mesmo havia deixado entreaberta. Me recostei, cruzei os braços.

—Sabe, Gonzalo? Pelo que vi ontem nessas fotos, não me espanta nada ela se sentir assim. E não estou falando das suas mulheres, que estão espetaculares. Estou falando de você e do Rubén. A sua parece uma rolha de champanhe: cumpre a função de estourar, pouco mais. A do Rubén é comprida, mas fina como um palito. Serve mais para apontar do que para satisfazer.

O silêncio caiu absoluto. Gonzalo ficou paralisado, a cerveja a meio caminho da boca. Eu esperava fúria, negação. Não foi isso que vi. Vi a pele dele corar, não de vergonha, mas de excitação. Sua respiração falhou, a pupila dilatou. A humilhação não o ferira: tinha acendido ele.

E então entendi tudo. Não era só um corno que queria olhar. Era um masoquista. Ele precisava que o homem que iria satisfazer sua esposa dissesse na cara dele que ele não dava conta. Esse era o verdadeiro prólogo dele.

—Você gosta, não gosta? —eu disse com um sorriso lento—. Que eu diga assim. Que eu diga que você não é suficiente.

Ele baixou os olhos, incapaz de sustentar meu olhar, e assentiu quase imperceptivelmente.

—Sim —sussurrou, a voz quebrada e ao mesmo tempo febril—. Sim, porra, sim.

O jogo tinha mudado por completo.

***

—Isso se faz do meu jeito —eu disse, largando o copo com um golpe seco—. Esqueça sua peça e seus ensaios, essa é a desculpa dos covardes. Hoje à noite, na sua casa, às onze. Vinho, música baixa, a luz que você souber fazer. Diga à Bianca que eu tenho uma surpresa e só isso. E quando eu chegar, não se esconda num canto. Quero que você se sente naquela poltrona junto à janela e veja tudo. Entendido?

Ele engoliu em seco. Assentiu, num gesto de submissão total.

—Entendido.

Cheguei na hora marcada. Gonzalo me abriu, vestido de preto, tentando projetar um controle que os olhos desmentiam. A casa cheirava a incenso caro e ansiedade; um jazz lento tocava ao fundo. No sofá estava Bianca, com um vestido vermelho-sangue que se agarrava às curvas. Ela me avaliou com aqueles olhos cor de mel, entre a cortesia e o estranhamento, sem sorrir. Não fazia ideia do que eu estava fazendo ali.

—Gonzalo me disse que você é uma atriz excepcional —eu disse, ignorando completamente o marido, que já tinha deslizado para sua poltrona designada—. Que você gosta de se desafiar.

Ela cruzou as pernas, devagar, de propósito.

—E a você gosta de dirigir, não é, Mateo? Me contaram coisas.

Ajoelhei-me diante dela, meu rosto na altura dos joelhos.

—Esqueça tudo o que lhe contaram. O que você vai sentir esta noite ninguém vai conseguir lhe descrever.

E então eu a toquei. Não foi uma carícia: coloquei a mão na coxa dela, por cima do vestido. Senti o espasmo elétrico do corpo dela. O olhar dela voou para Gonzalo, uma pergunta muda cheia de alarme. Ele só sorriu de leve, o que não a tranquilizou em nada. Levei minha outra mão à nuca dela, enrosquei os dedos no cabelo e a puxei para mim.

—Olha para ele —sussurrei em seu ouvido—. Sentado aí, com as mãos no colo, sem fazer nada. Ele é um espectador, Bianca. E esta noite o espetáculo é você.

Ela tentou recuar, mas eu a segurei.

—Mateo, não sei que jogo você está jogando, mas...

—Não é um jogo —eu a interrompi, e a beijei com posse, roubando-lhe o fôlego. Os lábios dela estavam tensos, resistindo, mas minha insistência os foi amolecendo. Senti a resistência se derreter em curiosidade. Minha mão subiu por baixo do vestido até a pele quente da virilha. Ela estava encharcada.

—Você já está molhada —disse contra a boca dela—. É a excitação, ou a necessidade de que alguém te trate como você realmente quer?

A confusão dos olhos dela tinha virado fogo puro, não mais contra mim, mas contra a própria vida.

—Me prove —disse ela.

Fiquei de pé e comecei a me despir. Gonzalo não se movia, o olhar cravado em mim. Quando tirei tudo de uma vez, ouvi a inspiração sufocada de Bianca, a boca dela se abrindo, os olhos arregalados.

