Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

O que aconteceu quando meu vizinho veio montar minha cama

O caminhão da mudança chegou três horas atrasado. Camila os viu descarregar as últimas caixas às pressas, olhando para o relógio a cada dois minutos, e soube que não ia discutir com eles. Tinha o contrato na mão e a cabeça vazia depois de dois dias de aviões, táxis e noites mal dormidas. Que deixassem tudo onde fosse. Ela mesma arrumaria depois.

Quando o caminhão se afastou pela rua, ela ficou parada no meio da sala. Caixas até a altura da cintura. Etiquetas colocadas errado: «cozinha» no sofá, «quarto» junto à porta. Suspirou. A bolsa de estudos tinha pago a passagem de Maracaibo até esse vilarejo perdido em Minnesota, e a universidade tinha prometido que a casa estaria pronta. Pronta era uma palavra generosa.

Subiu para o quarto. A base box e o colchão estavam encostados na parede como dois túmulos. Moveu algumas caixas, inclinou-as e as deixou cair no assoalho de madeira. Tum. Servia. Desceu para pegar a mala, tirou o pijama, encontrou uma fronha e um lençol numa caixa qualquer, e desabou sobre o colchão nu. A brisa entrava pelas janelas abertas. Cheirava a grama molhada e a alguma coisa doce que ela não soube identificar.

Amanhã eu resolvo o resto.

***

Ela acordou tarde, com o pescoço duro e o sol já alto. O telefone marcava dez horas. Preparou um café numa caneca empoeirada e saiu para a varanda dos fundos com a chaleira ainda quente. A casa dava para um quintal comprido, cercado por uma cerca baixa de arame, e do outro lado dela um homem cortava a grama com uma máquina barulhenta.

Ele levantou os olhos justamente quando ela saiu. Desligou o motor, tirou as luvas e fez sinal para que ela se aproximasse da cerca. Camila desceu os degraus de madeira com a caneca na mão.

Ele era mais velho que ela. Careca, com uma barba espessa cortada por uma faixa branca bem no centro do queixo. A camiseta cinza grudada no peito pelo suor. Braços grossos, não de academia, mas de quem move coisas há anos. Uma barriga leve. Camila notou tudo isso nos três passos que levou para cruzar o quintal.

—Bem-vinda —disse ele, oferecendo a mão por cima do alambrado—. Sou Daniel.

—Camila.

Ela lhe apertou a mão com firmeza. Firme demais, talvez. Sentiu um arrepio lá embaixo no ventre e só então se lembrou de que ainda estava de pijama. A camiseta cortada abaixo dos seios, sem sutiã porque ainda não tinha encontrado aquela caixa, e os shorts velhos que, toda vez que o vento soprava, se mexiam entre suas pernas.

—Você tem sotaque —disse Daniel—. De onde?

—Venezuela.

Enquanto dizia isso, viu os olhos dele percorrerem seu corpo. Sem disfarce. Desceram da boca para o pescoço, do pescoço ao decote aberto da camiseta velha, e se detiveram um segundo a mais do que deviam nos mamilos marcados sob o tecido fino. Uma rajada de vento levantou o tecido do shorts contra as coxas e Camila pensou, com um calor súbito nas faces, que provavelmente tinha mostrado tudo.

Daniel também se mexeu, quase imperceptivelmente, e Camila viu o volume sob o cós da calça de jardinagem. Conteve o riso.

—Olha —disse ele, recuperando a compostura—, você não deve ter tido tempo de organizar nada. Por que não vem lá pra casa hoje à noite? Eu apresento você à minha mulher e às meninas. Algo informal, uma recepção.

—Adoraria.

Ela voltou para casa devagar, com os ombros eretos. Quando chegou à esquina do muro, se virou. Daniel ainda estava ali, olhando para ela com o sorriso inteiro e o volume ainda visível. Ela soprou um beijo no ar e entrou.

O bairro promete.

***

O jantar foi tranquilo. As duas filhas de Daniel, adolescentes, comeram rápido e desapareceram para o andar de cima com a desculpa dos deveres. A esposa, Lorena, era uma mulher alta, vestida com uma camisa cinza e uma calça de linho que caía nela perfeitamente. Trabalhava no hospital, falava baixo e olhava para Camila com aquela gentileza cortês que as mulheres usam para se medir entre si.

Daniel servia vinho. Contava histórias do trabalho, algo com sistemas, computadores de escritório, usuários que ligavam em pânico porque a tela tinha travado e, no fim, tinham só desligado o monitor. Camila ria um pouco mais alto do que o necessário. Lorena não ria nada.

Perto das onze, Lorena se levantou.

—Amanhã ao meio-dia saio para Chicago. Três dias de congresso. Vou arrumar as malas e dormir um pouco. Camila, foi um prazer te conhecer.