—Caralho... —sussurrou, mais para si mesma do que para mim.

Fiz com que ela ficasse de quatro no sofá, o bumbum voltado para o marido. Afastando a renda encharcada, enterrei-me nela de uma só vez. O grito que saiu da garganta dela não foi de dor: foi de puro choque prazeroso, o de uma mulher descobrindo uma nova dimensão do sexo.

—Olha para ela, Gonzalo —disse, investindo com golpes secos que faziam o sofá tremer—. Vou dar a ela o que você nunca conseguiu dar.

Ele tinha ficado branco, a mão pressionando a ereção por cima da calça, o rosto uma máscara de êxtase torturado. E então vi a transformação. Bianca deixou de ser a esposa relutante para virar uma fera no cio, empurrando para trás, buscando minhas investidas.

—Tá vendo, marido? —uivava ela, com o rosto virado para ele—. É isso que me faltava! É isso que você nunca me deu!

De repente ela parou, virou a cabeça, e uma ideia diabólica nasceu em seu olhar.

—Para. Gonzalo, vem aqui. Ajoelha.

Ele obedeceu, desajeitado, até ficar diante do meu sexo, brilhando com os fluidos da esposa.

—Lambe ela. Com a sua boca —ordenou ela.

—Bianca, não...

—Cala a boca e faz! —gritou ela, e acertou-lhe o rosto com um tapa que ecoou pela sala. O golpe pareceu despertá-lo. A violência era exatamente o que ele precisava. Sua submissão se tornou total, e ele abriu a boca.

—Vira meu cachorro, Gonzalo, igual eu virei dele! —continuava ela, cada palavra um chicote que a excitava mais, enquanto se tocava assistindo à cena.

O espetáculo era insano: Bianca transformada em dominante impiedosa, o marido entregue aos seus pés, e eu no centro, instrumento de sua transformação. Tornei a montá-la enquanto ele seguia suas ordens, até que ela explodiu num orgasmo que pareceu não ter fim.

***

O ar ficou espesso, uma mistura de suor e poder. Mas Bianca não estava cansada: estava renascida. Ergueu-se, os olhos com uma ferocidade nova, e olhou para o marido. Sobre a calça de Gonzalo se espalhava uma mancha escura. Ele tinha gozado sozinho com a humilhação.

Ela soltou um risinho cruel.

—Olha pra você. Gozo como um colegial. Patético.

Virou-se para mim, e a crueldade deu lugar a um apetite puro. Subiu no meu colo e me guiou para dentro de novo, balançando devagar, fundo.

—Tá vendo, Gonzalo? Ele fica dentro, me preenche inteira. Você cumpria tabela, duas investidas e dormir. Tinha medo de acordar a mulher que eu levo dentro de mim. Pois ela já acordou. E não vai voltar a dormir nunca mais.

A noite seguiu até nos esvaziar aos dois. Quando enfim caí na poltrona, recuperando o fôlego, Bianca se sentou no chão com as pernas cruzadas, uma calma profunda no rosto, a de quem resolveu um enigma que a atormentou a vida inteira.

—Sabe por que eu nunca te disse nada, Mateo? —perguntou ela—. Eu sempre soube que você era perigoso para mim. Não era que eu não gostasse de você. Era que eu sabia que, se te desse um centímetro, eu cairia. Não como uma aventura, mas como um desabamento. E eu tinha razão.

Ela riu, amarga e livre.

—Todos esses anos eu me protegi atrás do meu casamento e das brincadeirinhas do Gonzalo. Era um muro para não encarar o que eu sabia que aconteceria se eu me rendesse. E esta noite o muro caiu.

Ela se voltou para o marido, que ouvia de boca aberta.

—Entende agora? Você não competia com outro homem. Você competia com um tsunami com um balde de água. Não tinha a menor chance.

Gonzalo baixou a cabeça. Não de vergonha: era rendição total, a aceitação do lugar dele na nova ordem. Bianca se aproximou de mim, não como amante, mas como aliada, e sentou-se no braço da poltrona.

—Isso não foi um espetáculo para você, foi? —sussurrou—. Foi um teste. E você passou. Todos nós passamos.

Olhou para Gonzalo, depois para mim.

—Acho que está na hora de ligar para Renata e Rubén. A peça vai começar. E, desta vez, o prólogo acabou. De agora em diante, somos todos cúmplices.

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