Deu dois beijos secos e foi embora. Daniel e Camila ficaram na varanda com os pratos sujos entre os dois.

—Quer que eu ajude a levar tudo? —disse ela.

—Só se você tiver coragem. Essa cozinha vira um desastre quando tem gente.

Foram em silêncio até a cozinha, cada um com sua carga. Empilharam os pratos na pia. Daniel se apoiou na bancada e a olhou.

—Obrigado por vir. Fazia muito tempo que não tínhamos um jantar assim, sem brigas, sem tensão.

—Dava pra sentir um pouco de tensão, sim —disse Camila, em voz baixa.

—Estamos numa fase estranha. Mais colegas de casa do que qualquer outra coisa.

Houve um silêncio. Camila se endireitou, pegou as duas bandejas vazias e, antes de sair para a sala, se inclinou um pouco para a frente. Moveu os quadris para trás, só o suficiente para roçá-lo. Sentiu a respiração de Daniel prender contra sua nuca.

—Se comporte —sussurrou ela, sorrindo—. Sua mulher está lá em cima.

—Eu não estava fazendo nada.

—Sua cara diz outra coisa.

Terminaram de arrumar a cozinha. Na porta, Daniel anotou dois números de telefone num papelzinho.

—Se precisar de alguma coisa. Lorena e eu. O bairro é seguro, mas tranque a porta mesmo assim.

Camila o abraçou. Foi um abraço curto, curto demais para o que ela teria querido e longo demais para o que estava certo. Quando se separaram, os dois riram sem saber bem por quê.

Ela caminhou pela calçada até a sua casa. Antes de fechar a porta, se virou. Daniel ainda estava parado no degrau da dele, com as mãos nos bolsos, conferindo se ela entrava direito. Ela fez um gesto rápido com a mão e entrou.

***

O domingo amanheceu igualmente claro. Camila tomou café da manhã na varanda e viu Daniel e Lorena na deles, sentados em cadeiras brancas, ela olhando o celular e ele olhando para cima. Para ela.

Camila sentiu um ataque de alguma coisa. Não de coragem, não exatamente. Levou o dedo aos lábios. Silêncio. Daniel assentiu de leve, intrigado.

Deu um passo para trás, o suficiente para ficar fora de vista de Lorena e da rua, mas não dele. E então levantou a camiseta por cima da cabeça. Ficou de topless, os seios pesados ao sol, os mamilos endurecendo com a brisa. Olhou fixamente para ele. Daniel ficou muito quieto. Uma mão foi para debaixo da mesa.

Camila tomou seu tempo. Levantou um seio com as duas mãos, aproximou-o da boca e passou a língua no mamilo. Depois o outro. Sustentou o olhar o tempo todo. Dois minutos inteiros. Quando baixou a camiseta, Daniel ainda não tinha voltado a respirar por completo.

—Bom dia! —gritou ela, alegre, como se nada tivesse acontecido.

Lorena se virou e retribuiu o cumprimento com certa estranheza.

—Posso roubar o Daniel por um tempo hoje à tarde? —perguntou Camila—. Tenho coisas pesadas para mover e uma cama que não sei montar.

—Por mim, toda sua —disse Lorena, já pensando na bolsa de viagem—. Eu vou sair em uma hora.

Daniel apenas assentiu.

***

A campainha tocou às seis. Camila estava no quarto dobrando roupa quando ouviu a voz na porta.

—Olá?

—Sobe, está aberto!

Daniel apareceu no vão da porta com uma bolsa de lona, camiseta branca, shorts esportivos. Varrendo o quarto com os olhos: o colchão no chão, as pernas da armação apoiadas contra a parede, as duas mesinhas de cabeceira sem montar, as gavetas ainda em cima da cama.

—Tenho que trabalhar na sua cama —disse ele, devagar.

—Não desse jeito.

—Tem certeza?

—Bom…

Camila riu. Explicou o que queria: o colchão ficava onde estava, sem armação, que ele levasse as pernas e as travessas para a garagem. Daniel fez várias viagens. Cada vez que voltava para o quarto, Camila tinha avançado um pouco mais com os lençóis, com os travesseiros, com as gavetas. E cada vez que cruzava com ele, o olhava sem disfarçar.

Em uma dessas idas e vindas ele parou. Tinha voltado e a encontrou organizando a gaveta da mesinha de cabeceira. A gaveta ainda apoiada sobre o colchão. Dentro, dois vibradores, um creme, uma bolinha de lingerie preta amassada.

—Você tem coleção —disse Daniel, com uma voz diferente.

Camila se virou, as faces quentes.

—Não é da sua conta.

—Do meu ponto de vista, você não deveria precisar nem de um desses. Não tem ninguém na sua vida que resolva isso pra você?

Ela o olhou longamente. Levantou-se. Caminhou até ele. Passou os braços pela cintura dele e ele, por reflexo, fez o mesmo. Ela ergueu o rosto dele com um dedo sob o queixo e o beijou.

Foi um beijo lento. Depois foi um beijo menos lento. Quando se separaram, os dois respiravam de outro jeito.

—Você perguntou se tinha alguém que pudesse substituir os brinquedos —disse Camila—. Estou te mostrando quem eu quero que tente.

Daniel riu baixo, passou uma mão por baixo das nádegas dela, a ergueu quase sem esforço e a deixou cair sobre o colchão. Camila soltou um grito curto de riso e escorregou para trás. Ele arrancou a camiseta de uma vez. O shorts caiu sozinho.

Ele agarrou as duas pernas dela, a puxou para a beira do colchão e enfiou o rosto entre suas coxas antes que ela pudesse sequer reagir. Camila ainda estava com o shorts jeans. Sentiu a respiração quente atravessando o tecido grosso. Abriu o botão com dedos desajeitados; ele segurou a cintura e o baixou de uma só vez, com a lingerie junto.

Quando voltou a mergulhar o rosto, não havia gentileza. Lambia, chupava, mordiscava. Camila se agarrou à beira do colchão com as duas mãos. Daniel passou um dedo, depois dois, depois três. Curvou os dedos para a frente e encontrou um ponto exato que a fez arquear o corpo. O primeiro orgasmo veio quase sem que ela o visse chegando.

—Daniel —ela conseguiu dizer.

Ele não respondeu. Continuou. O segundo orgasmo veio colado ao primeiro. Camila se contorcia no colchão, cobria a boca com o dorso da mão porque as janelas estavam abertas e porque fazia meses, talvez um ano, que ninguém fazia nada parecido com ela.

Quando ele finalmente ergueu o rosto, sorriu para ela de baixo. A barba estava molhada. Subiu beijando-lhe o ventre. Encontrou um mamilo com a boca; Camila tinha levantado a camiseta durante o sexo oral quase sem perceber, e ele o mordeu de leve. Camila gemeu.

—Eu preciso de você dentro de mim —disse ela.

Daniel continuou subindo. Beijou-a na boca. Ela provou a si mesma nos lábios dele e isso a acendeu ainda mais. Depois, sem avisar, ele se sentou sobre o colchão, abriu as pernas e a puxou para sentar de frente, montada nele. Ergueu-a pelas nádegas e a deixou descer devagar.

Os dois ficaram imóveis por um instante. Testa com testa. Camila o abraçou com os braços e as pernas. Começou a se mover em círculos curtos, sem separar os rostos. Daniel sustentava os quadris dela com as duas mãos. Beijava-a, mordia-lhe o lábio inferior.

O orgasmo dela veio de novo. E foi isso que acabou com ele: Camila o sentiu tremer por inteiro, ouviu o som abafado que ele fez junto ao seu ouvido e soube que tinha se esvaziado dentro dela.

Daniel se deixou cair para trás, sobre os travesseiros. Camila ficou por cima, ainda com ele dentro. Alguns segundos se passaram. Ela olhou para o rosto dele: os olhos fechados, a respiração agitada, o sorriso inteiro. Sentiu que ele ainda estava duro. Não tanto quanto antes, mas duro.

—Você não vai me deixar dormir, não é? —murmurou Daniel.

—Ainda não.

Ela se ergueu sobre os joelhos. Começou a se mover de novo, desta vez devagar, para cima e para baixo. Daniel se contraiu, soltou um gemido entrecortado, tentou dizer alguma coisa e não conseguiu. Camila se inclinou para a frente e enfiou um mamilo na boca dele para calá-lo.

Depois o cavalgou com força. Cravou as unhas no peito dele. Marcou três linhas vermelhas ao longo do esterno. Daniel agarrava os seios dela com as duas mãos, apertava, soltava. Camila se esfregava contra ele com todo o peso e sentia o sexo dele lhe acariciando por dentro um ponto que já tinha encontrado antes. Teve mais dois orgasmos. Talvez três. Depois de certo momento, parou de contar.

Quando finalmente desabou ao lado, Daniel tinha o peito arranhado e uma marca de sangue perto do ombro. Ele nem tinha notado quando isso aconteceu.

—Meu Deus —disse ele, rindo baixinho, olhando para o teto—. Não faço ideia de há quanto tempo não me acontecia algo assim.

—Eu também não. Mas não era exatamente o que eu esperava quando me falaram do bairro.

—Acho que vamos ser vizinhos muito bons.

Camila apoiou a cabeça no ombro dele. Passou uma mão distraída pelo peito arranhado, devagar, percorrendo cada linha como se fosse um mapa. Fechou os olhos. Lorena não voltava até quarta-feira, e amanhã, depois do primeiro dia de aula, ainda restavam duas mesinhas de cabeceira para montar.

Ver todos os contos de Infiéis

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.